domingo, 22 de junho de 2008

Por uma escatologia menos hollywoodiana Parte 02

Nessa segunda parte do artigo sobre as ênfases exageradas e deficiências na escatologia contemporânea, verificam-se mais alguns pontos que necessitam de explanação. Erros, no meio aos acertos, são comuns no estudo escatológico. Abaixo a descrição de mais alguns equívocos relacionados ao assunto.

01. A Escatologia precisa ser menos hollywoodiana.

Esse foi o título desse artigo. Influenciados pela ficção de Tim Lahaye, muitos estão obcecados com estrondosos eventos que acontecerão na Grande Tribulação. Suas preleções se resumem em falar detalhes desses tempos. Algumas analogias parecem extraídas das ficções mais exageradas de Hollywood, sendo pura criatividade sem base. Confundem muitos textos simbólicos das Escrituras, por uma literalidade sem tamanho, com uma hermenêutica defeituosa e tendenciosa.

02. A Escatologia não é exercício de futurologia.

Eis um erro comum aos amantes das últimas coisas. Pessoas curiosas com o futuro, descrevendo os seus detalhes, segundos hermenêuticas duvidosas. Meros curiosos, mas não contempladores de uma realidade que já se faz presente, isto é, o Cristo ressuscitado.
Escatólogos tão curiosos com o futuro, que recorrem a profecias e revelações sobre o tempo do fim. Os futuristas não se conformam as claras profecias descritas nas Escrituras, querem saber de cada detalhe, para esses Jesus tem uma resposta: “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder.”(Atos 1.7)

03. A Escatologia deve ser exercida sem especulações baratas.

Especulação é o que não falta em muitas obras e pregações escatológicas. Hitler já foi o Anti-Cristo, o código de barra, o “www” e recentemente os chips foram candidatos a “marca da Besta”. Especulações sem base escriturísticas, que mais atrapalham e confundem, do que esclarece. Há até aqueles que receberam “revelações” que o Anti-Cristo já nasceu em algum país da Europa e que os satanistas estão protegendo essa criatura. Quantos detalhes! Hein?
Especulações não honram as Escrituras, pois querem ir além do que está escrito. A especulação é detalhista onde a Bíblia não se preocupa com detalhes.

04. A Escatologia é esperança.

Escatologia é um assunto relacionado as “últimas coisas”? Sim, não há como falar em escatologia sem citar “Tribunal de Cristo”, “Grande Tribulação”, “Armagedom”, “Milênio”, “Juízo Final” e “Novos Céus e Nova Terra”. Isso todos sabem. Além das últimas coisas, a escatologia deve ser encarada como a “bendita esperança” (Tt 2.13 ARA).

Esperança de tempos no refrigério da presença de Deus por toda eternidade. Esperança que fortalece o crente na sua aflição, no seu desespero, na sua angústia, no seu clamor. Esperança que lembra ao cristão, cidadão da terra, que a sua cidadania também pertence ao céu. Esperança que livra o cristão do niilismo pós-moderno e do materialismo secular. Escatologia e esperança e não pavor; alegria e não tristeza, livramento e não aprisionamento, glória e não ira... Glórias ao Cordeiro e Maranata!

05. Escatologia é vida presente, não somente futuro.

Preocupações, ocupações, prioridades, vida corrida e espiritualidade vazia. Eis um perigo de nosso tempo. Tempos, horas, minutos gastos nos próprios deleites... Mas e o cuidado na vigilância pela entrada do Noivo, onde está? O Reino de Deus já não é prioridade... A esperança na vinda de Cristo demanda vigilância. A escatologia marca a caminhada, presente, do cristão. A vigilância é essencial, mas com vigilância deve estar a expectativa, pois “desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (II Tm 4.8). Max Lucado escreveu:

Muitos de nós não temos problema em esperar, ou, eu deveria dizer que esperar é o problema? Estamos aguardando, mas não cheios de expectativa. Esquecemo-nos de perscrutar, investigando seu retorno. Temos tanta paciência que nos acomodamos. Estamos satisfeitos. Raramente atentamos para os sinais e mais raramente ainda vamos ao templo. Não permitimos que o Espírito Santo altere nossa agenda, mude nossos planos e nos conduza à adoração a fim de vermos Jesus.[1]

Se a escatologia se preocupar somente com o futuro, como ficará o presente da soteriologia, santidade, vigilância, comunhão etc.? O teólogo David Wells escreveu:

Por muito tempo, em teologias sistemáticas e tradicionais, a escatologia ocupou a parte final do trabalho, e preocupou-se com “as últimas coisas” ou “os últimos tempos”, com questões como retorno de Cristo, o milênio, o juízo, e a destruição do mal. No entanto, um dos maiores ganhos no estudo bíblico no último século foi perceber que a escatologia não é um acessório final ao corpo do conhecimento teológico, antes, é mais como um fio que é tecido ao longo de seus muitos temas. [2]

Portanto, a escatologia não deve estar desassociada das demais doutrinas cristãs. Não deve ser demasiadamente enfatizada na kerigma em detrimento dos demais assuntos da Bíblia. As demais doutrinas aplicáveis ao tempo presente devem andar de mãos dadas com as “últimas coisas”.

Escatologia não deve se transformar em monstros, mas vigilância e atenção. Escatologia não deve ser especulação, mas a certeza da volta de Cristo. Escatologia não deve ser motivo de medo, mas de esperança. Escatologia não é somente as “últimas coisas”, mas também como se vive no presente. Eis que escatologia é ver Cristo em breve!!!

Referências Bibliográficas:

01. LUCADO, Max. Quando Cristo Voltar. Rio de Janeiro: CPAD, 1999. p 34.
02. PIPER, John e TAYLOR, Justin (eds.) A Supremacia de Cristo em um Mundo Pós-Moderno. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 47.

10 comentários:

Victor Leonardo Barbosa disse...

Muito importante a continuação deste artigo Gutierres. Estou pretendendo inclusive abordar um pouco desse assunto dentro de um contexto e tema maior em um futuro artigo ainda em desenvolvimento(que é diferente do propósito do seu post).
Você tocou em um assunto importante e delicado, pois infelizmente é que realmente vemos hoje, uma cabala gospel. Devemos manter um equilibrio sem muita especulação. claro que existem certas "teses" até interessantes, como as do Livro: "A Cruz de Hitler" do teólogo evangélico Erwin Lutzer, onde o autor faz um paralelo entre Hitler e o Anticristo. POrém muitas vezes o que vemos é isso mesmo, especulação absurdas, vindas diretamente da teologia norte-americana.
O chip, o código de barras, a firmação que todos os tipos de bençãos do crente estão consicionadas se ele apoiar israel ou não(sou totalmente a favor do apoio e do amor dado a Israel, afinal são quase nossos "meio-irmãos" e verdadeiramente há bençãos contidas para quem tem tal atitude, porém sem esse tipo de exagero) e tudo mais é um exemplo disso, pura especulação tola.

abraços e Paz do Senhor

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Grande Victor, a paz!

Realmente, você complementa com suas palavras o que escrevi nesse texto. Há várias reflexões que precisamos fazer diante desse apego excessivo a Israel e a defesa incondicional as ações militares daquele país. Em matéria de especulações, muitos escatólogos são expecialistas... Bem que as especulações evangélicas não ficam restritas em assuntos escatológicos, mas também em supostas empresas satânicas e objetos amaldiçoados. Parece que o povo gosta de um sensacionalismo!!!
A cabala gospel sempre acontece diante de eventos de grande magnitude. Essa fome pela futurologia não é bíblica e anda longe do propósito bíblico aos carismas.

Um abraço,

Victor Leonardo Barbosa disse...

Uma correção:onde lê-se "consicionadas", quero dizer "condicionadas".

Só uma pergunta irmão: Com relação ao termo dispencionalismo, o que realmente significa, pois nunca parei para atentar muito sobre isso. sei que essa tese escatológica foi criada "recentemente" e fala das ações de Deus durante os tempos. Qual a diferença principal entre esse e o pré-milenismo e pré-tribulacionismo histórico?

Vinícius M. Pimentel disse...

paz, amado em Cristo...
estou entrando neste ramo de blog hoje hehehe...

Também encontrei seu blog hoje, que possamos crescer juntos em Cristo, o qual é a pedra angular na qual todo edifício bem ajustado cresce para a glória de Deus.

Vinícius M. Pimentel disse...

esqueci de falar...
percebo que você gosta do john piper... somos dois então ;D

você já ouviu falar do Paul Washer?
MUITO bom! Ele foi está sendo comparado com Spurgeon.
Tenho um playlist de pregações dele no meu youtube http://www.youtube.com/user/7Vini
(em inglês, espero que você entenda inglês ^^)

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Victor, a paz!
O termo Dispensacionalismo, que vem de dispensações, significando gerência ou administração. Sendo a forma que Deus gerencia a história da humanidade. Segundo N. Lawrence Olson, no livro dispensacionalista “O Plano Divino Através dos Séculos” dispensação “representa a administração que Deus faz em Sua grande casa universal, na qual estão afetos a Ele todas as inteligências, tanto homens como seres angelicais”. Os dispensacionalistas dividem a história em sete dispensações (que significa gerência): Inocência, Consciência, Governo Humano, Promessa, Lei, Graça e o Reino Milenar.
O Conciso Dicionário de Teologia define muito bem a corrente teológica: “Dispensacionalismo é um sistema de interpretação bíblica e teológica que divide a ação de Deus na história em diferentes períodos que são por ele administrados em bases diferentes. Envolve uma interpretação literal da Escritura, uma distinção entre Israel e a Igreja e um a escatologia pré-milenista e pré-tribulacionista".
O Dispensacionalismo intrega o pré-milenismo e pré-tribulacionismo, mas acrescenta a ênfase nas dispensações e dividem o povo de Deus em “Israel” e “Igreja”. Mas lembrando que tanto o pré-milenismo, como o pré-tribulacionismo são ou podem ser independentes do dispensacionalismo.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Vinícius, a paz.

Parabéns pelo Blog... E obrigado pela visita ao meu blog.
Gosto muito de John Piper, pois é um pregador que vemos autoridade em suas palavras, além de erudição bíblica. É um fantástico escritor...um profeta de nossos tempos.
Não conhecia Paul Washer, mas vou pesquisar mais sobre ele, pois deve ser bom...

Daniel-san disse...

Olá, vi seu Perfil na Rede de Blogs da U.B.E., e gostei muito de seu Blog.Gostaria de entrar em contato para fazermos uma parceria com troca de Banners ou Links, pois o conteúdo de seu Blog é realmente muito bom!Além de sua sinceridade ao criticar sua própria doutrina naquilo em que não concorda, você sempre baseia-se na Palavra.
Espero que concorde com a idéia da Parceria.Obrigado.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Daniel,
Obrigado por sua participação no Blog TP. Vou colocar o link do seu blog.

Dedé disse...

Paz do Senhor Gutierres. Este artigo é uma benção! Mas tenho uma dúvida. Logo no início você falou dos livros de Tim LaHaye. Você quis dizer que eles são nocivos aos cristãos? Por favor me explique.