segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O Batismo no Espírito Santo, parte 03

A doutrina do Batismo no Espírito Santo não nasceu em arraiais pentecostais, mas teve precedentes históricos importantes. Sendo uma doutrina polêmica, há contestações de várias vertentes teológicas, até mesmo entre os pentecostais.

Os pré-pentecostais

Grandes teólogos e pastores do Século 19 compartilhavam uma visão bem semelhante com os pentecostais em relação a uma experiência subseqüente a salvação, a chamada “segunda bênção”. Entre os pregadores da “segunda bênção” encontravam-se D. L. Moody, R. A. Torrey, Andrew Murray, F. B. Meyer e o presbiteriano A. B. Simpson. A diferença entre esses pré-pentecostais era o fato de não defenderem as línguas com sinal físico-inicial. No século 20, o teólogo reformado Dr. Martyn Lloyd-Jones, estava entre os que defendiam essa experiência pós-salvação. Mas lembrando que nenhum desses teólogos compartilhavam da visão pentecostal clássica, de que o Batismo no Espírito Santo deve ser acompanhado por uma evidência física.

Contestações clássicas da abordagem pentecostal

O Batismo no Espírito Santo é uma doutrina contestada pela abordagem hermenêutica do livro de Atos dos Apóstolos por dois importantes teólogos, um anglicano e outro assembleiano. O teólogo evangelical-anglicano John Stott defende a tese de que o livro lucano de Atos dos Apóstolos não deve ser interpretado como uma obra didática, mas descritiva. Stott escreve:
“Esta revelação deve ser buscada preferencialmente nas suas passagens didáticas, e não nas descritivas. Para ser mais preciso, devemos procurá-la nos ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos, e não nas seções puramente narrativa de Atos.” (grifo do autor) [1].
Gordon Donald Fee, teólogo exegeta mundialmente respeitado, foi ordenado pastor pelas Assembléias de Deus em 1959. Junto com Douglas Stuart, escreveu na sua famosa obra Entendes o Que Lês?[2] um capítulo intitulado Atos- O Problema do Precedente Histórico que se assemelha a visão de John Stott. A pergunta constante de Fee é “O livro de Atos do Apóstolos tem uma Palavra que não somente descreve a igreja primitiva como também fala como uma norma para a igreja em todo tempo?”(grifo do autor)[2].

Contestações empíricas

Alguns críticos do Batismo no Espírito Santo argumentam empiricamente com pretextos históricos. Muitos argumentam que não existe uma segunda experiência, pois os mesmos não vêem tais sinais no decorrer da história cristã. Outras argumentações parte do silêncio de grandes teólogos do passado sobre esse assunto.

Contestação de classe especial

Alguns teólogos tradicionais argumentam que o dito Batismo no Espírito Santo cria uma classe especial de cristãos. Essa argumentação é comum em obras de cessacionistas.
No próximo e último texto da série, haverá as respostas de teólogos pentecostais para essas contestações.

PS: Na perca a última parte da série de posts sobre o Batismo no Espírito Santo.


Referências Bibliográficas:

01. STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 17.
02. FEE, Gordon & STUART, Douglas. Entendes o que lês? 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 90.

18 comentários:

Leonardo disse...

Bom, muito bom mesmo!

agora estou esperando a quarta parte... ai poderei ter uma idéia completa e fazer meus contários...

Um abraço,
Deus te abençoe!!!

Victor Leonardo Barbosa disse...

espero ansiosamente a quarta parte irmão. Lembrando que cessacionistas ou não. Os tradicionais afirmam que o batismo com o Espírito santo occore no momento da conversão. Ou seja, batismo com o Espírto Santo praticamente significa a habitação D'Ele na vida do crente. Para os que não são cessacionistas, o que vem depois são os dosn, mas como você muito bem afirmou, não necessariamente o dom de línguas é um sinal do batismo com o Espírito.

Abraços irmão.

Marcos Vieira disse...

Prezados irmãos,
gostaria de enriquecer o debate, tentando, humildemente, tentar explicar o porquê da resistência dos tradicionais ao tema. É claro que existem preconceitos e desentendimentos históricos que geraram cismas e mágoas em muita gente. Mas, tirando essa turma que não aceita porque não aceita, os demais possuem alguns argumentos. Vou citar um deles. O próprio conceito de doutrina. Se doutrina é um ensino bíblico normativo, universal e atemporal, ela deve ser padrão para todos os crentes. Para os tradicionais bíblicos (pois existem alguns que não o são)o fundamento escriturístico não é somente fundamental, é imprescindível. Pois é, no caso da doutrina do batismo com ES, conforme ensinado no meio pentecostal, tal fundamento parece não ter a consistência necessária para ser chamado de doutrina. Por isso eles preferem chama-lo de ênfase, de experiência individual, etc. Não há descrédito quanto a experiência dos irmãos pentecostais, mas sim quanto a necessidade de que todo cristão passe pela mesma experiência. Se algo não é normativo, é difícil ser aceito como doutrina na cabeça de um tradicional. Gostaria de ouvi-los. Grande abs.

Jefferson disse...

Muito boa a matéria, esclarecedora como sempre! É de fato um assunto bem complicado e com muitas possibilidades.
Eu fui criado desde pequeno em igrejas pentecostais e nem sabia que existiam "cessacionistas".
Eu não considero a doutrina de evidência física inicial fundamental, compreende? Acho que não faz muita diferença em termos doutrinários para os pentecostais. As linguas foram de fato uma evidência no pentecostes de batismo no/com o espirito santo e sem dúvida são evidências mesmo para os dias de hoje, já que qualquer outra doutrina diferente dessa não tem sustentação bíblica.

Eu não fiz nenhum estudo aprofundado sobre o movimento pentecostal, mas até onde sei foi um movimento de avivamento que incentivou os cristãos a buscarem mais serem como os cristãos da igreja primitiva o que alavancou um crescimento grande de novos cristãos. Que tinham capacitações com dons e criam no poder majestoso de Deus todo o tempo. Resumindo, eu penso que o movimento pentecostal quis trazer a igreja de volta ao que fora outrora, e que fosse uma igreja mais participativa na missão de cristão dado a capacitação com dons concedidos pelo Espirito que apesar de estarem acessiveis não eram muito comentados nas igrejas da epoca.

Agora faço uma pergunta:
Cristão não batizados pelo espirito santo podem manifestar dons? Já que dons e evidência inicial são coisas diferentes...
E quanto a evidência física inicial de linguas é algo bem especifico, acho que cabe uma pergunta bem especifica também:
Uma pastora da minha igreja, uma vez falou que o crente quando era batizado pelo espirito santo necessariamente falava em linguas...mas disse que essas linguas podiam ser até mesmo "barulhos" ou "gemidos ininteligiveis" que saem da boca durante a experiência pentecostal e que esses barulhos ou gemidos que saem da boca poderiam jamais se repetir já que não é todos que possuem o dom de linguas. É correto afirmar isso segundo a doutrina pentecostal né?

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Leonardo, a paz do Senhor!

A quarta e última parte dessa série abordará as respostas de teólogos pentecostais que vem trabalhando com boas obras nos últimos anos... Espero o seu comentário!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Victor, a paz!

Suas observações são importantes referente à visão tradicional dos protestantes sobre o Batismo no Espírito Santo. Quando ao sinal do Batismo no Espírito Santo, recomendo que todos leiam meu artigo “Falar em Línguas: A Evidência Física Inicial” no link: http://teologiapentecostal.blogspot.com/2007/12/falar-em-lnguas-evidncia-fsica-inicial.html

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Pastor Marcos, a paz!

Muito importante suas observações.
Alguns perguntam: Como, o Batismo no Espírito Santo, sendo uma experiência pode se classificada como doutrina? Ora, o Batismo no Espírito Santo é subjetivo, pela sua natureza metafísica, mas a doutrina apresenta objetividade, como conciliar? Experiência não apresenta padrão, como teologar em cima de uma experiência?
Os pentecostais, quando chamam o Batismo no Espírito Santo de “experiência”, estão prestando um desserviço para um melhor entendimento do assunto. Experiência traz a idéia de subjetividade, assimetria, individualidade... A essência do Batismo no Espírito Santo não está em seus sentidos físicos de audição e fala; sua essência não se encontra na experimentação física em si, mas a essência está na atuação do Espírito Santo. O Espírito Santo torna o testemunho e a mordomia cristã mais intensa... O resultado do Batismo é o foco!
O Batismo no Espírito é uma experiência por trabalhar com sentidos físicos (fala e audição), mas a grande questão é que o livro de “Atos dos Apóstolos” apresenta certo padrão sobre o Batismo no Espírito Santo. No decorrer do livro, Lucas apresenta as experiências (At 2; 9; 10; 19) de maneira simétrica. Lucas, não era um mero observador histórico, mas um teólogo que usava a história na sua construção doutrinária. O mesmo acontece com os dons do Espírito Santo, pois os mesmos trabalham com sentidos físicos, mas foram dogmatizados por Paulo (I Co 12-14). A essência dos dons, também, não está na sua forma de apresentação, pois a ordem em cima destes tem como objetivo promover a edificação mutua.
A experiência bíblica do Batismo, como dos dons, foram dogmatizadas pelos apóstolos, mas essas experiências em si não podem determinar instruções, normas, costumes e direção para a igreja.

Um abraço,

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Jefferson, a paz do Senhor!

Você fez algumas perguntas interessantes.

01. Sim, cristãos não batizados no Espírito Santo podem e manifestam dons do Espírito. Não há base bíblica para associar recebimento de dons com o revestimento de poder, pois estão interligados na pneumatologia, mas não são dependentes um dos outros. O teólogo assembleiano Anthony David Palma escreveu: “‘O Batismo no Espírito Santo é um pré-requisito para receber os dons espirituais’. Mas onde encontramos isso nas Escrituras? O povo de Deus experimentou todos os dons nos séculos anteriores ao Dia de Pentecostes. É mais correto dizer que o batismo no Espírito Santo intensifica a sensibilidade e a receptividade espirituais, fazendo da pessoa um candidato mais propenso aos dons espirituais. Isso é amplamente demonstrado pelo fato de que há maior incidência dos dons entre aqueles que foram batizados no Espírito Santo do que entre os que não foram”. (PALMA, Anthony D. Os dons e o fruto do Espírito in Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 77, n. 1465, Julho de 2007, p. 18.)

02. Quantas as línguas (ou idiomas) são sons com nexo, pois som sem nexo não pode ser classificado como línguas. Um simples “lá-lá-lá-lá-bá-bá-cá-cá” não pode ser interpretado com um idioma, portanto não possa de um simples barulho. Para alguns estudiosos, a expressão paulina “gemidos inexprimíveis” na carta aos Romanos pode indicar as “línguas”, mas com nexo.

Um abraço!

Anderson disse...

Parabéns. O seu blog é indicado, positivamente, até por um pastor tradicional (http://teologiadagraca.blogspot.com). Ou é quase um pentecostal mais consciente e equilibrado?

Abraços,

Anderson
Assembléia de Deus - Tiradentes

Mozart Paulino disse...

Parabéns Gutierres,

Apesar de sua pouca idade você é um jovem talentoso quanto aos assuntos teológicos.
Óbviamente que nesse mundo jamais concordaremos plenamente. Mas me alegro em ver jovens dispostos em aprender mais das Escrituras.
Que o Senhor te abençoe,

Pr Mozart Paulino
http://teologiadagraca.blogspot.com

Charles Maciel Vieira disse...

muito bom o conteudo postado. Deus lhe bendiga.

Clóvis disse...

Amado,

Estou acompanhando e aguardando a quarta parte, para uma avaliação global. Até aqui estou apreciando muito.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Anderson, a paz!

Isso representa uma mudança de paradigmas para pentecostais e reformados, pois esses dois grupos, respeitando as diferenças, podem cooperar diante dos desafias da igreja hodierna: a volta do liberalismo teológico e os modismos neopentecostais.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Pr Mozart Paulino, a paz!

Fico muito feliz em saber que um pastor reformado freqüenta esse espaço... Antes tal cena seria quase impossível, mas essa cooperação só traz motivos para enriquecer pentecostais e reformados. Um abraço!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Charles Maciel Vieira, a paz!

Obrigado por suas palavras de incentivo e pela primeira participação nesse blog.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Clóvis, a paz!

Eis que a última parte já está publicada, espero os comentários complementares do irmão, para enriquecer esse espaço. Obrigado.

João Lopes Corrêa disse...

Irmão Gutierres, v.está de parabéns pelo rico conteúdo de suas abordagens teológicas sobre vários temas.Estava mais do que na hora de surgir no cenário evangélico (e particularmente no cenário pentecostal)um jovem que vá bem além de clichês e bordões religiosos, que nada acrescentam.Continue com esse trabalho e você estará certamente contribuindo bastante para o desenvolvimento do conhecimento bíblico e teológico entre o povo evangélico, que passa por uma crise de verdadeiro analfabetismo bíblico-teológico.Sou um pastor batista, um seu fã.Que Deus o abençoe.

Anônimo disse...

Olá irmãos! Gostei da matéria, e digo: enquanto alguns acham difícil aceitar a idéia de ser batizado no Espírito Santo por conta da dúvida, outros afirmarem que foram agaciados com o dom de línguas... Eu posso testemunhar, valeu a pena eu buscar, valeu a pena eu crer que a promessa dizia respeito verdadeiramente aos irmãos que estavam na ocasião do derramamento lá no cenáculo e também a todos quantos o nosso Deus chamasse, e Ele nos chamou, e havendo nos chamado passei a compreender que fazia parte da promessa também... resultado: fui batizado no Espírito Santo e até hoje falo em linguas estranhas.