sábado, 3 de maio de 2008

O evangelho da cruz

É pela cruz, só pela cruz, que Cristo chega à vida, à ressurreição, à vitória? Esse é justamente o tema maravilhoso da Bíblia que assusta a tantos: que o único sinal visível de Deus no mundo seja a cruz. Cristo não é arrebatado gloriosamente da terra para o céu, seu destino é a cruz. E precisamente lá onde está a cruz está próxima a ressurreição. Onde todos ficam desconcertados diante de Deus, onde todos se desesperam com Deus, é exatamente lá que Deus está bem perto e Cristo está vivamente presente. Onde a decisão entre a fidelidade e deslealdade está por um fio, está Deus e está Cristo por inteiro. Onde o poder das trevas quer violentar a luz de Deus, é lá que Deus triunfa e julga as trevas. Assim será também com o dia que Cristo prevê para sua comunidade. Os discípulos perguntaram pelo sinal de seu retorno depois de sua morte. Não se trata de um retorno único, é um retorno eterno. O fim dos tempos da Bíblia é todo tempo, é todo dia entre a morte de Cristo e o juízo final. É com tanta seriedade, com tanta determinação, que o Novo Testamento encara a morte de Cristo.[1]
(Dietrich Bonhoeffer)

A centralidade da cruz no cristianismo é evidente. Jesus disse que “quem não toma a sua cruz e não segue após mim não é digno de mim”(Mt 10.38). O apóstolo Paulo escreveu: “Nós pregamos a Cristo crucificado” (I Co 1.23) e ainda o doutor do gentios pregava o evangelho para que “a cruz de Cristo se não faça vã” (I Co 1.17). Paulo relata que só poderia se gloriar “na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo” (Gl 6.14). O apóstolo descreve, com lamentações, que há muitos “inimigos da cruz de Cristo” ( Fl 3.18) e descreve a paz vinda do sangue de Cristo derramado na cruz (Cl 1.20), e ainda em suas epístolas escreve que a salvação, mediante o concerto veterotestamentário, foi cravada na cruz (Cl 2.14).O autor aos Hebreus relata que há uma grande vitória na cruz de Cristo, pois “pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus”(Hb 12.2). O evangelho é desfrutado com suas aflições (II Tm 1.8), sendo que o discípulo “sofre como bom saldado de Jesus Cristo”(II Tm 2.3).
Ser cristão é pregar a cruz, mas essa mensagem tem sido gradativamente abandonada nos púlpitos evangélicos. A temática da vez são pregações sobre vitória financeira, batalha espiritual para conquista de territórios, doutrina da prosperidade, confissão positiva, poder pelo poder chamado de reteté, adoração extravagante, avivamento extravagante etc.
O sociólogo Ricardo Mariano, escrevendo academicamente sobre os neopentecostais, diz com muita sobriedade:

Com o neopentecostalismo, portanto, a velha “mensagem da cruz”, discurso teológico que pregava o sofrimento terreno do cristão, caiu por terra e, sem qualquer compadecimento, foi sumariamente soterrada. Daí que, no cotidiano dos cultos e na vasta programação de rádio e TV dos neopentecostais, conhecer Jesus, ter um encontro com Ele e a Ele obedecer constituem, acima de tudo, meios infalíveis para o converso se dar bem nesta vida.[2]

As doutrinas centrais do cristianismo são sempre abandonadas em tempo de frieza espiritual. A teologia da cruz sumiu das homilias, pois sua mensagem não é de massagem para o ego. A depravação do homem é uma doutrina bíblica que a cada dia é esquecida, como se os únicos problemas do homem fossem dinheiro, crise sentimental ou “amarro” de entidades... Pecado foi substitutivo por “problemas”, onde todos podem ser resolvidos mediante “sacrifícios” de ofertas e dízimos. Mediante o que se ouve é necessário discernimento, como escreve o teólogo Erwin Lutzer:

Os cristãos discernentes testarão os mestres, profetas e evangelistas pela clareza com que pregam o evangelho da cruz. E se o evangelho estiver torcido ou for ignorado, podemos estar bastante seguros de que estamos diante de um mestre que não deve ser seguido. Pois só a cruz, corretamente compreendida, pode nos levar à casa do Pai.[3]

A mensagem da cruz não é palpável para o homem e o cristão pós-moderno, pois hoje todos andam sob uma pressão de ser os melhores, os invencíveis, os super-crentes. Pessoas que precisam de tudo e desfrutar de todas as novidades e no contexto eclesiástico precisam de saúde plena e prosperidade batendo nas portas, pois é assim que sua espiritualidade é medida. Mas Jesus convida cada um para tomar sua cruz e segui-ló, pois antes de Sua ressurreição Ele padeceu, foi rejeitado e morto (Lc 9.22-23).
A mensagem da cruz nunca foi uma mensagem agradável, pois para o judeu cruz era sinônimo de maldição, “porquanto o pendurado(no madeiro) é maldito de Deus” (cf. Dt 21.23) . Para os gregos adorar um Deus que foi morto como bandido, da pior espécie, só pode ser coisa de maluco (I Co 1. 18, 23). A cruz era motivo de zombaria dos primitivos perseguidores, mas como lembra o pastor inglês John Stott: “Entretanto, o que era odioso, até mesmo vergonhoso aos críticos de Cristo, aos olhos dos seus seguidores era muitíssimo glorioso”[4].
A igreja brasileira deve lembrar que Jesus Cristo não morreu na cruz para tornar crentes livres de infortúnios, mas sim, convida a cada uma carregar a sua cruz. Assim como os gregos que achavam loucura essa mensagem e os judeus que se escandalizavam, para muitos evangélicos de hoje, a mensagem da cruz é loucura, coisa de religioso. O problema para todos esses é que a mensagem da cruz é bíblica.


Referências Bibliográficas:

1- BONHOEFFER, Dietrich. Reflexões Sobre a Bíblia. São Paulo: Edições Loyola, 2008. p 28.

2- MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 9.

3- LUTZER, Erwin. Quem é Você Para Julgar? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 83.

4- STOTT, John. A Cruz de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 21.

5 comentários:

Zwinglio Rodrigues disse...

Gutierres, paz.

O irmão continua falando bobagens atrás de bobagens.

Vou só demonstrar uma.

Vc disse q Ricardo Mariano fala com propriedade...

Irmãozinho, acorda pra vida!!!

Veja o q diz o Mariano a seguir:

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"As igrejas pentecostais e neopentecostais não crescem, portanto, por serem repositórios passivos de indivíduos carentes, desajustados, em estado de “anomia”, ou coisa que o valha, a despeito da difusão dessa imagem por um sem-número de reportagens e até por velhas teorias sociológicas. Crescem aceleradamente porque trabalham muito e sabem explorar, em seu benefício institucional, os contextos socioeconômico, político, cultural e religioso onde estão inseridas. Crescem porque aproveitam, eficientemente, as oportunidades advindas da ampliação da liberdade e do pluralismo religiosos, da rápida e maciça difusão dos meios de comunicação, da urbanização e da destradicionalização cultural, da abertura política e da redemocratização do país. Crescem porque, ao lado disso e do ativismo militante de parte considerável dos fiéis, sobretudo do sexo feminino, esforçam-se em oferecer respostas mágico-religiosas – às vezes em deliberada continuidade com elementos da religiosidade popular – para fiéis e virtuais adeptos interessados em superar, pela via ou com ajuda religiosa, problemas decorrentes do agravamento, nas últimas décadas, das crises sociais e econômicas, do aumento exponencial da violência, da criminalidade e da insegurança etc."
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E mais:

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"O crescimento institucional do pentecostalismo brasileiro é muito desigual: três igrejas – Assembléia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e Universal do Reino de Deus – concentram 74% dos pentecostais, ou 13 milhões de pessoas (no ano 2000). Isso permite inferir que o êxito eleitoral da Assembléia de Deus e da Igreja Universal resulta, em parte, de seu peso demográfico."

http://www.comciencia.br/reportagens/2005/05/13.shtml
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Perceba que ele coloca seu pentecostalismo atrelado ao neopentecostalismo. Ele liga sua Assembléia à IURD - BEM FEITO- (coisa que pra você e para os fanáticos denominacionalistas da mesma linha que você anatematiza...).

Teologicamente, você confunde a cruz de sofrimento do Cristo (coisa que só pertenceu a Ele) com a cruz que Ele propõe que o crente carregue...

As tuas outras bobagens com cara de erudição, eu deixo para que outros as destaquem...

Alguém aí do círculo teológico do irmão Gutierres, o oriente melhor porque a coisa tá feia!!!

Ah!!! Isso tá difícil também!!! Pois os mais experientes andam chancelando por aqui as bobagens "gutierrenses"...

Eliseu Antonio Gomes disse...

Gutierres

A mensagem da cruz é importante, não há nenhuma dúvida.

Mas é necessário lembrar-se dela na sua inteireza. Jesus Cristo, após crucificado e morto, ressuscitou e subiu aos céus, conforme relata Lucas nos Atos dos Apóstolos.

A mensagem da cruz, lamentavelmente, sim, tem sido esquecida junto com o próprio Cristo morto e ressurgido da morte de maneira triunfante. Jesus é o centro dessa mensagem. E tem sido ignorado totalmente!

A cruz é simbolizada como uma ponte em algumas ilustrações sobre a salvação. Une o pecador arrependido a Deus.

Os seres humanos, ativos em suas religiosidades, têm trocado a mensagem da cruz pelas idéias das religiões e movimentos religiosos que fazem parte.

As religiões têm sido ilustradas como muros de divisões. Os religiosos têm construído seus muros por se esquecerem qual é a lição deixada através da mensagem da cruz. Essa mensagem apresenta o Crucificado que ressuscitou da morte e venceu o pecado.

O Crucificado ensinou sobre santidade. Mas confundiram tudo o que ele ensinou, pensam que ser santo é viver alienado e separado, fisicamente, de tudo e todos, é viver aquartelalado dentro dos quatro muros que construíram.

O Crucificado mandou ir ao mundo pregar o Evangelho. Mas confundiram isso também. Ao invés de irem ao mundo pregar, os religiosos estão dizendo "venham aqui onde estamos escondidos".

Os religiosos, dentro dos seus quatro muros, esqueceram até o significado do nome Jesus (Salvador). Salvador significa libertador, resgatador, preservador... A salvação envolve a parte física e espiritual.

Em grego, salvação significa cura e prosperidade! Jesus era neopentecostal, então? Não.

Em grego, salvação significa redenção espiritual. Jesus era pentecostal clássico, então? Não.

Para desencargo de peso de consciência, os construtores de muros pegaram para si apenas metade do significado do nome do Crucificado e pregam apenas a metade do objetivo da crucificação de Cristo.

Uns religiosos se fecharam em seus grupinhos porque querem que se pregue a mensagem da cruz lembrando do Salvador como o Jesus que cuida dos seres humanos apenas no aspecto das coisas ligadas ao espírito e a alma... Não aceitam o Salvador que quer preservar o corpo!

Precisamos olhar para o Cristo crufificado com os olhos bem abertos!

Entre os evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João, encontramos neles as narrativas da crucificação. Mas apenas João relatou que do Crucificado jorrou além do sangue também água... É necessário se aproximar do Crucificado para saber todos detalhes da mensagem da cruz!

Precisamos derrubar esses muros do pentecostalismo e neopentecostalismo. Jesus ensinava sobre união, divisão jamais!

Abraço.

Eliseu Antonio Gomes
http://belverede.blogspot.com/

Victor Leonardo Barbosa disse...

Parabéns Gutierres, essa é a realidade do neo pentecostalismo. Onde alguns de seus seguidores muitas vezes querem esconder. O sofrimento é necessário para o crescimento na fé do cristão individual.

Rodrigo de Aquino disse...

Gutierres,

vamos caminhar juntos nessa empreitada de melhorar o movimento do qual fazemos parte.

obrigado pela parceria....

paz

Rodrigo

ocioteologico.blogspot.com

Anônimo disse...

Desculpe o postamento tardio, mas tenho que comentar que esse zwinglio rodrigues esta meio desiquilibrado.Brincadeira santa.
Mas enfim gostei sobre o que disse no texto sobre o envangelho da cruz mas quero te afirmar que o neopentecostalismo( do qual eu acho que me insiro) também mostra aos crentes o evangelho da cruz, tanto é que isso é realmente enfatizados nos nossos retiros espirituais.Eu acredito que não podemos deixar de pregar o evangelho da cruz e tenho plena convicção que os proprios pentecostais(alguns se salvam é claro)deixaram pra traz o sentido da palavra da cruz e a substituiram por "fogo".
Sem mais comentários e desculpe o meu senso comum na discussão teológica.
Paz Talita