segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Pregue a Palavra!

Os modismos que fazem mais sucesso no meio evangelical vem dos pregadores. Os divulgadores de heresias estão nos púlpitos. As distorções bíblicas saem da boca de “profetas”. Mediante tudo isso, fica a pergunta: o pregador foi chamado para pregar a verdade do evangelho ou para propagar distorções doutrinárias? Esse artigo tem como objetivo analisar dois aspectos: o conteúdo e característica da verdadeira mensagem de Deus e a postura do genuíno pregador.

01) O conteúdo e a característica da mensagem divina.

Paulo escreveu ao jovem pastor Timóteo:

Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino, que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina(2 Tm 4.1 e 2).

Esse texto mostra a necessidade da verdadeira mensagem do evangelho, pois é uma ordenança bíblica e essencial para a vida da igreja. Paulo começa a sua exortação com uma “elocução solene e enfática”, assim com lembra o teólogo John Stott¹. O “conjuro-te”, é traduzido pela Nova Versão Internacional por “eu exorto solenemente”, verifica-se a importância dessas últimas palavras do “doutor dos gentios”. Esses palavras emocionadas do apóstolo Paulo, o maior teólogo do cristianismo, alerta para uma necessidade diária, a genuína pregação do evangelho.
O ministro do evangelho deve está comprometido com a pregação da Palavra. Exercer uma retórica desprovida de conteúdo bíblico, de nada vale para o pregador do evangelho. Paulo exorta ao jovem Timóteo a pregar a Palavra, não as suas qualidades, idéias, conceitos e opiniões, mas somente a Santa Escritura; como escreveu John Stott: “Não temos nenhuma liberdade para inventar a nossa mensagem, mas somente para comunicar 'a palavra' proferida por Deus e agora entregue à Igreja, em sagrada custódia”².
O sentido do verbo pregar no grego, dá a idéia de “proclamação em praça pública”, pois a Palavra não deve ser secreta, mas exposta a todos.
Qual o contéudo da mensagem bíblica e como se pode identificar?

a) a pregação divina está constantemente preparada pela consciência da urgência kerigmática.

O verbo ephistëmi, "instar", significa “estar à mão, estar pronto”³. Como o bombeiro está sempre pronto para socorrer em emergências, o ministro da Palavra deve sempre está pronto para socorrer o perdido com as Escrituras. Isso demanda tempo e busca de capacitação, sendo assim, o pregador deve constantemente trabalhar com a sua principal ferramenta, que é a Palavra de Deus. O bombeiro desatento e despreparado, será uma tragédia para a sociedade que solicitou a urgência de seu trabalho, o mesmo acontece com o ministro que negligencia o seu trabalho, pois causará danos a comunidade cristã sob sua liderança.
Pedro exorta: “estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que pedir a razão da esperança que está em vós”(1Pe 3.15b), essa preparação é espiritual, intelectual e emocional, para lidar com diversas situações no ministério, como heresias, membros viciados em pecados, membros com problemas de ordem material ou emocional etc.
A preparação, portanto, é bíblica e necessária para todos os pregadores do evangelho. Quantos “sermões” são como comida de rua, preparadas de qualquer forma? Há aqueles que dizem: “Irmãos, eu quando cheguei nesse púlpito, não sabia o que ia pregar. Quando sentei nesse altar santo, logo o Senhor me disse: 'Filho, pregue tal coisa', e eis que estou aqui, para pregar aquilo que Deus quer”. Isso pode até soar espiritual, mas demostra falta de preparo, pois estudar e fazer um sermão em casa, antes do culto, é uma prática necessária e saudável para o rebanho. Quem disse que Deus não fala por meio de um sermão com esbouço, preparado com tempo e zelo?

b) a pregação divina é em todo tempo.

A pregação não deve ser feita, somente, quando é conveniente pregar. Paulo exorta a pregar em tempo e fora de tempo. Aqui não há um ensino para o pregador ser importuno ou agir sem bom-senso. Essa palavra paulina é que o pregador deve sempre entregar a mensagem divina, não quando for o melhor para ele, mas em qualquer momento.
A pregação deve ser feita quando se está debaixo de aplausos, mas também, quando se encontra debaixo de vaias. A pregação deve ser feita em lugares confortáveis, nas plataformas das catedrais, assim como nos vales e montanhas desse vasto mundo. A pregação deve ser feita entre os amigos, mas não se pode esquecer da homilia aos inimigos. Deve-se pregar na manhã de sol, mas também na noite chuvosa. Pregar no momento conveniente ou inconveniente.

c) a pregação divina redargua.

A palavra grega elegcho é traduzido por redarguir na Almeida Corrigida(RC); na Nova Versão Internacional (NVI) e Almeida Atualizada(RA), o verbo é traduzidor por corrigir; e na Bíblia de Jerusalém(BJ) é traduzido pelo verbo refutar. Elegcho traz a idéia de “provar, convencer, reprovar, repreender. Indica o falar com outra pessoa de tal modo que, se ela se chegar à confissão de fé, pelo menos fique convicta de seu pecado”4.
A pregação tem uma função corretiva. É preciso expor o pecado e o erro, mas sempre com bom-senso. O objetivo central de uma pregação corretiva é levar o ouvinte ao arrependimento e não expor alguém ao ridículo, denegrindo e difamando aquele que ouve a mensagem. A correção não agrada aquele que necessita dela, por esse motivo, o pregador não deve temer expor a mensagem, caindo na tentação de agradar a todos.

d) a pregação divina repreende.

O palavra epitimao significa “reprovar, repreender. A palavra denota, no Novo Testamento, a idéia de censura e admoestação severa”5. A pregação cristã não é um emaranhado de palavras agradáveis aos ouvidos dos pecadores, ou seja, de toda a humanidade. A diferença do verbo anterior, é que repreender dá uma idéia de combate enérgico por meio das palavras. Pessoas de mal testemunho e os promotores de heresias, precisam ver uma reprovação severa da comunidade cristã, em especial do ministro da Palavra. Não deve haver tolerância para os sectários.
Quantos pastores não estão comungando com hereges? Quantos estão convidando unicistas, judaizantes, angelólatras para pregarem no púlpito de suas igrejas? Quantos não perderam a visão apologética da fé neotestamentária, ao ponto de aceitar um negador da Trindade, como convidado especial de suas conferências?

e) a pregação divina exorta

A palavra grega, que foi traduzida pelo verbo exortar, é parakaleo. A exortação no NT significa um encorajamento e consolação. O Espírito Santo é conhecido como o Paracleto, o Consolador. Parakaleo é da mesma raiz de paracleto, ou seja, a mensagem divina tem por objetivo o encorajamento dos fracos e debilitados na fé, assim como traz conforto aos atribulados.

02) A postura do pregador bíblico

Mediante o exposto acima, o versículo em apreço ensina ao ministro da palavra a sua postura como servo de Deus.
O pregador teve ter paciência, pregando a Palavra com toda a longanimidade. Como lembra o pr. Antonio Gilberto:

A paciência como fruto do Espírito é inestimável na vida e trabalho do ministro do Evangelho. É preciso paciência na preparação- oração, estudo da Bíblia, treinamento e desenvolvimento. É necessária na liderança e ministração das pessoas.6

Essa postura cristã é a manifestação do caráter de Cristo na vida daquele que prega a Palavra do Senhor. A perseverança deve ser constante no ministério cristão. John Stott observa: “Mesmo sendo solene o nosso comissionamento, e urgente a nossa mensagem, não se justifica uma conduta rude ou impaciente”7. Russell Norman Champlin cita em seu comentário, uma frase de Bahnsen, que expressa a maneira como se deve pregar ao inconstante: “Os homens deveriam compreender o que ouvem, aprendendo a perceber por que razão são repreendidos”8. A mensagem sempre deve ser transmitida com amor e esperança na restauração do ouvinte( 2 Tm 2.25-26).
Além de paciente, o ministro da palavra deve ser um mestre, um professor ao seu rebanho. Paulo destaca a importância do ensino doutrinário, pois a doutrina (gr. Didachē) é o ensino sistemático das verdades bíblicas. O ministro dever ser “apto para ensinar” e “manejar bem a palavra da verdade”, nos dizeres paulinos.
Existe diferença entre ensinar e pregar? Sim, há diferenças. No meio evangelical e pentecostal é comum considerar pregador, aquele que tem um eloquência, com mensagem motivacional e que fale aos domingos à noite. Biblicamente falando, pregador é aquele que transmite a mensagem das boas novas ao perdido, é a kèrygma, ou seja, a proclamação da Sagrada Escritura, com apelos ao arrependimento. O ensino é a instrução evangélica aos crentes em Jesus, doutrinando com as verdades centrais da cristandade.
O ensino doutrinário é, em muitas congregações, deficiente. Alguns cultos de doutrina, só ficam no nome, pois se fala de usos e costumes, de testemunhos, de manifestações exóticas atribuídas ao Espírito Santo, mas a doutrina é que menos se fala. Muitos leitores desse texto talvez nunca ouviram uma pregação do culto de domino a noite, com o título: “Jesus Cristo- Verdadeiro Deus, verdadeiro homem” ou “A mortificação da natureza pecaminosa” mas certamente já ouviram mensagens triunfalistas, do tipo, é “só vitória”.
É tempo de despertamento doutrinário, pois sem a Palavra de Deus, o povo perece. Como escreveu John MacArthur: “a pregação bíblica correta deve ser sistemática, expositiva, teológica e teocêntrica”9.

Referências Bibliográficas:

1- STOTT, John. Tu, porém. 1 ed. São Paulo: ABU Editora, 1982, p. 57.

2- Idem.

3- RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985, p. 479.

4- Idem.

5- Idem.

6- GILBERTO, Antonio. O fruto do Espírito. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, 84.

7- STOTT, John. Tu, porém. Idem.

8- CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado. 1 ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1979, p. 398.

9- MacARTHUR, Jonh. Pregação Superficial. Revista Fé para Hoje. Cidade, Ano 2007, n. 30.

9 comentários:

Jacque disse...

Um dia eu posto algo legal aqui..
é que bem, sou muito sincera, esses assunto de religião eu não gosto muito de discutir, porque eu realmente não me interesso =D

Mas posso te deixar um Oi às vezes, né?

Vale salientar que seu blog é muitoo bonitinho e bem escrito.!!!

Parabénss, Guuuuuu!!

Beijos..

JAC

Daladier Lima disse...

Parabéns por seu post. Acho este assunto extremamente relevante, porque há uma negligência muito grande em nossas igrejas, com a exposição da Palavra de Deus.
Continue postando assuntos de interesse de todos que visitam teu site, e que Deus te abençoe ricamente.

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Meus parabéns por esse excelente post. O conteúdo está sintético, objetivo e profundo. Deus o abençoe. Tenho discutido com algusn blogueiros a respeito da filosofia da linguagem teológica, não no post, mas nas respostas as participações dos blogueiros no Teologia com Graça. Dê uma conferida, pois o seu post também trata da linguagem religiosa.

A respeito do presente post, ele aborda a exposição bíblica. No manual de exegese bíblica que estamos escrevendo, afirmamos que Exposição bíblica é o comentário de uma perícope bíblica, seja verbal ou escrita. A essência da exposição é a explicação. Exclusivamente no contexto eclesiástico, a exposição se realiza no cenário da Teologia Prática por meio da pregação ou do ensino. Esses dois momentos indissociáveis da liturgia cristã propõem-se a expor, narrar, explicar e interpretar o texto litúrgico, utilizando-se de variegados métodos que cumpram os propósitos delineados. Geralmente esses métodos e as técnicas envolvidas na exposição bíblica dependem da perícia de quem as usam, e diferem-se entre as técnicas retóricas da pregação e as técnicas e métodos exegéticos. Neste particular se insere a dicotomia entre o real e o ideal. A experiência tem ensinado que essas duas habilidades nem sempre estão associadas a um mesmo expositor, podendo ser ele um excelente orador sem dominar uma única regra da exegese e ser um excelente exegeta sem a sensibilidade expositiva de um pregador. Estabelecido essa premissa passemos a responder à indagação posterior: O ideal é a osmose entre essas duas habilidades e o completo domínio de ambas as técnicas pelo preletor.
Um abraço

Pastor Geremias do Couto disse...

Caro Gutierres:

O grende problema de nossos dias é que há pouca exposição bíblica, as mensagens, em sua maioria, são de conteúdo motivacional e prega-se o que as pessoas querem ouvir, não o que Deus quer falar.

Percebe-se, todavia, que, não obstante essa crise na área da pregação, há um movimento do Espírito despertando consciências (e você é uma delas) para o retorno ao "kerigma", à exposição bibliocêntrica, como o caminho para uma igreja saudável e avivada.

Com certeza, Deus temos a grave responsabilidade de sermos profetas para esta geração em nosso país. Oremos para que sejamos fiéis ao nosso chamado.

Abraços.

Carlos Roberto Silva, Pr. disse...

Olá irmão Gutierrez
A Paz do Senhor!
Muito bem escrito e sintetizado seu post.
Acredito que o grande problema do nosso tempo são algumas tentações que rondam nossos púlpitos:
1 - O desejo de agradar os ouvintes com temas motivacionais,
2 - A tentação do pregador se mostrar espetacular,
3 - O anseio messiânico de alguns pregadores, de serem conhecidos como profetas de um novo mover espiritual para a última hora.
Que Deus continue a levantar jovens como vc., comprometidos com a Sua palavra de forma genuína.

Valmir Nascimento Milomem disse...

Gutierres,

“… porque a letra mata e o espírito vivifica” II Cor. 3.6
Freqüentemente tal versículo é utilizado no sentido de se desvalorizar os estudos e o conhecimento, especialmente o secular. Segundo tal inferência, a letra em questão, diz respeito a letra do conhecimento, como vc mesmo anotou.

Recentemente, inclusive, tomei ciência de uma “festividade” de novos convertidos em que o tema foi exatamente tal passagem bíblica, baseado nesse pensamento genuinamente equivocado.

Não é preciso muito conhecimento bíblico-teológico para se depreender do texto sob análise que Paulo está fazendo referência à letra da lei, e não ao conhecimento. Veja-se que o capítulo em que o versículo está inserido tem como tema principal a diferença entre o ministério do Antigo e do Novo Testamento, fato este que pode ser plenamente verificado nos versículos posteriores, onde Paulo escreve:

“O ministério que trouxe a morte foi gravado com letras em pedras; mas este ministério veio com glória que os israelitas não podiam fixar os olhos na face de Moisés, por causa do resplendor de seu rosto, ainda que desvanecente” v. 7 – NVI
Ao comentar aludida passagem bíblica, a Bíblia de Estudo NVI, explica:
“Letra é o sinônimo de lei como padrão exterior, diante da qual todas as pessoas- por serem transgressoras – constam como culpadas e condenadas à morte. Por isso é apresentada como “o ministério que trouxe a morte” e o “o ministério que traz condenação” (v. 7,9). Por outro lado, o Espírito que dá vida é o Espírito do Deus vivo”, que, cumprindo a promessa da nova aliança, escreve a mesma lei no interior, ‘em tábuas de corações humanos”.

Na paz

Valmir

Gutierres Siqueira, 18 anos disse...

Agradeço pelas participações de minha amiga Jacqueline, o irmão Delier, o Pr. Esdras Bentho, o Pr. Geremias do Couto e o Pr. Carlos Roberto eo ir. Valmir. Continuem a visitar o Blog, e fiquem a vontade em opinar, fazer observações e criticas.

Vinicius disse...

E ai cara, parabens pelo blog, muito interessante.

Nao considere como uma critica, mais uma sujestão, porque eu sei que Deus vai te compensar pela sua forma de divulgar a palavra dele

Olha, eu sou web master, e gostaria de te dar uma pequena dica em relação ao seu layout

>> 1º - Procure criar um blog mais navegavel, quero dizer, com um menu te te leve sempre a uma home page com facilidade e boa visibiladade do menu para o usuario

>> 2º - Conserte o seu javascript porque esta com a data errada, é coisa rapida, detalhe que faz diferença

>> 3º - Tente criar uma home page bem interava ao usuario fornecendo-lhe serviços como downloads, imagens, mensagens, etc

...................................

Caso queria conversar comigo depois:
vinicius_tvrd@hotmail.com

Repito, nao considere uma critica, sim dicas.

Fica com Deus

Alexandre Motta disse...

Parabéns! Você fez uma maravilhosa mensagem expositiva que com certeza tem um grande fundamento em relação ao comportamento de pregações e pregadores. Não obstante quero lhe dizer que a dita mensagem impactou o meu ser, sendo de grande ajuda para mim. Deus te abençoe e que te use como um grande ensinador das grandezas e maravilhas de Deus!