domingo, 1 de junho de 2008

Escatologia, ecologia e mordomia cristã

O aquecimento global é um dos grandes temas do século XXI, onde os índices e previsões dos principais cientistas não são favoráveis sobre o futuro do ecossistema no Planeta Azul. A mídia tem dado forte ênfase sobre o assunto e até mesmo Hollywood aproveita a temática para faturar em cima de super produções, como o filme Um dia depois de amanhã (Fox, 2004).
Independente se há, ou não, exageros sobre as previsões do aquecimento global, o tema não pode ser negligenciado. Nos últimos dois séculos o planeta tem sido violentamente agredido pela ação humana não sustentável, onde os processos de industrialização e modernização, além do êxodo rural que inchou cidades, vêm destruindo as principais reservas do planeta.
Mediante esse quadro, qual deve ser o posicionamento da igreja do Senhor sobre o assunto em questão? Os cristãos, de maneira geral, não estão muitos preocupados com as causas ecológicas, isso é um fato incontestável. Pouco e pequenos grupos cristãos tem entendido a importância do cuidado com a natureza, exemplo disso é o projeto EcoBíblia, desenvolvido pelo Instituto Gênesis 1.28 e a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). O lançamento da Bíblia Ecológica, contou com a presença da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que é membro da Assembléia de Deus no Distrito Federal e com o apoio do pastor batista Ariovaldo Ramos [1].
Escritores de cosmovisão cristã, sendo um ramo da teologia que procura compreender os desafios sociais sob o viés bíblico, tem dado destaque em questões culturais, filosóficas, científicas, econômicas, sobre o entretenimento etc., mas pouco é o destaque sobre as questões ecológicas. Nesse sentido, a luta para construir uma cosmovisão capaz de mudar a sociedade em que os cristãos estão inseridos, passa por questões ambientais.

Por que há certa resistência ecológica pelos cristãos?

Alguns fatores contribuem para uma visão distanciada dos cristãos em causas ecológicas, sendo assim prejudicial para a cristandade sair de um debate que ela deveria tomar a frente:

a) Escatologia radical.

Umas das questões levantadas por muitos cristãos é a iminência da volta de Cristo. É claro que Cristo está às portas, mas a escatologia cristã não deve impedir o cristão de trabalhar em seu planeta. Usar a escatologia para justificar a apatia é anti-bíblico, pois se situa no mesmo erro dos crentes tessalonicenses que deixaram suas atividades por justificar sua letargia na doutrina da Vinda de Cristo. Paulo condena fortemente esse tipo de pensamento. Em um contexto doutrinário escatológico, Paulo exorta: “E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhando com vossas próprias mãos” (I Ts 4.11). Confira II Ts 3.11-15.
O uso indevido da escatologia tem levado muitos cristãos, inclusive, a deixarem de se sensibilizar diante de tragédias, como aconteceu recentemente no Mianmar e na China. Os bordões diante das notícias logo florescem como dizer que são os sinais se cumprindo. Essas tragédias são os sinais se cumprindo, mas além desse discurso a igreja Cristã precisa agir nesse momento para orar e ajudar as vítimas dessas catástrofes. Quantas igrejas reuniram seus membros por um minuto e oraram, para pedir que sobreviventes sejam encontrados e que as famílias chinesas, além do Mianmar, possam ser consoladas?

b) Negligência na mordomia cristã.

Cuidar da terra é mandamento bíblico (Gn 1.28; 2.15). Paulo lembra que, por causa do pecado, “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.22). É dever do cristão cuidar da criação de Deus, pois a Imago Dei está na pessoa humana, que é responsabilizada pela responsabilidade de cuidar dos demais aspectos criativos de Deus.

c) Associar ecologista com espiritualismo ou algo sectário.

Há cristãos que generalizam; para ele todo desenho “é do diabo”, todo filme é obra “do demônio”, todo “ecologista é um idólatra da natureza membro de uma seita ligada à Nova Era”. Essas manias ultra-fundamentalista de alguns cristãos prejudicam bastante o entendimento bíblico da questão abordada. A apologética desses grupos cristãos sectaristas acaba por prejudicar a mensagem das Boas Novas que deveria levar adiante.
Os cristãos devem estar longe da idolatra reinante em alguns ambientalistas espirituosos, mas jamais poderão criar um clima maniqueísta sobre o assunto, sendo de um lado cristãos versus ecologistas.

d) Associar causas ecológicas com o “cristianismo” liberal.


Ninguém se engane com os discursos piedosos da maioria dos teólogos de linha liberal. Nos livros eles amam a dignidade humana, as pessoas excluídas, os necessitados, a natureza criada por Deus; mas ao final nada fazem na prática sobre suas falácias de piedade. O cristianismo liberal não é efetivamente ecológico, assim como a negligência dos conservadores fazem com que esses também não se envolvam com o assunto. Mesmo que os liberais fossem, realmente, ecológicos, isso não exima dos cristãos bíblicos de sua responsabilidade ambiental.

Conclusão

Os exageros existem; alguns proclamam a morte do mundo para amanhã; outros se dedicam as causas ambientais devotamente. Como lembra o teólogo Silas Daniel, hoje há “uma glamorização da idéia de ser verde” [2]. Mas além desses exageros há uma realidade urgente e uma obrigação bíblica do cuidado da Terra. Que nenhum cristão esqueça!

Nota e Referência Bibliográfica:

1- Mais detalhes sobre esse lançamento e projeto podem ser verificados nesse endereço: http://ecobiblia.blogspot.com/
2- DANIEL, Silas. A Sedução das Novas Teologias. 1 ed. Rio de Janeiro : CPAD, 2007. p. 271.

8 comentários:

Juber Donizete Gonçalves disse...

Irmão Gutierres,

Gostaria de parabenizá-lo por tocar neste tema, controvertido para muitos, mas muito atual e relacionado ao momento que vivemos. Postei no meu blog, um texto, onde falo um pouco sobre o assunto. Se você puder dar uma olhada, o título do post é: "A Soberania de Deus e as Calamidades".

Um abraço,

Pr. Juber
www.juberdonizete.blogspot.com/

Paulo Silvano disse...

Caro Gutierres,
Belo texto. A Bíblia ensina princípio irretocável; a famosa lei da semeadura: “O que o homem plantar, isso ele colherá”(Gálatas 6:7). O efeito prático desse princípio está expresso em Provérbios 22:8, que diz que “Aquele que semeia a injustiça segará males”.

Creio que algumas das tragédias, como a que aconteceu em Mianmar, o Tsunami na Ásia e outros desastres poderiam ser evitados ou bastante minimizados se a ganância humana não fosse tão preponderante. Fico com o pastor Ricardo Gondim, no seu polêmico texto: “Deus podia e pode se fazer presente no meio da tragédia. Ele podia ter evitado muitas mortes, se déssemos ouvidos aos seus princípios e verdades e a humanidade usasse o dinheiro gasto em armas e bombas para viver num mundo mais justo”.

Um abraço,
Paulo Silvano

Daladier Lima disse...

Eu ia até opinar, falar do seu texto, da pertinência do assunto, etc, mas depois que eu li a colocação do Pr Paulo Silvano... Ele resumiu tudo que eu gostaria de dizer.

De qualquer forma parabéns, porque você sempre traz assuntos da ordem do dia.

Abraços!

sandre disse...

Realmente o texto do Pastor Paulo Silvano.

resume primariamente aquilo que eu penso.

parabens a você e ao pastor Paulo Silvano

Rodrigo de Aquino disse...

Eu estava escrevendo uma série de artigos sobre a ID e suas consequencias éticas, mas parei...

Mas como já citado acima pelos nobres viajantes, bom texto!

Creio que como ID e sendo o sujeito da ética, o ser humano é companheiro de Deus na preservação e salvação do mundo, visto que a ética cristão tbm tem a função de anunciar a graça.
Creio que as Igrejas deveriam ter suas portas abertas para palestras sobre a preservação meio ambiente (do lixo reciclado a reutilização do óleo de cozinha), apoiar as ongs (as honestas) que lutam pela preservação da natureza. A igreja deveria ser militante na conservação do planeta. Salvem as baleias!

mas, a realidade é outra, inclusive eu mesmo não faço nada pela causa, no máximo separar o lixo, mas só...

que Deus me perdoe...

rodrigo

Anchieta Campos disse...

A natureza serve ao homem, nos dando a nossa subsistência simplesmente em tudo. Oras, devemos continuar a usá-la, mas também saber usar, para que possamos continuar sempre a usar.

O pensamento, em suma, deve ser esse.

Parabéns pela abordagem do tema e pelo seu blog, que é uma referência para mim e para toda a blogosfera.

Abraços fraternos.

Deus abençoe.

Anchieta Campos

Victor Leonardo Barbosa disse...

Importante texto Gutierres, que inclusive foi tema de lição bíblica desse trimestre no juvenis.

Realmente nós devemos, como mordomo de DEUS saber cuidar da terra e preservá-la.

Todavia discordo às vezes de certos crentes que acabam se deixando levar por ong's e ambientalistas radicais, ao estilo greenpeace e acabam por aodtar, mesmo sme saber uma "idolatria a'verde".


bom texto...

abraços e Paz do Senhor!!!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

A todos que aqui participaram, agradeço as palavras de apoio ao blog e ao post.
Continuem complementando e expondo os pontos de vista em relação ao assunto. Um abraço a todos.