segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A mania angélica no meio evangélico

“Quando cheguei neste culto, vi anjos nesse templo com brasas de fogo nas mãos”, disse o pregador. A congregação exaltada gritava: “Glórias a Deus, Aleluia” e outros começavam a “marchar ou dançar no espírito”. Esse culto foi, para a maioria dos que ali estavam, uma maravilhosa reunião. O grande problema é que o “pregador”, na verdade, era um bandido que chegou a se relacionar com jovens na igreja de maneira devassa e pervertida. A igreja que amou o pregador angélico, entrou em crise mediante esse fato. Lembrando que essa história é verídica!
O que faz um falso pregador, “derramar fogo em uma igreja”, sendo ele um ímpio pervertido? A questão é que esse falso profeta sabia que muitos evangélicos ficam animados diante de um culto onde os anjos são o centro. Muitos “animadores de auditório”, que não chegam a ser maus caráter com o caso citado acima, estão comprometidos com um evangelho estranho as Escrituras. São pessoas que enfatizam anjos, tirando a primazia de Cristo no culto.
Hoje, a angelomania é muito presente na comunidade evangélica. São cadeiras reservadas para anjos, são constantes visitas do arcanjo Miguel, e há recados transmitidos pelo anjos com várias revelações. Há músicas que as letras dizem seres os anjos, os agentes do Batismo no Espírito Santo e ainda aqueles que promovem a cura divina; haveria aberração maior do que essa? Seria essas práticas bíblicas? O apóstolo Paulo já alertava: “Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão”(Cl 2.18). O culto deve ser cristocêntrico, mas nunca angelocêntrico ou antropocêntrico. Seria o homem ou os anjos o objeto de louvor no culto cristão? Não é preciso nem responder!
O escritor aos Hebreus lembra que os anjos “são espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação”(1.14). Isso quer dizer que os anjos são criaturas que servem os salvos quando enviados por Deus, isso mediante as várias situações que o Senhor livra os seus servos. Essa é a missão dos anjos na atualidade. Os anjos não foram convocados para “derramar brasas de fogo em reunião pentecostal”, muito menos promover revelações ou batizarem alguém no Espírito Santo. Quem derrama do Seu poder na igreja é o Espírito Santo e que batiza é Jesus Cristo. As revelações são frutos do “dons da palavra do conhecimento”, que nunca contradizem ou acrescentam algo as Escrituras.
Nesse artigo, há o destaque de duas práticas presentes no meio evangélico, que tornam o culto angelocêntrico (anjos no centro) e antropocêntricos (os homens no centro).

a) invocar a presença de anjos no ambiente de culto.

É comum pessoas orarem pedindo que Deus coloque um anjo na porta da igreja, um arcanjo no púlpito e outro anjo na casa do crente. Essa prática enfatiza papéis que não são angélicos, como ser segurança pessoal de um super-pregador. Essa idéia remete a doutrina pagã de anjo-guia ou anjo-da-guarda. Quem guia o cristão é o Espírito Santo e é Deus quem guarda o crente, usando para isso anjos ou não! Invocar a presença de anjos é desnecessário e torna o culto angélico. O pastor e teólogo assembleiano Elinaldo Renovato lembra:

Não existe base bíblica para se afirmar que eles (os anjos) estão por aí, a dirigir culto e revelar “segredos” de Deus. Toda a revelação necessária e suficiente para que o homem e a Igreja saibam como relacionarem-se com Deus já nos foi transmitida através das Sagradas Escrituras

E ainda Renovato alerta:

Há igrejas evangélicas, inclusive, com o nome de Assembléia de Deus, em que se pratica um verdadeiro “culto a anjos”. Em tais ambientes, as pessoas estão mais voltadas para os anjos do que para Jesus. Há pregadores que só iniciam a pregação depois de pedir que os anjos se postem a seu lado. Isso á apostasia dos tempos pós-modernos. E há muitos cristãos que estão se afastando dos verdadeiros princípios da ortodoxia bíblica, encantados com esses movimentos

Esse desejo de ter anjos ao redor do púlpito, quando o grande pregador está ministrando, traz uma idéia de um ser acima dos demais, um “ungido do Senhor”, realçando o pregador com o centro das atenções. Um fato interessante é que os angelomaníacos se apresentam como grandes ungidos de Deus, servos “humildes” do Deus Altíssimo, quando isso não passa de falsa modéstia. O jornalista e teólogo pentecostal Silas Daniel leciona:

Ainda hoje, os angelólatras se apresentam como pessoas avivadas, espirituais, santas, humildes, mas na verdade estão, como afirmou o apóstolo, embriagados por uma compreensão carnal

Haveria sentimento mais mundano do que tirar a centralidade de Cristo, para se tornar um espetáculo vivo? Haveria carnalidade maior do que mentir nos púlpitos, dizendo que estão recebendo recados de anjos? Nada de espirituais, mas os angelomaníacos não passam de crentes carnais.

b) anjos promotores de “avivamentos”.


Ouriel de Jesus, um pastor brasileiro que pregando nossa revelações diretas do céu, diz que a sua igreja promoverá ou está promovendo o último avivamento da história. Mais modesto impossível! O seu livro, fruto de vários contatos nos céus é o Triunfo Eterno da Igreja. Esse livro é um grande divulgador da doutrina de centralidade angélica. São anjos promotores de “avivamentos”. Sua igreja, que foi excluída da CGADB(Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil) tem até corografias dirigidas por anjos. Como escreveu o pastor Waldomiro Francisco: “Como seu Consolador, é o Espírito Santo quem a vivifica (a igreja); não existe avivamento por seres angelicais, o que não passa de uma heresia”4.
Todo cuidado é pouco, diante de tantos modismos angélicos no seio da igreja evangélica, o cristão não deve correr atrás de movimentos, mas sim se solidificar na Palavra de Deus.

Referências Bibliográficas:

01- RENOVATO, Elinaldo. Colossenses. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 52, 3. trimestre de 2004.

02-________. Perigos da Pós-Modernidade. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p. 17 e 18.

03- DANIEL, Silas. A moda do culto aos anjos: conheça a gênese da angelolatria e a verdadeira função dos anjos. Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 2, n. 06, p. 25 , Dez-Jan-Fev/2003.

04- FRANCISCO, Waldomiro. A Doutrina dos Anjos e Demônios. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 33.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Pentecostalismo, Koinonia e Individualismo

A décima segunda divisão, da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, é conhecido como o texto dos dons espirituais. Realmente, os capítulos 12, 13 e 14 da missiva corintiana, é um tratado paulino sobre os pneumatikos carismata, ou seja, os dons do Espírito são o tema central. Mas medite nos versículos de 12 ao 31, do referido trecho epistolar, e você verá que a proposição, além de pneumatológica, é eclesiológica: a igreja como o corpo místico de Cristo em comunhão.
É comum, na igreja hodierna, a promoção de uma espiritualidade cada vez mais individualista, onde as excêntricas experiências pessoais são excessivamente incentivadas. Todavia, o Espírito Santo trabalha no meio da comunhão e nunca na divisão, como bem escreveu o historiógrafo Lucas, relatando as características da igreja dos primeiros dias: “E perseveravam... na comunhão, e no partir do pão, e não orações... E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”(At 2.42, 47).
Nesses dias tenebrosos, que antecedem a parousia de Cristo, os templos cristãos se tornaram casas de prazeres. São crentes que vêem a oração como um meio de barganha com o Altíssimo, e não um canal de comunhão divina. Os filhos de Deus se tornaram crianças extremamente mimadas, pois contemplam um pai obrigado a atender os seus desejos mercantilistas, mas não conseguem colocar a sua confiança no Deus Soberano. O que é melhor para a igreja individualista pós- moderna, um culto de intercessão pelas nações, ou a reunião de oração “forte” para os empresários crescerem materialmente? A resposta é óbvia, e sendo assim, a advertência do irmão de Jesus é cada vez mais necessária: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites”(Tg 4.3).
O evangelicalismo vive em um período que o cristianismo segue as regras de mercado. Nesses dias há denominações para todos os gostos: igrejas para roqueiros, igrejas para surfistas, igrejas para a classe-média, igrejas para madames da elite paulistana... há igrejas como opções de parto na praça de alimentação de um shopping-center. Não seria essa eclética manifestação denominacional, a mais trágica expressão do individualismo gospel? Charles Colson, pensador cristão, faz uma observação com muita propriedade:


A cultura é radicalmente individualista. Pessoas fazem de tudo o que querem. São nas suas igrejas. O resultado é que escolhem e optam pelas igrejas que irão membrar-se, acreditando no que querem. Falta sempre o entendimento da responsabilidade de ser parte da comunidade dos crentes. A maioria das pessoas que se sentam nos bancos de igreja perdeu totalmente esse ponto


Como no começo do texto foi lembrado, Paulo escreveu sobre dons espirituais e comunhão da igreja no mesmo papiro, certamente com a mesma tinta. Pois carisma só combina na koiononia. Os dons do Espírito tem o objetivo de promover edificação na comunidade. O exercício dos dons espirituais deve estar inserido em um contexto de valor à edificação coletiva e não ao individuo. O doutor dos gentios orientou:


O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação. ( 1Co 14. 4-5)


A maior preocupação do menor dos apóstolos, era com a edificação da igreja nas manifestações carismáticas. Paulo então fala sobre o amor (capítulo 13), que é um assunto totalmente ligado aos capítulos 12 e 14; então ele lembra que o amor “não busca seus interesses”, e da mesma forma o portador de um dom não deve se auto-promover, mas lutar pelo crescimento de cada membro na comunidade. A variedade de dons espirituais é para que todos participem dessa graça e possa assim, colaborar com o amadurecimento mútuo. Como lembra o teólogo pentecostal Stanley M. Horton:

O propósito da variedade (dos dons espirituais) é possibilitar o corpo a funcionar como unidade. A variedade, portanto, não visa a vantagem do indivíduo, ao dar mais coisas para desfrutarmos. Visa, pelo contrário, a vantagem da Igreja... Deus, deliberadamente, concedeu dons e ministérios a pessoas diferentes. Ele quer que reconheçamos ser necessário precisarmos uns dos outros.²


Só mesmo a comunhão no Espírito pode promover essa verdadeira espiritualidade. Infelizmente muitos pentecostais valorizam experiências que não edificam a sua comunidade e nem promove um unidade no Espírito em torno da Palavra. O individualismo leva a buscar os prazeres místicos do “cair no espírito” ou da “risada santa”, que em nada edificam a igreja, mais trazem uma satisfação egoísta. É muito forte o testemunho do pastor Paul Gowdy, sobre os efeitos da “bênção de Toronto”(cair, danças, rolar, pular, rugir no espírito) sobre a igreja canadense, do qual ele era membro: “Desde que a bênção de Toronto chegou, ficamos esfacelados”³. Gowdy, que abandonou o movimento neopentecostal da Igreja de Vineyard, relata que a igreja que caia no espírito, caiu no mais baixo nível espiritual enquanto passava por esse “avivamento”. O modismos não promovem comunhão, mas divisão, assim como aconteceu na igreja do ex-lider neopentecostal Paul Gowdy.
Nenhum pentecostal pode esquecer que os dons espirituais estão no contexto da comunhão eclesiástica. O Espírito Santo opera em indivíduos, isso por meio da regeneração, santificação, batismo pelo Espírito Santo e batismo no Espírito Santo. Mas todas as operações no indivíduo o leva para o corpo, pois o trabalho a Terceira Pessoa da Trindade é no corporativo. O Rev. Augustus Nicodemus, teólogo reformado, fez uma ponderação interessante sobre o referido assunto:


Creio que essa verdade bíblica tem faltado em muito do que se tem dito hoje sobre a plenitude do Espírito. A ênfase quase sempre está em aspectos individualistas, reações físicas individuais, experiências pessoais, e coisas do gênero. O aspecto corporativo da plenitude do Espírito, a compreensão do plano redentor de Deus que ele produz e Cristo como sendo a expressão objetiva e subjetiva da experiência são aspectos esquecidos ou pouco enfatizados, aspectos que, para Paulo, são essencialmente ligados à operação do Espírito na Igreja de Cristo.4


Portanto, a conclusão que se tira deste assunto é que a operação do Espírito Santo é no contexto da edificação de sua igreja. Manifestações pragmáticas e experimentalistas, onde a doutrina é relativizada, onde a comunhão é desprezada e o Fruto do Espírito é esquecido, trata-se de um falso pentecostalismo. Nesses movimentos e modismos, o ego humano é super-valorizado, a auto-ajuda é tema de pregação, o deus papai-noel satisfaz os gostos de seus “bons meninos de fé” e o triunfalismo é a grande onda. O avivamento é tratado com um meio de obter e ganhar e não entregar. O pentecostalismo bíblico não condiz com esse “cristianismo” individualista, centrado e sentado no trono do ego humano.


Referências Bibliográficas:


1- COLSON, Charles. In Entrevista. Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 09, p. 12, Set-Out-Nov/2003.


2- HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 231, 232 e 236.


3- DANIEL, Silas (ed.). Ex-líder da Igreja de Toronto denuncia arrependido farsas heréticas: Paul Gowdy confessou recentemente, em artigo, o que está por trás de modismos famosos que sua igreja disseminou no meio evangélico mundial. Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, CPAD, Setembro de 2007. N. 1468. p. 14-15.


4- NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 19.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Neo-pós-pseudo-pentecostalismo Parte 02

Continuando o artigo anterior, onde a abordagem sobre o neopentecostalismo não é sociológica, mas uma avaliação teológica, partindo da premissa que o pentecostalismo clássico difere do neopentecostalismo na sua essência doutrinária. O neopentecostalismo, que surgiu em meados dos anos 70, é o grupo cristão que mais cresce no Brasil e o crescimento desperta o interesse de sociólogos, historiadores, teólogos católicos e protestantes tradicionais. Os pentecostais, também, precisam fazer avaliações teológicas do movimento neopentecostal, e diferenciar esses dois grupos, mas com um sentimento pastoral.

a) o neopentecostalismo tem uma hermenêutica diferente do cristianismo histórico.

Se você já ouviu pregações em igrejas neopentecostais, percebeu que a maior parte das pregações são no Antigo Testamento? Já viu que os pregadores “avivalistas” gostam de textos que abordam a história da Abraão, Elias, Eliseu, Davi, Daniel, Jeremias etc? Percebeu que o ministério profético do Antigo Testamento é muito abordado nas preleções dos “conferencistas internacionais”? Se não, ouça e verá!
Em trabalho acadêmico para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, sobre o neopentecostalismo, o professor Isaltino Gomes Coelho observa que “a leitura bíblica neopentecostal é atomizada...isto é, fragmentada, de versículos isolados, é desculturada, desarrigada de seu contexto e usada alegoricamente¹. Sendo assim, prega excessivamente no Antigo Testamento. Abusa dos símbolos vero-testamentário e aplica a simbologia judaica de forma distorcida na igreja hodierna, que é ou deveria ser neotestamentária. Como observou o teólogo Esequias Soares: “Seus líderes inventam campanhas, tentando realçá-las em textos e personagens do Antigo Testamento, empregando figuras e símbolos, completamente fora do contexto bíblico, como ponto de contato para estimular a fé, e também para arrecadar fundos”². São campanhas dos “318 pastores”, “Unção apostólica de Elias”, “Azeite da Viúva”, “Porção dobrada de Eliseu”, “Derrubando as muralhas de Jericó”. O teólogo Paulo Romeiro, que é de confissão pentecostal, observa:

As campanhas semanais, os cultos “de libertação”, “da vitória”, “da conquista” e “da prosperidade” se multiplicam na disputa de fiéis. Tudo isso dirigido a um público despreocupado também com as regras de interpretação bíblica, pouco afinado com a reflexão, mas numa busca constante e intensa de solução. Os pregadores farão tudo para atrair seus “clientes”, muito disputados hoje em dia no mercado evangélico

Quando se quer extrair, de modo legítimo, um ensinamento bíblico; se parte para a hermenêutica histórica, contextual, linguística e teológica, mas a analogia é o aspecto central na hermenêutica neopentecostal. Em vez de uma exegese, para extrair do texto bíblico o que ele diz, se pratica a eisegese, colocando no texto o seu próprio pensamento, ou seja, se tenta justificar por meio da Bíblia. A Bíblia para o neopentecostalismo é indicativa, ou seja, se recorre a ela como justificadora de suas práticas, mas não normativa, ou seja, determinando as doutrinas e práticas da igreja. A Bíblia, no neopentecostalismo, é um simples amuleto e enfeite de emaranhados de doutrinas estranhas as Sagradas Escrituras.
Uma questão importante na hermenêutica neopentecostal é que ele é pragmática e empírica. Pragmática se entende que a interpretação bíblica do neopentecostalismo busca praticidade ou funcionalidade de sua crença; se algo é prático e dá certo, então é preciso inserir na doutrina neopentecostal. Quando algum apologista critica as experiências e crenças no neopentecostalismo, os seus promotores vem com os seguintes argumentos: “mais as pessoas são curadas”, “mas isso tem dado certo”, “explique os milagres de meu ministério” etc. Sempre se recorre a funcionalidade de suas doutrinas. A experiência sempre procede a doutrina no neopentecostalismo. O Rev. Alderi Sousa de Matos observa:

No neopentecostalismo – inclusive nos seus enclaves nas denominações históricas -, por mais que seus integrantes se declarem defensores das Escrituras, a importância atribuída as fenômenos, maravilhas e novas revelações os empurrarão à incômoda consequência prática de terem na Bíblia a sua “fonte secundária” de conhecimento. 4

No contexto na interpretação bíblica, a experiência conta como a mais alta autoridade, determinando os sentido de um texto. A Bíblia, nessa situação, não é a regra de fé e prática. Kenneth Hagin estabeleceu a fórmula de fé da confissão positiva, baseado em um suposto encontro com Jesus, por meio da visão ele criou uma nova doutrina. A revelação, as crenças pessoais, as profecias, as visões tomam o lugar da Palavra de Deus, no momento em que elas estabelecem doutrina.
A hermenêutica neopentecostal é individualista e mística. Quando se lê a Bíblia, não procuram compreender o significado original que o escritor, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu. Cada crente que leia a sua Bíblia e interprete da maneira transcendental, por meio de uma revelação interior. Procuram sempre achar novas verdades, e dizem ser portadores de nova revelações, desprezadas pela igrejas durante séculos. Sendo esse entendimento, sempre individual, por meio de uma iluminação. Na leitura neopentecostal, o Espírito Santo, dá o significado de um texto para necessitadas específicas de várias pessoas, ou seja, o versículo passa a não ter uma significação absoluta, mas é uma mensagem diferente em cada revelação. Um pregador neopentecostal, instruindo novos convertidos, disse: “Vocês precisam ouvir a voz de Deus, ser guiados pelo Espírito Santo. Para isso, orem nas madrugadas e peça que Deus revele a Sua vontade para a sua vida. Então Deus vai te acordar pelas madrugadas e te dirá aquilo que tu precisas fazer.” Esse pregador dá a entender que a sua vida é guiada por revelações, quando esse não é o propósito das revelações (dom da palavra do conhecimento). A vida do cristão é guiada pelo Espírito Santo, que usa a sua Palavra, para direcionar segundo as Suas diretrizes.

b) a demonologia neopentecostal

Os neopentecostais tem uma visão dualística do cosmo, ou seja, há uma constante luta
entre o Bem e o Mal, e tudo aquilo que não é de Deus, logo é do Diabo. Para a cosmovisão neopentecostal, o mundo está dividido por essas duas forças equivalentes. Para eles a doença nunca vem de Deus, logo, todas as doenças são diabólicas. Para eles a pobreza não pode vir de um Deus riquíssimo, logo, a pobreza é do Diabo. Nesse pensamento, chamado dualismo, o mundo está bem dividido entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo. O dualismo fere a revelação bíblica, onde o Deus, o ser bondoso por natureza, é infinitamente maior do que o mal provocado pelo Diabo.
O exorcismo nas igrejas neopentecostais, é uma prática midiática e um verdadeiro espetáculo, onde pessoas (seres-humanos) são expostos ao ridículo, com muitas luzes e câmeras. O teólogo assembleiano Claudionor Corrêa de Andrade, em uma linguagem pastoral, escreveu:

Há muitos obreiros que, para cevar o marketing pessoal, fazem uma verdadeira campanha publicitária para libertar os oprimidos do Diabo. Perguntam o nome do demônio e querem saber a sua procedência. Em seguida, interrogam-no acerca de sua missão, como se ninguém soubesse ser o trabalho do Diabo matar, roubar e destruir (Jo 10.10). E com isto desperdiça-se todo o tempo da exposição da Palavra de Deus, introduzindo o povo a uma macabra distração. 5

Os neopentecostais, em especial Kenneth Hagin, acreditada que um cristão verdadeiro pode ser possesso por um demônio, mas não no seu espírito, e sim no seu corpo ou em sua alma; fazendo uma separação inexistente na Bíblia. Como pode um cristão ter demônios em seu corpo ou em sua alma, enquanto o seu espírito está livre sendo
habitação do Espírito Santo? Só uma demonologia distante das Escrituras para afirmar tamanho engodo. Um cristão verdadeiro, por ser habitação do Espírito Santo, não pode ter em seu ser um demônio.
O neopentecostalismo tem muitas doutrinas estranhas a Bíblia e cabe a cada pentecostal, uma posição apologética e de oração pela mudança e sedimentação desse movimento.
A análise sobre o neopentecostalismo termina nesse texto, mas esse assunto será discutido por meio de outros artigos no Blog Teologia Pentecostal.



Referências Bibliográficas:

1- COELHO, Isaltino Gomes. Neopentecostalismo. Acesso em 09/11/2007. Disponível em http://www.ibcambui.org.br/artigos/art57.pdf

2- SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 319.

3- ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 123.

4- MATOS, Alderi Sousa de. Fé Cristã e Misticismo, p. 58. Citado por ROMEIRO, Paulo. Idem, p. 122.

5- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Judas, Batalhando pela Genuína Fé Cristã. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 43. 1° trimestre de 2002.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Neo-pós-pseudo-pentecostalismo! Parte 01

O objetivo dessas observações é mostrar a tragédia que o movimento neopentecostal fez e está fazendo no meio evangelical, seja no pentecostalismo clássico, seja nas igrejas fundamentalistas-reformadas.
A expressão “neo-pós-pseudo-pentecostalismo” ¹ foi cunhado por Robinson Cavalcanti e designa muito bem o movimento neopentecostal ou carismático². O neopentecostalismo erra em muitos pontos e se afasta a cada dia do protestantismo histórico. É bom observar que há teólogos respeitados, como Luís Sayão, que acreditam em uma restauração doutrinária dos neopentecostais, Sayão comentou que: “Todo o mundo critica o movimento neopentecostal. Devemos avaliá-lo sociologicamente. Em breve eles sofrerão mudanças e buscarão uma sedimentação”³. É de se esperar que essa sedimentação aconteça logo e tomara que realmente aconteça! A abordagem desse texto é mostrar os principais defeitos no neopentecostalismo.

a) O neopentecostalismo desenvolve uma espiritualidade sem vínculo.

A excessiva valorização de catedrais, mega-ajuntamentos, grandes eventos , cultos midiáticos e similares; mostra que o neopentecostalismo desenvolve um espiritualidade sem ligação eclesiástica, ou seja, as pessoas vão a igreja como se fossem ao shopping-center, vão buscar algo e não entregar, tem vínculos mercantilistas e não comunitários. Ricardo Gondim fez uma ótima observação em relação ao assunto:

Os neopentecostais desenvolveram uma espiritualidade “templista”, sem vínculos comunitários. Sacralizam-se os prédios, valorizam-se os mega ajuntamentos, mas não se promovem relacionamentos. As pessoas se sentem sozinhas e autônomas no meio de uma multidão. Vão à igreja como quem vai a qualquer lugar público, sem sentimento de pertencimento.4

Dentro desse contexto é muito comum o trânsito religioso. Hoje o sujeito é de uma igreja, amanhã já de outra denominação. Há líderes neopentecostais que chegaram a fundar duas denominações diferentes.
Há não somente uma falta de vínculo comunitário, mas também, falta vínculo doutrinário, litúrgico, de ethos (costumes) e tradições. Sendo que o maior perigo é a falta de base teológica e ou doutrinária. Muitos neopentecostais, continuam com crenças herdadas de uma religião ou seita que anteriormente ele tenha participado. A falta de discipulado, infelizmente, é comum em todos os ramos do evangelicalismo, principalmente no neopentecostalismo, e ainda há um desprezo muito grande pelo ensino da Palavra. Os neo pentecostais não investem em escola dominical, cultos de ensino, classes de discipulado, seminários teológicos etc.

b) o neopentecostalismo desenvolve um pregador arrecadador e não doador.

A principal preocupação para um bom “pregador” neopentecostal, não é o seu domínio das ciências bíblicas, juntamente com uma vida devocional exemplar, mas sim, o seu domínio na retórica da oferta. Em uma famosa denominação neopentecostal no Brasil, você só pode ser ordenado ao ministério pastoral, se a sua congregação arrecadar mais de 5 mil reais por mês em dízimos e ofertas. Qual será a pregação principal de um sujeito sob tamanha pressão? Certamente que será ofertas, dízimos, desafios de fé e teologia da prosperidade. Uma congregação de bairro de não dá “lucro”, é fechada imediatamente pelos “bispos” de algumas denominações neopentecostais. Será que a construção de templos é uma preocupação evangelísticas e de bem-estar da igreja local ou mais uma fonte de arrecadação? Não é nem preciso responder! A absurda compra de “cura-divina” por meio de ofertas, é comum em algumas igrejas neopentecostais. São cartões de oferta com valores de 10, 20, 50, 100 reais, sendo que os valores mais altos recebem “orações mais fortes”. Não seria essa prática uma indulgência moderna? Esses “profetas” neopentecostais sem aproximam a cada dia do sectarismo.
Em que consiste alguns cursos para líderes em igrejas neopentecostais? As matérias principais de muitos desse cursos, não é teologia sistemática ou exegese, mas sim, técnicas de marketing.
O papel pastor-ovelha, dentro desse contexto “templista”, é substituído pelo modelo empreendedor-cliente. Igrejas neopentecostais, normalmente, não possuem seminários, mas apenas cursos esporádicos de retórica ou métodos de marketing, como acima observado. O obreiro neopentecostal não é uma pessoa treinada para ser líder de uma igreja local, mas sim, de ser o mais persuasivo com aqueles que o visitam. Não existe ovelha, e os pastores nem podem ser chamados de pastores, pois normalmente são itinerantes. Um itinerante não tem a possibilidade de ter ovelhas, logo, não é um pastor.

c) o neopentecostalismo tem, a teologia da prosperidade, como a principal pregação.

O conceito de “Deus papai-noel”, cunhado no passado pelo teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, homem que lutou contra o secularismo eclesiástico de seu tempo, expressa muito bem a realidade materialista do movimento neopentecostal. A cosmovisão neopentecostal tem dificuldades de contemplar o futuro, o céu, a salvação, a redenção; palavras com esperança, espera, paciência, perseverança não fazem parte do vocabulário imediatista dos neopentecostais. Imediatismo é a filosofia dos pregadores do aqui-e-agora, é a bênção rápida e eficaz em pregações pragmáticas, ou seja, “pregações que funcionam”.
Sempre a teologia da libertação é colocada como uma visão comunista do cristianismo, da mesma forma, a teologia da prosperidade é uma versão capitalista de um evangelho distorcido, que busca riqueza e bens terrenos, em detrimento do que os bens celestiais. Junto com a teologia da prosperidade há um mal igual, que é o triunfalismo. O triunfalismo não aceita derrotas, infortúnios, doenças, perdas, pois é o evangelho do “só vitória”. Infelizmente, alguns pregadores que dizem ser pentecostais, são triunfalistas de carteirinha, sendo essa uma característica neopentecostal que tenta deturpar o pentecostalismo clássico.

d) o neopentecostalismo prega o ter em vez do ser.

A pregação sobre moralidade, santidade, caráter, Fruto do Espírito são deficientes no meio neopentecostal. O ter é mais valorizado do que o ser. É muito difícil pregar contra a ambição, a sedução das riquezas, o engodo da soberba nos púlpitos “universais”. O verdadeiro cristão na cosmovisão neopentecostal é aquele que passou da pobreza para a riqueza. Será a riqueza evidência de prosperidade? A prática mostra que não, pois o segundo homem mais rico do mundo, o bilionário Bill Gates, é um ateu! Será que Gates é mais espiritual que um pobre cristão africano sem almoço para esse dia?

e) o neopentecostalismo valoriza excessivamente a sua liderança.

Ouvir rádio evangélica, com poucas exceções, pode ser uma verdadeira tortura para aquele que busca a ortodoxia no cristianismo. É comum, na vasta programação neopentecostal, ouvir liderados referir-se a sua liderança como: “o apóstolo da fé, grande homem de Deus, o maior evangelista do século, o nosso bispo primaz, o homem que faz e acontece etc”. É uma verdadeira idolatrização da liderança, que se segue sem um senso crítico, mas em um caminho cego.
Muitos líderes, sem caráter, no neopentecostalismo, são acusados dos mais diversos crimes, como estelionato, curanderismo, lavagem de dinheiro etc. Os fiéis dessas igrejas, na maioria das vezes, são indiferentes as claras acusações e preferem atribuir esses problemas a perseguição da Rede Globo ou do próprio Diabo. É comum, alguns desses líderes, se compararem aos apóstolos, que foram perseguidos por causa do evangelho. Um sofisma que muitas vezes funciona, infelizmente!
Em denominações neopentecostais não há conselhos de doutrina, concílios para decidir os rumos da denominação. Em uma denominação neopentecostal, o líder-fundador é quem decide tudo, desde da forma litúrgica, passando pela doutrina e até o destino das finanças. É uma liderança incontestável, um líder que está acima de tudo e todos, que não presta contas a ninguém. Uns mais espirituais, dizem que ninguém pode tocar “nos ungidos de Deus”, ou seja, se colocam acima dos demais espiritualmente. Os pastores e obreiros menores nessas denominações imitam a oratória, os gestos, a maneira de se vestir dos seus líderes.
A “renovação apostólica” é um novo modismo que mostra a colocação acima da crítica dos líderes neopentecostais. Primeiro veio os bispos, quebrando uma tradição protestante de não inventar cleros acima de leigos, como no catolicismo romano. Depois veio as bispas(sic) e agora tem os “apóstolos”, há notícias de pastores que agora são chamados de “arcanjo”. É muita aberração para pouco espaço! Um famoso pastor disse certa vez: “Daqui a pouco temos o vice-Deus”.
Outra novidade é a chamada “cobertura espiritual”. Líderes que ameaçam seus liderados, dizendo que elas necessitam da cobertura deles, como apóstolos. Cobertura é uma falácia, pois biblicamente, não há cobertura espiritual da parte dos homens, mas somente de Deus.
Hoje, no meio neopentecostal, há uma febre por títulos teológicos. São muitos que dizem ser Doutor em Divindades(D.D) e fizeram curso por correspondência de, no máximo, um ano. A internet está cheia desses falsos cursos, que é uma malandragem de compra e venda de diplomas. Com 2 mil dólares, qualquer pessoa pode comprar um título de doutor em divindade nos Estudos Unidos, ficando até mais chique. Para ser um doutor em teologia, em uma faculdade séria, se estuda em média dez anos e há uma dedicação acadêmica, isso por parte do discente. Estudar bacharel de teologia em um ano é como estudar medicina em dois anos, é um grave erro e nada se aprende, sendo assim um falso curso.


Em breve, leia a segunda parte desse artigo.

Notas:

1- CAVALCANTI, Robinson. País apodrecido, igreja insípida. Revista Ultimato. Edição 303 Novembro-Dezembro 2006. p /.

2- Carismático é como os teólogos norte-americanos nomeiam os neopentecostais. Aqui no Brasil, carismático virou sinônimo de católico pentecostal, membro da RCC (Renovação Católica Carismática).

3- SAYÃO, Luiz. Pela ética e espiritualidade. Entrevista. Revista Enfoque Gospel. Edição 62 - SET / 2006.

4- GONDIM, Ricardo. E se o sal não salgar? Ricardo Gondim, acesso em 17/10/2007 disponível em

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Neo-pós-pseudo-pentecostalismo

Amanhã, o blog Teologia Pentecostal vai começar uma série de artigos analisando o neopentecostalismo de maneira geral, não perca!
O objetivo dos artigos é mostra que o Pentecostalismo Clássico difere das manifestações exageradas do neopentecostalismo. Mas o Pentecostalismo não difere somente na liturgia, mas também na teologia e nos propósitos de existência.
VEJA nesse vídeo um dos pontos que será discutido:



Lembrando que isso NÃO é pentecostalismo, e sim uma adulteração do verdadeiro pentecostalismo.