terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Falar em Línguas, a evidência física inicial!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Uma das doutrinas mais contestadas do pentecostalismo clássico é o falar em línguas como a evidência física  e inicial do Batismo no Espírito Santo. No passado e no presente, os debates em torno dessa doutrina são calorosos e costumam girar em torno de várias teorias. A Assembleia de Deus, nos Estados Unidos e no Brasil, costumam defender essa doutrina, enquanto outras igrejas pentecostais e neopentecostais não são defensoras desse entendimento teológico. Charles Fox Parham[1] foi o primeiro a entender línguas como evidência inicial, assim influenciou a teologia pentecostal clássica.

Como acima descrito, a doutrina da evidência física não é consenso nem no meio pentecostal. O Concílio Geral das Assembleias de Deus nos Estados Unidos, no ano de 1918, reafirmou a doutrina da evidência inicial como “nosso testemunho distintivo”[2]. O mesmo acontece nas Assembleias de Deus no Brasil, pois no ponto nove da confissão de fé brasileira está escrito: “Cremos.. no batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo, com evidência inicial de falar em outras línguas conforme a sua vontade”.

É importante lembrar que o debate em torno da evidência física e inicial é acadêmico. Há argumentos de eruditos em ambas as partes. Nesse artigo será apontado os argumentos daqueles que são contra a doutrina da evidência inicial e depois a contestação de eruditos pentecostais, especialmente dos teólogos Roger Stronstad e Anthony D. Palma.
Contestações à doutrina
No passado, entre aqueles que contestavam essa doutrina, estava o homem mais famoso do pentecostalismo moderno, William J. Seymour, fundador da Apostolic Faith Mission (Missão da Fé Apostólica)[3]. Atualmente, um exemplo de contestador da evidência inicial é o erudito assembleiano Gordon Fee, autor do livro “Entendes o que lês?”(Vida Nova). Ele argumenta que as línguas são normais na experiência do Batismo no Espírito Santo, mas esse fato não é normativo[4]. Muitos carismáticos (neopentecostais) acreditam que as línguas são apenas mais uma evidência do Batismo no Espírito Santo semelhante ao “dançar no espírito”, alegria, êxtase, profecias etc.


O renomado teólogo evangelical John Stott escreveu o livro Baptism and Fullness, onde a sua principal argumentação é que não se deve estabelecer doutrinas com um livro descritivo, como Atos é, mas sim em livros didáticos, como os sermões de Jesus e as epístolas dos apóstolos[5]. A contestação de Stott é típica de teólogos cessacionistas[6], mas alguns pentecostais seguem a mesma linha do teólogo inglês. O pastor da Assembleia de Deus Betesda, Elienai Cabral Junior [7], em seu famoso texto “Meu pentecostalismo revisado” [8] escreveu:

É preciso que se diga que por mais que funcione, a doutrina pentecostal da evidência inicial do Batismo com o Espírito Santo é oca de conteúdo bíblico. Nos chamados quatro pentecostes de Atos (2.1-13; 8.4-25; 9.24-48; 19.1-6), nem todos registram a glossolalia e, exceto o do Dia de Pentecostes em Jerusalém, o sinal das línguas estranhas não é a única evidência. Lucas lista também as profecias, adoração e alegria. Entre os samaritanos nada diz. Apenas afirma que receberam o Espírito (At 8.17). As línguas são um sinal freqüente, mas não um sinal imprescindível.

Cabral Jr., como já mencionado, não é o único pentecostal a pensar dessa forma. As igrejas históricas, que não são cessacionistas ou são semicessacionistas, vão concorda com a posição adotada por ele.
O argumento principal dos críticos da evidência inicial é que o livro de Atos, com suas referências em relação às línguas, não serve para estabelecer uma doutrina, já que é um livro histórico. Lucas, segundo essa corrente, somente está registrando a história da igrejas dos primeiros dias, onde esse registro não tem o propósito de perpetuar as práticas dos apóstolos. Outra corrente afirma que as línguas são normais nas experiências carismáticas, mas outras formas de manifestação físicas eram presentes no Batismo no Espírito Santo, tais como a profecia e manifestações de alegria.


Um fato interessante referente a críticas com relação a doutrina pentecostal é que os teólogos cessacionistas (como John Stott) nunca abordam argumentos de eruditos pentecostais. Esses importantes argumentos são tratados com indiferença, sendo um prática não saudável a qualquer cristão em busca da verdade bíblica.

Em defesa da evidência inicial

No decorrer da formação teológica pentecostal, muitos teólogos de sólida formação acadêmica, defenderam e ainda defendem a doutrina da evidência inicial, tais como Donald Gee, Myer Pearlman, Eurico Bergstén, Antonio Gilberto, Roger Stronstad, William Menzies, Stanley M. Horton, Anthony David Palma.

O teólogo Myer Pearlman na sua obra Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, de 1937, apresentou uma defesa da evidência inicial citando alguns eruditos não-pentecostais. Pearlman pergunta: “Será essa declaração meramente a interpretação particular dum grupo religioso ou é reconhecida por outros grupos?”; e logo cita o teólogo liberal inglês Dr. Rees, que escreveu: "A glossolalia (o falar em línguas) era o dom mais conspícuo e popular dos primeiros anos da igreja. Parece que foi o acompanhamento regular e a evidência da descida do Espírito Santo sobre os crentes". [9]
Eurico Bergstén [10] lembrou, em suas argumentações sobre a evidência inicial, que havia um sinal comum a identificar o Batismo no Espírito Santo, pois isso "sinal" fica bem claro em Atos 10.45 onde “todos quanto tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus” (grifo nosso). O teólogo e autor da Bíblia de Estudo Pentecostal, Donald Carrel Stamps, usa o mesmo versículo para argumentar que Pedro e os demais acompanhantes de sua missão foram convencidos que o Batismo no Espírito Santo era derramando sobre os gentios após ver (e ouvir) o sinal externo da glossolalia. [11]


Outra passagem que mostra um sinal comum aos primitivos cristãos sobre o derramamento do Espírito Santo é Atos 8. 17-19. (Apesar que as línguas não são mencionadas diretamente nessa passagem). Os samaritanos receberam a imposição de mãos dos apóstolos Pedro e João e logo Simão, o mago, quis "comprar" o poder do Espírito Santo que fora derramado sobre os samaritanos. Howard Erwin [12] pergunta: “O que Simão viu, que o convenceu de terem os discípulos samaritanos recebido o Espírito Santo mediante a imposição das mãos de Pedro e João?” Em relação a essa passagem Stanley M. Horton argumenta:

Alguma coisa, porém, aconteceu, quando Pedro e João impuseram as mãos sobre os crentes; senão, Simão não compraria algo que surgia da autoridade deles. Simão já vira os milagres de Filipe. O dom de profecia seria exercido no idioma dele, de sorte que o sobrenatural não se destacaria. Permaneceria apenas o que atraiu a atenção da multidão no dia de Pentecoste: O falar noutras línguas conforme o Espírito lhes concedia que falassem (Atos 2.4,33). As línguas, aqui não eram a causa do problemas. Por isso Lucas nada diz respeito delas, para chamar a atenção do erro de Simão.[13]

O erudito pentecostal Antonio Gilberto, na defesa da evidência inicial, lembrou da regra hermenêutica da primeira referência [14]. Segundo Isael de Araújo, no Dicionário do Movimento Pentecostal, o uso dessa regra hermenêutica e o apelo pela “lei da referência tríplice”, usado por teólogos pentecostais, não demonstrou tanta eficácia [15]. Então, os pentecostais começaram a produzir obras de cunho acadêmico na defesa da doutrina carismática e nas línguas como evidência inicial do Batismo no Espírito Santo.


Roger Stronstad, professor de teologia e decano da Summit Pacific College, escreveu nos anos 1980, uma grande obra erudita para a defesa da teologia pentecostal. No livro Charismatic Theology of St. Luke (Hendrickson, 1984), Stronstad apresenta várias contestações aos cessacionistas e defende a doutrina da evidência inicial.


Os cessacionistas como Jonh Stott, como acima descrito, argumentam que Lucas escreveu livros históricos sem intenção teológica. Stronstad escreveu na obra acima citada, que esse argumento de Stott acaba por criar um cânon dentro do cânon [16]. William W. Menzies, Phd em História da Igreja pela University of Iowa, escreveu: “O gênero literário de Atos não é meramente histórico, mas também intencionalmente teológico” [17], da mesma forma o reverendo assembleiano Anthony D. Palma, mestre em divindade pelo New York Theological Seminary e doutor em teologia pela University of Concórdia, escreveu:

Os escritos de Lucas pertencem ao gênero literário da História. Mas o livro de Atos é mais do que a história da Igreja Primitiva. Acadêmicos contemporâneos, especialmente, afirmam que Lucas foi um teólogo à sua moda, bem como um historiador. Ele usa a Historia como um meio para apresentar sua teologia.[18]

A Declaração Oficial de Crenças do Concílio Geral das Assembleias de Deus norte-americana lembra que a doutrina da evidência inicial é uma doutrina por indução, assim como a doutrina da Santíssima Trindade, pois não há textos dogmatizados em torno desses assuntos. O Concílio assim escreveu:
Nenhuma doutrina deve estar baseada em fragmentos isolados das Escrituras, mas somente podem estar baseadas em verdades substanciais e implicadas. A doutrina da Trindade não está baseada em declarações definitivas, mas sim em uma comparação de passagens das Escrituras que estão relacionados com a deidade de Deus. Assim como a doutrina da Trindade, a doutrina das línguas como evidência do Batismo no Espírito Santo está baseada em porções substanciais das Escrituras relacionadas com esse tema.

Confusões relacionados ao tema

Uma confusão frequente em relação ao tema "línguas estranhas" é confundir sinal com dom. Todos os batizados no Espírito Santo falam em línguas, o sinal, mas nem todos recebem o "dom de variedades de línguas". Assim como escreveu o teólogo Antonio Gilberto:
A variedade de línguas é um dom de expressão plural, como indica o título. È um milagre linguístico sobrenatural. Nem todos os crentes batizados no Espírito Santo recebem esse dom (1 Co 12.30). Já as línguas como evidência física inicial do batismo, todos os batizados no Espírito Santo as falam.[19]

Outro equívoco é pensar que só tem o Espírito Santo quem é batizado no Espírito Santo. Todo salvo é habitação do Espírito de Deus, mas os batizados no Espírito Santo recebem poder [capacitação] e não a pessoa do Espírito Santo, pois já são templos da Terceira Pessoa da Trindade (1 Co 3.16).

Um terceira questão é o exagero que muitos pentecostais proclamam ao falar sobre os benefícios do Batismo no Espírito Santo. Alguns dizem que mediante o Batismo o crente mudará de vida, como se o Batismo fosse uma regeneração posterior. É claro que há muitas mudanças na vida do batizado, mas não pode haver exageros. Outros afirmam que é só possível desfrutar dos dons espirituais após o Batismo no Espírito Santo. Anthony D. Palma faz uma ótima observação sobre essa questão:

O Batismo no Espírito Santo é um pré-requisito para receber os dons espirituais”. Mas onde encontramos isso nas Escrituras? O povo de Deus experimentou todos os dons nos séculos anteriores ao Dia de Pentecostes. É mais correto dizer que o batismo no Espírito Santo intensifica a sensibilidade e a receptividade espirituais, fazendo da pessoa um candidato mais propenso aos dons espirituais. Isso é amplamente demostrado pelo fato de que há maior incidência dos dons entre aqueles que foram batizados no Espírito Santo do que entre os que não foram.[20]

Um último equívoco relacionado ao tema é a constante acusação dos antipentecostais que a doutrina do batismo no Espírito Santo cria crentes de segunda classe: o não-batizados. Essa acusação é uma falácia, pois poderia ser dito o mesmo da santificação. E lembrando que sempre os pentecostais pregaram que o batismo no Espírito Santo é disponível para todos os salvos, já quebrando essa tese de uma classe especial.

Conclusão

As evidências bíblicas indicam que as línguas estranhas são a única evidência do Batismo no Espírito Santo, como um sinal físico de revestimento de poder do Alto.

Notas e referências bibliográficas:

1- Charles Fox Parham(1873- 1929) foi um metodista e professor de teologia que montou um seminário teológico por nome de Bethel Bible School (Escola Bíblica Betel). A proposta desse seminário era a busca de uma espiritualidade serviçal. As aulas consistiam em estudos da Bíblia sem auxílio de livros e algumas horas de oração. No final do ano de 1900, os quarenta alunos de Parham estavam estudando o Batismo no Espírito Santo e concluíram que a evidência do batismo era o falar em línguas, apresentando os textos de Atos 2 e 19. Então no dia primeiro de janeiro de 1901, a aluna Agnes Ozman conclamou que Parham e os demais alunos impusessem as mãos sobre ela, pedindo o batismo no Espírito Santo. Depois Ozman descreveu a experiencia: “Falei em línguas conforme Atos 2.1 e 19.6, de modo semelhante, quando o apóstolo Paulo impôs as suas mãos sobre os discípulos de Éfeso, e o relato bíblico acontecido no Cenáculo em Jerusalém, quando foram vistas línguas como de fogo”. Para Parham e os seus alunos, a experiência de Ozman confirmou os seus estudos. Nesse acontecimento se vê que o princípio hermenêutico não foi empirista ou pragmático, conforme acusa os críticos do pentecostalismo. Em Bethel Biblie School a doutrina precedeu a experiência.

2- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 295. Nota: O falar em línguas foi o que diferenciou os pentecostais dos demais protestantes, pois a doutrina do batismo no Espírito Santo ou segunda-bênção era um ensinamento corrente no Século 19, especialmente por meio de D. L. Moddy, A B. Simpson, R. A Torrey, F. B. Meyer etc. Como bem afirmou William Menzies: “É inimaginável que pudesse haver o Movimento Pentecostal sem a conexão entre o batismo no Espírito Santo e o falar em outras línguas”.

3- Idem.

4- HORTON, Stanley M. O Avivamento Pentecostal. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p. 75.

5- Logo na introdução do livro Baptism and Fullness, publicado no Brasil pela Editora Vida Nova com o título Batismo e Plenitude do Espírito Santo, John Stott argumenta: “ Esta revelação do propósito de Deus na Bíblia deve ser buscada preferencialmente nas suas passagens didáticas, e não nas descritivas. Para ser mais preciso, devemos procurá-la nos ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos, e não nas seções puramente narrativas de Atos.”

6- Teólogos cessacionistas são adeptos do Cessacionismo, corrente teológica que afirma que os dons espirituais cessaram com a morte dos apóstolos ou com o fechamento do Novo Testamento. O Cessacionismo não é herança da teologia reformada, pois o resgate da obras de grandes reformadores, mostra que eles não tinham um visão de extinção dos dons espirituais. Essa corrente, que se desenvolveu fortemente no século 19 e início do século 20, é herdeira da hermenêutica naturalista dos teólogos liberais, que tiveram o seu ápice nesse período histórico.

7- Elienai Cabral Junior é graduado em teologia e filosofia, sendo filho do famoso teólogo pentecostal brasileiro Elienai Cabral, pastor da Assembléia de Deus em Sobradinho- DF. Cabral Jr é pastor da Assembleia de Deus Betesta, dirigida pelo renomado pastor Ricardo Gondim, que propõem um igreja no modelo de teologia pentecostal clássica. Gondim em entrevista para a Revista Enfoque Gospel, disse em relação a doutrina da Betesda: “Nossa teologia tem raízes no pentecostalismo clássico, portanto, somos pentecostais”. Apesar dessa afirmação, a doutrina da evidência inicial é contestada.

8- http://elienaijr.wordpress.com/2006/11/24/meu-pentecostalismo-revisitado/

9- PEARMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. 8 ed. São Paulo: Editora Vida, 1984. p. 197.

10- BERGSTÉN, Eurico. A pessoa e Obra do Espírito Santo, in Lições Bíblicas Mestre. Rio de Janeiro: CPAD, 1° semestre de 2004, p. 40.

11- STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p. 1655.

12- HORTON, Stanley M. (ed.) Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, p. 448.

13- ______________ A Doutrina do Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 168.

14- GILBERTO, Antonio. Desvios da doutrina bíblica, in Ensinador Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, ano 7, n°28, p. 18-20.

15- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 296.

16- O teólogo reformado Vincent Cheung concorda com a argumentação de Roger Stronstad, e em um ótimo artigo sobre a fragilidades de alguns argumentos cessacionistas, ele escreve: “Uma coisa é dizer que poderia ser mais difícil estabelecer acuradamente uma doutrina baseando-se em narrativas bíblicas, de forma que muito cuidado é requerido, e outra coisa totalmente diferente é proibir certos usos para essas porções narrativas, mesmo em face de exemplos bíblicos contrários”. (Alguns Comentários sobre Cessacionismo, in Monergismo.com)

17- HORTON, Stanley M.(ed) Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, p. 442.

18- PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 11.

19- GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 72.

20- PALMA, Anthony D. Os dons e o fruto do Espírito in Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 77, n. 1465, Julho de 2007, p. 18.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O Cristianismo anti-Ortodoxia Parte 02

Leia a primeira parte abaixo.

A questão não é se uma doutrina é bela, mas se ela é verdadeira. (Anônimo)

A ortodoxia generosa faz jus ao nome, pois busca um deus e uma teologia, politicamente correta. Essa “nova teologia” é baseada no sentimento de liberdade apregoado por teólogos, que apesar de terem o nome de cristãos, nunca mostraram o valor pela salvação eterna em Cristo Jesus. Os defensores da anti-ortodoxia tem muita base filosófica e teológica para os seus argumentos, mas dificilmente podem defender esse ponto de vista por meio da Bíblia, principalmente pelas cartas paulinas e joaninas, que são tratados apaixonados pela verdade.

Amor e Verdade

Seria o amor maior do que a verdade? Biblicamente a resposta é não! João, conhecido como o apóstolo do amor, escreveu uma carta a “senhora eleita”, e disse: “Por amor da verdade que está em nós... Muito me alegro por achar que alguns de teus filhos andam na verdade” (v. 2 e 4) O amor não despreza a verdade e a verdade bíblica não despreza o amor. Isso é um princípio bíblico. Muitos separam amor, obediência e apreço pela verdade; mas na segunda missiva de João, fica claro que essas três palavras são inseparáveis. Como afirmou o Dr. Augustus Nicodemus: “Essa acusação reflete o sentimento pluralista e relativista que permeia a mentalidade evangélica de hoje e que considera todo confronto teológico como ofensivo”. ¹ E como lembra David Limbaugh: “Portanto, até que ponto se amoroso é torna-se cúmplice da destruição da própria verdade, a ponto do esvaziamento do próprio evangelho? Ser sensível é ajudar as pessoas a se afastarem do caminho da vida?”²

Quando mais uma pessoa conhece a verdade bíblica, mas ele será liberta, como disse Jesus: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Por que falar de liberdade jogando fora a ortodoxia? É claro que algumas “verdades” expostas por cristãos equivocados, podem causar neurose em outros cristãos mais frágeis, principalmente no que se refere a uma imagem falsa de Deus ou um ensino legalista de vida cristã. Mas como afirmado, isso é fruto de uma compreensão falsa das doutrinas bíblicas, e não produto da ortodoxia.

Seriam a ortodoxia propriedade da burguesia e a heresia as palavras do oprimido? Esse pensamento é fruto de ignorância histórica e da contaminação de uma cosmovisão marxista no cristianismo, pois os grandes hereges nunca foram pequenos. Do ponto de vista de Deus e consequentemente de sua Palavra, os grandes hereges foram bispos e pontífices importantes, fariseus imponentes e saduceus arrogantes. Heresia é uma tentação que não olha classe social ou região geográfica, mas sim deficiência diante da Palavra.

O desejo de ser amoroso é pratico no movimento anti-ortodoxia? A realidade diz que não! Pois há uma pergunta importante aos teólogos da esperança e os profetas da libertação: Onde estão os seus grandes orfanatos, casas de recuperação de drogados e assistência humanitária as prostitutas de rua? Quem tem trazido mais dignidade para muitos moradores de favela ou sertanejos na seca? Seriam as chamadas “comunidades de base” ou muitos pentecostais simples que procuram viver em comunidade prestativa de modo natural?

Metamorfose ambulante

Esse movimento anti-ortodoxia seria muito apreciado por Raul Seixas, pois ele apregoava o desejo de ser uma “metamorfose ambulante”, pois seria muito desagradável “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Teologia com ortodoxia é velha opinião formada sobre tudo, e isso é abominável para esses neo-ortodoxos. Pois assim como Raul Seixas, esses teólogos bebem do pensamento pós-moderno, que despreza as bases estabelecidas, com diversos argumentos de passividade. Como afirmou o teólogo batista Luiz Sayão:

A idéia da supremacia do fluxo do tempo desemboca na rejeição de outras categorias fixas. A única categoria é o próprio tempo, o novo senhor absoluto. Com esse pressuposto, já não podemos ter teologia e ética definidas e claras. Embora a Bíblia seja um livro de orientações muito cristalinas sobre Deus, a salvação e o propósito da vida (2 Tm 3.16,17; 2 Pe 1.19-21), para muitos evangélicos, a teologia “maluco beleza” é preferível.³

Um deus em processo produz uma teologia em processo, que está em evolução. O fixo, o estável, o certo, o reto são palavrões para uma teologia em metamorfose. A busca pela revolução teológica é constante nesse meio, e apesar das duras críticas aos neopentecostais por parte do movimento anti-ortodoxia, eles são tão pragmáticos em sua doutrina como os promotores de modismos.

A anti-Ortodoxia é um perigo transvertido de poesia e lindas palavras teológicas, onde o teísmo aberto e a teologia da libertação se casaram. Esse Movimento que é filho da pós-modernidade, procura adequar o evangelho aos pensamentos mundanos e as vãs filosofias contemporâneas. A ortodoxia é fruto de reflexão bíblica, onde o sangue de muitos cristãos foi derramado em sua defesa. E que assim a doutrina reta possa assim continuar!

Referência Bibliográficas:

01- NICODEMUS, Augustus. Falta de Amor? O Temporas, O Mores. Disponível em: http:// tempora-mores.blogspot.com/2007/09/falta-de-amor.html. Acesso em: 12/12/2007

02. GEISLER, Norman & TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 10.

03- SAYÃO, Luiz. Raul Seixas e a Bíblia. Revista Enfoque Gospel. Edição 64 - NOV / 2006.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Entrevista com o pastor Isael de Araújo




Isael de Araújo é ministro do evangelho, pesquisador da história das Assembléias de Deus, co-autor do livro História das Assembléias de Deus no Brasil (1982), formado em Teologia, com estudos na área editorial pelo Internacional Christian Publishing Institute (ICPI) da Cook Ministries (Colorado, Springs, EUA) e chefe do setor de Obras Especiais da CPAD.
Em novembro a CPAD lançou o Dicionário do Movimento Pentecostal, de autoria da Pr. Isael de Araújo. A obra já começou como um sucesso editorial, sendo o livro mais vendido pela editora no mês de novembro.
Acompanhe a entrevista com o Pr. Isael de Araújo para o Blog Teologia Pentecostal:

Blog Teologia Pentecostal- Qual o motivo que o levou a escrever o Dicionário do Movimento Pentecostal?

Pr. Isael de Araújo- Há mais de dez anos, quando chefiava o setor de livros estrangeiros da CPAD, conheci o Dicionário Internacional do Movimento Pentecostal e Carismático, em inglês. Fiquei encantado com a proposta da obra. Numa reunião de rotina para definir quais obras seriam traduzidas e publicadas no Brasil, analisamos a referida obra. Mas, embora a direção da CPAD achasse bastante interessante a obra considerando o Brasil como uma das maiores expressões do pentecostalismo, a editora não queria simplesmente traduzir o original em inglês, pois, dentre alguns problemas existentes, a obra não refletia a realidade da igreja pentecostal brasileira. Considerando todo o meu envolvimento com pesquisas sobre a história das Assembléias de Deus e o pentecostalismo, então me apresentei para desempenhar a tarefa de elaborar uma obra nacional.

BTP- O Dicionário do Movimento Pentecostal se propõem a ser um registro histórico do pentecostalismo. Qual é a importância de resgatar a história do Movimento Pentecostal para a igreja hodierna?

IA- O Dicionário não se trata de um registro puro e simples da história de pioneiros, movimentos e denominações. No primeiro momento é esta a visão que se tem. Mas a obra vai além disso. Um grande objetivo que me propus a alcançar foi mostrar o inter-relacionamento das informações, de tal forma que o leitor possa compreender que o pentecostalismo da atualidade não é algo estanque, mas que houve uma evolução e que o passado nos ajuda avaliarmos a igreja hodierna. Acredito que, se os crentes pentecostais conhecessem mais o pentecostalismo, menos se distanciariam dele.

BTP- É comum, os críticos do pentecostalismo acusarem o Movimento Pentecostal de deficiência doutrinária. Porém o moderno pentecostalismo nasceu em um Instituto Bíblico com Charles Fox Parham, e hoje tem eruditos de destaque como Stanley M. Horton e Gordon Fee. Qual era a visão de importância à doutrina e teologia dada por parte dos primeiros pentecostais?

IA- Essa crítica faz parte do contexto do chamado “efeito-pêndulo” da história da igreja. Uma época a ênfase recaía nas emoções, outra no intelecto. O século 19 e início do 20 foram marcados pelo liberalismo teológico (ênfase no intelecto). Então, o pentecostalismo foi visto como a guinada para a emoção. Por um lado, passou a sofrer crítica dos intelectuais e por outro, muitos de seus líderes faziam tudo para não serem vinculados com a “letra” que mata a fé. Todavia, havia, sim, lugar para a doutrina e a teologia. Diria que muito mais que na atualidade. Os primeiros pentecostais eram bastante fundamentalistas e a “pedra de toque” do fundamentalismo era aceitação e o estudo da Bíblia Sagrada como um todo. É deficiência doutrinária crer no batismo no Espírito Santo de que trata a Bíblia?

BTP- Qual foi a principal mudança no cenário assembleiano brasileiro, quando os missionários norte-americanos substituíram os suecos na metade do século XX?

IA- Nunca houve substituição nas Assembléias de Deus de missionários suecos por missionários norte-americanos. Até porque, a Missão Americana decidiu enviar, oficialmente, missionários para o Brasil em 1936, portanto, nas primeiras décadas e não na metade do século. Logo, também, nunca houve mudança no cenário assembleiano. O sistema eclesiológico e doutrinário deve muito mais aos missionários suecos do que aos americanos.

BTP- Há uma divisão comum na Sociologia da Religião, entre pentecostais clássicos ou de primeira-onda (Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil, com ênfase na glossolalia e nos dons espirituais), deuteropentecostais ou pentecostais da segunda-onda (Igreja do Evangelho Quadragular, O Brasil Para Cristo, Deus é Amor etc, com ênfase na cura divina) e neopentecostalismo (Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo etc, com ênfase na cura divina, exorcismo e prosperidade financeira). Essa divisão explica de maneira satisfatória o Movimento Pentecostal no Brasil?

IA- Não. Ainda precisamos saber a fundo o que é pentecostalismo clássico, deuteropentecostalismo e neopentecostalismo. Por enquanto, está mais para rótulo do que definição.

BTP- Do ponto de vista histórico, quais os fatores que levaram o evangelicalismo a desenvolver o neopentecostalismo?

IA- É um caso que requer mais estudos. É mais fácil explicar evangelicais desenvolver as doutrinas básicas do pentecostalismo que as práticas neopentecostais. Temos que considerarmos também que o evangelicalismo no Brasil não foi tão expressivo quanto nos Estados Unidos. Sobre o evangelicalismo norte-americano no contexto pentecostal, possuo material.

BTP- O denominado neopentecostalismo pode ser considerado como um novo pentecostalismo, uma evolução do pentecostalismo ou, até mesmo, um anti-pentecostalismo?

IA- Acho que para responder a esta pergunta, temos que encontrar a resposta daquela pergunta sobre as divisões do Movimento Pentecostal.

BTP- O pentecostalismo no Brasil e na América-Latina é muito forte, mas o mesmo não acontece nos Estados Unidos e na Europa. O pentecostalismo é um fenômeno de países subdesenvolvidos?

IA- É um equívoco explicar o crescimento do pentecostalismo relacionando-o ao contexto sócio-econômico do lugar. Tenho bastante argumentos para justificar o que estou afirmando. Por ora, posso lembrar que o pentecostalismo já foi muito forte nos Estados Unidos e na Europa quando essas regiões do planeta também já eram bem mais desenvolvidas que o Brasil e a América Latina. O pentecostalismo pode ser forte em qualquer nível social, desde que os cristãos dêem lugar a ação do Espírito Santo.

BTP- Hoje se observa uma aproximação entre igrejas reformadas e pentecostais clássicos, mas há outros pentecostais que se aproximam a cada dia do neopentecostalismo. Qual tendência prevalecerá? É possível prever?

IA- Como prever tendências se a obra do Espírito Santo é um movimento? Eu não consigo. Alguém consegue? Ou seja, uma hora temos conhecimento de igrejas tradicionais enfatizando a manifestação do Espírito Santo, em outra, vemos igrejas pentecostais tradicionais pondo em prática a liturgia dos cultos e ensinos do chamado neopentecostalismo. Ambos, afirmam ser isto o resultado do “mover do Espírito”.

BTP- Como foi a experiência de trabalhar em importantes obras publicadas pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), como o livro Verdade Absoluta de Nancy Percey e Comentário Bíblico Pentecostal de French L. Arrington e Roger Strostad? A CPAD seguirá um caminho mais acadêmico, como tem mostrado nos últimos anos?

IA- É um grande privilégio ser funcionário e autor pela CPAD. O caminho que a Casa está seguindo atualmente tem sido visto e admirado por todo o povo evangélico brasileiro. Agora, quanto aos seus rumos editoriais, não posso falar aqui em nome da editora. Apenas, uma correção: o livro Verdade Absoluta teve seus originais preparados no Setor de Livros Estrangeiros e não no de Bíblias e Obras Especiais que chefio.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O Cristianismo anti-Ortodoxia Parte 01

Se não tornarmos clara nossa posição, com palavras e obras, em favor da verdade e contra as falsas doutrinas, estaremos edificando um muro entre a próxima geração e o evangelho.

Francis Schaeffer


Não, essa não é uma crítica as doutrinas ou práticas dos neopentecostais. O artigo quer alertar para um movimento crescente no meio evangélico da atualidade, um cristianismo anti-Ortodoxia. Sendo filha da pós-modernidade, esse movimento tem crescido assustadoramente em meio de pensadores, teólogos e filósofos protestantes. Uma das vítimas dessa nova corrente é a apologética, que foi tão prestigiada pelos teólogos do Século XX, e agora é tachada como ortodoxolatria, gnosticismo cristão, e de modo pejorativo os apologistas são tachados de xiitas cristãos e “busca-dores” da reta doutrina.

Após o Teísmo Aberto ter entrado no Brasil com unhas e dentes, essa teologia trouxe, no seu bojo filosófico, outros pensamentos estranhos ao cristianismo histórico. Para justificar essa corrente que distorce o pensamento bíblico sobre a pessoa de Deus, os promotores resolveram apelar para um debate de cunho emocional. O amor passou a ser visto como algo superior a verdade, a paixão pelos oprimidos passou a ser mais importante que a defesa da doutrina. Ortodoxia passou a ser vista com sinônimo de Religião, que se tornou uma palavra pejorativa na era pós-moderna da espiritualidade.

A ortodoxia hoje é vista como um demônio. Demônio este que separa igrejas, que matas homens, que separa famílias, que causa discriminações e que até crucificou Jesus no Gólgota. O movimento anti-Ortodoxia não vê diferença entre a apologética cristã e os homens-bomba do Talibã islâmico.

Nessa visão de libertação da ortodoxia, é correto afirmar que o Teísmo Aberto no Brasil casou-se com a Teologia da Libertação, como conseqüência, a idéia de associar o cristianismo a libertação das classes oprimidas é muito forte na cabeça de muitos teólogos. Em poucos anos os pensamentos de Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff foram ressuscitados por alguns protestantes.

Dentro desse grupo há um resgate da teologia neo-ortodoxa de Karl Barth e liberal de Friedrich Schleiermacher, Paul Tillich, Rudolf Buttman. Em sua fome de combater o “fundamentalismo protestante calvinista norte-americano”, o grupo se volta às vãs filosofias da Alemanha.

No discurso dos apologetas da anti-ortodoxia, o neopentecostalismo e o fundamentalismo protestante, assim como o evangelicalismo reformado são colocados em um mesmo saco: o saco da ignorância e da opressão religiosa.

Defender algumas doutrinas bíblicas passou a ser vista com a defesa de uma linha de pensamento: o calvinismo. Mas aceitar as doutrinas da onisciência, soberania, onipotência, imutabilidade de Deus, não é prerrogativa calvinista ou arminiana, mas de todos aqueles que baseiam suas crenças na infalível Palavra de Deus.

Continua...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A mania angélica no meio evangélico

“Quando cheguei neste culto, vi anjos nesse templo com brasas de fogo nas mãos”, disse o pregador. A congregação exaltada gritava: “Glórias a Deus, Aleluia” e outros começavam a “marchar ou dançar no espírito”. Esse culto foi, para a maioria dos que ali estavam, uma maravilhosa reunião. O grande problema é que o “pregador”, na verdade, era um bandido que chegou a se relacionar com jovens na igreja de maneira devassa e pervertida. A igreja que amou o pregador angélico, entrou em crise mediante esse fato. Lembrando que essa história é verídica!
O que faz um falso pregador, “derramar fogo em uma igreja”, sendo ele um ímpio pervertido? A questão é que esse falso profeta sabia que muitos evangélicos ficam animados diante de um culto onde os anjos são o centro. Muitos “animadores de auditório”, que não chegam a ser maus caráter com o caso citado acima, estão comprometidos com um evangelho estranho as Escrituras. São pessoas que enfatizam anjos, tirando a primazia de Cristo no culto.
Hoje, a angelomania é muito presente na comunidade evangélica. São cadeiras reservadas para anjos, são constantes visitas do arcanjo Miguel, e há recados transmitidos pelo anjos com várias revelações. Há músicas que as letras dizem seres os anjos, os agentes do Batismo no Espírito Santo e ainda aqueles que promovem a cura divina; haveria aberração maior do que essa? Seria essas práticas bíblicas? O apóstolo Paulo já alertava: “Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão”(Cl 2.18). O culto deve ser cristocêntrico, mas nunca angelocêntrico ou antropocêntrico. Seria o homem ou os anjos o objeto de louvor no culto cristão? Não é preciso nem responder!
O escritor aos Hebreus lembra que os anjos “são espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação”(1.14). Isso quer dizer que os anjos são criaturas que servem os salvos quando enviados por Deus, isso mediante as várias situações que o Senhor livra os seus servos. Essa é a missão dos anjos na atualidade. Os anjos não foram convocados para “derramar brasas de fogo em reunião pentecostal”, muito menos promover revelações ou batizarem alguém no Espírito Santo. Quem derrama do Seu poder na igreja é o Espírito Santo e que batiza é Jesus Cristo. As revelações são frutos do “dons da palavra do conhecimento”, que nunca contradizem ou acrescentam algo as Escrituras.
Nesse artigo, há o destaque de duas práticas presentes no meio evangélico, que tornam o culto angelocêntrico (anjos no centro) e antropocêntricos (os homens no centro).

a) invocar a presença de anjos no ambiente de culto.

É comum pessoas orarem pedindo que Deus coloque um anjo na porta da igreja, um arcanjo no púlpito e outro anjo na casa do crente. Essa prática enfatiza papéis que não são angélicos, como ser segurança pessoal de um super-pregador. Essa idéia remete a doutrina pagã de anjo-guia ou anjo-da-guarda. Quem guia o cristão é o Espírito Santo e é Deus quem guarda o crente, usando para isso anjos ou não! Invocar a presença de anjos é desnecessário e torna o culto angélico. O pastor e teólogo assembleiano Elinaldo Renovato lembra:

Não existe base bíblica para se afirmar que eles (os anjos) estão por aí, a dirigir culto e revelar “segredos” de Deus. Toda a revelação necessária e suficiente para que o homem e a Igreja saibam como relacionarem-se com Deus já nos foi transmitida através das Sagradas Escrituras

E ainda Renovato alerta:

Há igrejas evangélicas, inclusive, com o nome de Assembléia de Deus, em que se pratica um verdadeiro “culto a anjos”. Em tais ambientes, as pessoas estão mais voltadas para os anjos do que para Jesus. Há pregadores que só iniciam a pregação depois de pedir que os anjos se postem a seu lado. Isso á apostasia dos tempos pós-modernos. E há muitos cristãos que estão se afastando dos verdadeiros princípios da ortodoxia bíblica, encantados com esses movimentos

Esse desejo de ter anjos ao redor do púlpito, quando o grande pregador está ministrando, traz uma idéia de um ser acima dos demais, um “ungido do Senhor”, realçando o pregador com o centro das atenções. Um fato interessante é que os angelomaníacos se apresentam como grandes ungidos de Deus, servos “humildes” do Deus Altíssimo, quando isso não passa de falsa modéstia. O jornalista e teólogo pentecostal Silas Daniel leciona:

Ainda hoje, os angelólatras se apresentam como pessoas avivadas, espirituais, santas, humildes, mas na verdade estão, como afirmou o apóstolo, embriagados por uma compreensão carnal

Haveria sentimento mais mundano do que tirar a centralidade de Cristo, para se tornar um espetáculo vivo? Haveria carnalidade maior do que mentir nos púlpitos, dizendo que estão recebendo recados de anjos? Nada de espirituais, mas os angelomaníacos não passam de crentes carnais.

b) anjos promotores de “avivamentos”.


Ouriel de Jesus, um pastor brasileiro que pregando nossa revelações diretas do céu, diz que a sua igreja promoverá ou está promovendo o último avivamento da história. Mais modesto impossível! O seu livro, fruto de vários contatos nos céus é o Triunfo Eterno da Igreja. Esse livro é um grande divulgador da doutrina de centralidade angélica. São anjos promotores de “avivamentos”. Sua igreja, que foi excluída da CGADB(Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil) tem até corografias dirigidas por anjos. Como escreveu o pastor Waldomiro Francisco: “Como seu Consolador, é o Espírito Santo quem a vivifica (a igreja); não existe avivamento por seres angelicais, o que não passa de uma heresia”4.
Todo cuidado é pouco, diante de tantos modismos angélicos no seio da igreja evangélica, o cristão não deve correr atrás de movimentos, mas sim se solidificar na Palavra de Deus.

Referências Bibliográficas:

01- RENOVATO, Elinaldo. Colossenses. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 52, 3. trimestre de 2004.

02-________. Perigos da Pós-Modernidade. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p. 17 e 18.

03- DANIEL, Silas. A moda do culto aos anjos: conheça a gênese da angelolatria e a verdadeira função dos anjos. Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 2, n. 06, p. 25 , Dez-Jan-Fev/2003.

04- FRANCISCO, Waldomiro. A Doutrina dos Anjos e Demônios. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 33.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Pentecostalismo, Koinonia e Individualismo

A décima segunda divisão, da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, é conhecido como o texto dos dons espirituais. Realmente, os capítulos 12, 13 e 14 da missiva corintiana, é um tratado paulino sobre os pneumatikos carismata, ou seja, os dons do Espírito são o tema central. Mas medite nos versículos de 12 ao 31, do referido trecho epistolar, e você verá que a proposição, além de pneumatológica, é eclesiológica: a igreja como o corpo místico de Cristo em comunhão.
É comum, na igreja hodierna, a promoção de uma espiritualidade cada vez mais individualista, onde as excêntricas experiências pessoais são excessivamente incentivadas. Todavia, o Espírito Santo trabalha no meio da comunhão e nunca na divisão, como bem escreveu o historiógrafo Lucas, relatando as características da igreja dos primeiros dias: “E perseveravam... na comunhão, e no partir do pão, e não orações... E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”(At 2.42, 47).
Nesses dias tenebrosos, que antecedem a parousia de Cristo, os templos cristãos se tornaram casas de prazeres. São crentes que vêem a oração como um meio de barganha com o Altíssimo, e não um canal de comunhão divina. Os filhos de Deus se tornaram crianças extremamente mimadas, pois contemplam um pai obrigado a atender os seus desejos mercantilistas, mas não conseguem colocar a sua confiança no Deus Soberano. O que é melhor para a igreja individualista pós- moderna, um culto de intercessão pelas nações, ou a reunião de oração “forte” para os empresários crescerem materialmente? A resposta é óbvia, e sendo assim, a advertência do irmão de Jesus é cada vez mais necessária: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites”(Tg 4.3).
O evangelicalismo vive em um período que o cristianismo segue as regras de mercado. Nesses dias há denominações para todos os gostos: igrejas para roqueiros, igrejas para surfistas, igrejas para a classe-média, igrejas para madames da elite paulistana... há igrejas como opções de parto na praça de alimentação de um shopping-center. Não seria essa eclética manifestação denominacional, a mais trágica expressão do individualismo gospel? Charles Colson, pensador cristão, faz uma observação com muita propriedade:


A cultura é radicalmente individualista. Pessoas fazem de tudo o que querem. São nas suas igrejas. O resultado é que escolhem e optam pelas igrejas que irão membrar-se, acreditando no que querem. Falta sempre o entendimento da responsabilidade de ser parte da comunidade dos crentes. A maioria das pessoas que se sentam nos bancos de igreja perdeu totalmente esse ponto


Como no começo do texto foi lembrado, Paulo escreveu sobre dons espirituais e comunhão da igreja no mesmo papiro, certamente com a mesma tinta. Pois carisma só combina na koiononia. Os dons do Espírito tem o objetivo de promover edificação na comunidade. O exercício dos dons espirituais deve estar inserido em um contexto de valor à edificação coletiva e não ao individuo. O doutor dos gentios orientou:


O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação. ( 1Co 14. 4-5)


A maior preocupação do menor dos apóstolos, era com a edificação da igreja nas manifestações carismáticas. Paulo então fala sobre o amor (capítulo 13), que é um assunto totalmente ligado aos capítulos 12 e 14; então ele lembra que o amor “não busca seus interesses”, e da mesma forma o portador de um dom não deve se auto-promover, mas lutar pelo crescimento de cada membro na comunidade. A variedade de dons espirituais é para que todos participem dessa graça e possa assim, colaborar com o amadurecimento mútuo. Como lembra o teólogo pentecostal Stanley M. Horton:

O propósito da variedade (dos dons espirituais) é possibilitar o corpo a funcionar como unidade. A variedade, portanto, não visa a vantagem do indivíduo, ao dar mais coisas para desfrutarmos. Visa, pelo contrário, a vantagem da Igreja... Deus, deliberadamente, concedeu dons e ministérios a pessoas diferentes. Ele quer que reconheçamos ser necessário precisarmos uns dos outros.²


Só mesmo a comunhão no Espírito pode promover essa verdadeira espiritualidade. Infelizmente muitos pentecostais valorizam experiências que não edificam a sua comunidade e nem promove um unidade no Espírito em torno da Palavra. O individualismo leva a buscar os prazeres místicos do “cair no espírito” ou da “risada santa”, que em nada edificam a igreja, mais trazem uma satisfação egoísta. É muito forte o testemunho do pastor Paul Gowdy, sobre os efeitos da “bênção de Toronto”(cair, danças, rolar, pular, rugir no espírito) sobre a igreja canadense, do qual ele era membro: “Desde que a bênção de Toronto chegou, ficamos esfacelados”³. Gowdy, que abandonou o movimento neopentecostal da Igreja de Vineyard, relata que a igreja que caia no espírito, caiu no mais baixo nível espiritual enquanto passava por esse “avivamento”. O modismos não promovem comunhão, mas divisão, assim como aconteceu na igreja do ex-lider neopentecostal Paul Gowdy.
Nenhum pentecostal pode esquecer que os dons espirituais estão no contexto da comunhão eclesiástica. O Espírito Santo opera em indivíduos, isso por meio da regeneração, santificação, batismo pelo Espírito Santo e batismo no Espírito Santo. Mas todas as operações no indivíduo o leva para o corpo, pois o trabalho a Terceira Pessoa da Trindade é no corporativo. O Rev. Augustus Nicodemus, teólogo reformado, fez uma ponderação interessante sobre o referido assunto:


Creio que essa verdade bíblica tem faltado em muito do que se tem dito hoje sobre a plenitude do Espírito. A ênfase quase sempre está em aspectos individualistas, reações físicas individuais, experiências pessoais, e coisas do gênero. O aspecto corporativo da plenitude do Espírito, a compreensão do plano redentor de Deus que ele produz e Cristo como sendo a expressão objetiva e subjetiva da experiência são aspectos esquecidos ou pouco enfatizados, aspectos que, para Paulo, são essencialmente ligados à operação do Espírito na Igreja de Cristo.4


Portanto, a conclusão que se tira deste assunto é que a operação do Espírito Santo é no contexto da edificação de sua igreja. Manifestações pragmáticas e experimentalistas, onde a doutrina é relativizada, onde a comunhão é desprezada e o Fruto do Espírito é esquecido, trata-se de um falso pentecostalismo. Nesses movimentos e modismos, o ego humano é super-valorizado, a auto-ajuda é tema de pregação, o deus papai-noel satisfaz os gostos de seus “bons meninos de fé” e o triunfalismo é a grande onda. O avivamento é tratado com um meio de obter e ganhar e não entregar. O pentecostalismo bíblico não condiz com esse “cristianismo” individualista, centrado e sentado no trono do ego humano.


Referências Bibliográficas:


1- COLSON, Charles. In Entrevista. Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 09, p. 12, Set-Out-Nov/2003.


2- HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 231, 232 e 236.


3- DANIEL, Silas (ed.). Ex-líder da Igreja de Toronto denuncia arrependido farsas heréticas: Paul Gowdy confessou recentemente, em artigo, o que está por trás de modismos famosos que sua igreja disseminou no meio evangélico mundial. Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, CPAD, Setembro de 2007. N. 1468. p. 14-15.


4- NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 19.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Neo-pós-pseudo-pentecostalismo Parte 02

Continuando o artigo anterior, onde a abordagem sobre o neopentecostalismo não é sociológica, mas uma avaliação teológica, partindo da premissa que o pentecostalismo clássico difere do neopentecostalismo na sua essência doutrinária. O neopentecostalismo, que surgiu em meados dos anos 70, é o grupo cristão que mais cresce no Brasil e o crescimento desperta o interesse de sociólogos, historiadores, teólogos católicos e protestantes tradicionais. Os pentecostais, também, precisam fazer avaliações teológicas do movimento neopentecostal, e diferenciar esses dois grupos, mas com um sentimento pastoral.

a) o neopentecostalismo tem uma hermenêutica diferente do cristianismo histórico.

Se você já ouviu pregações em igrejas neopentecostais, percebeu que a maior parte das pregações são no Antigo Testamento? Já viu que os pregadores “avivalistas” gostam de textos que abordam a história da Abraão, Elias, Eliseu, Davi, Daniel, Jeremias etc? Percebeu que o ministério profético do Antigo Testamento é muito abordado nas preleções dos “conferencistas internacionais”? Se não, ouça e verá!
Em trabalho acadêmico para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, sobre o neopentecostalismo, o professor Isaltino Gomes Coelho observa que “a leitura bíblica neopentecostal é atomizada...isto é, fragmentada, de versículos isolados, é desculturada, desarrigada de seu contexto e usada alegoricamente¹. Sendo assim, prega excessivamente no Antigo Testamento. Abusa dos símbolos vero-testamentário e aplica a simbologia judaica de forma distorcida na igreja hodierna, que é ou deveria ser neotestamentária. Como observou o teólogo Esequias Soares: “Seus líderes inventam campanhas, tentando realçá-las em textos e personagens do Antigo Testamento, empregando figuras e símbolos, completamente fora do contexto bíblico, como ponto de contato para estimular a fé, e também para arrecadar fundos”². São campanhas dos “318 pastores”, “Unção apostólica de Elias”, “Azeite da Viúva”, “Porção dobrada de Eliseu”, “Derrubando as muralhas de Jericó”. O teólogo Paulo Romeiro, que é de confissão pentecostal, observa:

As campanhas semanais, os cultos “de libertação”, “da vitória”, “da conquista” e “da prosperidade” se multiplicam na disputa de fiéis. Tudo isso dirigido a um público despreocupado também com as regras de interpretação bíblica, pouco afinado com a reflexão, mas numa busca constante e intensa de solução. Os pregadores farão tudo para atrair seus “clientes”, muito disputados hoje em dia no mercado evangélico

Quando se quer extrair, de modo legítimo, um ensinamento bíblico; se parte para a hermenêutica histórica, contextual, linguística e teológica, mas a analogia é o aspecto central na hermenêutica neopentecostal. Em vez de uma exegese, para extrair do texto bíblico o que ele diz, se pratica a eisegese, colocando no texto o seu próprio pensamento, ou seja, se tenta justificar por meio da Bíblia. A Bíblia para o neopentecostalismo é indicativa, ou seja, se recorre a ela como justificadora de suas práticas, mas não normativa, ou seja, determinando as doutrinas e práticas da igreja. A Bíblia, no neopentecostalismo, é um simples amuleto e enfeite de emaranhados de doutrinas estranhas as Sagradas Escrituras.
Uma questão importante na hermenêutica neopentecostal é que ele é pragmática e empírica. Pragmática se entende que a interpretação bíblica do neopentecostalismo busca praticidade ou funcionalidade de sua crença; se algo é prático e dá certo, então é preciso inserir na doutrina neopentecostal. Quando algum apologista critica as experiências e crenças no neopentecostalismo, os seus promotores vem com os seguintes argumentos: “mais as pessoas são curadas”, “mas isso tem dado certo”, “explique os milagres de meu ministério” etc. Sempre se recorre a funcionalidade de suas doutrinas. A experiência sempre procede a doutrina no neopentecostalismo. O Rev. Alderi Sousa de Matos observa:

No neopentecostalismo – inclusive nos seus enclaves nas denominações históricas -, por mais que seus integrantes se declarem defensores das Escrituras, a importância atribuída as fenômenos, maravilhas e novas revelações os empurrarão à incômoda consequência prática de terem na Bíblia a sua “fonte secundária” de conhecimento. 4

No contexto na interpretação bíblica, a experiência conta como a mais alta autoridade, determinando os sentido de um texto. A Bíblia, nessa situação, não é a regra de fé e prática. Kenneth Hagin estabeleceu a fórmula de fé da confissão positiva, baseado em um suposto encontro com Jesus, por meio da visão ele criou uma nova doutrina. A revelação, as crenças pessoais, as profecias, as visões tomam o lugar da Palavra de Deus, no momento em que elas estabelecem doutrina.
A hermenêutica neopentecostal é individualista e mística. Quando se lê a Bíblia, não procuram compreender o significado original que o escritor, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu. Cada crente que leia a sua Bíblia e interprete da maneira transcendental, por meio de uma revelação interior. Procuram sempre achar novas verdades, e dizem ser portadores de nova revelações, desprezadas pela igrejas durante séculos. Sendo esse entendimento, sempre individual, por meio de uma iluminação. Na leitura neopentecostal, o Espírito Santo, dá o significado de um texto para necessitadas específicas de várias pessoas, ou seja, o versículo passa a não ter uma significação absoluta, mas é uma mensagem diferente em cada revelação. Um pregador neopentecostal, instruindo novos convertidos, disse: “Vocês precisam ouvir a voz de Deus, ser guiados pelo Espírito Santo. Para isso, orem nas madrugadas e peça que Deus revele a Sua vontade para a sua vida. Então Deus vai te acordar pelas madrugadas e te dirá aquilo que tu precisas fazer.” Esse pregador dá a entender que a sua vida é guiada por revelações, quando esse não é o propósito das revelações (dom da palavra do conhecimento). A vida do cristão é guiada pelo Espírito Santo, que usa a sua Palavra, para direcionar segundo as Suas diretrizes.

b) a demonologia neopentecostal

Os neopentecostais tem uma visão dualística do cosmo, ou seja, há uma constante luta
entre o Bem e o Mal, e tudo aquilo que não é de Deus, logo é do Diabo. Para a cosmovisão neopentecostal, o mundo está dividido por essas duas forças equivalentes. Para eles a doença nunca vem de Deus, logo, todas as doenças são diabólicas. Para eles a pobreza não pode vir de um Deus riquíssimo, logo, a pobreza é do Diabo. Nesse pensamento, chamado dualismo, o mundo está bem dividido entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo. O dualismo fere a revelação bíblica, onde o Deus, o ser bondoso por natureza, é infinitamente maior do que o mal provocado pelo Diabo.
O exorcismo nas igrejas neopentecostais, é uma prática midiática e um verdadeiro espetáculo, onde pessoas (seres-humanos) são expostos ao ridículo, com muitas luzes e câmeras. O teólogo assembleiano Claudionor Corrêa de Andrade, em uma linguagem pastoral, escreveu:

Há muitos obreiros que, para cevar o marketing pessoal, fazem uma verdadeira campanha publicitária para libertar os oprimidos do Diabo. Perguntam o nome do demônio e querem saber a sua procedência. Em seguida, interrogam-no acerca de sua missão, como se ninguém soubesse ser o trabalho do Diabo matar, roubar e destruir (Jo 10.10). E com isto desperdiça-se todo o tempo da exposição da Palavra de Deus, introduzindo o povo a uma macabra distração. 5

Os neopentecostais, em especial Kenneth Hagin, acreditada que um cristão verdadeiro pode ser possesso por um demônio, mas não no seu espírito, e sim no seu corpo ou em sua alma; fazendo uma separação inexistente na Bíblia. Como pode um cristão ter demônios em seu corpo ou em sua alma, enquanto o seu espírito está livre sendo
habitação do Espírito Santo? Só uma demonologia distante das Escrituras para afirmar tamanho engodo. Um cristão verdadeiro, por ser habitação do Espírito Santo, não pode ter em seu ser um demônio.
O neopentecostalismo tem muitas doutrinas estranhas a Bíblia e cabe a cada pentecostal, uma posição apologética e de oração pela mudança e sedimentação desse movimento.
A análise sobre o neopentecostalismo termina nesse texto, mas esse assunto será discutido por meio de outros artigos no Blog Teologia Pentecostal.



Referências Bibliográficas:

1- COELHO, Isaltino Gomes. Neopentecostalismo. Acesso em 09/11/2007. Disponível em http://www.ibcambui.org.br/artigos/art57.pdf

2- SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 319.

3- ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 123.

4- MATOS, Alderi Sousa de. Fé Cristã e Misticismo, p. 58. Citado por ROMEIRO, Paulo. Idem, p. 122.

5- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Judas, Batalhando pela Genuína Fé Cristã. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 43. 1° trimestre de 2002.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Neo-pós-pseudo-pentecostalismo! Parte 01

O objetivo dessas observações é mostrar a tragédia que o movimento neopentecostal fez e está fazendo no meio evangelical, seja no pentecostalismo clássico, seja nas igrejas fundamentalistas-reformadas.
A expressão “neo-pós-pseudo-pentecostalismo” ¹ foi cunhado por Robinson Cavalcanti e designa muito bem o movimento neopentecostal ou carismático². O neopentecostalismo erra em muitos pontos e se afasta a cada dia do protestantismo histórico. É bom observar que há teólogos respeitados, como Luís Sayão, que acreditam em uma restauração doutrinária dos neopentecostais, Sayão comentou que: “Todo o mundo critica o movimento neopentecostal. Devemos avaliá-lo sociologicamente. Em breve eles sofrerão mudanças e buscarão uma sedimentação”³. É de se esperar que essa sedimentação aconteça logo e tomara que realmente aconteça! A abordagem desse texto é mostrar os principais defeitos no neopentecostalismo.

a) O neopentecostalismo desenvolve uma espiritualidade sem vínculo.

A excessiva valorização de catedrais, mega-ajuntamentos, grandes eventos , cultos midiáticos e similares; mostra que o neopentecostalismo desenvolve um espiritualidade sem ligação eclesiástica, ou seja, as pessoas vão a igreja como se fossem ao shopping-center, vão buscar algo e não entregar, tem vínculos mercantilistas e não comunitários. Ricardo Gondim fez uma ótima observação em relação ao assunto:

Os neopentecostais desenvolveram uma espiritualidade “templista”, sem vínculos comunitários. Sacralizam-se os prédios, valorizam-se os mega ajuntamentos, mas não se promovem relacionamentos. As pessoas se sentem sozinhas e autônomas no meio de uma multidão. Vão à igreja como quem vai a qualquer lugar público, sem sentimento de pertencimento.4

Dentro desse contexto é muito comum o trânsito religioso. Hoje o sujeito é de uma igreja, amanhã já de outra denominação. Há líderes neopentecostais que chegaram a fundar duas denominações diferentes.
Há não somente uma falta de vínculo comunitário, mas também, falta vínculo doutrinário, litúrgico, de ethos (costumes) e tradições. Sendo que o maior perigo é a falta de base teológica e ou doutrinária. Muitos neopentecostais, continuam com crenças herdadas de uma religião ou seita que anteriormente ele tenha participado. A falta de discipulado, infelizmente, é comum em todos os ramos do evangelicalismo, principalmente no neopentecostalismo, e ainda há um desprezo muito grande pelo ensino da Palavra. Os neo pentecostais não investem em escola dominical, cultos de ensino, classes de discipulado, seminários teológicos etc.

b) o neopentecostalismo desenvolve um pregador arrecadador e não doador.

A principal preocupação para um bom “pregador” neopentecostal, não é o seu domínio das ciências bíblicas, juntamente com uma vida devocional exemplar, mas sim, o seu domínio na retórica da oferta. Em uma famosa denominação neopentecostal no Brasil, você só pode ser ordenado ao ministério pastoral, se a sua congregação arrecadar mais de 5 mil reais por mês em dízimos e ofertas. Qual será a pregação principal de um sujeito sob tamanha pressão? Certamente que será ofertas, dízimos, desafios de fé e teologia da prosperidade. Uma congregação de bairro de não dá “lucro”, é fechada imediatamente pelos “bispos” de algumas denominações neopentecostais. Será que a construção de templos é uma preocupação evangelísticas e de bem-estar da igreja local ou mais uma fonte de arrecadação? Não é nem preciso responder! A absurda compra de “cura-divina” por meio de ofertas, é comum em algumas igrejas neopentecostais. São cartões de oferta com valores de 10, 20, 50, 100 reais, sendo que os valores mais altos recebem “orações mais fortes”. Não seria essa prática uma indulgência moderna? Esses “profetas” neopentecostais sem aproximam a cada dia do sectarismo.
Em que consiste alguns cursos para líderes em igrejas neopentecostais? As matérias principais de muitos desse cursos, não é teologia sistemática ou exegese, mas sim, técnicas de marketing.
O papel pastor-ovelha, dentro desse contexto “templista”, é substituído pelo modelo empreendedor-cliente. Igrejas neopentecostais, normalmente, não possuem seminários, mas apenas cursos esporádicos de retórica ou métodos de marketing, como acima observado. O obreiro neopentecostal não é uma pessoa treinada para ser líder de uma igreja local, mas sim, de ser o mais persuasivo com aqueles que o visitam. Não existe ovelha, e os pastores nem podem ser chamados de pastores, pois normalmente são itinerantes. Um itinerante não tem a possibilidade de ter ovelhas, logo, não é um pastor.

c) o neopentecostalismo tem, a teologia da prosperidade, como a principal pregação.

O conceito de “Deus papai-noel”, cunhado no passado pelo teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, homem que lutou contra o secularismo eclesiástico de seu tempo, expressa muito bem a realidade materialista do movimento neopentecostal. A cosmovisão neopentecostal tem dificuldades de contemplar o futuro, o céu, a salvação, a redenção; palavras com esperança, espera, paciência, perseverança não fazem parte do vocabulário imediatista dos neopentecostais. Imediatismo é a filosofia dos pregadores do aqui-e-agora, é a bênção rápida e eficaz em pregações pragmáticas, ou seja, “pregações que funcionam”.
Sempre a teologia da libertação é colocada como uma visão comunista do cristianismo, da mesma forma, a teologia da prosperidade é uma versão capitalista de um evangelho distorcido, que busca riqueza e bens terrenos, em detrimento do que os bens celestiais. Junto com a teologia da prosperidade há um mal igual, que é o triunfalismo. O triunfalismo não aceita derrotas, infortúnios, doenças, perdas, pois é o evangelho do “só vitória”. Infelizmente, alguns pregadores que dizem ser pentecostais, são triunfalistas de carteirinha, sendo essa uma característica neopentecostal que tenta deturpar o pentecostalismo clássico.

d) o neopentecostalismo prega o ter em vez do ser.

A pregação sobre moralidade, santidade, caráter, Fruto do Espírito são deficientes no meio neopentecostal. O ter é mais valorizado do que o ser. É muito difícil pregar contra a ambição, a sedução das riquezas, o engodo da soberba nos púlpitos “universais”. O verdadeiro cristão na cosmovisão neopentecostal é aquele que passou da pobreza para a riqueza. Será a riqueza evidência de prosperidade? A prática mostra que não, pois o segundo homem mais rico do mundo, o bilionário Bill Gates, é um ateu! Será que Gates é mais espiritual que um pobre cristão africano sem almoço para esse dia?

e) o neopentecostalismo valoriza excessivamente a sua liderança.

Ouvir rádio evangélica, com poucas exceções, pode ser uma verdadeira tortura para aquele que busca a ortodoxia no cristianismo. É comum, na vasta programação neopentecostal, ouvir liderados referir-se a sua liderança como: “o apóstolo da fé, grande homem de Deus, o maior evangelista do século, o nosso bispo primaz, o homem que faz e acontece etc”. É uma verdadeira idolatrização da liderança, que se segue sem um senso crítico, mas em um caminho cego.
Muitos líderes, sem caráter, no neopentecostalismo, são acusados dos mais diversos crimes, como estelionato, curanderismo, lavagem de dinheiro etc. Os fiéis dessas igrejas, na maioria das vezes, são indiferentes as claras acusações e preferem atribuir esses problemas a perseguição da Rede Globo ou do próprio Diabo. É comum, alguns desses líderes, se compararem aos apóstolos, que foram perseguidos por causa do evangelho. Um sofisma que muitas vezes funciona, infelizmente!
Em denominações neopentecostais não há conselhos de doutrina, concílios para decidir os rumos da denominação. Em uma denominação neopentecostal, o líder-fundador é quem decide tudo, desde da forma litúrgica, passando pela doutrina e até o destino das finanças. É uma liderança incontestável, um líder que está acima de tudo e todos, que não presta contas a ninguém. Uns mais espirituais, dizem que ninguém pode tocar “nos ungidos de Deus”, ou seja, se colocam acima dos demais espiritualmente. Os pastores e obreiros menores nessas denominações imitam a oratória, os gestos, a maneira de se vestir dos seus líderes.
A “renovação apostólica” é um novo modismo que mostra a colocação acima da crítica dos líderes neopentecostais. Primeiro veio os bispos, quebrando uma tradição protestante de não inventar cleros acima de leigos, como no catolicismo romano. Depois veio as bispas(sic) e agora tem os “apóstolos”, há notícias de pastores que agora são chamados de “arcanjo”. É muita aberração para pouco espaço! Um famoso pastor disse certa vez: “Daqui a pouco temos o vice-Deus”.
Outra novidade é a chamada “cobertura espiritual”. Líderes que ameaçam seus liderados, dizendo que elas necessitam da cobertura deles, como apóstolos. Cobertura é uma falácia, pois biblicamente, não há cobertura espiritual da parte dos homens, mas somente de Deus.
Hoje, no meio neopentecostal, há uma febre por títulos teológicos. São muitos que dizem ser Doutor em Divindades(D.D) e fizeram curso por correspondência de, no máximo, um ano. A internet está cheia desses falsos cursos, que é uma malandragem de compra e venda de diplomas. Com 2 mil dólares, qualquer pessoa pode comprar um título de doutor em divindade nos Estudos Unidos, ficando até mais chique. Para ser um doutor em teologia, em uma faculdade séria, se estuda em média dez anos e há uma dedicação acadêmica, isso por parte do discente. Estudar bacharel de teologia em um ano é como estudar medicina em dois anos, é um grave erro e nada se aprende, sendo assim um falso curso.


Em breve, leia a segunda parte desse artigo.

Notas:

1- CAVALCANTI, Robinson. País apodrecido, igreja insípida. Revista Ultimato. Edição 303 Novembro-Dezembro 2006. p /.

2- Carismático é como os teólogos norte-americanos nomeiam os neopentecostais. Aqui no Brasil, carismático virou sinônimo de católico pentecostal, membro da RCC (Renovação Católica Carismática).

3- SAYÃO, Luiz. Pela ética e espiritualidade. Entrevista. Revista Enfoque Gospel. Edição 62 - SET / 2006.

4- GONDIM, Ricardo. E se o sal não salgar? Ricardo Gondim, acesso em 17/10/2007 disponível em

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Neo-pós-pseudo-pentecostalismo

Amanhã, o blog Teologia Pentecostal vai começar uma série de artigos analisando o neopentecostalismo de maneira geral, não perca!
O objetivo dos artigos é mostra que o Pentecostalismo Clássico difere das manifestações exageradas do neopentecostalismo. Mas o Pentecostalismo não difere somente na liturgia, mas também na teologia e nos propósitos de existência.
VEJA nesse vídeo um dos pontos que será discutido:



Lembrando que isso NÃO é pentecostalismo, e sim uma adulteração do verdadeiro pentecostalismo.

domingo, 28 de outubro de 2007

Reforma Protestante: uma recolocação doutrinária

A igreja reformada sempre deve estar se reformando¹! Essa máxima dos reformadores nunca esteve tão atual na história do protestantismo. Urge, após 490 anos de história
protestante, uma profunda reforma no seio evangélico. Reforma não é invenção de novas teologias, mas é o resgate das doutrinas bíblicas, sendo aquelas doutrinas que foram esquecidas ou substituídas por tratados de homens.
Em que pontos os protestantes hodiernos precisam recolocar verdades bíblicas? Veja os 15 pontos abaixo:
1° Recolocar a doutrina da graça, em lugar da maldição hereditária.
2° Recolocar a doutrina do sacerdócio universal, em lugar da "renovação apostólica".
3° Recolocar a Palavra de Deus em lugar das experiências.
4° Recolocar a doutrina da soberania de Deus, em lugar da deificação do homem.
5° Recolocar a esperança bendita da vinda de Cristo, em lugar do triunfalismo.
6° Recolocar a defesa da fé, em lugar do pragmatismo "evangélico".
7° Recolocar os dons espirituais, em lugar de manifestações extravagantes.
8° Recolocar a adoração cristocêntrica, em lugar de manifestações antropocêntricas.
9° Recolocar a ortodoxia teológica, em lugar do liberalismo existencialista.
10°Recolocar o cristianismo bíblico, como fonte das respostas humanas, em lugar do relativismo pós-moderno.
11°Recolocar o ensino da Palavra em lugar de espetáculos humanos.
12°Recolocar músicas de conteúdo, em lugar de sons vazios da verdadeira adoração.
13°Recolocar o culto racional, em lugar das reuniões emocionalistas.
14°Recolocar a direção do culto à Deus, em lugar de centralizar em prosperidade.
15°Recolocar uma vida devocional em santidade, no lugar da busca desenfreada pelos prazeres.
Todas essas recolocações devem ser baseadas na infalível e inerrante Palavra de Deus, e os protestantes não devem esquecer da Sola Sprictura, ou seja, a igreja oriunda da Reforma deve se basear, somente, nas Sagradas Escrituras, a única regra de fé e prática cristã. Pois, como disse Thomas Watson: "A Bíblia é a biblioteca do Espírito Santo".
A todos os protestantes brasileiros, um feliz 490 anos de Reforma. E que nesse século os evangélicos brasileiros não se esqueçam dos princípios da reforma²: Sola Sprictura(Somente as Escrituras), Sola Gracia (Somente a graça), Solo Cristus (Somente Cristo) e Sola Fides (Somente a fé).

Notas:

1- Expressão em latim: "Eclesia Reformata et Semper Reformanda "
2- Expressões latinas: Somente as Escrituras, Somente a graça, Somente Cristo e Somente a fé.

Abre-se um debate:

Na sua opinião, qual é a principal reforma que a igreja brasileira precisa passar, nesses dias que antecedem a vinda de Cristo? Escreva um comentário!

domingo, 21 de outubro de 2007

Análise crítica do Congresso de Missões dos GMUH

Os Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) é uma organização evangélica que faz um ótimo trabalho de missões por todo o mundo. Há vários missionários sustentados por esse ministério e os GMHU, tem feito um trabalho eficaz na Amazônia e no Nordeste. O propósito desse artigo não é contestar o trabalho missionário dos GMUH e nem a seriedade dos integrantes desse ministério, mas sim, analisar de maneira crítica, um evento anual e de grande sucesso: O congresso de missões dos GMUH.
Esse congresso reúne milhares de pessoas na cidade de Camburiú, em Santa Catarina , e é até prestigiando pelo governo local, pois há uma grande movimentação na cidade. É um dos eventos mais disputados por cantores e pregadores de cunho “avivalista”. Além disso, o congresso conta com a participação de famosos pregadores, como Marco Feliciano, Hidekasu Takaiama, Gilmar Santos etc.
Antes da análise é preciso esclarecer que esse texto foi escrito por um pentecostal, pertencente à Igreja Evangélica Assembléia de Deus e que o objetivo não é ofender pessoas, mas como acima está foi exposto, o propósito é analisar esse congresso anual do GMUH.
Quais são os pontos críticos do evento?

01) Promove os manikos do pentecostalismo.

Manikos é uma expressão na teologia pentecostal para designar as manifestações extravagantes atribuídas ao poder do Espírito Santo. Essas manifestações nada tem haver com os dons espirituais, mas são extra-bíblicos, e baseados em experiências de homens do passado. O fenômeno do “cair no espírito”, “risada santa”, “êxtase”, “unção dos animais” podem ser classificadas como manikos, pois não há base bíblica para tais manifestações.
No congresso dos GMHU é comum a promoção desses fenômenos, herdadas da “bênção de Toronto”. É certo que, esse congresso foi o maior divulgador de tais fenômenos no Brasil.

02) Não há visão apologética e de preservação doutrinária.

O evento é promovido por uma congregação pertencente à Assembléia de Deus, denominação pentecostal clássica. Apesar dessa base, não há visão apologética no congresso, exemplo disso foi à participação do Pr. Carlos Móises, líder unicista de uma seita que nega a doutrina da Santíssima Trindade.
A “renovação apostólica” tem o seu espaço no evento do GMUH. Geziel Gomes e Oriel de Jesus, agora dizem que são “apóstolos”. Esses dois pastores, que moram nos Estados Unidos, e os seus liderados, são constantes no congresso.
Um líder muito celebrado nos GMUH é Benny Hinn; sempre há menção honrosa ao seu nome por alguns pregadores. Benny Hinn é um dos mais controvertidos dos pregadores contemporâneos.


03) Promove um culto exclusivamente emocional

É claro que o homem é um ser emocional, isso faz parte da natureza humana. Mas não se pode esquecer que junto com a Queda de Adão, as emoções foram afetadas pelo pecado, assim como a racionalidade. Uma fé baseada em emoções tende ao fracasso.
O estilo de pregação no congresso é altamente emocional e pouca reflexiva. Os assuntos abordados nos sermões, isso quando há sermões, são de auto-ajuda ou triunfalistas. É claro que não são todos. Há pregações que, às vezes, são altamente sensacionalistas.

04) Crítica sem fundamento aos “não alinhados”.

Muitos pregadores desse congresso criticam duramente a quem não está alinhado com a forma adotada por eles. Um dos preletores há alguns anos, criticou o Congresso Mundial Pentecostal, realizado pela Assembléia de Deus em 1997, na cidade de São Paulo, pois “ali não houve milagres”.
Só é pentecostal quem se encaixa a aquela maneira extravagante de pentecostalismo, adotada pela maioria dos pregadores desse evento. Eles, na verdade, já criaram um estilo que permeia por todo o Brasil.
Os tradicionais já foram chamados de igrejas “sorveterianas”, isso é uma falta de respeitos aos irmãos tradicionais, que também são habitação do Espírito Santo, pois foram regenerados por Cristo.

Conclusão:

Tudo na vida cristã deve ser analisado a luz da Escrituras, mesmo que a verdade não agrade a alguns. Esse texto encerra com essa forte frase paulina: “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade”.


Escreva a sua opinião!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O antiintelectualismo mata, mas o Espírito vivifica

“Meu negócio não é como teologia, mas com joelhologia”. Essa frase, que tem aparência de espiritualidade, foi criada por um pregador piauense; e expressa um forte antiintelectualismo. O antiintelectualismo se manifesta na oposição do estudo sistemático da Sagrada Escritura, por meio da teologia. Os anti-intelectuais são contra o estudo acadêmico, pois segundo eles, o crente precisa somente orar e o Espírito Santo revela a sua vontade. A curso teológico, mesmo o ortodoxo, é criticado com unhas e dentes.

01) A origem do antiintelectualismo protestante.

O início do antiintelectualismo no protestantismo começou nos exageros do pregadores avivalistas do século 19, onde se dá o início do evangelicalismo. O problemas dos reavivamento nos Estados Unidos é que eles exageraram no aspecto emocional do cristianismo. Reagindo contra a apatia devocional de suas congregações, que eram secas emocionalmente, muitos crentes do século 19 caíram em outro estremo, o desprezo pela intelectualidade. “O pastor não eram mais um professor que ensinava uma determinada congregação, mas era uma celebridade que inspirava o público em massa”, observa Nancy Pearcey, que lembra os avivalistas que souberam manter o equilíbrio entre devoção e racionalismo, citando o exemplo de Jonathan Edwards¹.
O anti-intelectualismo já foi muito forte entre os pentecostais, fato esse que não pode ser negado. O teólogo Stanley M. Horton, o maior expoente hodierno do pentecostalismo clássico, escreveu:

O Dr. Burton Goddard, que me ensinou hebraico no Gordon (Seminário Teológico Gordon-Conwell), incentivou-me a ir para Harvard fazer doutorado em Antigo Testamento. Ele também me ajudou a conseguir uma excelente bolsa de estudos. Quando contei ao irmão Smuland, meu superintendente distrital, que eu estava agradecido a Deus pela bolsa de estudos, ele retrucou: - A Deus ou ao diabo?²


A missionária norte-americana Ruth Dorris Lemos junto como o seu esposo, o Rev. João Kolenda Lemos, implantaram o primeiro seminário assembleiano no Brasil, O Instituto Bíblico das Assembléias de Deus(IBAD) em outubro de 1958. Ela conta que “eles (os pastores brasileiros) não tinham uma visão desse trabalho aqui no Brasil. E também missionários de outros países não tiveram esse sentimento”.³
O antiintelectualismo dos assembleianos brasileiros não partiu dos missionários suecos. Eles sempre valorizaram o estudo bíblico, mas não tinham uma visão de seminários nos moldes americanos. O missionário Gunnar Vingren foi um dedicado seminarista por quatro anos em Chicago(EUA). O que prevaleceu foi as Escolas Bíblicas de Obreiros (EBO), que já fazem parte da tradição assembleiana. As EBO´s eram realizadas em pequenos períodos no ano. Apesar das EBO´s, muitos pastores pentecostais no Brasil eram anti-intelectuais e acusavam os seminários de “fábricas de pastores”.
Esse tempo passou, hoje o número de eruditos pentecostais só está crescendo, os seminários e faculdades assembleianas proliferam por todo o Brasil. Hoje, o perigo está em vários jovens que buscam seminários, e caem em covis de cobras do liberalismo teológico de Rudolf Bultmann ou da neo-ortodoxia de Karl Barth. Há até pentecostal que é considerado maior defensor do teísmo aberto, modismo teológico de origem liberal.

02) o antiintelectualismo e o neopentecostalismo.
O antiintelectualismo se manifesta de maneira violenta, hoje, no neopentecostalismo. O maior líder neopentecostal do Brasil escreveu:

Todas as formas e ramos da teologia são fúteis, não passam de emaranhados de idéias que nada dizem ao inculto, confundem os simples e iludem o sábio. Nada acrescentam à fé e nada fazem pelos homens, a não ser aumentar sua capacidade de discutir e discordar entre si. 4

Será que esse líder não lembra dos benefícios, para o cristianismo, por parte dos teólogos ortodoxos que amavam a palavra de Deus? Certamente, se as ovelhas de muitos mercadores na fé, tivessem o mínimo de conhecimento bíblico, não entregariam os seus bens para sugadores e aproveitados, que usam a Bíblia de maneira indevida.
A cada dia nasce uma nova denominação neopentecostal no Brasil, mas a maioria esmagadora dessas novas denominações, já nascem sem Escola Dominical. Será um interesse na ignorância do povo? Infelizmente, muitas congregações de denominações tradicionais abandonaram a Escola Dominical.

03) a falácia do antiintelectualismo.

Um dos textos bíblicos mas usados pelos defensores do antiintelectualismo, se encontra em 2Co 3.6b(A letra mata, e o espírito vivifica). Quanto Paulo diz que a letra mata, ele não está se referindo ao estudo, mas a letra da lei de Moíses, que a ninguém salva, mas mostra o estado pecaminoso do homem e a severidade em relação ao pecado.
A Bíblia, pelo contrário, incetiva a busca pelo conhecimento:

a) Não se aparte de sua boca o livro dessa Lei; antes medita nele dia e noite (Js 1.8a)

b) A exposição de tuas palavras dá luz e dá entendimento aos símplices (Sl 119.130).

c) No ano primeiro de seu reinado, eu Daniel, entendi pelos livros que o número de anos, de que falou o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de acabar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos (Dn 9.2).

d) Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor (Os 6.3a).

e) Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus (Mt 22.29).

f) Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam (Jo 5.39).

g) Persiste em ler, exortar e ensinar (1Tm 4.13).

h) Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos (2Tm 4.13).

i) Antes, crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pe 3.18).

04) as causas do antiintelectualismo.

Os principais fatores que contribuem para um forte antiintelectualismo no meio evangélico é o pragmatismo religioso e o empirismo desenfreado.
O pragmatismo baseia a verdade em sua utilidade e satisfação. O pragmático nunca pergunta se algo é verdadeiro, mas a sua pergunta é se algo funciona. A partir do momento que a funcionalidade de algo é a busca primaz do agente pesquisador, a sua tendência será o antiintelectualismo. A verdade, e sua busca, está em segundo plano. O pragmático descobre, por exemplo, que um homem cura enfermos com “o cuspe de Cristo”, em vez de buscar a base escriturística e fundamentar esse fato na verdade bíblica, o sujeito prefere a “cura do cuspe”, pois funciona.
O empirismo evangélico é pai do antiintelectualismo, pois baseia as suas “verdades” em experiência. As experiência são levadas as extremos, estabelecendo até doutrinas. Os “empiristas gospel” são anti-intelectuais de carteirinha. Um famoso pregador empirista, chamou o seu doutorado de porcaria, se vê o valor da teologia para esse pregador. É bom observar que há vários sites oferecendo doutorado de teologia por correspondência, puro engano e fraude.

05) o equilíbrio entre intelectualidade e devoção.

Há uma idéia muita errada, que associa estudo a apatia espiritual. O estudo não produz crentes nominais ou pessoas frias na fé com Cristo. Grandes eruditos, como muitos analfabetos estão mortos espiritualmente. O que determina comunhão com Deus não é o exterior (bens materiais, graduações etc), mas uma busca sincera por Deus. O mais importante é o equilíbrio de uma devoção emocional ao estudo intelectualizado. John Stott, em seu livro Cristianismo Equilibrado5, fez uma importante observação:

Alguns crentes são tão friamente intelectuais que se questiona serem eles mamíferos de sangue quente, para não dizer seres humanos, ao passo que outros são tão emocionais que se deseja saber se são possuidores de uma porção mínima de massa cinzenta. Eu me sinto constrangido a dizer que o mais perigoso dos dois extremos é o anteintelectualismo de depois a entrega ao emocionalismo...
Sinto-me na obrigação de acrescentar, contudo, que se o antiintelectualismo é perigoso, a polarização oposta é quase igualmente perigosa. Um hiperintelectualismo árido e sem vida, uma preocupação exclusiva com ortodoxia não é cristianismo do Novo Testamento. Não há dúvida de que os crentes primitivos eram profundamente motivados pela experiência de Jesus Cristo.


Nada de antiintelectualismo, mas não se deve cair no extremo do hiperintelectualismo, como lembra Stott. Ambos são prejudiciais, pois os extremos são perigosos. O estudo não pode deixar ninguém sem emoções, as emoções não podem deixar alguém sem racionalidade.

Conclusão:


O cristão deve regeitar a teologia, filosofia, biologia, psicologia e outros ramos de estudo que trazem conceitos baseados em mentiras, que contrariam as verdades bíblicas. Mas tudo aquilo que a teologia, filosofia, biologia, psicologia e outros ramos de estudo que trazem como verdades, que se baseam na revelação bíblica, deve ser abraçada pelo cristão. A frase do Clemente de Alexandria, um dos pais da igreja, deve ser lembrada, ele disse: “Toda verdade é a verdade de Deus”.

Referências bibliográficas:

1- PERCEY, Nancy. Verdade Absoluta. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 297 e 300.

2- HORTON, Stanley M. O Avivamento Pentecostal. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. 32,33.

3- frase de: LEMOS, Ruth Dorris. Atividade Feminina: Vida totalmente dedicada ao Mestre. Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro, maio de 2006, ano 76, n. 1452. p. 19.

4- MACEDO, Edir. A Libertação da Teologia, p. 17. citado por: SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 332.

5- Publicado pela CPAD.