domingo, 9 de março de 2008

Teísmo Aberto e suas implicações à teologia pentecostal - Parte 01

O Teísmo Aberto é uma corrente teológica que possui uma nova interpretação em relação a Deus e a seus atributos, contrariando a perspectiva do teísmo clássico. O Teísmo Aberto ficou conhecido no Brasil como Teologia Relacional. Hoje, o Teísmo Aberto se alinhou a outras correntes teológicas, como a Teologia da Libertação, Teologia da Esperança, Neo-Ortodoxia, Liberalismo Teológico, Ortodoxia Generosa, Igreja Emergente, Teologia Feminista, Teologia Kenótica etc. Todas essas escolas de pensamento teológico tem em comum a contrariedade ao Cristianismo Histórico e a constante de adaptar o evangelho ao tempo moderno.
O Teísmo Aberto tem suas origens na Teologia do Processo. Segundo C. Stephen Evans, “os teólogos do processo rejeitam a descrição clássica sobre Deus como imutável e transcendente em favor de um Deus que parcialmente evolui por meio de sua relação com o mundo criado”[1]. A escritora Nancy Pearcey completa:

A teologia do processo ensina que Deus e o mundo estão em processo de mudança e evolução constante. Deus é um espírito divino que evolui no mundo e com Ele, a alma do mundo, a vida cósmica evolutiva da qual nossa vida faz parte.[2]

A Teologia do Processo têm como os principais pensadores Charles Hartshoure, Alfred Whitehead e John Cobb. Nessa teologia, Deus está inserido no tempo, e não acima desse tempo, sendo um Ser que evolui e é mutável com Suas criaturas. A Teologia do Processo é panenteísta, ou seja, tudo está em Deus, e o próprio Deus se confunde com a natureza que Ele criou.
Nessa corrente teológica Deus está subordinado ao tempo, ou seja, não é o Deus revelado nas Sagradas Escrituras. Segundo Charles Hartshorne: “Deus faz parte da ordem temporal. Por meio desse envolvimento, ele está continuamente obtendo sínteses de experiências mais enriquecedoras”[3]. O deus temporal deixa de ser O Eterno, pois alguém subordinado ao tempo está preso ao presente; o teólogo e filósofo Ariovaldo Ramos observa:

Para Deus não saber (do futuro), Ele tem de sair do estado eterno; e quem sai do estado eterno nada sabe, apenas suspeita, uma vez que graças a uma visão limitada e rarefeita fica-se condenado à interpretação das informações, sobre as quais até a certeza é relativa.[4]

O Teísmo Aberto é o filho protestante dessa filosofia judaica do processo. Clarck Pinnock, expoente do Teísmo Aberto, escreveu que a sua proposta teológica neoteísta está entre o Teísmo Clássico e a Teologia do Processo[5]. A diferença essencial entre o Teísmo Aberto e a Teologia do Processo está em sua metodologia, pois os teístas abertos procuram uma linguagem bíblica e tentam resgatar o cristianismo da filosofia grega, mas os teólogos do processo usam uma filosofia exclusivamente liberal.
Segundo os teístas abertos, a teologia cristã clássica tem muito de filosofia grega e pouco de revelação bíblica, em especial a teologia agostiniana. Esse “resgate” do cristianismo da filosofia grega, não torna o Teísmo Aberto longe de pressupostos filosóficos, pois os teístas abertos criaram um deus moldado a pós-modernidade; onde a autoridade, liberdade e relacionamento divino se moldam à geração contemporânea. Como a obra organizada por Justin Taylor, John Piper e Paul Helseth, afirma:

Motivados pelo zelo de resgatar o Deus da Bíblia das distorções gregas, o que eles produziram foi um Deus de distorções norte-americanas. No lugar de um tirano estático, erigiram o derradeiro pai norte-americano. O Deus do teísmo aberto está tranqüilamente livre do mistério e alegremente zeloso em confirmar nossa autonomia.[6]

O teólogo assembleiano Claudionor Corrêa de Andrade leciona: “Buscando, agora, justificar o injustificável, esforçam-se por criar um deus teologicamente correto; um deus à sua própria imagem e semelhança”[7]. Verifica-se que o Teísmo Aberto é fortemente influenciado pela pós-modernidade e nunca estará livre de influências estranhas, aja vista a Teologia do Processo. Norman Geisler afirma com muita propriedade:

Não há nada de errado em ter uma influência filosófica no estudo teológico e bíblico. Filosofia é necessária para fazer tanto exegese quanto Teologia Sistemática. Devemos apensas analisar se a pessoa está usando boa filosofia. Então, a questão não é se esse é um pensamento grego, mas se ele é um pensamento bom e correto. A questão não é se é helênica, mas se é autêntica. [8]

O grande problema com a influência filosófica é quando essa contradiz as Escrituras judaico-cristã[9]. Certamente a teoria de um deus mutável e em evolução, influenciada por uma filosofia darwinista é contrária as Sagradas Escrituras.
Os teístas abertos são taxativos em rotular aqueles que não concordam com sua visão de “fundamentalistas-calvinistas-dogmáticos-retrógrado”, e ainda lamentam pelo “rótulos”que recebem. Usam títulos como “fundamentalistas” por soar de modo pejorativo na sociedade pós-moderna. É bom lembrar que não são só calvinistas que não concordam com o teísmo aberto, o arminianismo clássico condena essa “nova interpretação libertária de Deus”. É certo que os teístas abertos são sempre arminianos, mas o arminianismo não é teísta aberto; Norman Geisler, por exemplo, chama o teísmo aberto de “arminianismo exagerado”[10].


Obs: No próximo artigo será abordado as influências do Teísmo Aberto sobre a teologia pentecostal.


Notas e Referências Bibliográficas:

01. EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2004. p 133.

02. PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 263.

03. McGRATH, Alister E. Teologia- Sistemática, Histórica e Filosófica. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. p 342.

04. RAMOS, Ariovaldo. Teologia e lógica. Teologia Brasileira. São Paulo, 17/10/2004. Disponível em: . Acesso em: 08/03/2007.

05. PINNOCK, Clark. Process Theology. Grand Rapids, ML; Baker, 1987 in GEISLER, Norman L. A Sedução das Filosofias. Reposta Fiel, Rio de Janeiro, n. 10, p 26-31, Dez-Jan-Fev de 2003.

06. PIPER, John; TAYLOR, Justin; HELSETH, Paul K. Teísmo Aberto– Uma teologia além dos limites bíblicos. São Paulo: Editora Vida, 2001. p 166.

07. ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Os perigosos objetivos do Teísmo Aberto. Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, Outubro. 2007. Artigo, p 27.

08. GEISLER, Norman L. Teísmo Aberto, Ortodoxia ou Heterodoxia? Reposta Fiel, Rio de Janeiro, n. 24, p 07-09, Jun-Jul-Ago de 2007.

09. “A justificação teológica, que desde uma época muito própria se deu para unir o cristianismo e a cultura grego-romana, se encontra na antiga doutrina do Logos, mediante a qual se justificou aquela união da obra de teólogos como Justino o Mártir, Clemente de Alexandria e Orígenes, os quais sustentavam que o Logos que se encarnou em Jesus Cristo foi o mesmo ao antigos, e que por isso a igreja do Verbo encarnado tinha pleno direito de se apropriar de qualquer verdade que houvesse na tradição grego-romana.” In GONZÁLEZ, Justo L. Mapas Para A História Futura da Igreja. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 23.

10. GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 162.

10 comentários:

Pastor Geremias do Couto disse...

Caro Gutierres:

Parabéns pela abordagem. Coerente, lúcida, objetiva e verdadeira. Deixe que nos chamem de fundamentalistas ou de qualquer outro nome. Que nos rotulem como quiserem. É o preço a ser pago. Mas é impossível admitir que o Teísmo Aberto seja uma corrente teológica que tenha consistência com as Escrituras. Para mim, Teísmo Aberto, parafraseando Geisler, é má filosofia.

Abraços

Ednaldo disse...

Gutierres, gostei do artigo. você tornou de facil de entender aquilo que para muitos é dificil, escreveu um artigo conciso e de leitura fluente. Parabéns.

Ednaldo.

Daladier Lima disse...

Associo o Teísmo Aberto a uma tentativa de entender as insondáveis ações de Deus, associando-as com as principais correntes espirituais do pensamento lógico. Nela se inclue, por exemplo, Kardec. Esta tentativa, que é legítima a todo ser humano, deve ter como ingrediente principal a humildade. Ela irá impedir arroubos e presunções indignas do Deus das Escrituras. Se não entendemos, humildemente reconheçamos nossa limitação, e não saiamos a divagar e criar propósito para o que Deus não revelou.
O mais, penso eu, é o parto da ociosidade, que se opõe à necessidade da prática teológica num mundo castigado por crises.
Vale a pena conhecer, renegar e se opor.
Coitados... O Deus deles é tão limitado. Basta-lhes o Salmo 139!

André Amaral disse...

Gutierres,

Estou cansado de debater...rs

Mas tenho algumas ponderações sobre o texto.

"Hoje, o Teísmo Aberto se alinhou a outras correntes teológicas, como a Teologia da Libertação, Teologia da Esperança, Neo-Ortodoxia, Liberalismo Teológico, Ortodoxia Generosa, Igreja Emergente, Teologia Feminista, Teologia Kenótica etc."

Será?
Com que base você coloca a Neo-Ortodoxia nesse meio? Acho dificil fazer tal afirmação... Você parece estar se baseando em coisas que do tipo "fulano de tal disse"...

"Todas essas escolas de pensamento teológico tem em comum a contrariedade ao Cristianismo Histórico e a constante de adaptar o evangelho ao tempo moderno".

Nota, contrariedade a DETURPAÇÃO HISTÓRICA que ocorreu com o Cristianismo.

Toda teologia é de mediação. Se não é de mediação não pode ser considerada teologia, só mera repetição.

A teologia pentecostal, por exemplo, não pode ser considerada, junto com as que vc citou, uma contrariedade com o cristianismo dito histórico?

Enquanto não assumirmos a Morte de Deus vamos continuar falando sobre Deus em termos meta-fisicos e blá-blá-blá.
O Deus meta-fisico morreu dentro da cultura "pós-moderna" (mesmo não aceitando), por isso, acho esse debate sobre a teodiceia um tanto desnecessario.

Ainda tem a segunda parte, que creio ser a parte principal do texto.

Abraço.

Anônimo disse...

Srs., bom dia.

Gostei do termo usado por nosso amigo/irmão Daladier "... é o parto da ociosidade...".

Mesmo levando em consideração a quantidade de literatura escrita no decorrer da história sobre Deus e tudo a que a Ele se relaciona, estou convicto de que ainda não se esgotaram e jamais se esgotarão as observações, considerações e descobertas no campo teológico, pois, Deus é infinito.

Porém, deixar-se levar por impulsos, creio eu, vaidosos quanto à "questões novas", "afirmação novas" sobre Deus, sem se quer, cuidar pela integridade de Seus atributos exclusivos, como onisciência ou outros mais, é sem dúvida dar à luz ao filho da ociosidade e por que não, da prepotência, da arrogência e do desejo de se exibir a qualquer custo.

Os últimos anos têm apresentado alguns ditos "teólogos" que de tão fracassados, não conseguem se quer, levantar alguma "heresia" que seja no mínimo, "original".

Que aprendamos com os nossos antepassados, valendo-nos dos seus acertos e também, não cometendo outra vez, os seus erros.

Parabéns Gutierres !
Que Deus continue te iluminando !
Fábio Junior

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

A paz do Senhor a todos.

Pastor Geremias do Couto,
Obrigado por suas palavras. Realmente, se defender o que a Bíblia diz é ser fundamentalista ou retrógrado, então assim seremos; sempre sabendo que a Palavra de Deus nos levará para o equilíbrio nas Santas Escrituras.

Ednaldo,
Que esse artigo possa colaborar com muito que ainda não atentaram para o asssunto. Obrigado pelas constantes participações.

Daladier Lima,
Você disse muito bem: “Se não entendemos, humildemente reconheçamos nossa limitação, e não saiamos a divagar e criar propósito para o que Deus não revelou”. Se não nos curvarmos humildemente diante da revelação bíblica, ficaremos nos afogando nas especulações. Obrigado pela participação.

André Amaral
Vamos lá:
“Com que base você coloca a Neo-Ortodoxia nesse meio? Acho dificil fazer tal afirmação... Você parece estar se baseando em coisas que do tipo "fulano de tal disse"...”
Resposta: Você há de reconhecer que todas as correntes modernistas, progressistas, liberias e neo-ortodoxas se relacionam. Não é que um teísta aberto seja 100% liberal ou neo-ortodoxo, mas ele certamente beberá destas fontes.
A teologia é repetição, o estudo sobre Deus não nos leve para novas verdades ou para um relativismo absurdo. A teologia cristã é fechada, dogmática, baseada em absolutos. A teologia pentecostal pode ser resgatada em momentos históricos do cristianismo, como a igreja nos primeiros dias, passando pela Pratística, Reforma e avivamentos puritanos.
A transcendência de Deus é bíblico, portanto esse conceito nunca morrerá enquanto o cristianismo estiver nesse terra.

Fabio Junior,
Você complementou muito bem no seu comentário as falácias do teísmo aberto.

Vitor Hugo da Silva disse...

A paz do Senhor Gutierres!

Mudei o meu BLOG de endereço e de nome. Está fora do ar o BLOG DO VITOR HUGO. Meu novo BLOG é perícopes do cotidiano crisã. Por favor, altere o endereço no link do seu BLOG. Meu novo BLOG é:

www.pericopecc.blogspot.com

Um abraço!
Vitor Hugo

Pedro Negret disse...

Ótimo texto Gutierres! Cadê, tem a continuação?!
Abração e continue se dedicando aos estudos!

A Paz!

marta disse...

Parabéns pelo blog. Está não apenas bonito, mas esclarecedor e edificante.
O modo como você reúne artigos de diferentes autores, mais os comentários dos visitante, ajuda na compreensão de temas difíceis, como este do Teísmo Aberto, por exemplo. Eu já lera o artigo citado do Claudionor (claro!), mas depois de ler os outros aqui, tive uma visão mais clara do assunto.
Deus o abençoe e inspire, sempre.

Josivan Tavares disse...

Você sabia, irmão, que o Pastor Ricardo Gondim tem sido acusado de defender estas posições teológicas (teísmo aberto, ortodoxia generosa etc.). Gostei do artigo, estou tentando pequisa mais sobre o assunto. Tem o livro muito bom lançado recentemente por um escritor assembleiano chamado Silas Daniel.