segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A falha comunicacional dos conservadores

Na última semana, o nome de Sarah Palin tomou conta dos noticiários sobre as eleições norte-americana. A governadora do Alaska foi escolhida estrategicamente por John McCain para ser sua vice-presidente e, caso ganhe a eleição, tornar a primeira mulher a ocupar o segundo cargo da República estadudinense. Entre as várias polêmicas envolvendo o seu nome, produzidas pelos democratas, uma virou destaque. Em uma pregação para jovens da Assembléia de Deus em Wasilla, Alaska; Palin discorreu que a guerra do Iraque é “uma missão de Deus”. [1] Essa frase repercutiu em toda a mídia e destacou mais uma vez o messianismo norte-americano por parte dos evangélicos daquela nação. Mas seria essa uma frase isolada ou mais uma infeliz declaração dos conservadores norte-americanos? Não haveria um problema comunicacional?
Sarah Palin não foi a primeira e nem a última pessoa, aliada ao conservadorismo norte-americano, com frases infelizes, mal colocadas e claramente anti-bíblicas. Segundo a mídia norte-americana, o pastor de Palin, Ed Kalnins, declarou em 2004 que quem não votasse em George W. Bush iria para o inferno. O famoso pregador fundamentalista-carismático Pat Robertson declarou ,em agosto de 2005, que os Estados Unidos deveriam assassinar o presidente venezuelano Hugo Chávez; Robertson afirmou em seu programa de rede nacional: “Não precisamos de outra guerra de US$ 200 bilhões para nos livrarmos de um ditador de mão forte. É muito mais fácil que alguns agentes disfarçados cuidem desse trabalho e se livrem disso". Robertson já afirmou que os furacões na Flórida são culpa da maldição trazida pela Disney. No 11 de setembro, o Rev. Jerry Falwell afirmou que o ataque era um castigo aos Estados Unidos por causa dos abortistas e homossexuais [2]. Muitas outras declarações poderiam ser citadas, desde importantes escritores até pastores de renome.

O que há de errado com os conservadores norte-americanos?

Essas declarações já mostram que os conservadores norte-americanos, em sua maioria, não sabem discernir o cristianismo bíblico do seu patriotismo exacerbado [3]. Confundir o cristianismo com aspectos culturais dos Estados Unidos ou Europa, é um dos maiores problemas no discurso conservador. Nesse erro, justificam todas as guerras dos Estados Unidos ou Israel como obras de expansão do Reino de Deus, sendo uma verdadeira “Cruzada” moderna ou pós-moderna. Esquecem que o evangelho de Cristo não é pela espada, pois “todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”( Mt 26.52), como disse o Senhor Jesus Cristo. A criação de uma teologia da guerra, ou a jihad cristã, é o tremendo engano daqueles que usam as Escrituras para justificar os mesquinhos interesses da nação “cristã”. Os conservadores deveriam ser os primeiros a condenarem as atrocidades das guerras, não pensando que isso os fariam um liberal.
Um dos principais pensadores cristãos e conservador de carteirinha, Os Guinness, declarou em entrevista para a Revista Cristianismo Hoje, que ser conservador não significa engolir tudo o que é praticado pelos republicanos:

Essa atitude da direita cristã, sua subserviência ao republicanismo, criou uma resistência contra a religião de uma maneira geral, e especificamente, em relação ao Evangelho. Agora, sob a presidência de George W. Bush, essa resistência chegou ao seu mais alto grau. As pessoas dizem assim: “Se Bush é religioso, eu não quero ser religioso”. E o fato é que aqueles que apoiaram Bush e ajudaram a elegê-lo – os evangélicos – agora estão pagando por esse erro. Eu argumentaria que o cristão deveria estar engajado politicamente, mas nunca abraçado e unido a um partido ou ideologia. O maior de todos os políticos evangélicos foi William Wilberforce, um conservador que, apesar disso, votou contra seu próprio partido quando concluiu que ele estava errado. Ele nunca foi um homem do partido; e antes de mais nada, era um homem de princípios, que agia de acordo com sua consciência cristã. Nos Estados Unidos, os cristãos têm que se libertar das algemas do Partido Republicano. Agora, seria igualmente horrível ir para o outro lado e fazer a mesma coisa em relação aos democratas. [4]


Os Guinness acerta em cheio quando lamenta esse identificação de direta cristã com idéias republicanas e outros que chegam aos extremos de se aliarem com os democratas, por estarem decepcionados com a antiga relação do republicanismo.

Exageros de alguns decepcionados

Muitos cristãos, cansados dos equívocos da direita cristã republicana, abraçam os erros liberais dos democratas. São pessoas que levantaram a bandeira do “politicamente correto”, onde os ideais “progressistas” são pregados em detrimento dos valores morais. São aqueles que pregam humanismo e sua dignidade, mas aprovam o aborto como forma de eugenia, etc.
Para protestar contra a Guerra do Iraque e outras mazelas produzidas pela era Bush, não é preciso se aliar com o outro lado do abismo, onde a guerra é condenada, mas a eutanásia é bem vista.

Conclusão

O erro principal dos conservadores é serem confundidos, por eles mesmos, com um partido político. O ideal cristão deve estar acima das ideologias partidárias e confortar qualquer erro que venha prejudicar a verdade do Evangelho.



Notas e referências bibliográficas:


1- Assisti a pregação de Sarah Palin nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=L4LjsfWbZLA
2- Declarações com o nome de Deus não são exclusividade dos conservadores (republicanos) nos Estados Unidos. Como o furacão Gustav prejudicou a Convenção Republica, alguns democratas afirmaram em forma de piada, que esse fato demonstrava que Deus está do lado do Partido Democrata. Até o próprio documentarista de esquerda Michael Moore ratificou tal declaração e depois voltou atrás.
3- O teólogo Justo L. González descreve muito bem esse processo que ele define como “sectarismo socioeconômico” nas igrejas protestantes dos Estados Unidos. Veja: Mapas Para a História Futura da Igreja. Rio de Janeiro:CPAD, 2006, 107-109.
4- http://www.cristianismohoje.com.br/artigo.php?artigoid=33570

10 comentários:

Victor Leonardo Barbosa disse...

Sarah Palin ao que parece também não possui uma definição com relação à sua fé:

http://www.christianpost.com/article/20080905/pentecostalism-obscured-in-palin-biography_page1.htm

É importante saber distinguir entre republicanismo e cristianismo. Claro que ser conservador não significa necessariamente ser republicano. Há muito exageros por parte desse tipo de fundamentalismo...

Infelizmente..

parabéns pelo post irmão Gutierres e paz do Senhor!!

Thais Barrinha disse...

Vim falar sobre a Sarah exatamente o que o irmão Leonardo (logo à cima), afirmou: ela não tem muita certeza nem das certezas de fé dela!
"Num" tem como usá-la como padrão de opinião forte! (Apesar de concordar em gênero, número e grau com a visão crítica do texto)!

Juber Donizete Gonçalves disse...

Gutierres,

Acredito que você tocou em um ponto muito importante no debate envolvendo conservadores e liberais. A falha de comunicação dos conservadores, tem sido um tiro no próprio pé. Parabéns pela postagem.

Graça e Paz.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Victor Leonardo Barbosa, a paz!

Já tinha visto o artigo na revista “Christian Post” onde a assessora de McCain-Palin declara que Sarah não se identifica como pentecostal, mas que visita várias igrejas. Seria então Palin uma emergente, em lugar de membro ativo das Assembléias de Deus?(rs,rs) Mas segundo a reportagem, atualmente ela freqüente a “Wasilla Bible Church”, uma igreja independente e não-pentecostal.
Isso não importa muito, pois a grande questão é que ela representa a “direita-religiosa-conservadora” nos Estados Unidos e suas opiniões são consideradas “cristãs”.
Sobre a confusão republicanismo e cristianismo, isso acarreta muitos problemas, pois a forte aversão a George W. Bush é transferido aos cristãos. No início da Guerra do Iraque, muito evangélicos, inclusive no Brasil, afirmaram que essa batalha abriria a porta a evangelização do Oriente Médio. Ledo engano! As coisas pioraram, principalmente nos países vizinhos... E lembrando que não o evangelho de Cristo não é pregado com a espada, como os maometanos.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Thais Barrinha, a paz!

Segundo o artigo do “Christian Post”, ela não se identificou como pentecostal, pois o grupo tem um estereótipo de sectários e avessos à cultura. Vejo que ela tem convicções fortes, mas como todo político, Palin precisa fazer concessões (faz parte do jogo!).

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Pastor Juber, a paz!

Realmente, os conservadores já falaram muitas coisas desastradas e os democratas exploram isso como jazida de ouro. Pat Robertson é o campeão, pois esse até assassinato já propôs.
Os conservadores têm que parar com esse papo medíocre e anti-bíblico de que tragédias, como o Furacão Katrina, são conseqüências de “juízo divino” sobre gays e abortistas. Essa é conseqüência de uma visão dispensacionalista radical, onde em todo se vê a “Ira do Senhor” sobre a Terra... Temos o maior carnaval do mundo e ainda assim não estamos debaixo de algum furacão.

Ednaldo disse...

Os conservadores americanos esqueceram que "as armas da nossa milícia não são carnais".

Por isso muitas vezes falam demais na "paixão" de defender sua posições.

Parabéns.

Ednaldo.

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Ednaldo, a paz!

É grande o número de cristãos norte-americanos que encaram guerras como uma espécie de “jihad” cristã. Isso é anti-bíblico e consequentemente vergonhoso. Essa síndrome messiânica misturada com o império econômico-cultural prejudica o trabalho missionário em países do Oriente.
Nesse contexto, aberrações teológicas, como a volta do liberalismo teológico com sua linguagem pseudo-piedosa encontra terreno e se prolifera.

Victor Leonardo Barbosa disse...

Há uma falha grave por parte desta milícia fundamentalista: tentar entender quase sempre os propósitos de Deus. è claro que se Deus quisesse punir uma nação com um furacão Ele tem toda a liberdade de fazê-lo, e certamente nenhuma nação como os Estados Unidos, cada vez mais pagã e anti-cristã, pode-se queixar das ações de Deus.

Todavia, não temos todas as vezes certeza absoluta do porque Ele permitir que tragédias aconteçam, mas com certeza sabemos que todas as coisas cooperam para o bem, daqueles que o amam(Rm 8:28).

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Victor Leonardo, a paz!

É lamentável ver uma compreensão tão empobrecida sobre os juízos divinos... Não estamos no Testamento Antigo, mas sim, veremos toda a justiça divina sendo aplicada um dia. Independente se somos dispensacionalistas, pré-milenistas, pós-milenistas, amilenistas etc., sabemos que nada escapará do juízo divino.
No tsunami, enquanto uma ala do protestantismo estava abraçando o “Teísmo Aberto”, outras estavam pregando besteiras do tipo: “Aquiiiiilo aconteceu, pois são países idolatras”...

Segue abaixo mais textos sobre a fé pentecostal de Sarah Palin:

01.Sarah Palin- Pentecostal (em inglês)
Por Julia Duin, assistente nacional editor/religião, The Washington Times.
http://www.washingtontimes.com/weblogs/belief-blog/2008/Aug/29/sarah-palin---pentecostal/

02. A religião de Sarah Palin: Deus e a candidata à vice-presidência
Por Alexander Schwabe, no UOL.
http://noticias.uol.com.br/ultnot/especial/2008/eleicaoeua/noticias/2008/09/11/ult2682u935.jhtm