quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Entrevista com o pastor Silas Daniel




Silas Daniel é pastor assembleiano no Rio de Janeiro, conferencista, jornalista e editor do jornal Mensageiro da Paz (CPAD). Com formação em Comunicação Social e Teologia, e cursando o último ano de Direito, ele é autor dos livros "Como vencer a frustração espiritual", "História da Convenção Geral das Assembléias de Deus", "Reflexões sobre a alma e o tempo" e "Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos", todos lançados pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD). Nesta entrevista, o pastor Silas Daniel comenta sua nova obra: "A Sedução das Novas Teologias: o que está por trás de modismos como Igreja Emergente, Teologia Narrativa, Teísmo Aberto, Teologia Quântica, Ortodoxia Generosa e Evangelho da Auto-Ajuda" (CPAD).



Blog Teologia Pentecostal: Quais são as características principais destas novas teologias: Igreja Emergente, Ortodoxia Generosa, Teísmo Aberto, Teologia Quântica e Teologia Narrativa?
Silas Daniel: Uma característica principal é, sem dúvida, a submissão da reflexão teológica às chamadas "demandas" pós-modernas. A Igreja Emergente, por exemplo, surgiu justamente como uma tentativa de apresentar uma proposta mais coerente da fé cristã às demandas pós-modernas. Ela é, supostamente, a resposta cristã que mais se adequaria à conjuntura de nossos dias.
Outra característica marcante dessas novas teologias é a sua fonte primária: o velho liberalismo teológico alemão. Por exemplo: tomemos por base a própria proposta da Igreja Emergente. Qual a sua gênese?
Apesar de o pastor norte-americano Dan Kimball ser o primeiro nome lembrado quando o assunto é Igreja Emergente devido ao seu famoso livro The Emerging Church, de 2003, o nome Igreja Emergente é uma criação dos pastores Brian Mclaren e Doug Pagitt, como o próprio Mclaren conta em sua obra Uma Ortodoxia Generosa. E nesta mesma obra, Mclaren assevera que seu mentor é o teólogo Stanley Grenz. Ele informa-nos já na introdução de seu livro que foi Grenz quem, por exemplo, lhe apresentou pela primeira vez o conceito de "ortodoxia generosa" e enfatiza que Grenz é seu "respeitado amigo e mentor à distância". Não é à toa que Mclaren quase sempre evoca Grenz em seus escritos. E quem é Grenz? É professor de Teologia e Ética do Carey Regent College em Vancouver, e discípulo aplicado dos teólogos liberais alemães Hans Wilhelm Frei (que depois se autodenominou pós-liberal) e Wolfhart Pannenberg, que ao lado de Jürgen Moltman detém a paternidade da chamada Teologia da Esperança. Simplesmente, teologia liberal pura. Grenz, inclusive, escreveu uma obra em homenagem a seu mentor: Reason for Hope: The Sistematic Theology of Wolfhart Pannenberg, lançada em 1990.
Ora, quem leu Revisioning evangelical theology – a fresh agenda for the 21st Century (1993), de Stanley Grenz, vai encontrar ali, com quase dez anos de antecipação, o esboço de todas as propostas da Igreja Emergente. Nele, Grenz afirma, por exemplo, que "a era pós-moderna convida-nos à articulação fresca, a uma visão renovada da teologia que conduzirá o evangelho a novos conceitos". Mais que novos conceitos são esses? Sete novos conceitos, segundo Grenz: (1) uma revisão do que seja a identidade evangélica, (2) uma nova espiritualidade, (3) uma nova forma de fazer teologia, (4) o uso de novas fontes para reflexão teológica, (5) uma revisão da doutrina da autoridade da Bíblia, (6) uma revisão de quais devem ser os pilares integrativos da teologia e, finalmente, como conseqüência dos seis primeiros novos conceitos, (7) um novo conceito do que é ou deve ser igreja.
Se você ler hoje, 15 anos depois, as 200 páginas deste livro de Grenz, vai entender de onde surgiu a inspiração para Mclaren e Pagitt darem forma ao que depois batizaram de Igreja Emergente. E ao ler Mclaren depois de ter lido Grenz, perceberá que aquilo que Grenz diz academicamente, Mclaren diz popularmente. O talento de Mclaren está justamente em apresentar o liberalismo teológico de uma forma mais palatável e sensível. Por exemplo: Uma Ortodoxia Generosa, de Mclaren, é, de certa forma, a versão popular e mais bem-sucedida de Renewing the center, de Grenz. O próprio Mclaren confessa em seu livro que a inspiração veio deste livro de Grenz. Ou seja, se Mclaren é o "guru", por assim dizer, dos emergentes, Grenz é o "guru" de Mclaren.


Essas novas teologias se aproximam, então, mais do liberalismo teológico do que da neo-ortodoxia de Karl Barth?
Com certeza. Veja outro exemplo: o Teísmo Aberto. Seus proponentes famosos são os teólogos Clark Pinnock e John Sanders, muito citados por Grenz. Ora, Sanders e Pinnock são teólogos liberais e discípulos dos teólogos alemães Moltman e Pannenberg, pais da Teologia da Esperança. O próprio Pinnock já admitiu isso em entrevista. Além disso, o Teísmo Aberto é claramente a "versão 2001" da chamada Teologia do Processo, de Alfred Whitehead e Charles Hatshorne. Pouca gente sabe, mas tanto Pinnock quanto Sanders são universalistas, como assumem em suas respectivas obras A Wideness in God’s Mercy e No Other Name, ambas lançadas em 1992. E a posição deles nessas obras é adotada por Brian Mclaren em Uma Ortodoxia Generosa, quando Mclaren fala sobre como deve ser o diálogo inter-religioso, ou seja, o diálogo entre o cristianismo e as demais religiões do mundo.


Alguns defensores e críticos da Teologia Relacional diferenciam esse pensamento teológico do Teísmo Aberto. Existem diferenças significativas entre o Teísmo Aberto e a Teologia Relacional?São uma e a mesma coisa. Aliás, o próprio Pinnock chama o Teísmo Aberto de Teologia Relacional, embora seja fato que o termo Teologia Relacional é mais um uso brasileiro. O mais importante, porém, é que os pressupostos centrais são os mesmos, então não há como diferenciar. São nomes diferentes para se referir, na prática, à mesma coisa. Os pressupostos centrais do que denominamos Teologia do Processo, Teísmo Aberto, Teologia Relacional ou Teísmo Limitado, que é a versão judaica do Teísmo Aberto, são os mesmos.


Segundo alguns estudiosos, os seminaristas pentecostais estariam mais vulneráveis a esse tipo de modismo modernista, isso por falta de uma tradição acadêmica no pentecostalismo. O pentecostalismo hodierno está mais vulnerável a essas novas teologias? A publicação desse livro por uma editora tradicionalmente pentecostal confirma essa opinião?
Na verdade, esse modismo é pós-modernista, apesar de ser a ressurreição de velhos conceitos da teologia liberal, como é o caso da Teologia do Processo. O que acontece é que a influência das chamadas "demandas" pós-modernas proporcionaram o ambiente necessário para que o velho liberalismo teológico ressurgisse, mas numa versão mais popular, mais adequada ao espírito dos novos tempos. Agora, sobre ter se difundido entre alguns pentecostais, isso se deve mais ao fato de que a Teologia do Processo é mais atraente para arminianos do que para calvinistas, e não meramente porque falta uma tradição acadêmica ao pentecostalismo. O Teísmo Aberto usa como ponto de partida a argumentação arminiana e a maioria esmagadora dos pentecostais é arminiana. Logo, alguns pentecostais desavisados são mais tendentes a aderir ao Teísmo Aberto, posto que podem confundi-lo com o arminianismo.
A tradição acadêmica do pentecostalismo é recente porque o pentecostalismo, como movimento, é recente. Se isso pode ter tido alguma influência? Pode. Mas, na verdade, não é exatamente por causa disso. Temos percebido vítimas do Teísmo Aberto tanto em arraiais pentecostais como em arraiais não-pentecostais, e aqui me refiro a denominações igualmente arminianas e com uma tradição acadêmica mais antiga do que a dos pentecostais. Não é tanto uma questão de tradição acadêmica, mas de público para o qual o discurso é mais atraente. É mais fácil o Teísmo Aberto enredar um arminiano desavisado do que um calvinista desavisado, posto que o calvinista, por definição, já mostra-se indisposto em relação ao arminianismo. O Teísmo Aberto não tem feito só vítimas em arraiais pentecostais, mas em arraiais arminianos de forma geral.
Outro ponto importante de ser frisado é que a Assembléia de Deus, a maior representante do pentecostalismo clássico no Brasil, tem se mostrado contrária ao Teísmo Aberto desde o seu advento no Brasil. Nos últimos quatro anos, vários artigos contra o Teísmo Aberto e outros modismos do neoliberalismo teológico têm sido escritos em publicações oficiais da denominação, como as revistas Manual do Obreiro, de reflexão teológica; Resposta Fiel, de apologética cristã; e o jornal Mensageiro da Paz. A Sedução das Novas Teologias é só mais uma resposta a tudo isso.


A Teologia da Libertação, a Teologia da Esperança e outros pensamentos teológicos de estudiosos latino-americanos têm sido resgatados por alguns teólogos protestantes. Qual a ligação entre a teologia latino-americana e o liberalismo alemão?
A Teologia da Libertação nada mais é do que a versão católica romana da Teologia da Esperança, que nasceu entre teólogos protestantes alemães. E claro que, para quem já é adepto da Teologia da Libertação, a abertura para outros conceitos teológicos liberais, além da Teologia da Libertação, é infinitamente maior.


Esses novos movimentos acusam a apologética de gnosticismo cristão (ortodoxolatria) e a verdade é colocada no âmbito do relacionamento místico. Mediante essas afirmações, qual é a influencia da filosofia pós-moderna nessas novas teologias?A pós-modernidade propõe a relativização, a fluidificação, a não-existência de verdades absolutas. Quando os adeptos desses modismos neoliberais teológicos acusam aqueles que prezam pela ortodoxia bíblica de "ortodoxólatras", estão simplesmente reproduzindo o espírito de nosso tempo. Para eles, ser ortodoxo é sinônimo de ser arrogante e, por sua vez, ser politicamente correto é sinônimo de ser espiritual, sensível, amoroso, bom, etc. Como já escrevi há alguns dias, reverencie a dúvida, fuja de dizer "isso é evidentemente certo e aquilo é claramente errado", e você será visto como equilibrado, prudente, sensível, humilde, generoso, bom, amável. Quanto mais você se prostrar no altar da incerteza e, sobre ele, com lábios trêmulos, derramar reverentemente suas lágrimas quentes e depositar seus beijos apaixonados, mais atraente você parecerá. Se você sempre disser "Não podemos ter certeza", "Toda análise é apenas um ponto de vista" e "Não podemos julgar de forma alguma"; ou seja, se você tiver posicionamentos cinzentos, se ficar sempre em cima do muro, então mais "espiritual" parecerá. "Murismo" e "metamorfismo teológico" são sinônimos de coerência agora.


O jornal Mensageiro da Paz trouxe, no decorrer desses últimos anos, várias reportagens sobre os perigos do relativismo pós-moderno e o liberalismo no Ocidente. Como esses temas têm sido recepcionados pelos leitores desse periódico tradicional?
Têm sido extremamente bem recepcionados. Inclusive, muitos leitores nos agradecem porque encontram no Mensageiro da Paz o que chamam de "oásis" diante de tantas publicações seculares que relativizam a fé e os valores. Isso porque o MP submete os principais temas e notícias que a mídia secular divulga a uma análise franca e direta dentro da cosmovisão cristã, bíblica.


Quais são suas expectativas em relação a essa nova obra?
Creio que este livro será uma bênção para a vida de seus leitores assim como foi para mim ao escrevê-lo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Espiritualidade Pentecostal: O que é ser espiritual? Parte 2

Continuando o estudo sobre espiritualidade, suas implicações e as distorções referentes ao tema. Leia a primeira parte abaixo.


a) A espiritualidade não pode ser confundida com ultra-valorização de milagres.


Milagres, dons espirituais e outras manifestações extraordinárias sempre foram pregadas corretamente na história da Igreja, seja em Atos dos Apóstolos ou na patrística e até ao atual movimento pentecostal. Porém, hoje há uma super valorização de bênção e milagres, sendo que muitos medem a sua espiritualidade pela quantidade de fatos extraordinários que acontecem em seu ministério.

Milagres não são sinais de espiritualidade (Êx 7.11,22; 8.7; Mt 7.22; 24.24 II Ts 2.9, 10; Ap 13.13; 16.14; 19.20). Os milagres têm como propósito mostrar o grande poder de Deus, mas não servem como medidor de espiritualidade. Com muita propriedade escreveu o teólogo pentecostal Claudionor Corrêa de Andrade:


A ocorrência de milagres não denota, necessariamente, avivamento; a característica principal deste é o amor a Cristo que nunca deixa de ser primeiro. Amamos a Jesus não pelos sinais e maravilhas que opera; amamo-lo pelo sacrifício do Calvário que ousou por todos nós.[1]


Hoje há muitos que dizem ter uma missão de pregar milagres. São pessoas que estão saindo da essência do evangelho, que é “Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” ( I Co 1.24). O poder de Deus é para o Seu serviço, mas a espiritualidade guiada pelo Espírito Santo quer moldar caráter do cristão, e não criar um bando de pregadores arrogantes, que atribuem milagres “a santidade de seus ministérios”.


b) a espiritualidade é sempre coletiva em comunhão e nunca individualista em egocentrismo.


A Igreja hodierna valoriza excessivamente o individualismo, até mesmo diante das “manifestações divinas”. A espiritualidade cristã sempre buscará a edificação do próximo como um ato de amor e comunhão. O desenvolvimento de uma fé individualista, além de egoísta e excêntrica, certamente não fará parte dos que são cheios do Espírito Santo.

A apatia e falta de disposição para o serviço é sinal de falta de espiritualidade. Muitos caminham de congresso em congressos em busca de “avivamentos”, mas nunca prestam assistência a sua comunidade eclesiástica.


c) a espiritualidade cristã é sempre cristocêntrica.


Pode parecer redundância, mas há muitos que acreditam em espiritualidade cristã sem Cristo no centro, mesmo que essa crença seja subjetiva. Hoje em dia, com o culto ao homem tão difundido, muitas igrejas deixaram de pregar uma espiritualidade cristocêntrica para pregar uma “espiritualidade” antropocêntrica, humanista e mundana.

São várias reuniões centralizadas em auto-ajuda, linguagem de marketing, chavões empresariais e clichês de efeitos pragmáticos. O deus funcional e o servos utilitaristas, enchem reuniões que funcionam em ritmo de congresso esotérico misturado com palestra motivacional de quinta categoria. A “Bíblia” desses mercantilistas só pode ser o best-seller “O Segredo”, pois sem Cristo é preciso ter muito pensamento positivo.

O teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus faz uma importante observação:


Quaisquer que sejam as manifestações que acompanhem a plenitude do Espírito, uma coisa é essencial, e não ficará de fora- se é o Espírito Santo de Deus quem está de fato agindo, Cristo Jesus será o alvo, o centro e o conteúdo da experiência.[2]

O alvo da oração cristocêntrica é a adoração a Jesus e um meio de comunhão com o Altíssimo, assim como todos os dons do Espírito. Nenhum desses “recursos” espirituais servem para entretenimento ou mercantilização.


Conclusão:


É preciso compreender a natureza bíblica da verdadeira espiritualidade, para que cada cristão viva andando no Espírito e praticando continuamente e progressivamente o Fruto do Espírito, sendo este a essência da espiritualidade bíblica, cristã, pentecostal e ortodoxa.


Referências Bibliográficas:


1- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p. 119.


2- LOPES, Augustus Nicodemus. Cheios do Espírito. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 19.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Espiritualidade Pentecostal: O que é ser espiritual? Parte 01

O que é ser espiritual? O que é espiritualidade? Como alguém se torna espiritual? Quais são os sinais de um cristão espiritual? Essas são perguntas constantes e importantes para uma vida cristã saudável. A correta definição de espiritualidade é imprescindível para qualquer crente, pois é um assunto onde há muitos equívocos. É necessário a correta compreensão dessa verdade, para que a sua prática se torne possível.

A definição de espiritualidade não é simples, pois muitos assuntos e práticas contraditórias, às vezes, são definidas como espiritualidade. Espiritualidade pode ser entendida como “um grupo de atitudes e sentimentos que são externados pela crença e valores que caracterizam uma comunidade religiosa específica”[1]. Ou seja, a espiritualidade são as manifestações externas e visíveis do homem espiritual. Mas o que é ser um homem espiritual? O homem espiritual é “literalmente, o homem controlado pelo Espírito Santo”[2], ou seja, “denota a pessoa regenerada, isto é, que tem o Espírito Santo”[3]. Em relação ao assunto é necessário compreender que:


a) espiritualidade não é o mesmo que espiritualismo.

O espiritualismo busca por práticas místicas que tem o propósito de alcançar a felicidade interior, ou seja, o místico é visto como um meio de plenitude espiritual e um meio de prazer e satisfação. O espiritualismo é comum nas diversas religiões orientas, na Nova Era e nas seitas não-organizacionais. A busca do espiritualista é a felicidade por meio de seus rituais e superstições.

A espiritualidade cristã, bíblica, ortodoxa difere do espiritualismo oriental. O homem espiritual, primeiro deseja ser santo em lugar de ser feliz, como escreveu A. W. Tozer:


A busca da felicidade, tão difundida entre os cristãos que professam uma santidade superior, é a prova suficiente de que tal santidade não se acha presente. O homem verdadeiramente espiritual sabe que Deus dará abundância de alegria no momento em que possamos recebê-la sem prejudicar a nossa alma, mas não exige obtê-la imediatamente. [4]


Assim com Tozer, Donald Gee, grande teólogo pentecostal do Século XX, escreveu sobre o fascínio da igreja atual pela busca primeira da felicidade e sua fraca espiritualidade tendenciosa a apostasia:


Pode ser que eu esteja errado, mas uma das coisas que percebo no reavivamento moderno é a grande tendência de manter a congregação feliz (...) se eu entendo a minha Bíblia, um reavivamento verdadeiro começa por fazer todos infelizes. A verdadeira felicidade começa com a infelicidade, com a preocupação dos pecadores. Outra coisa que me preocupa é a apostasia fácil hoje em dia. Meu receio é que da mesma maneira rápida como as pessoas vêm, elas se vão.[5]


Hoje é muito comum as pessoas buscarem o poder de Deus para se sentir bem ou com auto-estima. Buscam poder dos céus para se sentirem poderosos na terra. Essa é uma falsa espiritualidade. Nesse fascínio do prazer e hedonismo espiritual, as pessoas optam por práticas estranhas as Escrituras, como cantar “hinos” que parece mais uma “mantra” gospel ou se refugiam em retiros espirituais, onde as experiências novas e exóticas são valorizadas como um meio de comunhão com Deus. São cristãos que perderam o foco, pois trocaram o essencial pelo secundário.

A versão evangélica espiritualista é uma pessoa cheia de rituais, superstições e práticas estanhas ao Evangelho. O espiritualista gospel necessita de uma “fé” visível, palpável, ritualística; onde os “pontos de fé” são enaltecidos como um meio de alcançar bênçãos. São pessoas que restringem o relacionamento de Deus a situações espetaculares, vide a Bênção de Toronto.

O coração e o caráter cristão não é moldado em uma “reunião de avivamento”, ou com uma experiência espiritual instantânea. As experiências são capacitadoras para o serviço cristão, mas não moldam o caráter. Somente um relacionamento permanente, contínuo, sólido e baseado nas Escrituras, possibilitam o crente a desfrutar do Fruto do Espírito, que nada mais é do que o modus vivendi de Jesus sendo manifestado na vida do cristão. Então para ter o caráter de Cristo, não se deve buscar atalhos no espiritualismo, mas sim, continuamente permanecer em Cristo.

O espirituoso acha que ser espiritual é rezar em cima de milhos ou orar nos montes dos gravetos de fogo. O espirituosos definem espiritualidade pelo barulho, onde há muito barulho há muitos espirituais, por isso necessitam de um fé movida pelo espetáculos evangélicos e congressos shows, onde o circo é montado para entretenimento das massas.



b) espiritualidade não é o mesmo que legalismo.


Muitos confundem vida espiritual com legalismos. Pois se elas usam saias nos pés ou usam gravatas em todos os cultos, acham que isso é a essência da santidade. Legalismo é atribuir o favor divino e a salvação as obras praticadas. Infelizmente, há aqueles que acham que por “pagar o preço”, dos quais não são ordenados nas Escrituras, irão morar no céu ou alcançar bênçãos!

Ser espiritual não é ficar com “cara de piedoso” ou se restringir do bom lazer e saudáveis diversões. Ser espiritual não é usar saias nos pés e esquecer que a essência está na moderação. Ora, moderação é sinônimo de equilíbrio, portanto, quando Paulo (I Tm 2.9) e Pedro (I Pe 3.3) apelam para a moderação, eles estão apelando para o equilíbrio. Será que mini-saias ou roupas de muçulmanas é pautar pelo equilíbrio? Não seria esses os extremos perigosos da liberalidade e do legalismo? Esses extremos cortam uma verdadeira espiritualidade!

Há aqueles que pensam que ser espiritual é ter uma linguagem do “evangeliquês”. São pessoas que sempre usam chavões “bíblicos”, como chamar um irmão de “varão, bênção” ou vivem falando em voz de choro ou gritando com um desesperado.

O legalismo tenta moldar a espiritualidade para aspectos exteriores e não essenciais. Quando a bíblia adverte para um espírito quieto, humilde, moderado e um corpo com pudor e modéstia, o legalismo que medir os centímetros das roupas e definir que a beleza e o cuidado equilibrado do corpo não é importante. Ser legalista é um impedimento para verdadeira espiritualidade!


Continua...


Referências Bibliográficas:


01- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 287.


02- GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.


03- STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 1738


04- TOZER, A. W. Sinais do homem espiritual. Revista Obreiro. Rio de Janeiro: CPAD, ano 12, n° 48, Julho-Setembro, 1989, p 5.


05- GEE, Donald. Depois do Pentecostes. São Paulo: Editora VIDA. Cit. por GONÇALVES, José. Espiritualidade, Avivamento e Equilíbrio. Revista Manual do Obreiro. Rio de Janeiro: CPAD, ano 27, n° 29, Janeiro-Março, p. 40-45.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Cuidado com os animadores de auditório!

O artigo em apreço não tem por objetivo traçar perfil de algum pregador famoso, mas sim alertar contra os mercenários vestidos de ovelhas que andam em nosso derredor. Que possamos tomar o cuidado de que os nossos nomes não estejam no rol de membros do conselho de animadores de auditório! É tempo de tomarmos posição, pois daqui a pouco não acharemos quem pregue a Palavra, mas sobrarão aqueles que buscam entretenimento para o povo.

Como identificar um animador de auditório? Abaixo estão algumas características nada virtuosas desses pregoeiros do triunfalismo utópico.

01. Os animadores de auditório amam a popularidade. Ter nomes em camisetas, em placas de denominações, ser cogitado por várias igrejas e ter agenda impossível de ser cumprida, eis o sonho de todo animador de auditório. Querem popularidade, fama, glória! Para isso foi chamado o pregador do evangelho? Esse deve ser o objetivo daqueles que dizem seguir o humilde Nazareno? Fama e muitos seguidores é sinal de aprovação divina? É claro que não!

Alguém logo argumenta:- Ora, Jesus foi um homem popular em sua época! Mas é bom lembrar que Jesus não buscava popularidade, ele buscava almas! Jesus, mediante muitos de seus milagres dizia ao beneficiado que não contasse nada a ninguém. Quem foi o único homem digno de glória senão Jesus, mas ele “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.7). Quis o manso Filho do Homem nos dar o exemplo!

Apesar da grande popularidade de Cristo, nos seus momentos de explosão de milagres, ele amargou o desprezo dos amigos e discípulos durante o caminho do Gólgota. Como bem havia profetizado o profeta messiânico: “Era desprezado e o mais indigno entre os homens, homem de dores, experimentado nos trabalhos e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum” (Is 53.3).

02. Os animadores de auditório são usuários do marketing pessoal. Certo dia vi um cartaz na igreja em que estava: “Pregador Fulano de Tal, Conferencista, em suas reuniões acontece batismos no Espírito Santo, curas divina, libertações, bênçãos, mas tudo pelo poder de Deus”! Seria cômico se não fosse trágico, pois usa de uma falsa modéstia para falar que todas essas bênçãos, promotoras do seu marketing pessoal, que acontecem simplesmente pelo poder de Deus. É claro que um cartaz bem elaborado como esse, serve para fazer promoção de alguém que quer evidência. Podemos fazer propaganda de milagres? Tornar o poder de Deus algo sujeito a nossa manipulação? Determinar o dia em que um milagre vai acontecer? Isso é o dom da fé ou o mercantilismo da fé?

O animador de auditório fala muito de si mesmo, diz ele: “Eu fiz isso, eu fiz aquilo; no meu ministério acontece isso, acontece aquilo; aqui eu faço e acontece”. Sempre há muita arrogância e busca de auto-promoção. Esse animador é sempre o grande ungido que não pode ser contestado.

03. Os animadores de auditório desprezam a pregação expositiva. Pregar sobre uma passagem bíblica de maneira profunda, bem estudada e pesquisada, além de levar os ouvintes a reflexão. Eis algo que os animadores de auditório abominam! Dizem logo que não precisam de esboços, pois o Espírito Santo revela. Ora, o Espírito Santo é limitado em expressar a sua vontade por meio de um esboço? O que esses animadores não querem admitir é que a pregação expositiva impede o seus teatrinhos, pois a centralidade é em torno da Palavra. Além disso, um sermão expositivo exige tempo e bom preparo, algo descabido na era dos descartáveis e das comidas-rápidas. Bem cantou o salmista: “A exposição das tuas palavras dá luz e dá entendimento aos símplices”(Sl 119.130).

04. Os animadores de auditório desprezam o ensino e o estudo da Palavra. Como pode alguém dizer que foi chamado para o ministério pastoral se não tem apreço para o ensino. Pastor não foi chamado para cantar, construir templos, fazer campanhas sociais, tudo isso é bom, mas a principal missão do pastor é ensinar o seu rebanho. Já dizia o apóstolo Paulo ao jovem pastor Timóteo: “seja apto para ensinar”(I Tm 3.2). O ensino exige aprendizado. Aquele que ensina deve-se dedicar ao ensino (Rm 12.7). Escreveu o professor James I. Packer:

Despreze o estudo de Deus e você estará sentenciando a si mesmo a passar a vida aos tropeções, como um cego, como se não tivesse nenhum senso de direção e não entendesse aquilo que o rodeia. Deste modo poderá desperdiçar sua vida e perder a alma.[1]

Os animadores de auditório não suportam sermões de conteúdo, pois eles querem é entretenimento. São como crianças que deveria ficar na escola, mas pulam o muro para jogar bola. O pregador não pode fugir da responsabilidade de trazer conteúdo bíblico aos seus ouvintes, como disse Paulo: “Pregues a Palavra, instes a tempo e fora de tempo. Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (II Tm 4.2, 15).

05. Os animadores de auditório desprezam temas relevantes em suas pregações. Você já foi em um grande congresso, onde esses animadores de auditório comparecem, cujo tema era “O fruto do Espírito” ou “A Santíssima Trindade”? Mas certamente você já foi em eventos que os verbos mais conjugados foram: receber, vencer, poder, ganhar, conquistar, sonhar, triunfar etc?! Infelizmente os temas essenciais da Bíblia são desprezados nos púlpitos. Onde estão aquelas pregações sobre o “caráter cristão”, “a graça de Deus”, “o céu e inferno”, “a justificação pela fé”, “a mortificação da carne”, “o preparo para um encontro com Deus” etc? Logos os animadores dizem: “Isso é tema para Escola Dominical”, mas eles nunca vão a Escola Bíblica Dominical! E quem disse que pregação não deve conter o temas essenciais da fé cristã?

Para pregar os temas relevantes da fé cristã é preciso manejar bem a Palavra da Verdade e ser como Apolo, “varão eloquente e poderoso nas Escrituras” (Atos 18.24). Mas não basta somente boa oratória, eloquência e experiência em homilias, é necessário acima de tudo dominar as Escrituras, ser “instruído no caminho do Senhor” e ser “fervoroso de espírito”, sendo assim, o pregador vai falar e ensinar com diligência “as coisas do Senhor”(Atos 18.25), assim como Apolo.

John Stott escreveu:

O arauto cristão sabe que está tratando de assunto de vida ou morte. Anuncia a situação do pecador sob os olhos de Deus, e a ação salvadora de Deus, através da morte e ressurreição de Cristo, e o convida ao arrependimento e à fé. Como poderia tratar tais temas com fria indiferença?[2]

A partir do momento em que os pregadores esquecem o tema principal do evangelho, eles desprezam o próprio Senhor da Palavra. Quando desprezam o verdadeiro Deus passam a adorar o falso deus da teologia da prosperidade: Mamon! Isso acontece quando as doutrinas centrais do cristianismo são desprezadas.

06. Os animadores de auditório despertam o emocionalismo. O emocionalismo é ser guiado e orientado pelas emoções. A emoção é parte importante do culto cristão, pois nós, os seres humanos, somos emocionais e também racionais; o grande problema é que os animadores valorizam excessivamente a emoção em detrimento da razão. Os animadores chegam a afirmar que as pessoas não precisam compreender aquilo que acontece em suas reuniões ou dizem para que os cultuantes não usem a mente. Outros, mais ousados, ameaçam sua platéia dizendo que Deus condena os incrédulos, com se ter senso crítico fosse incredulidade. A Bíblia adverte contra a credulidade cega, que não analisa e vê, baseado nas Escrituras, aquilo que está engolindo (I Jo 4.1). Os animadores de auditório não gostam de uma platéia que pense!

07. Os animadores de auditório pregam um deus mercantilista. Para os animadores Deus é obrigado a agradar os seus bons meninos dizimistas e ofertantes. A base do relacionamento com Deus é na troca: “Eu vou dar o dízimo para Deus me dar uma casa ou vou fazer uma grande oferta para arranjar uma linda noiva”. Ora, vejam com Deus é visto nos pensamento dos animadores, como um grande comerciante, melhor inclusive que aplicação na bolsa de valores.

Quão miserável é essa espiritualidade mercantilista, onde o dinheiro é visto com mediador entre o homem e Deus; onde a “divindade” faz trocas com homens materialistas. Ó quão miserável e podre doutrina dos animadores de auditório! Mas quão maravilhosa é a visão bíblica do Altíssimo, um Deus de amor que nos transmite graça sendo nos ainda pecadores, e que nos livra do pecado e da morte e nos dá uma nova vida em Cristo! Deus requer adoração por meio da oferta e dízimos.

08. Os animadores de auditório amam títulos. Apesar do horror pelo estudo bíblico, os animadores gostam do título de Doutor em Divindades, que pode ser comprado por dois mil dólares em falsas faculdades nos Estados Unidos e no Brasil, mas só que na América de cima é mais chique! Ora, como alguém se torna doutor em apenas seis meses, eis um rolo gospel do diploma?

Isso mostra que os animadores não estão preocupados com um estudo aprofundado das Escrituras ou até mesmo na trilha de uma carreira acadêmica, o que eles amam na verdade é os títulos. Hoje proliferam os auto proclamados bispos, profetas, apóstolos, arcanjos e daqui a pouco: semi-deus ou vice-deus. Mas é melhor não dar idéia.

Conclusão: Que possamos trilhar pela caminho bíblico de um pregador do evangelho. Onde o amor a Deus e ao próximo está em primeiro lugar, onde a Palavra de Deus tem prioridade e o desejo é glorificar o nome do Senhor e não a si próprio.


Referências Bibliográficas:

1- PACKER, James I. O Conhecimento de Deus. 2 ed. São Paulo: Mundo Cristão, p. 13.

2- STOTT, John. Tu Porém: A mensagem de 2 Timóteo. 1 ed. São Paulo: ABU Editora. 1982 , p 57.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Cair no espírito


Irmãos... aprendais a não ir além do que está escrito! (Apóstolo Paulo aos Coríntios)

O “cair no espírito” é um dos mais famosos e proliferados modismos na igreja evangélica. Em várias reuniões e cultos, pessoas caem após sopros, empurrões e jogadas de paletós de pregadores sensacionalistas. Hoje, inúmeros crentes estão em busca desse novo e conhecido movimento. Mas onde começou essa onda? Quais os termos que o descreve? Esse fenômeno faz parte do pentecostalismo? O cair no espírito tem apoio escriturístico e histórico?

Divulgação do “cair no espírito”


No ano de 1994, na Toronto Airport Chiristian Fellowship (Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto), o fenômeno do cair no espírito começou a ser divulgado por meio de um conferência ministrada pelo pastor Randy Clark, convidado do pastor John Arnott e da pastora Carol Arnott, dirigentes da igreja em Toronto. Antes, os Arnott já tinham conhecido esse fenômeno por meio do evangelista neopentecostal Benny Hinn, que já praticava o “cair no espírito” em suas reuniões[1]. Benny Hinn aprendeu essas manifestação exóticas por meio do ministério de Kathryn Kuhlman, uma famosa “evangelista” norte-americana que morreu em 1976, onde em sua reuniões, dezenas de pessoas caiam ao mesmo tempo mediante sua oração.

Classificações do fenômeno na Teologia Pentecostal

 Na teologia pentecostal, o modismo de “cair no espírito” é classificado como “pentecostalismo manikos”, que segundo Joseph L. Castleberry - Deão acadêmico do Seminário Teológico das Assembléias de Deus em Springfield, Missouri (EUA)- é uma “adoração caracterizada por manifestações maníacas que distorcem e abusam dos dons espirituais”[2]. O hermeneuta Esdras Costa Bentho, pastor de confissão pentecostal, lembra outro termo que pode descrever manifestações excêntricas: a carismania. Carismania é mistura de carismata (dons) e manikos (manifestações exóticas). Bentho comenta:
Não é sem razão que manifestações pseudo-pneumáticas (espiritualmente falsas), que geralmente são gerenciadas por “figurões” do pentecostalismo, são chamadas de “carismania”- uma mistura de charismata com manikos. [3]
 Esses fenômenos neopentecostais, são também conhecidos como “Bênção de Toronto”, devido a divulgação dessas práticas pela igreja da Videira localiza em Toronto- Canadá, como acima descrito. Alguns apologistas (a maioria pentecostais) preferem chamar, de forma irônica, o “cair no espírito” de movimento “cai-cai”.

A posição dos neopentecostais em relação ao fenômeno

 Apesar de vários nomes ligados ao “cair no espírito”, com Kathryn Kuhlman, Benny Hinn, Kenneth Hagin, Charles Hunter, foi a igreja de Toronto por meio do pastor John Arnott, que espalhou o fenômeno do “cair no espírito” para o mundo inteiro, como um grande avivamento do Espírito Santo. Hoje, esse modismo é amplamente aceito na maioria da denominações neopentecostais, com exceção da Igreja Universal do Reino de Deus[4] e da Igreja Internacional da Graça de Deus[5]. Muitas paróquias que pertencem a RCC (Renovação Católica Carismática) praticam o “cair no espírito”, que entre os católicos carismáticos é denominado de “repouso no espírito”.

Posição dos Pentecostais Clássicos em relação ao fenômeno

Algumas igrejas ou instituições relacionadas a denominações pentecostais incentivam a prática do cair no espírito. Todavia, a Assembléia de Deus, por meio da CGADB (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil) é contra o “cair no espírito”. Na oitava ELAD, que é um encontro de pastores assembleianos ligados a CGADB, na cidade de Porto-Seguro- BA, em outubro de 2002, foi reafirmado a posição contrária da Assembléia de Deus em relação aos modismos neopentecostais[6]. No relatório da ELAD, está escrito:
Sob o esfuziante tema “Não extingais o Espírito” o 8° ELAD trouxe a tona os fenômenos promovidos pelos movimentos neo-pentecostais como: “cair no Espírito”, “sopro do Espírito”, “benção de Toronto”, “dançar no Espírito”, “dentes de ouro” e outras enxurradas de práticas inovadoras que andavam perturbando o seio da igreja. Nas palestras ministradas pelos pastores José Wellington Bezerra da Costa, Antonio Gilberto, Elienai Cabral e Elinaldo Renovato de Lima, os mais de 700 pastores e evangelistas inscritos no encontro, puderam constatar que a Bíblia não oferece nenhum respaldo para tais acontecimentos e reafirmaram que o autêntico mover do Espírito é aquele que traz avivamento espiritual, batismo no Espírito Santo e transformação na vida do homem.
 Por meios dos periódicos oficias, a Assembléia de Deus tem se colocado contra essas práticas. Exemplo disso é o Jornal Mensageiro da Paz, que na edição de Setembro de 2007, trouxe uma matéria de capa sobre o pastor Paul Gowdy, um ex-líder da igreja em Toronto, que hoje revela a farsa do movimento. Vários teólogos assembleianos e pentecostais se posicionaram contra o “cair no espírito”. O renomado pastor assembleiano Antonio Gilberto comenta de forma crítica:
“Cair no Espírito” é cair e ficar inconsciente; cair não subjetivamente; cair à toda hora; cair em grupos; cair por manipulação de alguém esperto, e ainda mais citando textos bíblicos truncados [7]. E continua: Nas reuniões de “riso no Espírito” há pouco ou nada de leitura bíblica, de pregação e ensino da Palavra de Deus. Durante essas reuniões, eles proferem repetidamente frases como: -Não tente usar sua mente para entender isso, Não ore agora; beba! Receba! Receba um pouco mais. Ora tudo isso é contrário aos ensinos da Palavra de Deus, pois a fé abrange a mente.[8]

O teólogo pentecostal Claudionor Corrêa de Andrade escrevendo sobre o “cair no espírito”, cita exemplo de Gunnar Vingren, um dos fundadores das Assembléias de Deus no Brasil, que viajou em 1923 de Belém do Pará até Santa Catarina para combater o que hoje é conhecido com “Bênção de Toronto”, e Andrade comenta:
Embora fervoroso pentecostal, Gunnar Vingren não se deixou embair pelo emocionalismo nem pelas aparências. Ele sabia que nem tudo o que é místico, é espiritual; pode brilhar, mas não é avivamento. O misticismo manifesta-se também em rebeldias e mentiras. Haja vista as seitas proféticas e messiânicas. [9]

O Dr. Paulo Romeiro, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor de uma igreja pentecostal em São Paulo, lembra do equilíbrio em relação ao assunto, mas sem deixar de destacar as mazelas que fenômeno tem trazido ao evangelicalismo, ele diz:
Reconheço que Deus tem poder para tocar alguém hoje de tal forma que a pessoa venha a cair. De modo algum sou contra a verdadeira manifestação do poder de Deus. Esta não me preocupa nem um pouco, pois quanto mais, melhor. O que realmente me preocupa são os abusos gerados em torno de tal prática. Estes trazem mais transtornos e divisões para o Corpo de Cristo do que edificação espiritual. [10]
José Gonçalves, pastor da Assembléia de Deus no Piauí, escrevendo sobre fenômenos neopentecostais, lembra do perigo do sensacionalismo e pauta o assunto pelo equilíbrio. Em artigo, escreveu sobre a possibilidade de alguém cair sob influência divina assim como nos avivamentos do Século 19, mas reconhece os atuais exageros sobre o fenômeno. Gonçalves escreve:
Há o perigo dos “pneumatismos” que conduzem à anarquia espiritual. Na gênese das seitas que dizem ser criação do Espírito de Deus, encontra-se com abundância as mais insidiosas aberrações teológicas. Esse é um problema que não pode ser simplesmente ignorado por se desejar preservar um evangelicalismo ou um suposto avivamento. [11]

Outra observação importante de um teólogo pentecostal, é o que está descrito no Dicionário do Movimento Pentecostal, em relação ao “cair no espírito”. Isael de Araújo escreve:
A comprovação para o fenômeno está inconclusiva. Do ponto de vista experimental, é inquestionável que, ao longos dos séculos, crentes venham experimentando fenômenos psicofísicos nos quais caem no chão. Além disso, eles sempre atribuem a experiência a Deus. É igualmente inquestionável que não existe nenhuma prova bíblica para a experiência como norma para a vida cristã. [12]
É um consenso no pentecostalismo clássico a condenação desse fenômeno.

Bases bíblicas e evidência histórica

Fica bem claro, que a posição oficial dos pentecostais clássicos, é que não se deve ir além do que está escrito, como bem recomendou o apóstolo Paulo(I Co 4.6) . A Bíblia menciona nove dons espirituais (carismata pneumatikos), mas não cita o cair no espírito como evidência da plenitude do Espírito Santo. Não há nenhum textos não escrituras que dê espaço para essa manifestações. Muitos neopentecostais insistem que há base bíblica e história para as suas atuais práticas de jogar paletó nas pessoas e essas caírem ou soprar sobre um publico e esses serem cheios do Espírito.

Para muitos neopentecostais, os textos em que personagens bíblicos caem prostrados, como Gn 15.12; I Sm 19; II Cr 5.13,14; Dn 8.17; Mt 2.11; Mt 28.4; At 10.10 e Ap 1.7 são evidências do atual cair no espírito. Ora, nenhum desses personagens bíblicos caíram por ter recebido poder ou algum vigor espiritual, mas antes caíram diante de um estado de reverência ou medo. Eles caíram diante de serem angelicais e com o rosto em terra, não para trás como acontece hoje. Esses versículos nada provam! São textos fora de um contexto, gerando pretextos. Um texto que esses “apologistas” não citam é João 20.22, onde Jesus sopra sobre os apóstolos e disse: “Receberei o Espírito Santo”, mas ninguém caiu! Muito bem leciona o pastor pentecostal Ciro Zibordi:
Os que defendem a “queda no poder” ignoram os fatos de que o culto a Deus é racional (Rm 12.1) e de que o espírito do profeta está sujeito ao profeta (I Co 14.32). Isso significa que, por mais que sintamos a presença do Senhor, em um culto, devemos ser prudentes quantos às reações. Devemos ser meninos apenas na malícia, e adultos no entendimento (I Co 14.20)[13].
 Não há evidência bíblicas, mas há evidências históricas? O pastor neopentecostal Marco Feliciano diz que sim, pois no seu livro Chamada de Fogo, Feliciano cita que várias pessoas caiam nas reuniões de D. L. Moddy, Charles Finney e John Wesley. Isso é verdade, mas as pessoas que caiam nas reuniões de Finney, Edwards, Spurgeon, Moddy, Wesley e outros, caiam de maneira diferente ao que acontece hoje. Hoje as pessoas caem por receber alguma coisa, no tempo dos grandes avivalistas as pessoas caiam por convicção de pecado. Hoje as pessoas caem após mensagens de auto-ajuda e triunfalismo, no tempo dos avivalistas as pessoas caiam mediante mensagens como “Pecadores na mão de um Deus irado”. Hoje as pessoas caem após empurrões ou por causa de paletós de pregadores sensacionalistas, no tempo dos avivalistas os que caiam não caíram por causa de gerenciamento, provocações e manipulações de pastores. Hoje os pregadores propagam o cair, no tempo dos avivalistas os grandes homens de fé procuravam desencorajar essas manifestações. Hoje as pessoas tornam o cair um espetáculo, no tempo dos avivalistas esses fenômenos não eram casos de exibicionismos.

O teólogo Erwin Lutzer lembra outra diferença:
Os superapóstolos de hoje afirmam fazer em questão de minutos o que pregadores mais antigos nos dizem que apenas pode ocorrer por quebrantamento diário e submissão a Deus, em geral por sofrimento. Atualmente, nos dizem que só podemos ter poder sendo tocados por um apóstolo supercheio de unção. Eles têm poder próprio. [14] 

 Portanto, o atual movimento de “cair no espírito” e fenômenos relacionados como: “riso santo”, “dança do Espírito”, “aviãozinho”, “unção da lagartixa”, “reteté de Jeová” etc, não apresentam nenhuma evidência bíblica e chegam a ferir vários princípios bíblicos, como o culto racional, decente e com ordem (Rm 12.1, I Co 14.40).

Conclusão:

Qual é a causa para tanto sucesso de fenômenos excêntricos, extravagantes, exóticos, anti-bíblicos, irracionais, no evangelicalismo?

01. A busca pela espiritualidade superficial. Hoje a dedicação de tempo à oração, meditação bíblica e comunhão entre irmãos é cada vez mais raro no meio evangélico, então a busca por soluções espirituais mais rápidas e instantâneas são frequentes nos cultos.

02. Desequilíbrios eclesiásticos. Como é difícil ser equilibrado no meio evangélico, pois muitos em busca de uma “cristianismo racional”, buscaram um racionalismo cético, naturalista e anti-bíblico denominado de liberalismo teológico. Em contrapartida, outro extremo se levantou, que é a busca por um “cristianismo emocional”, onde o emocionalismo contamina as mentes que pararam de pensar e refletir na Palavra de Deus.

03. Pragmatismo e empirismo evangélico. Um legião de pessoas buscam aquilo que é prático e experimental, sendo presas fáceis de pregadores sensacionalistas, que buscam produzir shows em lugar de cultos. O espetáculos dos anfiteatros tomam conta dos púlpitos que deveriam ser destinados à Palavra.

04. Falta da consciência na suficiência da Palavra. Ir além do que está escrito é a grande moda dos evangélicos contemporâneos, sendo que a Bíblia deixa de ser a regra de fé e prática das liturgias e manifestações espirituais. Já não é suficiente os dons espirituais descritos em diversos textos das Sagradas Escrituras? Para que buscar mais coisas que fogem da Palavra?

Notas e Referências Bibliográficas:

1- Benny Hinn, em 1992, veio ao Brasil em um congresso da ADHONEP (Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno), onde “derrubou” muita gente!

2- CASTLEBERRY, Joseph L. Pós-Pentecostalismo: Estranha moda tenta apagar as manifestações espirituais na igreja. Revista Manual do Obreiro. Rio de Janeiro: CPAD, Ano 27, n° 32, 2005.

3- BENTHO, Esdras Costa. A Bíblia tem a resposta: Há respaldo para “cair no poder”? In Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, Ano 76, n° 1458, Novembro de 2006, p. 17.

4- Edir Macedo, pontífice máximo da IURD, é contra o modismo de “cair no espírito”. Na IURD, dificilmente um membro será incentivado a exercer os dons espirituais, consequentemente, os exageros relacionados aos dons são ausentes. Mas a IURD não escapa de uma demostração exótica de experiências, aja vista a prática de exorcismos, que é um verdadeiro espetáculo!

5- R.R. Soares, apesar de ter sua teologia moldada por Kenneth Hagin, é contra o “cair no espírito” e disse no Jornal Show da Fé, que quem cai são “os endemoninhados”.

6- Alguns estudiosos preferem chamar as igrejas praticantes desses modismos de “ultra-pentecostais”.

7- GILBERTO, Antonio. Desvios da Doutrina Bíblica. in Revista Ensinador Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, Ano 7, n° 28, p. 19.

8- Idem, n° 29, p. 20.

9- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 142.

10- ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. 4. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 77.

11- GONÇALVES, José. Espiritualidade, Avivamento e Equilíbrio. Revista Manual do Obreiro. Rio de Janeiro: CPAD, ano 27, n° 29, Janeiro-Março, p. 40-45.

12- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 616.

13- ZIBORDI, Ciro Sanches. Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 34.

14- LUTZER, Erwin W. Quem é Você Para Julgar? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 104.