terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Falar em Línguas, a evidência física inicial!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Uma das doutrinas mais contestadas do pentecostalismo clássico é o falar em línguas como a evidência física  e inicial do Batismo no Espírito Santo. No passado e no presente, os debates em torno dessa doutrina são calorosos e costumam girar em torno de várias teorias. A Assembleia de Deus, nos Estados Unidos e no Brasil, costumam defender essa doutrina, enquanto outras igrejas pentecostais e neopentecostais não são defensoras desse entendimento teológico. Charles Fox Parham[1] foi o primeiro a entender línguas como evidência inicial, assim influenciou a teologia pentecostal clássica.

Como acima descrito, a doutrina da evidência física não é consenso nem no meio pentecostal. O Concílio Geral das Assembleias de Deus nos Estados Unidos, no ano de 1918, reafirmou a doutrina da evidência inicial como “nosso testemunho distintivo”[2]. O mesmo acontece nas Assembleias de Deus no Brasil, pois no ponto nove da confissão de fé brasileira está escrito: “Cremos.. no batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo, com evidência inicial de falar em outras línguas conforme a sua vontade”.

É importante lembrar que o debate em torno da evidência física e inicial é acadêmico. Há argumentos de eruditos em ambas as partes. Nesse artigo será apontado os argumentos daqueles que são contra a doutrina da evidência inicial e depois a contestação de eruditos pentecostais, especialmente dos teólogos Roger Stronstad e Anthony D. Palma.
Contestações à doutrina
No passado, entre aqueles que contestavam essa doutrina, estava o homem mais famoso do pentecostalismo moderno, William J. Seymour, fundador da Apostolic Faith Mission (Missão da Fé Apostólica)[3]. Atualmente, um exemplo de contestador da evidência inicial é o erudito assembleiano Gordon Fee, autor do livro “Entendes o que lês?”(Vida Nova). Ele argumenta que as línguas são normais na experiência do Batismo no Espírito Santo, mas esse fato não é normativo[4]. Muitos carismáticos (neopentecostais) acreditam que as línguas são apenas mais uma evidência do Batismo no Espírito Santo semelhante ao “dançar no espírito”, alegria, êxtase, profecias etc.


O renomado teólogo evangelical John Stott escreveu o livro Baptism and Fullness, onde a sua principal argumentação é que não se deve estabelecer doutrinas com um livro descritivo, como Atos é, mas sim em livros didáticos, como os sermões de Jesus e as epístolas dos apóstolos[5]. A contestação de Stott é típica de teólogos cessacionistas[6], mas alguns pentecostais seguem a mesma linha do teólogo inglês. O pastor da Assembleia de Deus Betesda, Elienai Cabral Junior [7], em seu famoso texto “Meu pentecostalismo revisado” [8] escreveu:

É preciso que se diga que por mais que funcione, a doutrina pentecostal da evidência inicial do Batismo com o Espírito Santo é oca de conteúdo bíblico. Nos chamados quatro pentecostes de Atos (2.1-13; 8.4-25; 9.24-48; 19.1-6), nem todos registram a glossolalia e, exceto o do Dia de Pentecostes em Jerusalém, o sinal das línguas estranhas não é a única evidência. Lucas lista também as profecias, adoração e alegria. Entre os samaritanos nada diz. Apenas afirma que receberam o Espírito (At 8.17). As línguas são um sinal freqüente, mas não um sinal imprescindível.

Cabral Jr., como já mencionado, não é o único pentecostal a pensar dessa forma. As igrejas históricas, que não são cessacionistas ou são semicessacionistas, vão concorda com a posição adotada por ele.
O argumento principal dos críticos da evidência inicial é que o livro de Atos, com suas referências em relação às línguas, não serve para estabelecer uma doutrina, já que é um livro histórico. Lucas, segundo essa corrente, somente está registrando a história da igrejas dos primeiros dias, onde esse registro não tem o propósito de perpetuar as práticas dos apóstolos. Outra corrente afirma que as línguas são normais nas experiências carismáticas, mas outras formas de manifestação físicas eram presentes no Batismo no Espírito Santo, tais como a profecia e manifestações de alegria.


Um fato interessante referente a críticas com relação a doutrina pentecostal é que os teólogos cessacionistas (como John Stott) nunca abordam argumentos de eruditos pentecostais. Esses importantes argumentos são tratados com indiferença, sendo um prática não saudável a qualquer cristão em busca da verdade bíblica.

Em defesa da evidência inicial

No decorrer da formação teológica pentecostal, muitos teólogos de sólida formação acadêmica, defenderam e ainda defendem a doutrina da evidência inicial, tais como Donald Gee, Myer Pearlman, Eurico Bergstén, Antonio Gilberto, Roger Stronstad, William Menzies, Stanley M. Horton, Anthony David Palma.

O teólogo Myer Pearlman na sua obra Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, de 1937, apresentou uma defesa da evidência inicial citando alguns eruditos não-pentecostais. Pearlman pergunta: “Será essa declaração meramente a interpretação particular dum grupo religioso ou é reconhecida por outros grupos?”; e logo cita o teólogo liberal inglês Dr. Rees, que escreveu: "A glossolalia (o falar em línguas) era o dom mais conspícuo e popular dos primeiros anos da igreja. Parece que foi o acompanhamento regular e a evidência da descida do Espírito Santo sobre os crentes". [9]
Eurico Bergstén [10] lembrou, em suas argumentações sobre a evidência inicial, que havia um sinal comum a identificar o Batismo no Espírito Santo, pois isso "sinal" fica bem claro em Atos 10.45 onde “todos quanto tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus” (grifo nosso). O teólogo e autor da Bíblia de Estudo Pentecostal, Donald Carrel Stamps, usa o mesmo versículo para argumentar que Pedro e os demais acompanhantes de sua missão foram convencidos que o Batismo no Espírito Santo era derramando sobre os gentios após ver (e ouvir) o sinal externo da glossolalia. [11]


Outra passagem que mostra um sinal comum aos primitivos cristãos sobre o derramamento do Espírito Santo é Atos 8. 17-19. (Apesar que as línguas não são mencionadas diretamente nessa passagem). Os samaritanos receberam a imposição de mãos dos apóstolos Pedro e João e logo Simão, o mago, quis "comprar" o poder do Espírito Santo que fora derramado sobre os samaritanos. Howard Erwin [12] pergunta: “O que Simão viu, que o convenceu de terem os discípulos samaritanos recebido o Espírito Santo mediante a imposição das mãos de Pedro e João?” Em relação a essa passagem Stanley M. Horton argumenta:

Alguma coisa, porém, aconteceu, quando Pedro e João impuseram as mãos sobre os crentes; senão, Simão não compraria algo que surgia da autoridade deles. Simão já vira os milagres de Filipe. O dom de profecia seria exercido no idioma dele, de sorte que o sobrenatural não se destacaria. Permaneceria apenas o que atraiu a atenção da multidão no dia de Pentecoste: O falar noutras línguas conforme o Espírito lhes concedia que falassem (Atos 2.4,33). As línguas, aqui não eram a causa do problemas. Por isso Lucas nada diz respeito delas, para chamar a atenção do erro de Simão.[13]

O erudito pentecostal Antonio Gilberto, na defesa da evidência inicial, lembrou da regra hermenêutica da primeira referência [14]. Segundo Isael de Araújo, no Dicionário do Movimento Pentecostal, o uso dessa regra hermenêutica e o apelo pela “lei da referência tríplice”, usado por teólogos pentecostais, não demonstrou tanta eficácia [15]. Então, os pentecostais começaram a produzir obras de cunho acadêmico na defesa da doutrina carismática e nas línguas como evidência inicial do Batismo no Espírito Santo.


Roger Stronstad, professor de teologia e decano da Summit Pacific College, escreveu nos anos 1980, uma grande obra erudita para a defesa da teologia pentecostal. No livro Charismatic Theology of St. Luke (Hendrickson, 1984), Stronstad apresenta várias contestações aos cessacionistas e defende a doutrina da evidência inicial.


Os cessacionistas como Jonh Stott, como acima descrito, argumentam que Lucas escreveu livros históricos sem intenção teológica. Stronstad escreveu na obra acima citada, que esse argumento de Stott acaba por criar um cânon dentro do cânon [16]. William W. Menzies, Phd em História da Igreja pela University of Iowa, escreveu: “O gênero literário de Atos não é meramente histórico, mas também intencionalmente teológico” [17], da mesma forma o reverendo assembleiano Anthony D. Palma, mestre em divindade pelo New York Theological Seminary e doutor em teologia pela University of Concórdia, escreveu:

Os escritos de Lucas pertencem ao gênero literário da História. Mas o livro de Atos é mais do que a história da Igreja Primitiva. Acadêmicos contemporâneos, especialmente, afirmam que Lucas foi um teólogo à sua moda, bem como um historiador. Ele usa a Historia como um meio para apresentar sua teologia.[18]

A Declaração Oficial de Crenças do Concílio Geral das Assembleias de Deus norte-americana lembra que a doutrina da evidência inicial é uma doutrina por indução, assim como a doutrina da Santíssima Trindade, pois não há textos dogmatizados em torno desses assuntos. O Concílio assim escreveu:
Nenhuma doutrina deve estar baseada em fragmentos isolados das Escrituras, mas somente podem estar baseadas em verdades substanciais e implicadas. A doutrina da Trindade não está baseada em declarações definitivas, mas sim em uma comparação de passagens das Escrituras que estão relacionados com a deidade de Deus. Assim como a doutrina da Trindade, a doutrina das línguas como evidência do Batismo no Espírito Santo está baseada em porções substanciais das Escrituras relacionadas com esse tema.

Confusões relacionados ao tema

Uma confusão frequente em relação ao tema "línguas estranhas" é confundir sinal com dom. Todos os batizados no Espírito Santo falam em línguas, o sinal, mas nem todos recebem o "dom de variedades de línguas". Assim como escreveu o teólogo Antonio Gilberto:
A variedade de línguas é um dom de expressão plural, como indica o título. È um milagre linguístico sobrenatural. Nem todos os crentes batizados no Espírito Santo recebem esse dom (1 Co 12.30). Já as línguas como evidência física inicial do batismo, todos os batizados no Espírito Santo as falam.[19]

Outro equívoco é pensar que só tem o Espírito Santo quem é batizado no Espírito Santo. Todo salvo é habitação do Espírito de Deus, mas os batizados no Espírito Santo recebem poder [capacitação] e não a pessoa do Espírito Santo, pois já são templos da Terceira Pessoa da Trindade (1 Co 3.16).

Um terceira questão é o exagero que muitos pentecostais proclamam ao falar sobre os benefícios do Batismo no Espírito Santo. Alguns dizem que mediante o Batismo o crente mudará de vida, como se o Batismo fosse uma regeneração posterior. É claro que há muitas mudanças na vida do batizado, mas não pode haver exageros. Outros afirmam que é só possível desfrutar dos dons espirituais após o Batismo no Espírito Santo. Anthony D. Palma faz uma ótima observação sobre essa questão:

O Batismo no Espírito Santo é um pré-requisito para receber os dons espirituais”. Mas onde encontramos isso nas Escrituras? O povo de Deus experimentou todos os dons nos séculos anteriores ao Dia de Pentecostes. É mais correto dizer que o batismo no Espírito Santo intensifica a sensibilidade e a receptividade espirituais, fazendo da pessoa um candidato mais propenso aos dons espirituais. Isso é amplamente demostrado pelo fato de que há maior incidência dos dons entre aqueles que foram batizados no Espírito Santo do que entre os que não foram.[20]

Um último equívoco relacionado ao tema é a constante acusação dos antipentecostais que a doutrina do batismo no Espírito Santo cria crentes de segunda classe: o não-batizados. Essa acusação é uma falácia, pois poderia ser dito o mesmo da santificação. E lembrando que sempre os pentecostais pregaram que o batismo no Espírito Santo é disponível para todos os salvos, já quebrando essa tese de uma classe especial.

Conclusão

As evidências bíblicas indicam que as línguas estranhas são a única evidência do Batismo no Espírito Santo, como um sinal físico de revestimento de poder do Alto.

Notas e referências bibliográficas:

1- Charles Fox Parham(1873- 1929) foi um metodista e professor de teologia que montou um seminário teológico por nome de Bethel Bible School (Escola Bíblica Betel). A proposta desse seminário era a busca de uma espiritualidade serviçal. As aulas consistiam em estudos da Bíblia sem auxílio de livros e algumas horas de oração. No final do ano de 1900, os quarenta alunos de Parham estavam estudando o Batismo no Espírito Santo e concluíram que a evidência do batismo era o falar em línguas, apresentando os textos de Atos 2 e 19. Então no dia primeiro de janeiro de 1901, a aluna Agnes Ozman conclamou que Parham e os demais alunos impusessem as mãos sobre ela, pedindo o batismo no Espírito Santo. Depois Ozman descreveu a experiencia: “Falei em línguas conforme Atos 2.1 e 19.6, de modo semelhante, quando o apóstolo Paulo impôs as suas mãos sobre os discípulos de Éfeso, e o relato bíblico acontecido no Cenáculo em Jerusalém, quando foram vistas línguas como de fogo”. Para Parham e os seus alunos, a experiência de Ozman confirmou os seus estudos. Nesse acontecimento se vê que o princípio hermenêutico não foi empirista ou pragmático, conforme acusa os críticos do pentecostalismo. Em Bethel Biblie School a doutrina precedeu a experiência.

2- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 295. Nota: O falar em línguas foi o que diferenciou os pentecostais dos demais protestantes, pois a doutrina do batismo no Espírito Santo ou segunda-bênção era um ensinamento corrente no Século 19, especialmente por meio de D. L. Moddy, A B. Simpson, R. A Torrey, F. B. Meyer etc. Como bem afirmou William Menzies: “É inimaginável que pudesse haver o Movimento Pentecostal sem a conexão entre o batismo no Espírito Santo e o falar em outras línguas”.

3- Idem.

4- HORTON, Stanley M. O Avivamento Pentecostal. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p. 75.

5- Logo na introdução do livro Baptism and Fullness, publicado no Brasil pela Editora Vida Nova com o título Batismo e Plenitude do Espírito Santo, John Stott argumenta: “ Esta revelação do propósito de Deus na Bíblia deve ser buscada preferencialmente nas suas passagens didáticas, e não nas descritivas. Para ser mais preciso, devemos procurá-la nos ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos, e não nas seções puramente narrativas de Atos.”

6- Teólogos cessacionistas são adeptos do Cessacionismo, corrente teológica que afirma que os dons espirituais cessaram com a morte dos apóstolos ou com o fechamento do Novo Testamento. O Cessacionismo não é herança da teologia reformada, pois o resgate da obras de grandes reformadores, mostra que eles não tinham um visão de extinção dos dons espirituais. Essa corrente, que se desenvolveu fortemente no século 19 e início do século 20, é herdeira da hermenêutica naturalista dos teólogos liberais, que tiveram o seu ápice nesse período histórico.

7- Elienai Cabral Junior é graduado em teologia e filosofia, sendo filho do famoso teólogo pentecostal brasileiro Elienai Cabral, pastor da Assembléia de Deus em Sobradinho- DF. Cabral Jr é pastor da Assembleia de Deus Betesta, dirigida pelo renomado pastor Ricardo Gondim, que propõem um igreja no modelo de teologia pentecostal clássica. Gondim em entrevista para a Revista Enfoque Gospel, disse em relação a doutrina da Betesda: “Nossa teologia tem raízes no pentecostalismo clássico, portanto, somos pentecostais”. Apesar dessa afirmação, a doutrina da evidência inicial é contestada.

8- http://elienaijr.wordpress.com/2006/11/24/meu-pentecostalismo-revisitado/

9- PEARMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. 8 ed. São Paulo: Editora Vida, 1984. p. 197.

10- BERGSTÉN, Eurico. A pessoa e Obra do Espírito Santo, in Lições Bíblicas Mestre. Rio de Janeiro: CPAD, 1° semestre de 2004, p. 40.

11- STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p. 1655.

12- HORTON, Stanley M. (ed.) Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, p. 448.

13- ______________ A Doutrina do Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 168.

14- GILBERTO, Antonio. Desvios da doutrina bíblica, in Ensinador Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, ano 7, n°28, p. 18-20.

15- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 296.

16- O teólogo reformado Vincent Cheung concorda com a argumentação de Roger Stronstad, e em um ótimo artigo sobre a fragilidades de alguns argumentos cessacionistas, ele escreve: “Uma coisa é dizer que poderia ser mais difícil estabelecer acuradamente uma doutrina baseando-se em narrativas bíblicas, de forma que muito cuidado é requerido, e outra coisa totalmente diferente é proibir certos usos para essas porções narrativas, mesmo em face de exemplos bíblicos contrários”. (Alguns Comentários sobre Cessacionismo, in Monergismo.com)

17- HORTON, Stanley M.(ed) Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, p. 442.

18- PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 11.

19- GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 72.

20- PALMA, Anthony D. Os dons e o fruto do Espírito in Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 77, n. 1465, Julho de 2007, p. 18.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O Cristianismo anti-Ortodoxia Parte 02

Leia a primeira parte abaixo.

A questão não é se uma doutrina é bela, mas se ela é verdadeira. (Anônimo)

A ortodoxia generosa faz jus ao nome, pois busca um deus e uma teologia, politicamente correta. Essa “nova teologia” é baseada no sentimento de liberdade apregoado por teólogos, que apesar de terem o nome de cristãos, nunca mostraram o valor pela salvação eterna em Cristo Jesus. Os defensores da anti-ortodoxia tem muita base filosófica e teológica para os seus argumentos, mas dificilmente podem defender esse ponto de vista por meio da Bíblia, principalmente pelas cartas paulinas e joaninas, que são tratados apaixonados pela verdade.

Amor e Verdade

Seria o amor maior do que a verdade? Biblicamente a resposta é não! João, conhecido como o apóstolo do amor, escreveu uma carta a “senhora eleita”, e disse: “Por amor da verdade que está em nós... Muito me alegro por achar que alguns de teus filhos andam na verdade” (v. 2 e 4) O amor não despreza a verdade e a verdade bíblica não despreza o amor. Isso é um princípio bíblico. Muitos separam amor, obediência e apreço pela verdade; mas na segunda missiva de João, fica claro que essas três palavras são inseparáveis. Como afirmou o Dr. Augustus Nicodemus: “Essa acusação reflete o sentimento pluralista e relativista que permeia a mentalidade evangélica de hoje e que considera todo confronto teológico como ofensivo”. ¹ E como lembra David Limbaugh: “Portanto, até que ponto se amoroso é torna-se cúmplice da destruição da própria verdade, a ponto do esvaziamento do próprio evangelho? Ser sensível é ajudar as pessoas a se afastarem do caminho da vida?”²

Quando mais uma pessoa conhece a verdade bíblica, mas ele será liberta, como disse Jesus: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Por que falar de liberdade jogando fora a ortodoxia? É claro que algumas “verdades” expostas por cristãos equivocados, podem causar neurose em outros cristãos mais frágeis, principalmente no que se refere a uma imagem falsa de Deus ou um ensino legalista de vida cristã. Mas como afirmado, isso é fruto de uma compreensão falsa das doutrinas bíblicas, e não produto da ortodoxia.

Seriam a ortodoxia propriedade da burguesia e a heresia as palavras do oprimido? Esse pensamento é fruto de ignorância histórica e da contaminação de uma cosmovisão marxista no cristianismo, pois os grandes hereges nunca foram pequenos. Do ponto de vista de Deus e consequentemente de sua Palavra, os grandes hereges foram bispos e pontífices importantes, fariseus imponentes e saduceus arrogantes. Heresia é uma tentação que não olha classe social ou região geográfica, mas sim deficiência diante da Palavra.

O desejo de ser amoroso é pratico no movimento anti-ortodoxia? A realidade diz que não! Pois há uma pergunta importante aos teólogos da esperança e os profetas da libertação: Onde estão os seus grandes orfanatos, casas de recuperação de drogados e assistência humanitária as prostitutas de rua? Quem tem trazido mais dignidade para muitos moradores de favela ou sertanejos na seca? Seriam as chamadas “comunidades de base” ou muitos pentecostais simples que procuram viver em comunidade prestativa de modo natural?

Metamorfose ambulante

Esse movimento anti-ortodoxia seria muito apreciado por Raul Seixas, pois ele apregoava o desejo de ser uma “metamorfose ambulante”, pois seria muito desagradável “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Teologia com ortodoxia é velha opinião formada sobre tudo, e isso é abominável para esses neo-ortodoxos. Pois assim como Raul Seixas, esses teólogos bebem do pensamento pós-moderno, que despreza as bases estabelecidas, com diversos argumentos de passividade. Como afirmou o teólogo batista Luiz Sayão:

A idéia da supremacia do fluxo do tempo desemboca na rejeição de outras categorias fixas. A única categoria é o próprio tempo, o novo senhor absoluto. Com esse pressuposto, já não podemos ter teologia e ética definidas e claras. Embora a Bíblia seja um livro de orientações muito cristalinas sobre Deus, a salvação e o propósito da vida (2 Tm 3.16,17; 2 Pe 1.19-21), para muitos evangélicos, a teologia “maluco beleza” é preferível.³

Um deus em processo produz uma teologia em processo, que está em evolução. O fixo, o estável, o certo, o reto são palavrões para uma teologia em metamorfose. A busca pela revolução teológica é constante nesse meio, e apesar das duras críticas aos neopentecostais por parte do movimento anti-ortodoxia, eles são tão pragmáticos em sua doutrina como os promotores de modismos.

A anti-Ortodoxia é um perigo transvertido de poesia e lindas palavras teológicas, onde o teísmo aberto e a teologia da libertação se casaram. Esse Movimento que é filho da pós-modernidade, procura adequar o evangelho aos pensamentos mundanos e as vãs filosofias contemporâneas. A ortodoxia é fruto de reflexão bíblica, onde o sangue de muitos cristãos foi derramado em sua defesa. E que assim a doutrina reta possa assim continuar!

Referência Bibliográficas:

01- NICODEMUS, Augustus. Falta de Amor? O Temporas, O Mores. Disponível em: http:// tempora-mores.blogspot.com/2007/09/falta-de-amor.html. Acesso em: 12/12/2007

02. GEISLER, Norman & TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 10.

03- SAYÃO, Luiz. Raul Seixas e a Bíblia. Revista Enfoque Gospel. Edição 64 - NOV / 2006.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Entrevista com o pastor Isael de Araújo




Isael de Araújo é ministro do evangelho, pesquisador da história das Assembléias de Deus, co-autor do livro História das Assembléias de Deus no Brasil (1982), formado em Teologia, com estudos na área editorial pelo Internacional Christian Publishing Institute (ICPI) da Cook Ministries (Colorado, Springs, EUA) e chefe do setor de Obras Especiais da CPAD.
Em novembro a CPAD lançou o Dicionário do Movimento Pentecostal, de autoria da Pr. Isael de Araújo. A obra já começou como um sucesso editorial, sendo o livro mais vendido pela editora no mês de novembro.
Acompanhe a entrevista com o Pr. Isael de Araújo para o Blog Teologia Pentecostal:

Blog Teologia Pentecostal- Qual o motivo que o levou a escrever o Dicionário do Movimento Pentecostal?

Pr. Isael de Araújo- Há mais de dez anos, quando chefiava o setor de livros estrangeiros da CPAD, conheci o Dicionário Internacional do Movimento Pentecostal e Carismático, em inglês. Fiquei encantado com a proposta da obra. Numa reunião de rotina para definir quais obras seriam traduzidas e publicadas no Brasil, analisamos a referida obra. Mas, embora a direção da CPAD achasse bastante interessante a obra considerando o Brasil como uma das maiores expressões do pentecostalismo, a editora não queria simplesmente traduzir o original em inglês, pois, dentre alguns problemas existentes, a obra não refletia a realidade da igreja pentecostal brasileira. Considerando todo o meu envolvimento com pesquisas sobre a história das Assembléias de Deus e o pentecostalismo, então me apresentei para desempenhar a tarefa de elaborar uma obra nacional.

BTP- O Dicionário do Movimento Pentecostal se propõem a ser um registro histórico do pentecostalismo. Qual é a importância de resgatar a história do Movimento Pentecostal para a igreja hodierna?

IA- O Dicionário não se trata de um registro puro e simples da história de pioneiros, movimentos e denominações. No primeiro momento é esta a visão que se tem. Mas a obra vai além disso. Um grande objetivo que me propus a alcançar foi mostrar o inter-relacionamento das informações, de tal forma que o leitor possa compreender que o pentecostalismo da atualidade não é algo estanque, mas que houve uma evolução e que o passado nos ajuda avaliarmos a igreja hodierna. Acredito que, se os crentes pentecostais conhecessem mais o pentecostalismo, menos se distanciariam dele.

BTP- É comum, os críticos do pentecostalismo acusarem o Movimento Pentecostal de deficiência doutrinária. Porém o moderno pentecostalismo nasceu em um Instituto Bíblico com Charles Fox Parham, e hoje tem eruditos de destaque como Stanley M. Horton e Gordon Fee. Qual era a visão de importância à doutrina e teologia dada por parte dos primeiros pentecostais?

IA- Essa crítica faz parte do contexto do chamado “efeito-pêndulo” da história da igreja. Uma época a ênfase recaía nas emoções, outra no intelecto. O século 19 e início do 20 foram marcados pelo liberalismo teológico (ênfase no intelecto). Então, o pentecostalismo foi visto como a guinada para a emoção. Por um lado, passou a sofrer crítica dos intelectuais e por outro, muitos de seus líderes faziam tudo para não serem vinculados com a “letra” que mata a fé. Todavia, havia, sim, lugar para a doutrina e a teologia. Diria que muito mais que na atualidade. Os primeiros pentecostais eram bastante fundamentalistas e a “pedra de toque” do fundamentalismo era aceitação e o estudo da Bíblia Sagrada como um todo. É deficiência doutrinária crer no batismo no Espírito Santo de que trata a Bíblia?

BTP- Qual foi a principal mudança no cenário assembleiano brasileiro, quando os missionários norte-americanos substituíram os suecos na metade do século XX?

IA- Nunca houve substituição nas Assembléias de Deus de missionários suecos por missionários norte-americanos. Até porque, a Missão Americana decidiu enviar, oficialmente, missionários para o Brasil em 1936, portanto, nas primeiras décadas e não na metade do século. Logo, também, nunca houve mudança no cenário assembleiano. O sistema eclesiológico e doutrinário deve muito mais aos missionários suecos do que aos americanos.

BTP- Há uma divisão comum na Sociologia da Religião, entre pentecostais clássicos ou de primeira-onda (Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil, com ênfase na glossolalia e nos dons espirituais), deuteropentecostais ou pentecostais da segunda-onda (Igreja do Evangelho Quadragular, O Brasil Para Cristo, Deus é Amor etc, com ênfase na cura divina) e neopentecostalismo (Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo etc, com ênfase na cura divina, exorcismo e prosperidade financeira). Essa divisão explica de maneira satisfatória o Movimento Pentecostal no Brasil?

IA- Não. Ainda precisamos saber a fundo o que é pentecostalismo clássico, deuteropentecostalismo e neopentecostalismo. Por enquanto, está mais para rótulo do que definição.

BTP- Do ponto de vista histórico, quais os fatores que levaram o evangelicalismo a desenvolver o neopentecostalismo?

IA- É um caso que requer mais estudos. É mais fácil explicar evangelicais desenvolver as doutrinas básicas do pentecostalismo que as práticas neopentecostais. Temos que considerarmos também que o evangelicalismo no Brasil não foi tão expressivo quanto nos Estados Unidos. Sobre o evangelicalismo norte-americano no contexto pentecostal, possuo material.

BTP- O denominado neopentecostalismo pode ser considerado como um novo pentecostalismo, uma evolução do pentecostalismo ou, até mesmo, um anti-pentecostalismo?

IA- Acho que para responder a esta pergunta, temos que encontrar a resposta daquela pergunta sobre as divisões do Movimento Pentecostal.

BTP- O pentecostalismo no Brasil e na América-Latina é muito forte, mas o mesmo não acontece nos Estados Unidos e na Europa. O pentecostalismo é um fenômeno de países subdesenvolvidos?

IA- É um equívoco explicar o crescimento do pentecostalismo relacionando-o ao contexto sócio-econômico do lugar. Tenho bastante argumentos para justificar o que estou afirmando. Por ora, posso lembrar que o pentecostalismo já foi muito forte nos Estados Unidos e na Europa quando essas regiões do planeta também já eram bem mais desenvolvidas que o Brasil e a América Latina. O pentecostalismo pode ser forte em qualquer nível social, desde que os cristãos dêem lugar a ação do Espírito Santo.

BTP- Hoje se observa uma aproximação entre igrejas reformadas e pentecostais clássicos, mas há outros pentecostais que se aproximam a cada dia do neopentecostalismo. Qual tendência prevalecerá? É possível prever?

IA- Como prever tendências se a obra do Espírito Santo é um movimento? Eu não consigo. Alguém consegue? Ou seja, uma hora temos conhecimento de igrejas tradicionais enfatizando a manifestação do Espírito Santo, em outra, vemos igrejas pentecostais tradicionais pondo em prática a liturgia dos cultos e ensinos do chamado neopentecostalismo. Ambos, afirmam ser isto o resultado do “mover do Espírito”.

BTP- Como foi a experiência de trabalhar em importantes obras publicadas pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), como o livro Verdade Absoluta de Nancy Percey e Comentário Bíblico Pentecostal de French L. Arrington e Roger Strostad? A CPAD seguirá um caminho mais acadêmico, como tem mostrado nos últimos anos?

IA- É um grande privilégio ser funcionário e autor pela CPAD. O caminho que a Casa está seguindo atualmente tem sido visto e admirado por todo o povo evangélico brasileiro. Agora, quanto aos seus rumos editoriais, não posso falar aqui em nome da editora. Apenas, uma correção: o livro Verdade Absoluta teve seus originais preparados no Setor de Livros Estrangeiros e não no de Bíblias e Obras Especiais que chefio.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O Cristianismo anti-Ortodoxia Parte 01

Se não tornarmos clara nossa posição, com palavras e obras, em favor da verdade e contra as falsas doutrinas, estaremos edificando um muro entre a próxima geração e o evangelho.

Francis Schaeffer


Não, essa não é uma crítica as doutrinas ou práticas dos neopentecostais. O artigo quer alertar para um movimento crescente no meio evangélico da atualidade, um cristianismo anti-Ortodoxia. Sendo filha da pós-modernidade, esse movimento tem crescido assustadoramente em meio de pensadores, teólogos e filósofos protestantes. Uma das vítimas dessa nova corrente é a apologética, que foi tão prestigiada pelos teólogos do Século XX, e agora é tachada como ortodoxolatria, gnosticismo cristão, e de modo pejorativo os apologistas são tachados de xiitas cristãos e “busca-dores” da reta doutrina.

Após o Teísmo Aberto ter entrado no Brasil com unhas e dentes, essa teologia trouxe, no seu bojo filosófico, outros pensamentos estranhos ao cristianismo histórico. Para justificar essa corrente que distorce o pensamento bíblico sobre a pessoa de Deus, os promotores resolveram apelar para um debate de cunho emocional. O amor passou a ser visto como algo superior a verdade, a paixão pelos oprimidos passou a ser mais importante que a defesa da doutrina. Ortodoxia passou a ser vista com sinônimo de Religião, que se tornou uma palavra pejorativa na era pós-moderna da espiritualidade.

A ortodoxia hoje é vista como um demônio. Demônio este que separa igrejas, que matas homens, que separa famílias, que causa discriminações e que até crucificou Jesus no Gólgota. O movimento anti-Ortodoxia não vê diferença entre a apologética cristã e os homens-bomba do Talibã islâmico.

Nessa visão de libertação da ortodoxia, é correto afirmar que o Teísmo Aberto no Brasil casou-se com a Teologia da Libertação, como conseqüência, a idéia de associar o cristianismo a libertação das classes oprimidas é muito forte na cabeça de muitos teólogos. Em poucos anos os pensamentos de Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff foram ressuscitados por alguns protestantes.

Dentro desse grupo há um resgate da teologia neo-ortodoxa de Karl Barth e liberal de Friedrich Schleiermacher, Paul Tillich, Rudolf Buttman. Em sua fome de combater o “fundamentalismo protestante calvinista norte-americano”, o grupo se volta às vãs filosofias da Alemanha.

No discurso dos apologetas da anti-ortodoxia, o neopentecostalismo e o fundamentalismo protestante, assim como o evangelicalismo reformado são colocados em um mesmo saco: o saco da ignorância e da opressão religiosa.

Defender algumas doutrinas bíblicas passou a ser vista com a defesa de uma linha de pensamento: o calvinismo. Mas aceitar as doutrinas da onisciência, soberania, onipotência, imutabilidade de Deus, não é prerrogativa calvinista ou arminiana, mas de todos aqueles que baseiam suas crenças na infalível Palavra de Deus.

Continua...