quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Batismo no Espírito Santo

A diferença do pentecostalismo para outros grupos protestantes reside na doutrina do Batismo no Espírito Santo com evidência física inicial de falar noutras línguas. A sistematização e estudo sobre o assunto é objeto recente, mas seus desdobramentos correm pelos séculos da cristandade. O estudo superficial e preconceituoso sobre o assunto tem imperado em muitos arraiais, onde o pentecostalismo soa como movimento emocionalista para uns e heresia para outros. No decorrer desse artigo, algumas questões serão levantadas e respondidas à luz das Escrituras.

O que é Batismo no Espírito Santo?

A expressão substantiva "Batismo no Espírito Santo" é teológica e não bíblica, pois nas Escrituras só há menção da forma verbal. O assunto é descrito em boa parte do livro de Atos dos Apóstolos, mas também apresenta seus prólogos doutrinários nos Evangelhos. A expressão usada por Mateus para descrever as palavras de João Batista são baptismos pneuma hagion (βαπτισει εν πνευματι αγιω), traduzida verbalmente em português por "batizado no Espírito Santo" (Mt 3.11-12).
O Batismo no Espírito Santo pode ser definido, segundo o teólogo Antonio Gilberto, como "um revestimento e derramamento de poder do Alto, com a evidência física inicial de línguas estranhas, conforme o Espírito Santo concede, pela instrumentalidade do Senhor Jesus, para o ingresso do crente numa vida de mais profunda adoração e eficiente serviço para Deus" [1]. A expressão é ainda conhecida como "revestimento de poder", "ser cheio do Espírito", "segunda bênção" etc.
A expressão "Batismo no Espírito" é uma metáfora, significando que o crente é imerso no Espírito Santo ou recebe dEle um derramamento como aspersão. Sendo uma metáfora e não expressão usual para a doutrina do revestimento de poder, ela não é usada exaustivamente nas Sagradas Escrituras. Alguns conceitos determinados como fé, graça, lei, sábado, ofertas, resgate, regeneração etc., são expressos em todas as partes da Bíblia, mas a metáfora "Batismo no Espírito Santo" ficou registra aos evangelistas, para expressar uma "experiência" normativa na vida do cristão. A literalidade da expressão pode causar estranheza, mas como figura de linguagem há um desvio no significado das palavras a fim de reforçar a idéia da experiência. A palavra "batismo" deixa seu contexto de ordenança litúrgica sacramental, para subjetivamente designar a idéia de "revestimento de poder".

Várias expressões e um só significado; um só significado e várias expressões!

A terminologia "cheio do Espírito Santo" é a mesma coisa nos escritos de Lucas e Paulo? Parte dos exegetas respondem que não, pois em Lucas ser "cheio do Espírito Santo" está relacionado ao serviço e mordomia cristã, enquanto em Paulo ser "cheio do Espírito Santo" está implicitamente ligada em questões de caráter e santidade. Longe de ser uma contradição, há um verdadeiro complemento, pois como servir sem o caráter cristão? Como manifestar os traços de Cristo e ainda permanecer inerte diante do serviço para o Reino de Deus? O que deve ficar claro na mente dos leitores da Bíblia é que "Batismo no Espírito Santo" pode ser associado a "ser Cheio do Espírito" em Lucas, mas não nas epístolas paulinas. Certamente o contexto ministerial de ambos determinou a ênfase diferenciada.
Muitos contestam o fato do "Batismo no Espírito Santo" ser uma terminologia quase que exclusivamente lucana, contestando o fato das epístolas do apóstolo Paulo não incentivar a busca pelo revestimento de poder. Ora, o que determina a biblicidade de uma doutrina não é a exuberância de citações nas Escrituras, mas a clareza sobre o assunto onde o texto menciona os fatos. Se os números de citações determinassem a importância doutrinária, ofertas seriam mais interessantes do que regeneração ou as mobílias do Tabernáculo estariam em um patamar acima do "fruto do Espírito" ou quem sabe as genealogias deveriam substituir as pregações sobre a divindade de Cristo!? Tal idéia certamente seria classificada, e com razão, como um absurdo! A unidade das Escrituras também se manifestam no apoio silencioso das demais páginas sagradas.

Declaração explicitamente doutrinária ou indução com exercício de lógica?

Muitos cristãos acham que a Bíblia é um compêndio doutrinário ou um credo formulado em algum concílio. Ora, não é assim que Deus se revelou nas Sagradas Escrituras e nem a maioria de suas doutrinas foram dessa forma sistematizada. Diante desse quadro, como escreveu Eugene Peterson, as "pessoas tratam a Bíblia como uma coleção de oráculos sibilinos, versículos ou frases sem contexto ou conexão" [2]. Acostumados com uma leitura cartesiana da vida, onde a organização em versículos e capítulos são parte da leitura bíblica e as importantes "teologias sistemáticas" resumem o pensamento cristão; muitos esperam declarações explícitas de doutrinas e normas nas Sagradas Letras, mas o leitor atencioso do texto bíblico logo percebe que isso não existe.
Exigir uma declaração doutrinária sobre o Batismo no Espírito Santo é desnecessário e foge de normalidade escriturística. Assim com a doutrina da Trindade ou a doutrina da natureza hipostática de Cristo, o Batismo no Espírito Santo precisa ser estudado indutivamente, pois faltam declarações proposicionais; pois como observa o teólogo assembleiano Anthony D. Palma, a "indução, no entanto, é a legítima forma de lógica. Ela é a formação de uma conclusão geral a partir do estudo de incidentes particulares ou de declarações" [3].

PS: Acompanhe a segunda parte desse artigo.


Notas e Referências Bibliográficas:

1 GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 57.
2 PETERSON, Eugene. Maravilhosa Bíblia. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p 117.
3 PALMA, Anthony David. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 13.

14 comentários:

heliabe disse...

Boa tarde meu irmão Gutierres

Mais uma vez um texto brilhante de sua autoria. Que Deus te abençõe muito.
Muitos confundem, Batismo no E.S com emocionalismo e Bilia com livro de "regrinhas". O estudo sistemático das escrituras deve ser cada vez mais defendido para um crescimento saudável da IGREJA.

Abreços,

Heliabe Moraes

Ednaldo disse...

Gutierres A Paz do Senhor,

Ótimo artigo, é uma resposta aos recentes artigos do Felipe?

Mas gostaria de saber outra coisa de você, é sabido que não defendo o pentecostalismo na sua forma clássica de ser, mas em artigo recente o Pr. Ciro Zibordi fez uma diferenciação entre Batismo COM o Espírito e Batismo DO Espírito Santo. Como você, pertencendo a mesma denominação, vê essa diferenciação? Ele diz que isso é algo cristalino nas Escrituras, mas não se aprofundou quando lhe pedi uma resposta.

Em Cristo,

Ednaldo.

PS. Faz tempo que não comento aqui, é muito bom voltar a comentar.

Jefferson disse...

Em alguns lugares se dá enfâse extrema ao crente buscar o batismo no espirito santo, existem pessoas em igrejas pentencostais que acham que por serem batizadas no espirito santo já estão salvas. Assim como o "batismo no espirito santo" é algo biblico e real que possui muitas evidências é preciso as igrejas pentencostais tomarem cuidado com exageros e não esquecerem de falar sobre outras coisas igualmente importantes. A busca do equilibrio doutrinário é importantíssima. Outra coisa que vejo as vezes é uma busca interminavel pelos dons, mas uma falta de orientação de para que motivo ter o dom e como esse dom deve ser utilizado.
O Espirito Santo é um ser santo, devemos todos buscar intimidade com ele já que Jesus o deixou para que fossemos capacitados para obra! Só nunca podemos esquecer que TODA a glória deve pertencer a Deus. Muitos chegarão aos céus e não serão reconhecidos por esquecerem desse detalhe e para esses haverá ranger de dentes.

Excelente matéria novamente, que Deus continue te abençoando com esse excelente Blog!

Leonardo disse...

Gostei muito deste texto, quero ler a continuação para poder refletir mais!

Deus te abençoe!!!

Joao Cruzue disse...

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A paz de Cristo irmão Gutierres

Excelente a redação do texto e oportuno o assunto principal.

O paradoxal de tudo isto é: se é mesmo tão bom o batismo com/no Espírito Santo, porque ele não é mais prioritário em nosso meio pentecostal?

Recebi os dois batismos em 1975 e já tive oportunidade de orar na Igreja que servi para Jesus batizar. Foi e ainda é importante em meu serviço para glorificar a Deus, como também observei que pessoas comuns, mas batizadas com o Espírito Santo, tinham mais graça para exercer tarefas na Igreja.

Em tempos de ventos neopentecostais e ex-pentecostais é como se Ele, o Espírito Santo, estivesse sendo entristecido, apagado, esquecido e desprezado.

Muito conhecimento e pouca graça.


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André Amaral disse...

Saudade do Chat...rs

Então, tava pensando em fazer um blog secreto com um chat e só divulgar para os mais chegados...rsrsr

Abraço!

Gê & Dé Nascas disse...

A Graça e a Paz do nosso Senhor! Gostamos muito do seu blog, pois nos passa mensagens edificantes. Continue semeando a palavra do Senhor Jesus Cristo. Fique com Deus e se puder visite o nosso blog e comente.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Heliabe Moraes, a paz do Senhor!

O Batismo no Espírito Santo é uma doutrina que, infelizmente, tem sido substituída pelos emocionalismos baratos em igrejas pentecostais e neopentecostais. O “reteté” é uma irreverência agressiva contra a equilibrada experiência do revestimento de poder. Como você bem escreveu, a única solução para essas aberrações está no estudo sistemático das Escrituras.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Ednaldo, a paz do Senhor.

Sobre sua importante indagação, será respondida em pormenores no próximo texto onde continuarei a discutir a doutrina do Batismo no Espírito Santo. Adianto que a diferenciação existe, mas é mais didática do que necessariamente teológica.
Sempre é um prazer receber seus comentários, como dos demais freqüentadores do chat (Zwinglio, André, Prof. Leonardo, João Paulo, Thaís, Andréa etc), mas por causa de um CHATo tivemos que encerrar as atividades do nosso espaço virtual. Como diria um amigo: Triste, muito triste! rsrs

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Jefferson, a paz do Senhor!

Realmente, há extremos em todos os lados, são aqueles que se esqueceram do “Batismo no Espírito Santo” e outros que se consideram superiores ou mais espirituais por causa da experiência. Ora, a maravilhosa bênção do Batismo no Espírito Santo deve nos levar para uma vida mais humildade e não nos inchar com o orgulho “espiritual”.
Você lembra-se de um ponto importante, que é a falta de disciplina nos dons espirituais... Esse é um dos ensinos mais escassos em nossas igrejas!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Leonardo, a paz do Senhor!

Agradeço as palavras de incentivo e peço que continue acompanhado esses textos.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

João Cruzue, a paz do Senhor!

É um prazer receber o seu comentário.
O fato é que a doutrina do “Batismo no Espírito Santo” tem sido substituída por um emocionalismo sem tamanho denominado de “repleple”, “reteté”, “cultos de fogo”, “canelas de fogo” etc., mas a verdadeira espiritualidade pentecostal tem sido esquecida.
Não vejo que estamos com excesso de conhecimento em detrimento com a graça, mas pelo contrário, o que mais falta na igreja evangélica brasileira é o conhecimento e é claro, a graça de Cristo. O povo evangélico tem perecido pela falta de conhecimento, onde correm para todo vento de modismos e não sabem discernir entre a mão direita para a esquerda; são pastores cegos guiando pessoas cegas pelo materialismo e pragmatismo neopentecostal... Horrendas coisas têm acontecido no meio evangélico... Cabe nosso esforço para trazermos conhecimento da Palavra com a Graça de Deus e combater o analfabetismo bíblico.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

André Amaral, a paz do Senhor!

Olha, a sua idéia é muito boa, assim que montar esse espaço nos comunique. Aqueles debates que acontecia no chat eram enriquecedores... hehehe

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Gê & Dé Nascas, a paz do Senhor!

Obrigado por vocês prestigiarem esse espaço e parabéns por entrar no mundo vasto da blogosfera...