domingo, 28 de outubro de 2007

Reforma Protestante: uma recolocação doutrinária

A igreja reformada sempre deve estar se reformando¹! Essa máxima dos reformadores nunca esteve tão atual na história do protestantismo. Urge, após 490 anos de história
protestante, uma profunda reforma no seio evangélico. Reforma não é invenção de novas teologias, mas é o resgate das doutrinas bíblicas, sendo aquelas doutrinas que foram esquecidas ou substituídas por tratados de homens.
Em que pontos os protestantes hodiernos precisam recolocar verdades bíblicas? Veja os 15 pontos abaixo:
1° Recolocar a doutrina da graça, em lugar da maldição hereditária.
2° Recolocar a doutrina do sacerdócio universal, em lugar da "renovação apostólica".
3° Recolocar a Palavra de Deus em lugar das experiências.
4° Recolocar a doutrina da soberania de Deus, em lugar da deificação do homem.
5° Recolocar a esperança bendita da vinda de Cristo, em lugar do triunfalismo.
6° Recolocar a defesa da fé, em lugar do pragmatismo "evangélico".
7° Recolocar os dons espirituais, em lugar de manifestações extravagantes.
8° Recolocar a adoração cristocêntrica, em lugar de manifestações antropocêntricas.
9° Recolocar a ortodoxia teológica, em lugar do liberalismo existencialista.
10°Recolocar o cristianismo bíblico, como fonte das respostas humanas, em lugar do relativismo pós-moderno.
11°Recolocar o ensino da Palavra em lugar de espetáculos humanos.
12°Recolocar músicas de conteúdo, em lugar de sons vazios da verdadeira adoração.
13°Recolocar o culto racional, em lugar das reuniões emocionalistas.
14°Recolocar a direção do culto à Deus, em lugar de centralizar em prosperidade.
15°Recolocar uma vida devocional em santidade, no lugar da busca desenfreada pelos prazeres.
Todas essas recolocações devem ser baseadas na infalível e inerrante Palavra de Deus, e os protestantes não devem esquecer da Sola Sprictura, ou seja, a igreja oriunda da Reforma deve se basear, somente, nas Sagradas Escrituras, a única regra de fé e prática cristã. Pois, como disse Thomas Watson: "A Bíblia é a biblioteca do Espírito Santo".
A todos os protestantes brasileiros, um feliz 490 anos de Reforma. E que nesse século os evangélicos brasileiros não se esqueçam dos princípios da reforma²: Sola Sprictura(Somente as Escrituras), Sola Gracia (Somente a graça), Solo Cristus (Somente Cristo) e Sola Fides (Somente a fé).

Notas:

1- Expressão em latim: "Eclesia Reformata et Semper Reformanda "
2- Expressões latinas: Somente as Escrituras, Somente a graça, Somente Cristo e Somente a fé.

Abre-se um debate:

Na sua opinião, qual é a principal reforma que a igreja brasileira precisa passar, nesses dias que antecedem a vinda de Cristo? Escreva um comentário!

domingo, 21 de outubro de 2007

Análise crítica do Congresso de Missões dos GMUH

Os Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) é uma organização evangélica que faz um ótimo trabalho de missões por todo o mundo. Há vários missionários sustentados por esse ministério e os GMHU, tem feito um trabalho eficaz na Amazônia e no Nordeste. O propósito desse artigo não é contestar o trabalho missionário dos GMUH e nem a seriedade dos integrantes desse ministério, mas sim, analisar de maneira crítica, um evento anual e de grande sucesso: O congresso de missões dos GMUH.
Esse congresso reúne milhares de pessoas na cidade de Camburiú, em Santa Catarina , e é até prestigiando pelo governo local, pois há uma grande movimentação na cidade. É um dos eventos mais disputados por cantores e pregadores de cunho “avivalista”. Além disso, o congresso conta com a participação de famosos pregadores, como Marco Feliciano, Hidekasu Takaiama, Gilmar Santos etc.
Antes da análise é preciso esclarecer que esse texto foi escrito por um pentecostal, pertencente à Igreja Evangélica Assembléia de Deus e que o objetivo não é ofender pessoas, mas como acima está foi exposto, o propósito é analisar esse congresso anual do GMUH.
Quais são os pontos críticos do evento?

01) Promove os manikos do pentecostalismo.

Manikos é uma expressão na teologia pentecostal para designar as manifestações extravagantes atribuídas ao poder do Espírito Santo. Essas manifestações nada tem haver com os dons espirituais, mas são extra-bíblicos, e baseados em experiências de homens do passado. O fenômeno do “cair no espírito”, “risada santa”, “êxtase”, “unção dos animais” podem ser classificadas como manikos, pois não há base bíblica para tais manifestações.
No congresso dos GMHU é comum a promoção desses fenômenos, herdadas da “bênção de Toronto”. É certo que, esse congresso foi o maior divulgador de tais fenômenos no Brasil.

02) Não há visão apologética e de preservação doutrinária.

O evento é promovido por uma congregação pertencente à Assembléia de Deus, denominação pentecostal clássica. Apesar dessa base, não há visão apologética no congresso, exemplo disso foi à participação do Pr. Carlos Móises, líder unicista de uma seita que nega a doutrina da Santíssima Trindade.
A “renovação apostólica” tem o seu espaço no evento do GMUH. Geziel Gomes e Oriel de Jesus, agora dizem que são “apóstolos”. Esses dois pastores, que moram nos Estados Unidos, e os seus liderados, são constantes no congresso.
Um líder muito celebrado nos GMUH é Benny Hinn; sempre há menção honrosa ao seu nome por alguns pregadores. Benny Hinn é um dos mais controvertidos dos pregadores contemporâneos.


03) Promove um culto exclusivamente emocional

É claro que o homem é um ser emocional, isso faz parte da natureza humana. Mas não se pode esquecer que junto com a Queda de Adão, as emoções foram afetadas pelo pecado, assim como a racionalidade. Uma fé baseada em emoções tende ao fracasso.
O estilo de pregação no congresso é altamente emocional e pouca reflexiva. Os assuntos abordados nos sermões, isso quando há sermões, são de auto-ajuda ou triunfalistas. É claro que não são todos. Há pregações que, às vezes, são altamente sensacionalistas.

04) Crítica sem fundamento aos “não alinhados”.

Muitos pregadores desse congresso criticam duramente a quem não está alinhado com a forma adotada por eles. Um dos preletores há alguns anos, criticou o Congresso Mundial Pentecostal, realizado pela Assembléia de Deus em 1997, na cidade de São Paulo, pois “ali não houve milagres”.
Só é pentecostal quem se encaixa a aquela maneira extravagante de pentecostalismo, adotada pela maioria dos pregadores desse evento. Eles, na verdade, já criaram um estilo que permeia por todo o Brasil.
Os tradicionais já foram chamados de igrejas “sorveterianas”, isso é uma falta de respeitos aos irmãos tradicionais, que também são habitação do Espírito Santo, pois foram regenerados por Cristo.

Conclusão:

Tudo na vida cristã deve ser analisado a luz da Escrituras, mesmo que a verdade não agrade a alguns. Esse texto encerra com essa forte frase paulina: “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade”.


Escreva a sua opinião!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O antiintelectualismo mata, mas o Espírito vivifica

“Meu negócio não é como teologia, mas com joelhologia”. Essa frase, que tem aparência de espiritualidade, foi criada por um pregador piauense; e expressa um forte antiintelectualismo. O antiintelectualismo se manifesta na oposição do estudo sistemático da Sagrada Escritura, por meio da teologia. Os anti-intelectuais são contra o estudo acadêmico, pois segundo eles, o crente precisa somente orar e o Espírito Santo revela a sua vontade. A curso teológico, mesmo o ortodoxo, é criticado com unhas e dentes.

01) A origem do antiintelectualismo protestante.

O início do antiintelectualismo no protestantismo começou nos exageros do pregadores avivalistas do século 19, onde se dá o início do evangelicalismo. O problemas dos reavivamento nos Estados Unidos é que eles exageraram no aspecto emocional do cristianismo. Reagindo contra a apatia devocional de suas congregações, que eram secas emocionalmente, muitos crentes do século 19 caíram em outro estremo, o desprezo pela intelectualidade. “O pastor não eram mais um professor que ensinava uma determinada congregação, mas era uma celebridade que inspirava o público em massa”, observa Nancy Pearcey, que lembra os avivalistas que souberam manter o equilíbrio entre devoção e racionalismo, citando o exemplo de Jonathan Edwards¹.
O anti-intelectualismo já foi muito forte entre os pentecostais, fato esse que não pode ser negado. O teólogo Stanley M. Horton, o maior expoente hodierno do pentecostalismo clássico, escreveu:

O Dr. Burton Goddard, que me ensinou hebraico no Gordon (Seminário Teológico Gordon-Conwell), incentivou-me a ir para Harvard fazer doutorado em Antigo Testamento. Ele também me ajudou a conseguir uma excelente bolsa de estudos. Quando contei ao irmão Smuland, meu superintendente distrital, que eu estava agradecido a Deus pela bolsa de estudos, ele retrucou: - A Deus ou ao diabo?²


A missionária norte-americana Ruth Dorris Lemos junto como o seu esposo, o Rev. João Kolenda Lemos, implantaram o primeiro seminário assembleiano no Brasil, O Instituto Bíblico das Assembléias de Deus(IBAD) em outubro de 1958. Ela conta que “eles (os pastores brasileiros) não tinham uma visão desse trabalho aqui no Brasil. E também missionários de outros países não tiveram esse sentimento”.³
O antiintelectualismo dos assembleianos brasileiros não partiu dos missionários suecos. Eles sempre valorizaram o estudo bíblico, mas não tinham uma visão de seminários nos moldes americanos. O missionário Gunnar Vingren foi um dedicado seminarista por quatro anos em Chicago(EUA). O que prevaleceu foi as Escolas Bíblicas de Obreiros (EBO), que já fazem parte da tradição assembleiana. As EBO´s eram realizadas em pequenos períodos no ano. Apesar das EBO´s, muitos pastores pentecostais no Brasil eram anti-intelectuais e acusavam os seminários de “fábricas de pastores”.
Esse tempo passou, hoje o número de eruditos pentecostais só está crescendo, os seminários e faculdades assembleianas proliferam por todo o Brasil. Hoje, o perigo está em vários jovens que buscam seminários, e caem em covis de cobras do liberalismo teológico de Rudolf Bultmann ou da neo-ortodoxia de Karl Barth. Há até pentecostal que é considerado maior defensor do teísmo aberto, modismo teológico de origem liberal.

02) o antiintelectualismo e o neopentecostalismo.
O antiintelectualismo se manifesta de maneira violenta, hoje, no neopentecostalismo. O maior líder neopentecostal do Brasil escreveu:

Todas as formas e ramos da teologia são fúteis, não passam de emaranhados de idéias que nada dizem ao inculto, confundem os simples e iludem o sábio. Nada acrescentam à fé e nada fazem pelos homens, a não ser aumentar sua capacidade de discutir e discordar entre si. 4

Será que esse líder não lembra dos benefícios, para o cristianismo, por parte dos teólogos ortodoxos que amavam a palavra de Deus? Certamente, se as ovelhas de muitos mercadores na fé, tivessem o mínimo de conhecimento bíblico, não entregariam os seus bens para sugadores e aproveitados, que usam a Bíblia de maneira indevida.
A cada dia nasce uma nova denominação neopentecostal no Brasil, mas a maioria esmagadora dessas novas denominações, já nascem sem Escola Dominical. Será um interesse na ignorância do povo? Infelizmente, muitas congregações de denominações tradicionais abandonaram a Escola Dominical.

03) a falácia do antiintelectualismo.

Um dos textos bíblicos mas usados pelos defensores do antiintelectualismo, se encontra em 2Co 3.6b(A letra mata, e o espírito vivifica). Quanto Paulo diz que a letra mata, ele não está se referindo ao estudo, mas a letra da lei de Moíses, que a ninguém salva, mas mostra o estado pecaminoso do homem e a severidade em relação ao pecado.
A Bíblia, pelo contrário, incetiva a busca pelo conhecimento:

a) Não se aparte de sua boca o livro dessa Lei; antes medita nele dia e noite (Js 1.8a)

b) A exposição de tuas palavras dá luz e dá entendimento aos símplices (Sl 119.130).

c) No ano primeiro de seu reinado, eu Daniel, entendi pelos livros que o número de anos, de que falou o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de acabar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos (Dn 9.2).

d) Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor (Os 6.3a).

e) Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus (Mt 22.29).

f) Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam (Jo 5.39).

g) Persiste em ler, exortar e ensinar (1Tm 4.13).

h) Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos (2Tm 4.13).

i) Antes, crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pe 3.18).

04) as causas do antiintelectualismo.

Os principais fatores que contribuem para um forte antiintelectualismo no meio evangélico é o pragmatismo religioso e o empirismo desenfreado.
O pragmatismo baseia a verdade em sua utilidade e satisfação. O pragmático nunca pergunta se algo é verdadeiro, mas a sua pergunta é se algo funciona. A partir do momento que a funcionalidade de algo é a busca primaz do agente pesquisador, a sua tendência será o antiintelectualismo. A verdade, e sua busca, está em segundo plano. O pragmático descobre, por exemplo, que um homem cura enfermos com “o cuspe de Cristo”, em vez de buscar a base escriturística e fundamentar esse fato na verdade bíblica, o sujeito prefere a “cura do cuspe”, pois funciona.
O empirismo evangélico é pai do antiintelectualismo, pois baseia as suas “verdades” em experiência. As experiência são levadas as extremos, estabelecendo até doutrinas. Os “empiristas gospel” são anti-intelectuais de carteirinha. Um famoso pregador empirista, chamou o seu doutorado de porcaria, se vê o valor da teologia para esse pregador. É bom observar que há vários sites oferecendo doutorado de teologia por correspondência, puro engano e fraude.

05) o equilíbrio entre intelectualidade e devoção.

Há uma idéia muita errada, que associa estudo a apatia espiritual. O estudo não produz crentes nominais ou pessoas frias na fé com Cristo. Grandes eruditos, como muitos analfabetos estão mortos espiritualmente. O que determina comunhão com Deus não é o exterior (bens materiais, graduações etc), mas uma busca sincera por Deus. O mais importante é o equilíbrio de uma devoção emocional ao estudo intelectualizado. John Stott, em seu livro Cristianismo Equilibrado5, fez uma importante observação:

Alguns crentes são tão friamente intelectuais que se questiona serem eles mamíferos de sangue quente, para não dizer seres humanos, ao passo que outros são tão emocionais que se deseja saber se são possuidores de uma porção mínima de massa cinzenta. Eu me sinto constrangido a dizer que o mais perigoso dos dois extremos é o anteintelectualismo de depois a entrega ao emocionalismo...
Sinto-me na obrigação de acrescentar, contudo, que se o antiintelectualismo é perigoso, a polarização oposta é quase igualmente perigosa. Um hiperintelectualismo árido e sem vida, uma preocupação exclusiva com ortodoxia não é cristianismo do Novo Testamento. Não há dúvida de que os crentes primitivos eram profundamente motivados pela experiência de Jesus Cristo.


Nada de antiintelectualismo, mas não se deve cair no extremo do hiperintelectualismo, como lembra Stott. Ambos são prejudiciais, pois os extremos são perigosos. O estudo não pode deixar ninguém sem emoções, as emoções não podem deixar alguém sem racionalidade.

Conclusão:


O cristão deve regeitar a teologia, filosofia, biologia, psicologia e outros ramos de estudo que trazem conceitos baseados em mentiras, que contrariam as verdades bíblicas. Mas tudo aquilo que a teologia, filosofia, biologia, psicologia e outros ramos de estudo que trazem como verdades, que se baseam na revelação bíblica, deve ser abraçada pelo cristão. A frase do Clemente de Alexandria, um dos pais da igreja, deve ser lembrada, ele disse: “Toda verdade é a verdade de Deus”.

Referências bibliográficas:

1- PERCEY, Nancy. Verdade Absoluta. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 297 e 300.

2- HORTON, Stanley M. O Avivamento Pentecostal. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. 32,33.

3- frase de: LEMOS, Ruth Dorris. Atividade Feminina: Vida totalmente dedicada ao Mestre. Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro, maio de 2006, ano 76, n. 1452. p. 19.

4- MACEDO, Edir. A Libertação da Teologia, p. 17. citado por: SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 332.

5- Publicado pela CPAD.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Pregue a Palavra!

Os modismos que fazem mais sucesso no meio evangelical vem dos pregadores. Os divulgadores de heresias estão nos púlpitos. As distorções bíblicas saem da boca de “profetas”. Mediante tudo isso, fica a pergunta: o pregador foi chamado para pregar a verdade do evangelho ou para propagar distorções doutrinárias? Esse artigo tem como objetivo analisar dois aspectos: o conteúdo e característica da verdadeira mensagem de Deus e a postura do genuíno pregador.

01) O conteúdo e a característica da mensagem divina.

Paulo escreveu ao jovem pastor Timóteo:

Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino, que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina(2 Tm 4.1 e 2).

Esse texto mostra a necessidade da verdadeira mensagem do evangelho, pois é uma ordenança bíblica e essencial para a vida da igreja. Paulo começa a sua exortação com uma “elocução solene e enfática”, assim com lembra o teólogo John Stott¹. O “conjuro-te”, é traduzido pela Nova Versão Internacional por “eu exorto solenemente”, verifica-se a importância dessas últimas palavras do “doutor dos gentios”. Esses palavras emocionadas do apóstolo Paulo, o maior teólogo do cristianismo, alerta para uma necessidade diária, a genuína pregação do evangelho.
O ministro do evangelho deve está comprometido com a pregação da Palavra. Exercer uma retórica desprovida de conteúdo bíblico, de nada vale para o pregador do evangelho. Paulo exorta ao jovem Timóteo a pregar a Palavra, não as suas qualidades, idéias, conceitos e opiniões, mas somente a Santa Escritura; como escreveu John Stott: “Não temos nenhuma liberdade para inventar a nossa mensagem, mas somente para comunicar 'a palavra' proferida por Deus e agora entregue à Igreja, em sagrada custódia”².
O sentido do verbo pregar no grego, dá a idéia de “proclamação em praça pública”, pois a Palavra não deve ser secreta, mas exposta a todos.
Qual o contéudo da mensagem bíblica e como se pode identificar?

a) a pregação divina está constantemente preparada pela consciência da urgência kerigmática.

O verbo ephistëmi, "instar", significa “estar à mão, estar pronto”³. Como o bombeiro está sempre pronto para socorrer em emergências, o ministro da Palavra deve sempre está pronto para socorrer o perdido com as Escrituras. Isso demanda tempo e busca de capacitação, sendo assim, o pregador deve constantemente trabalhar com a sua principal ferramenta, que é a Palavra de Deus. O bombeiro desatento e despreparado, será uma tragédia para a sociedade que solicitou a urgência de seu trabalho, o mesmo acontece com o ministro que negligencia o seu trabalho, pois causará danos a comunidade cristã sob sua liderança.
Pedro exorta: “estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que pedir a razão da esperança que está em vós”(1Pe 3.15b), essa preparação é espiritual, intelectual e emocional, para lidar com diversas situações no ministério, como heresias, membros viciados em pecados, membros com problemas de ordem material ou emocional etc.
A preparação, portanto, é bíblica e necessária para todos os pregadores do evangelho. Quantos “sermões” são como comida de rua, preparadas de qualquer forma? Há aqueles que dizem: “Irmãos, eu quando cheguei nesse púlpito, não sabia o que ia pregar. Quando sentei nesse altar santo, logo o Senhor me disse: 'Filho, pregue tal coisa', e eis que estou aqui, para pregar aquilo que Deus quer”. Isso pode até soar espiritual, mas demostra falta de preparo, pois estudar e fazer um sermão em casa, antes do culto, é uma prática necessária e saudável para o rebanho. Quem disse que Deus não fala por meio de um sermão com esbouço, preparado com tempo e zelo?

b) a pregação divina é em todo tempo.

A pregação não deve ser feita, somente, quando é conveniente pregar. Paulo exorta a pregar em tempo e fora de tempo. Aqui não há um ensino para o pregador ser importuno ou agir sem bom-senso. Essa palavra paulina é que o pregador deve sempre entregar a mensagem divina, não quando for o melhor para ele, mas em qualquer momento.
A pregação deve ser feita quando se está debaixo de aplausos, mas também, quando se encontra debaixo de vaias. A pregação deve ser feita em lugares confortáveis, nas plataformas das catedrais, assim como nos vales e montanhas desse vasto mundo. A pregação deve ser feita entre os amigos, mas não se pode esquecer da homilia aos inimigos. Deve-se pregar na manhã de sol, mas também na noite chuvosa. Pregar no momento conveniente ou inconveniente.

c) a pregação divina redargua.

A palavra grega elegcho é traduzido por redarguir na Almeida Corrigida(RC); na Nova Versão Internacional (NVI) e Almeida Atualizada(RA), o verbo é traduzidor por corrigir; e na Bíblia de Jerusalém(BJ) é traduzido pelo verbo refutar. Elegcho traz a idéia de “provar, convencer, reprovar, repreender. Indica o falar com outra pessoa de tal modo que, se ela se chegar à confissão de fé, pelo menos fique convicta de seu pecado”4.
A pregação tem uma função corretiva. É preciso expor o pecado e o erro, mas sempre com bom-senso. O objetivo central de uma pregação corretiva é levar o ouvinte ao arrependimento e não expor alguém ao ridículo, denegrindo e difamando aquele que ouve a mensagem. A correção não agrada aquele que necessita dela, por esse motivo, o pregador não deve temer expor a mensagem, caindo na tentação de agradar a todos.

d) a pregação divina repreende.

O palavra epitimao significa “reprovar, repreender. A palavra denota, no Novo Testamento, a idéia de censura e admoestação severa”5. A pregação cristã não é um emaranhado de palavras agradáveis aos ouvidos dos pecadores, ou seja, de toda a humanidade. A diferença do verbo anterior, é que repreender dá uma idéia de combate enérgico por meio das palavras. Pessoas de mal testemunho e os promotores de heresias, precisam ver uma reprovação severa da comunidade cristã, em especial do ministro da Palavra. Não deve haver tolerância para os sectários.
Quantos pastores não estão comungando com hereges? Quantos estão convidando unicistas, judaizantes, angelólatras para pregarem no púlpito de suas igrejas? Quantos não perderam a visão apologética da fé neotestamentária, ao ponto de aceitar um negador da Trindade, como convidado especial de suas conferências?

e) a pregação divina exorta

A palavra grega, que foi traduzida pelo verbo exortar, é parakaleo. A exortação no NT significa um encorajamento e consolação. O Espírito Santo é conhecido como o Paracleto, o Consolador. Parakaleo é da mesma raiz de paracleto, ou seja, a mensagem divina tem por objetivo o encorajamento dos fracos e debilitados na fé, assim como traz conforto aos atribulados.

02) A postura do pregador bíblico

Mediante o exposto acima, o versículo em apreço ensina ao ministro da palavra a sua postura como servo de Deus.
O pregador teve ter paciência, pregando a Palavra com toda a longanimidade. Como lembra o pr. Antonio Gilberto:

A paciência como fruto do Espírito é inestimável na vida e trabalho do ministro do Evangelho. É preciso paciência na preparação- oração, estudo da Bíblia, treinamento e desenvolvimento. É necessária na liderança e ministração das pessoas.6

Essa postura cristã é a manifestação do caráter de Cristo na vida daquele que prega a Palavra do Senhor. A perseverança deve ser constante no ministério cristão. John Stott observa: “Mesmo sendo solene o nosso comissionamento, e urgente a nossa mensagem, não se justifica uma conduta rude ou impaciente”7. Russell Norman Champlin cita em seu comentário, uma frase de Bahnsen, que expressa a maneira como se deve pregar ao inconstante: “Os homens deveriam compreender o que ouvem, aprendendo a perceber por que razão são repreendidos”8. A mensagem sempre deve ser transmitida com amor e esperança na restauração do ouvinte( 2 Tm 2.25-26).
Além de paciente, o ministro da palavra deve ser um mestre, um professor ao seu rebanho. Paulo destaca a importância do ensino doutrinário, pois a doutrina (gr. Didachē) é o ensino sistemático das verdades bíblicas. O ministro dever ser “apto para ensinar” e “manejar bem a palavra da verdade”, nos dizeres paulinos.
Existe diferença entre ensinar e pregar? Sim, há diferenças. No meio evangelical e pentecostal é comum considerar pregador, aquele que tem um eloquência, com mensagem motivacional e que fale aos domingos à noite. Biblicamente falando, pregador é aquele que transmite a mensagem das boas novas ao perdido, é a kèrygma, ou seja, a proclamação da Sagrada Escritura, com apelos ao arrependimento. O ensino é a instrução evangélica aos crentes em Jesus, doutrinando com as verdades centrais da cristandade.
O ensino doutrinário é, em muitas congregações, deficiente. Alguns cultos de doutrina, só ficam no nome, pois se fala de usos e costumes, de testemunhos, de manifestações exóticas atribuídas ao Espírito Santo, mas a doutrina é que menos se fala. Muitos leitores desse texto talvez nunca ouviram uma pregação do culto de domino a noite, com o título: “Jesus Cristo- Verdadeiro Deus, verdadeiro homem” ou “A mortificação da natureza pecaminosa” mas certamente já ouviram mensagens triunfalistas, do tipo, é “só vitória”.
É tempo de despertamento doutrinário, pois sem a Palavra de Deus, o povo perece. Como escreveu John MacArthur: “a pregação bíblica correta deve ser sistemática, expositiva, teológica e teocêntrica”9.

Referências Bibliográficas:

1- STOTT, John. Tu, porém. 1 ed. São Paulo: ABU Editora, 1982, p. 57.

2- Idem.

3- RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985, p. 479.

4- Idem.

5- Idem.

6- GILBERTO, Antonio. O fruto do Espírito. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, 84.

7- STOTT, John. Tu, porém. Idem.

8- CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado. 1 ed. São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1979, p. 398.

9- MacARTHUR, Jonh. Pregação Superficial. Revista Fé para Hoje. Cidade, Ano 2007, n. 30.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Crentes arrebatados?

É comum no meio de pentecostais ou neopentecostais contemporâneos, o relato de arrebatamentos e subidas ao céu, como descidas ao inferno. Essa prática carece de respaldo bíblico, pois todo protestante deveria lembrar que a Bíblia é a única regra de fé e prática do cristão.
Os defensores desse modismo baseiam em dois personagens bíblicos, Paulo e João, que foram arrebatados até ao céu. Em 2 Co 12.1-6, Paulo relata a sua experiência em um arrebatamento, onde ele ouviu “palavras inefáveis”, ou seja, revelações que deram origem a boa parte das epístolas canônicas¹. O propósito do arrebatamento de Paulo foi receber as revelações das verdades neotestamentárias. Da mesma forma, o apóstolo João foi arrebatado(Ap 1.10), para receber as revelações que hoje é conhecida como o livro do Apocalipse (Gr. Apokalupsis, revelação). Esses dois exemplos são especiais, pois esses apóstolos foram arrebatados para receber verdades canônicas, sendo assim, não são justificativa para os arrebatados modernos, pois ninguém pode nessa era produzir novas verdades bíblicas, pois o cânon bíblico está fechado.
Há vários exemplos de pessoas que foram “arrebatadas”, que trouxeram prejuízo, com os seus falsos ensinamentos. Quem não se lembra do pastor que foi no inferno, e o diabo disse que a calça jeans era do inferno, assim como a maquiagem e outros adornos. Quantos pessoas não aceitaram isso como verdade bíblica! Há outro pastor que foi no céu e com uma reunião com a Trindade, Deus Pai falou a esse “apóstolo”, que ele seria o último canal de avivamento na terra. Esse “apóstolo” chegou a conversar com Paulo e João, quanta aberração! Não seria isso um “espiritismo gospel”, pois Paulo e João estão mortos. Cabe a observação do pr. Ciro Zibordi, que escreve: “Ao contrário de alguns pregadores que também dizem ter visitado o céu, Paulo não se gloriou por causa dessa experiência sobrenatural”.² A maioria desses “arrebatados” se colocam como os únicos ungidos, cheirando soberba e arrogância.
O livro de Atos não relata arrebatamentos de crentes, como uma manifestação do Espírito Santo. Esse modismo leva muitos a buscarem novidades de revelações celestiais e desprezam a divina e sublime revelação, que é a Sagrada Escritura. Deus ainda fala por meio de revelações(dom da palavra do conhecimento), visões, profecias e proclamações da Palavra. Mas cabe uma observação, pois assim como a pregação da Palavra deve passar pelo exame cuidadoso, baseado na verdade escriturística; a profecia, visões e revelações devem passar pelo exame bíblico. Essa manifestações não devem criar novas doutrinas, mas somente reafirmar as verdades bíblicas.
Muitos, baseiam sua convicção doutrinária encima de experiências pessoais, são vítimas de um cruel empirismo, em que o alicerce doutrinário de suas congregações são rasos e fracos. Como lembra o teólogo pentecostal Esequias Soares:

A emoção caiu, também, com a natureza humana no Éden e, por isso, a fé não pode ser fundamentada na experiência humana...As experiências pessoais são marcas importantes na vida dos pentecostais, cremos em um Deus que se comunica com seus filhos por sonhos, visões, profecias, mas essas experiências são para edificação pessoal e não para estabelecer doutrinas. O cristianismo autêntico não deve ir além das Escrituras Sagradas. A Bíblia é a única autoridade para a vida do cristão

Tudo aquilo que Deus faz tem um propósito, que aos homens estão revelados ou não, mas qual seria o propósito dos arrebatamentos modernos, quando a igreja tem a Palavra de Deus na pregação e a manifestação dos dons espirituais? O que aconteceu com Paulo e João, foram fatos exclusivos de sua época e do colegiado apostólico, para que hoje pudesse haver a Palavra escrita. Fica a recomendação de Paulo, o apóstolo: “aprendais a não ir além do que está escrito”(1 Co 4.6b).

Notas e Referências bibliográficas:

1- Poucos exegetas concordam que as revelações (v.7) seriam conteúdo canônico. Reconheço que a melhor interpretação seja de Margaret E. Thrall, que considera que as palavras eram “louvores oferecidos a Deus pelos habitantes do céu”. O teólogo Anthony D. Palma, concordando com o Dr. Harris disse que “talvez o esplendor do mundo espiritual de que Paulo ouviu e viu, tenha causado a perda de toda a consciência de sua própria existência no corpo”. Palma ainda diz que “a grandeza destas revelações seria tal que, ainda que lhe fosse permitido falar delas, nenhuma palavra humana seria adequada”. Segundo Rienecker e Roger, o verbo inefável era uma “palavra usada frequentemente para os segredos divinos ocultos aos homens”.
Mesmo que o propósito do arrebatamento de Paulo não fosse receber revelações canônicas, ele certamente recebeu relevações extraordinárias, sendo que era uma ratificação de seu apostolado. Esse fato não justifica os arrebatamentos contemporâneos.

2- ZIBORDI, Ciro. Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 27.

3- SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 310.