domingo, 17 de agosto de 2008

O Batismo no Espírito Santo, parte final


Essa é a última parte dos artigos sobre o “Batismo no Espírito Santo”. Leia antes a primeira, segunda e terceira parte do estudo.


A emergente erudição pentecostal tem produzido obras onde os assuntos controversos do pentecostalismo são analisados de forma profunda. Teólogos norte-americanos e canadenses produziram nos últimos anos, vários livros onde as doutrinas pentecostais são expostas. Entre os teólogos de destaque estão:
- Stanley M. Horton, bacharel em Ciências pela Universidade da Califórnia, mestre em Divindade pelo Gordon-Conwell Theological Seminary, mestre em Teologia Sacra pela Universidade de Harvard e doutor em Teologia pelo Central Baptist Theological Seminary.
- Anthony David Palma, mestre em Divindade do New York Theological Seminary, mestre em Teologia Sagrada e Doutor em Teologia pela Universidade de Concórdia.
- William W. Menzies, bacharel em teologia no Central Biblie College, mestre em teologia pela Wheaton College e Ph.D. em história da igreja pela University of Iowa.
- Roger Stronstad, M.C.N. decano acadêmico da Western Pentecostal Biblie.

Atos, desafios a hermenêutica tradicional?

Seria o livro de Atos dos Apóstolos meramente descritivo-histórico, sem valor teológico-doutrinário? O livro de Atos dos Apóstolos compõem uma unidade com o Evangelho segundo Lucas, sendo obras endereçadas para os gentios. Lucas era médico (Cl 4.14), historiador com esmero, homem culto e hábil conhecedor da língua grega e o único não-judeu a escrever uma obra nas Escrituras.
Uma questão freqüentemente levantada pelos teólogos pentecostais é se Lucas era meramente um historiador. Segundo os teólogos assembleianos a resposta é negativa, eles escrevem:

Os escritos de Lucas (Lucas e Atos) apresentam claramente mais do que uma história. Embora Lucas descreva seu Evangelho como uma "história" ou relato (grego diégesis - Lucas 1:1), escrito com "diligência" e "por ordem" (1:3), a maneira como ele seleciona os itens e os seus comentários editoriais e narrativos revela um autor com um desejo de promover a causa de Cristo. Lucas foi claramente um cristão. De fato, hoje há um esmagador consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que Lucas foi um teólogo, e não apenas um historiador [1].

Roger Stronstad diz que “o propósito de Lucas era didático, de catequese ou instrução, e não meramente informativo, ao contar a história da origem e expansão do Cristianismo” [2]. Anthony D. Palma descreve Lucas como um teólogo ao seu próprio modo, sendo aquele que usa narrativas históricas para fazer teologia [3]. Lucas por meio da narrativa e na apresentação dos preceitos primitivos passou teologicamente princípios que devem nortear todo o cristianismo posterior, pois o objetivo das Escrituras sempre foi trazer algo substancial para a prática cristã (cf II Tm 3.16).

Passagens descritivas versus narrativas?


William W. Menzies destaca que a insistência em separar passagens didáticas de passagens narrativas [4] cria basicamente um “cânon dentro de outro cânon”. Menzies pergunta:

Muita coisa da teologia do Antigo Testamento não nos vem em forma de narrativa? O próprio Jesus não ensinou freqüentemente contando histórias ou parábolas? Não tende essa teoria a reduzir os evangelhos e Atos (assim em outras porções narrativas das Escrituras) a um mero apêndice das porções didáticas da Bíblia, particularmente as cartas de Paulo? (Talvez isso explique o caráter preponderante das epístolas paulinas, que têm muito da teologia evangélica tradicional a tendência a ser uma teologia paulina?).
[5]

Os eruditos pentecostais destacam que a separação da Bíblia em passagens didáticas versus passagens narrativas não é uma boa hermenêutica para a prática exegética que o livro de Atos do Apóstolos exige.

Afinal, Atos é normativo para os dias de hoje?

Sendo Lucas um teólogo e não mero historiador, significa que todo o conteúdo do livro de Atos do Apóstolos é uma normativa para a igreja hodierna? A resposta é negativa. Conforme escreveu George Wood, líder do Concílio Geral das Assembléias de Deus no EUA e doutor em teologia pela Universidade de Yale, devemos “sempre perguntar se um determinado incidente indica algo único ou uma normativa para toda a Igreja”.[6] No decorrer do Novo Testamento verifica-se que algumas questões registradas por Lucas não se repetem, nem mesmo no livro de Atos, como episódios da sombra de Pedro, repartição de bens etc. Esse fato não significa que é impossível ver normatização nos escritos lucanos. A normatização é clara em livros narrativos, nem sempre diretamente, mas os princípios permeiam por meio de descrições históricas e dos próprios preceitos.

Os pentecostais se colocam como elite espiritual?

Nunca os pentecostais deixaram de pregar que todos os crentes são habitação do Espírito Santo e que todos são batizados pelo Espírito Santo no Corpo de Cristo; mas a doutrina do “Batismo no Espírito Santo” como revestimento de poder, não pretende criar classes especiais de crentes, ou seja, aqueles batizados e os não-batizados, pois sempre os pentecostais pregaram que o “Batismo no Espírito Santo” está disponível para todos os cristãos.

Os empiristas históricos...

Alguns argumentam que o “Batismo no Espírito Santo” não apresenta evidências históricas e que grandes cristãos do passado não passaram por essa experiência e seguiram em uma obra firme e constante.
Quanto às evidências históricas, há muito material de registro, entre eles os escritos de Philip Schaff em sua famosa obra História da Igreja de 1882, onde grupos como da patrística, waldenses, huguenotes, quacres e anabatistas experimentaram a plenitude do Espírito Santo e os dons espirituais.
Famosos e produtivos cristãos como João Calvino, certamente não experimentaram o Batismo no Espírito Santo com evidências em línguas, mas certamente Calvino foi capacitado com dons do Espírito, como o dom de ensino, descrito por Paulo aos Romanos (12. 7).

Conclusão

A melhor conclusão para esse assunto tão controverso é que não há uma conclusão exaustiva e satisfatória. Certamente o assunto continuará por meios dos comentários e futuros posts nesse blog.
Emitem suas opiniões no espaço para comentários.

Notas e Referências Bibliográficas:

1- Tomadas a partir da declaração oficial de crença do Concílio Geral das Assembléias de Deus sobre o batismo no Espírito Santo.
2- STRONSTAD, Roger. The Hermeneutics of Lucan Historiography, Paraclete 22 (outono de 1988), 10-11. In HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p 443.
3- PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p 26-27.
4- Não deixe de ler a terceira parte do artigo sobre “O Batismo no Espírito Santo” onde é destacada a posição de Stott e Fee, defensores dessa separação.
5- MENZIES, William W. & MENZIES Robert. P. No Poder do Espírito. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 45.
6- WOOD, George. A Waterline Of Another Kind. Pentecost: Empowerment for Life-changing Ministry. Enrichment Journal. Winter 2005

19 comentários:

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá irmão Gutierres, realmente, a problemática pentecostal-tradicional é um dos maiores dilemas existentes na teologia cristã.

Concordo com as hermenêuticas pentecostais. O livro de Lucas não é somente descritivo. E muitos tradicionais sabem disso. temo também como exemplo o evangelhos de Mateus e Marcos também, que revelam profundidade e motivo teológico. Sem falar explicitamente no de João.

Outro detalhe: os tradicionais valorizam muito a pregação do Evangelho e cuidam em sua maioria, em afirmar que a pregação é a base do culto e da ação neotestamentária. E grande parte dessa dedução é proveniente do livro de Atos! Ora, se Atos é descritivo-normativo para a pregação, por quê não ser normativo para o batismo com o Espírito Santo?

Parabéns pela conclusão, dá um gosto de quero mais.

Abraços irmão!

João Paulo Mendes disse...

Paz do Senhor,


É certo que tal discussão não terá fim, enquanto estivermos aqui na terra ela estará a nos rodear.
Apenas gostaria de salientar um ponto importante como pentecostal que crê no Batismo no Espírito Santo: Certamente a promessa está também disponível para a atualidade, At 2.39, não é mero fruto do emocionalismo ou doutrina de demônios como afirmam alguns "cristãos", creio que o mais importante do Batismo é o que acontece na vida da pessoa que recebe essa graça, sabemos que existe alguns pentecostais que são "espirituais" exteriormente mas que por dentro....O Batismo no Espírito Santo e esse revestimento de porder deve ser refletido por nós em atitudes de amor, piedade, na abundância do fruto do Espírito da vida do cristão, do contrário de nada vale receber essa graça do Senhor, lembrando que os adjetivos citados acima devem ser encontrados em todos cristãos, batizados no Espírito ou não.
Que o Senhor nos encha do seu poder para que batizados no Espírito sejamos capacitados para nos esforçamos ainda mais pela obra de Cristo.

Abraço,

Joao Paulo

Jefferson disse...

Gostei muito dessa ultima parte, foi muito esclarecedora para mim!

Deus abençoe a todos os leitores e ao editor do site.

A Paz do senhor!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

COMPLEMENTO 01:

Introdução do artigo “Luke's Understanding of Baptism in the Holy Spirit: A Pentecostal Dialogues with the Reformed Tradition” de Robert P. Menzies no Journal of Pentecostal Theology, Volume 16, Number 2, 2008 , pp. 86-101(16).

“Neste artigo, Menzies observa que os teólogos reformados têm uma tendência de ler os escritos de Lucas à luz as epístolas de Paulo. Como resultado, a reflexão teológica sobre o Espírito na Teologia Reformada tem centrado mais no trabalho do Espírito Santo pela Palavra, nos sacramentos, no "testemunho interior" do Espírito, e menos em sua missão para o mundo. Além disso, esta metodologia tem incentivado os teólogos reformados de associar o dom Pentecostal (ou seja, Batismo no Espírito), com a conversão e regeneração. No entanto, através de um exame das principais passagens em Lucas-Atos, Menzies argumenta que Lucas tem uma contribuição singular a dar para uma pneumatologia. A compreensão de Lucas do batismo no Espírito Santo é diferente da de Paulo. É mais do que missiológico, do soteriológico por natureza. O Espírito do Pentecostes é, na realidade, o Espírito em outros - o Espírito que compele e habilita a igreja para trazer a "boa notícia" de Jesus para um mundo perdido. É esta perspectiva missiológica lucana que molda uma compreensão pentecostal do batismo no Espírito Santo. Menzies conclui que a clareza e o vigor a mensagem lucana, é perdida quando sua narrativa é lida através das lentes de Paulo. Lucas tem voz distinta, que a Igreja precisa ouvir.”

Marcos Vieira disse...

Queridos blogueiros, saúde e paz!
Para contribuir com a reflexão, tento apresentar alguns contrapontos (o assunto é muito extenso):
1° Os "tradicionais" (sempre os rótulos)nunca desconsideraram o valor teológico de Atos. É óbvio: o livro está no cânon. O questionamento é quanto ao aspecto normativo. No próprio texto do Gutierres ele cita o Gordon Wood, afirmando que nem tudo em Atos é normativo. O que não ficou bem claro é qual é a chave hermenêutica para definir o que é norma ou não. Por honestidade intelectual e teológica essa chave precisa ser usada em todo o livro e não somente nos textos sobre o ES. No caso da teologia tradicional, como bem citou o Gutierres no complemento 1, essa chave está no aspecto sistemático, ou seja, em outros textos da Bíblia que confirmem tal e tal ensinamento.
2°) Umas das grandes tarefas teológicas é harmonizar a teologia bíblica com a sistemática. Essa tem sido uma das ferramentas da teologia liberal: separar essas duas áreas da teologia, enfatizando as diferenças entre os autores bíblicos e concluindo não haver unidade nem harmonia nas Escrituras. Constatar que há distinção teológica entre Lucas e Paulo, por exemplo, não encerra o labor teológico. Eu preciso harmonizá-los sistematicamente, ou corro o risco de abrir uma porta favorável aqueles que se opõem a inerrância das Escrituras. Quando eu falo em sistema teológico, falo de um edifício que contempla todas as áreas da ciência bíblica, que se harmonizam perfeitamente com as Escrituras e que não podem ser removidas, porque isso poderia por todo o edifício ao chão.
3°) Acredito prezado Victor, que não existe uma hermenêutica pentecostal ou tradicional, existe uma hermenêutica bíblica, que não pode ser manipulada ao bel prazer para satisfazer esse ou aquele grupo. Isso sempre foi um ponto inegociável para nós cristãos bíblicos. Acredite meu irmão, aquilo que nos une é muito maior do que aquilo que aparentemente nos separa.
Abs fraternos.

Victor Leonardo Barbosa disse...

Caro irmão Mário,

Quando utilizo o termo "hermenêutica Pentecostal" apenas quero mostrar o entendimento pentecostal acerca dos dons espirituais.

É claro que a hermenêutica genuína é bíblica, por isso podemos discordar de ambos os grupos. Os Cessacionistas(melhor termo não?) afirmam que passagens sobre a ação do Espírito Santo(me refiro a ação do batismo com evidência o falar em línguas) são apenas descritivo e não normativa, oq ue discordo. Agora quando utilizam passagens no livro de Atos para ressaltar a Supremacia da Pregação o utilizam como normativo-descritivo! porém grupos dito pentecostais utilizam a mesma critica para negar a supremacia da pregação.

Quando utilizo os rótulos,não busco fazer uma crítica, apenas usá-los com o propósito em que foram criados: classificar e distinguir. Eu seria muito ingrato com a igreja que me proporcionou grande parte de meu arcabouço teológico: a igreja presbiteriana, se utilizasse rótulos nesse sentido.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Victor, a paz do Senhor!

Suas observações sobre a centralidade da pregação no culto e o livro de Atos são precisa. Realmente há uma incoerência entre essa afirmativa e o que muitos exegetas tradicionais afirmam.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

João Paulo, a paz do Senhor.

Realmente precisamos reafirmas as verdades proclamadas na Palavra, sempre analisando tudo em uma correta interpretação das Escrituras. O debate entre pentecotais e tradiciionais permanece, mas sempre deve ficar no campo das idéias.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Jefferson, a paz do Senhor.

Agradeço suas visitas e o acompanhamento atento aos estudos aqui apresentados. Um abraço!

Paulo Cézar de Lima disse...

Meu irmão. parabens por esse belo estudo, aprendi muito lendo o mesmo... que Deus continue te abençoando.

obs... mudei o nome e url do meu blog.

arrume ele nos seus favoritos

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com novo design, novos textos, radio online, além de diversas variedades que o internauta poderá conferir.

Paulo Cézar
AD Itararé SP

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Pastor Marcos, a paz!

Sua resposta merece maior atenção, pelas indagações colocadas, portanto em breve estarei respondendo.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Paulo Cezar, a paz!

Parabéns pelo blog e obrigado pelo acompanhamento do blog Teologia Pentecostal.

Daladier Lima disse...

Sem retoques. O que eu disse além do que já foi dito no post e nos comentários é apenas redundante. É um assunto maravilhoso e devemos doutrinar a igreja nele, para que possamos estar enquadrados em I Co 12:31.

Abraços!

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Pastor Marcos Vieira, a paz!
Suas colocações suas importantes para esse debate.
1. Os pentecostais vêem como normativo em Atos tudo aquilo que apresenta respaldo bíblico nos demais textos das Escrituras, pois o conceito de Batismo no Espírito Santo não está somente em Atos, mas também nos Evangelhos, especialmente nas palavras de João Batista. A promessa do derramamento do Espírito Santo em Joel é outro texto precedente sobre o assunto. O que temos como novidade em Atos é a apresentação de Lucas para as línguas como um sinal evidência do recebimento do Dom do Espírito Santo. Lucas apresenta uma certa normatização pela repetição no decorrer do livro.
Quando lemos que havia distribuição de bens na igreja de Jerusalém, essa experiência fica restrita aos primeiros capítulos de Atos (1-6). No decorrer da história, vemos que o apóstolo Paulo começou a pedir ajuda para as igrejas, coletando as pobres crentes de Jerusalém (I Co 16.1-4, II Co 8.1- 9.15). Tal prática, então, não nos serve como normatização.
Nem tudo relacionado à pneumatologia em Atos é considerada normatiza pelos pentecostais. Práticas como o “lenço de Paulo” ou a “sombra de Pedro” são restritos e casos isolados dentro das maravilhas operadas por Deus e estão registradas em Atos isoladamente. Outro exemplo de fenômenos espirituais na aplicados como norma é o “fogo” e o “vento” de Atos 2, pois o mesmo não se repete em Atos.
02. Entendermos a teologia pneumatológica de Lucas como diferente de Paulo é uma tendência hermenêutica liberal? A resposta é não. Como escreveu o hermeneuta I. Howard Marshall, a inspiração do Espírito Santo sobre as Escrituras não significa que não há diferenças teológicas entre os autógrafos, mas as diferenças existentes “são diferenças harmoniosas, não contradições irreconciliáveis” (in MENZIES, No Poder do Espírito, ed. Vida). Como isso, não estamos dizendo que Paulo é contra Lucas na pneumatologia, mas sim que essas diferenças são complementares, pois enquanto Lucas destaca o aspecto carismático, Paulo destaca a operação no caráter. Robert Menzies escreve: “Eis por que é trágico quando, em nome da inspiração bíblica, repudia-se a diversidade teológica legítima dentro do cânon”.
Um abraço,

Marcos Vieira disse...

Prezado Gutierres e blogueiros, saúde e paz!

Pensei muito para escrever, não por falta de argumentos, mas pela dificuldade em selecioná-los. Gostei da resposta do Gutierres ao meu post anterior, principalmente quando ele fala das possíveis diferenças entre Lucas e Paulo como “complementares” e não divergentes. No entanto, a linha de raciocínio sobre o que é normativo ou não permanece, smj, com um problema hermenêutico.
Tento explicar: Como sabemos a Teologia se divide, basicamente, em quatro áreas: Bíblica, Sistemática, Histórica e Pastoral (ou Prática). Elas se complementam. Considerando as duas primeiras, entendemos que a Bíblica trabalha com as partes, enquanto a Sistemática considera o todo. Uma fornece material para a outra, e do labor de ambas foram formuladas as doutrinas bíblicas. Conclusão da fé reformada: uma doutrina bíblica deve satisfazer tanto o aspecto bíblico quanto o sistemático. Esse trabalho é árduo, fruto de dedicação, oração e estudo. É por isso que não temos (graças a Deus) muitas Teologias Sistemáticas escritas. Nós, aprendizes de teólogos, nos valemos do esforço (de muitos anos) desses homens e mulheres em escrevê-las. (Se me permitem uma dica: uma Teologia Sistemática excelente, em português, equilibrada e objetiva e ao mesmo tempo profunda e atual é de Wayne Grudem lançada pela editora Vida Nova. Um dos tradutores foi meu professor de Sistemática – Norio Yamakami. Nessa obra a seção sobre pneumatologia é magistral.)
Bem, onde está o problema hermenêutico que eu citei acima? Está nisso: não há como chamar de doutrina um ensino que ocorre em apenas um livro da Bíblia.(e eu não me refiro ao Batismo com ES, porque nesse ensino a maioria dos cristãos está de acordo, apenas chamando-o de diferentes nomes, como plenitude do ES por exemplo. Eu me refiro a essa insistência em normatizar o sinal inicial, baseando-se apenas em Atos). Isso não invalida o ensino pentecostal que é legítimo e verdadeiro e que tem abençoado a muitos (inclusive a este que escreve), mas temos que admitir que o ensino sobre o ES, quando considerado sistematicamente, admite a possibilidade de um crente ser batizado no ES, manifestando outros dons, que não as línguas, ou nenhum deles. Quando tentamos normatizar (esse é outro termo que mereceria uma explicação) o livro de Atos, comprometemos sim a inspiração bíblica, que tem um único autor divino e que jamais se contradiz. Se aplicarmos os mesmos argumentos apresentados para defender a normatização de Atos a outros temas (e hermeneuticamente temos que faze-lo), nos surpreenderíamos com o resultado. Grande abraço a todos.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Daladier, a paz!

Obrigado pelas palavras de incentivo. A doutrinação nesse assunto é paradoxalmente pequena em igrejas pentecostais, mas temos que fazer nosso papel.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Pastor Marcos, a paz!

Sobre a hermenêutica do livro de Atos, isso dá um bom post, que em breve vou publicar para continuarmos no debate desse assunto, que foi muito enriquecido com seus comentários.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Ednaldo, a paz!

Nas Assembléias de Deus há realmente essa obrigatoriedade para os pastores serem batizados no Espírito Santo antes de receberem a ordenação. Tal obrigatoriedade não é bíblica, mas apresenta-se como uma tradição eclesiástica, pois é um tanto incoerente um pastor pentecostal não Batizado no Espírito Santo.
A obsessão para saber se alguém é batizado no Espírito Santo não deve existir, pois isso é um meio de constrangimento. É necessária somente a convicção pessoal, baseada nas Escrituras, se a pessoa foi batizada no Espírito Santo. Ninguém deve ser submetido a provas.

Cleber disse...

Excelente post mano!
Não fazemos doutrina com base em experiências, mas sim no "padrão" que encontramos nas experiências bíblicas.

O mais interessante é traçarmos um paralelo com a oração... quase tudo que aprendemos sobre oração vêm de textos narrativos.
Se for seguir a regra que alguns aplicam ao livro de Atos então haveria muito pouco para dizer sobre a oração também.

Pr Cleber.