domingo, 30 de março de 2008

Tentações aos Pentecostais Parte 02.

Além do legalismo anacrônico e da “teologia” empirista, onde as experiências estão acima das Escrituras; outros fatos ameaçam o Pentecostalismo. O artigo abordará esses fatores que servem de tentação aos pentecostais.

a) A politicagem maquiavélica.

A politicagem maquiavélica pode ser entendida como a pratica política, boa ou má, para sustentabilidade do poder pessoal, mantendo a integridade de seu próprio reino. É o poder pelo poder! A principal meta do líder político é se manter em sua carreira, mesmo sendo um populista assistencialista e ao mesmo tempo agir com “mãos de ferro” em uma ditadura inflexível. O importante é que “os fins justificam os meios”. O envolvimento político de muitos pastores-candidatos segue uma filosofia maquiavélica; querem se manter no poder pelo poder, mesmo que pose de “representante dos interesse da igreja”.
Não há nada de errado em um evangélico pentecostal se envolver em política, o problema é como se exerce essa política. O sociólogo Max Weber dizia que “há duas maneiras de fazer política. Ou se vive 'para' a política ou se vive 'da' política”[1]. Vivendo para a política, vive-se para os interesses alheiros e não os próprios deleites egoístas, sendo que assim deveria ser o político cristão.
Infelizmente, muitos pastores-candidatos estão preocupados somente com o seu sustento material e de poder e não envolvido na construção de uma sociedade justa. Havia deputados evangélicos envolvidos em máfias, como das “sanguessugas”; se a mídia exagerou nos números de envolvidos ou em sua exposição, o fato era que havia “representantes da igreja” metidos em roubos de dinheiro da frágil saúde brasileira.
Antes, os pentecostais eram conhecidos como apolíticos, pois “política era coisa do mundo”; hoje esse grupo evangélico está cada vez mais envolvido na política-partidária. A frase mais dita nos meses que antecedem as eleições é “irmão vota em irmão”. Os púlpitos, que deveriam servir de alicerce para a pregação expositiva, serve como um palanque partidário. Ovelhas são vistas como rebanho eleitoral e “santinhos” são distribuídos mais do que folhetos.
Muitas estruturas eclesiásticas seguem um modelo político ferrenho, tais como o regime episcopal-carismático, onde o líder com seus carismas conquistam as suas ovelhas com títulos de eleitor. Em igreja pentecostais-carismáticas não é raro a divisão de ministérios por questões de poder e manutenção de uma política. As divisões por poder são mais abundantes do que divisões por questões doutrinárias e litúrgicas. O pastor Paulo Romeiro comenta:

Creio que uma das falhas do pentecostalismo (de onde também venho) no Brasil através das décadas foi enfatizar mais o carisma do que o caráter. O importante era ter o poder de Deus, poder para expulsar demônios, operar milagres, pregar e sacudir as massas. Tudo isso é muito bom, mas apenas isso não basta, pois carisma sem caráter leva à destruição.[2]

Como afirmado acima, não há problemas com o envolvimento político dos evangélicos. O político evangélico deve ter qualificações e não somente ser “irmão”; deve transmitir uma cosmovisão cristã, lutar pelo bem da nação e pelos valores da cristandade. A política, a ciência, a economia, o trabalho, a educação etc, devem se preocupações paras que os cristãos coloquem suas vozes, mas agir como o mundo de nada adiantará (Rm 12.2).

b) A neopentecostalização.

Muitas igrejas pentecostais estão se neopentecostalizando. São pentecostais adeptos da “teologia da prosperidade”, batalha espiritual, G-12, reteté, maldição hereditária, cultos de libertação, cultos de revelação, angelomania etc. Algumas congregações já não podem ter o nome de pentecostais, e sim de neopentecostais. Abaixo são descritas as características marcantes no dois grupo no início do Século XXI.
Nesse século, os pentecostais clássicos[3] podem ser identificados pelo:
1. Pioneirismo- uma tradição histórica.
2. A transformação de uma comunidade sectária para uma instituição com ascensão social, buscando respeitabilidade confessional.
3. O estímulo para formação acadêmica/teológica do ministério pastoral, presbitério e diaconato.
4. O distanciamento do púlpito de leigos, instituindo nova exigências além do carisma para o exercício pastoral.
5. Dificultando a ascensão à hierarquia eclesiástica.
6. A limitação e disciplina das manifestações carismáticas e diminuição a rejeição ao mundo exterior.

Já os neopentecostais diferem dessas características. Os neopentecostais podem ser identificados pelos seguintes tópicos: (Obs. Nem todas as igrejas neopentecostais se encaixam nessas características)

1. Liturgia dinâmica e/ou anti-litúrgica.
2. Ênfase no louvor em detrimento para a pregação expositiva.
3. Menos ênfase nos dons espirituais e Batismo no Espírito Santo.
4. Rejeição as “confissões de fé” e compêndios doutrinários.
5. Liderança carismática, centralizada, “episcopal papista” e midiática.
6. Igrejas como “pronto-socorros” espirituais.
7. Anti-formação teológica e rápida ascensão no pastorado pelo carisma.
8. Hedonismo, pragmatismo, imediatismo, materialismo e secularismo eclesial.
9. Doutrinas de batalha espiritual, confissão positiva e exorcismo são mais valorizadas e contrariam o Cristianismo Histórico.
10. Adoração profética, louvor místico e judaização do culto.
Hermenêutica e espiritualidade centradas no Velho Testamento.

Os pentecostais clássicos que estão se neopentecostalizando, normalmente tem visibilidade na mídia e são afastadas da comunhão com igrejas históricas, além da rejeição ao academicismo protestante.

Conclusão:

Há outras ameaças ao pentecostais (ex. Antiintelectualismo, pragmatismo, liberalismo teológico, misticismo herético etc.), mas aqui foram descritas quatro, sendo as principais tentações para o equilíbrio bíblico do Movimento Pentecostal.

Referências Bibliográficas:

1- WEBER, Max. Ciência e Política- Duas Locações. São Paulo: Editora Cultrix, 1993, p. 64.

2- ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. 4 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 19, 20.

3- Características extraídas do verbete Pentecostalismo Clássico in ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 568.

domingo, 23 de março de 2008

Tentações aos Pentecostais- Parte 01

A história do Movimento Pentecostal é simplesmente maravilhosa. Muitas bênçãos de Deus foram operadas por meio desse grande avivamento. Vidas, famílias e igrejas foram despertadas para uma maior comunhão com Deus por meio da fé pentecostal. Grandes líderes impactaram a igreja do Século XX com os carismas do Espírito. Mas nem só de boas lembranças vive o Pentecostalismo, pois alguns erros prejudicaram a vida daqueles que estavam envolvidos nesse avivamento. As falhas tendem a ressurgir com novas roupagens, que prejudicam os pentecostais em crescimento e maturidade. Esse erros serão abordados como tentações aos pentecostais hodiernos. Mas quais são essas tentações:

01. Tendência ao legalismo.
Muitos pentecostais foram e ainda são legalistas de carteirinha. São pessoas que atribuem sua salvação pelos aspectos externos e por boas obras, substituindo a Graça do Senhor Jesus Cristo. O legalismo vê nas formas externas um meio de santificação e salvação. Legalismo pode ser entendido como uma distorção do Evangelho neotestamentário. Ricardo Gondim, pastor pentecostal comenta:

Preocupa-me imaginar a possibilidade de que muitos crentes hodiernos não
tenham alicerçado sua fé na graça de Deus; infelizmente, ainda dependem de suas
boas obras como garantia de salvação. Têm sido acrescentadas fórmulas e exigências
comportamentais à mensagem da salvação, tornando o sacrifício de Cristo ineficaz.
Indago-me freqüentemente se muitos crentes não se estribam nas doutrinas e
proibições de suas igrejas como um meio de alcançarem a salvação.[
1]

O legalismo, e seu apego excessivo a lei, leva muitos pentecostais a comportamentos extravagantes. Há igrejas pentecostais, neopentecostais e carismáticas, que apresentam um modus vivendi semelhantes aos mais radicais religiosos da Idade Média ou dos muçulmanos contemporâneos. Em muitas dessas igrejas a palavra santidade é confundida com uma maneira de se vestir ou de ser adornar.
A Graça de Deus não está restrita à salvação, mas possibilita uma vida de santidade ao cristão; como lembra o pastor assembleiano Geremias do Couto:

Muitos há que restringem a graça apenas à salvação e põem o peso da santidade, como já observamos, num sistema carregado de ordenanças, muitas delas de natureza carnal, onde o que conta é o esforço humano para cumprir cada requisito previsto. O indivíduo foi salvo, mas agora... precisa sobrecarregar-se de regras de homens que tornam o caminho mais estreito do que já é. A graça garante não só a salvação, mas também a vida de renúncia, pureza e justiça do Sermão do Monte. [2]

Os pentecostais não podem deixar que um neolegalismo seja confundido com uma saudável preservação de algumas tradições e o exercício correto da moderação. O legalista é o extremo do libertino, sendo tão errado pelas suas extremidades e por falta de equilíbrio.

02. Experiências acima de doutrina.
A correta crença dos pentecostais em manifestações carismáticas, como profecias, palavras de conhecimentos e sabedoria; não podem levar o pentecostalismo a basear sua fé em experiências. O sistema doutrinário, litúrgico e tradicional de uma igreja, deve basear-se exclusivamente na Palavra de Deus.
Muitos, no anseio de novas revelações, levaram suas igrejas ao desastre doutrinário. No decorrer do século XX, alguns pentecostais empiristas caíram nas malhas do sectarismo. Outros produziram novas “verdades” por meio de suas visitas ao céu e ao inferno. Alguns líderes apelam tanto para as suas experiências que tornam a imagem do seu ministério como o único meio de avivamento.
No próximo artigo será abordada outras tentações aos pentecostais.

Referências Bibliográficas:

01. GONDIM, Ricardo. É Proibido: o que a bíblia permite e a igreja proíbe. São Paulo: Editora Mundo Cristão, p. 08.

02. COUTO, Geremias do. Transparência da Vida Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, p. 29.

sábado, 15 de março de 2008

Teísmo Aberto e suas implicações à teologia pentecostal - Parte 02

O Teísmo Aberto destaca-se por mesclar com outras corretes teológicas de cunho modernista. Essa corrente tem influenciado pensadores cristãos evangélicos e até denominações. O artigo quer responder a seguinte pergunta: o Pentecostalismo tem sido afetado pelo Teísmo Aberto?
O Movimento Pentecostal, em 2006, completou o seu primeiro centenário, sendo um “movimento” relativamente novo. O antiintelectualismo dominou o Pentecostalismo nos seus primeiros anos, sendo quem esse tipo de fé anti-razão foi sendo quebrada por grandes teólogos nas igrejas pentecostais, como Myer Pearlman e Donald Gee. O teólogo pentecostal Antonio Gilberto comenta:

Infelizmente, os pentecostais não tem uma tradição acadêmica. Estou dizendo isso com respeito. Sou pentecostal. Os nossos irmãos episcopais, metodistas, presbiterianos e batistas têm uma certa tradição acadêmica. Só fomos nos preocupar com isso há pouco tempo. Por isso, às vezes enfatizamos apenas a emoção e esquecemos a outra área.[1]

O professor Augustus Nicodemus, acredita que a tradição acadêmica tardia dos pentecostais, tornam os jovens seminaristas veneráveis a correntes teológicas liberais, como o Teísmo Aberto, Nicodemus diz:

Por não terem investido, no passado, em uma boa educação teológica de seus pastores e obreiros, muitas igrejas pentecostais, hoje, têm um tremendo passivo teológico. Várias delas têm sucumbido ao liberalismo teológico quando enviam seus obreiros para serem preparados em cursos de teologia e ciências da religião comprometidos com o método histórico-crítico.[2]

O jornalista Silas Daniel, pastor assembleiano, completa a tese do Rev. Nicodemus:

A tradição acadêmica do pentecostalismo é recente porque o pentecostalismo, como movimento, é recente. Se isso pode ter tido alguma influência? Pode. Mas, na verdade, não é exatamente por causa disso. Temos percebido vítimas do Teísmo Aberto tanto em arraiais pentecostais como em arraiais não-pentecostais, e aqui me refiro a denominações igualmente arminianas e com uma tradição acadêmica mais antiga do que a dos pentecostais. Não é tanto uma questão de tradição acadêmica, mas de público para o qual o discurso é mais atraente. É mais fácil o Teísmo Aberto enredar um arminiano desavisado do que um calvinista desavisado, posto que o calvinista, por definição, já mostra-se indisposto em relação ao arminianismo.[3]

As opiniões acima mostram que o Pentecostalismo, também, é um movimento vulnerável ao liberalismo teológico com as suas diversas correntes. O Teísmo Aberto tem afetado, sim, alguns pastores pentecostais, sendo que essa influência é crescente. O século XXI, mostra aos pentecostais clássicos dois desafios: os modismos e aberrações neopentecostais e o liberalismo teológico.
No Chile e outros países da América Latina é visto muitos pentecostais adeptos da “Teologia da Libertação” ou “Evangelho Social”. Nos Estados Unidos alguns pentecostais-carismáticos são constantes em movimentos ecumênicos.
Além da tradição acadêmica tardia, os pentecostais em sua maioria são arminianos, sendo que o Teísmo Aberto é bem atrativo para os mais radicais seguidores de Jacobus Arminius. Mas ser pentecostal não significa ser necessariamente arminiano, pois é crescente os pentecostais que buscam uma terceira via entre calvinismo e arminianismo, além de outros declarados “pentecostais reformados”.
Nos anos 60, 70 e 80, os pentecostais brasileiros já se preocupavam com o liberalismo. Em 1962, na Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, já se discutia o ecumenismo. Na década de 80, o teólogo assembleiano Abraão de Almeira escreve o livro Tratado sobre Teologia Contemporânea, onde ele tratou desde Modernismo Teológico, Neo-Ortodoxia e Teologia da Libertação. Os pentecostais devem continuar como antagônicos do liberalismo teológico, isso não é retrocesso intelectual, mas precaução diante das vãs filosofias (Cl 2.8).

Conclusão:

01. Os pentecostais, assim como batistas e metodistas que radicalizarem o seu discurso arminiano, podem cair nas malhas do Teísmo Aberto.
02. Um pentecostalismo anti-razão, que despreza o discurso teológico, a apologética, o ensino sistemático, é bem semelhante aos “combatentes” da ortodoxolatria[4]. O pastor assembleiano Rick Nañez, no seu livro[5] que mostra o antiintelectualismo no pentecostalismo, relata a frase de um líder pentecostal pioneiro: “Existem pessoas que gastam a vida inteira sendo apologistas- sim, elas passam sua vida toda dano desculpas para as Escrituras”.
03. Os jovens seminaristas precisam resistir a tentação de inventarem novas teologias. A atração perigosa de querer inventar a roda e achar que precisa quebrar com todo pensamento histórico é comum nas mentes “revolucionárias”, mas vazias de sentido e direção bíblica.

Notas e Referências Bibliográficas:

01. GILBERTO, Antonio. In Entrevista Reposta Fiel, Rio de Janeiro, n. 18, p 12, Dez-Jan-Fev de 2006.

02. NICODEMUS, Augutus. In Entrevista. Revista Defesa da Fé. São Paulo, Maio de 2007. Disponível em:<> Acesso em: 14/03/2008.

03. DANIEL, Silas. In Entrevista. Blog Teologia Pentecostal. São Paulo, 30/01/2008. Disponível em:<> Acesso em: 14/03/2008.

04. O discurso anti-apologética é comum no meio do neoliberalismo teológico. O escritor Donald Miller, no seu livro Como os pinguins me ajudaram a entender Deus (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007), escreveu: “Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe- e a esse ponto a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou mais interessado nisso”.
O discuso anti-apologética, comum no antiintelectualismo pentecostal, se assemelha aos neoliberais, que não vêem razão nos debates. A apologética é mandamento divino ( Fp 1.7, 16; I Pe 3.15 e Jd 3).

05. NAÑEZ, Rick. Pentecostal de Coração e Mente. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 274.

domingo, 9 de março de 2008

Teísmo Aberto e suas implicações à teologia pentecostal - Parte 01

O Teísmo Aberto é uma corrente teológica que possui uma nova interpretação em relação a Deus e a seus atributos, contrariando a perspectiva do teísmo clássico. O Teísmo Aberto ficou conhecido no Brasil como Teologia Relacional. Hoje, o Teísmo Aberto se alinhou a outras correntes teológicas, como a Teologia da Libertação, Teologia da Esperança, Neo-Ortodoxia, Liberalismo Teológico, Ortodoxia Generosa, Igreja Emergente, Teologia Feminista, Teologia Kenótica etc. Todas essas escolas de pensamento teológico tem em comum a contrariedade ao Cristianismo Histórico e a constante de adaptar o evangelho ao tempo moderno.
O Teísmo Aberto tem suas origens na Teologia do Processo. Segundo C. Stephen Evans, “os teólogos do processo rejeitam a descrição clássica sobre Deus como imutável e transcendente em favor de um Deus que parcialmente evolui por meio de sua relação com o mundo criado”[1]. A escritora Nancy Pearcey completa:

A teologia do processo ensina que Deus e o mundo estão em processo de mudança e evolução constante. Deus é um espírito divino que evolui no mundo e com Ele, a alma do mundo, a vida cósmica evolutiva da qual nossa vida faz parte.[2]

A Teologia do Processo têm como os principais pensadores Charles Hartshoure, Alfred Whitehead e John Cobb. Nessa teologia, Deus está inserido no tempo, e não acima desse tempo, sendo um Ser que evolui e é mutável com Suas criaturas. A Teologia do Processo é panenteísta, ou seja, tudo está em Deus, e o próprio Deus se confunde com a natureza que Ele criou.
Nessa corrente teológica Deus está subordinado ao tempo, ou seja, não é o Deus revelado nas Sagradas Escrituras. Segundo Charles Hartshorne: “Deus faz parte da ordem temporal. Por meio desse envolvimento, ele está continuamente obtendo sínteses de experiências mais enriquecedoras”[3]. O deus temporal deixa de ser O Eterno, pois alguém subordinado ao tempo está preso ao presente; o teólogo e filósofo Ariovaldo Ramos observa:

Para Deus não saber (do futuro), Ele tem de sair do estado eterno; e quem sai do estado eterno nada sabe, apenas suspeita, uma vez que graças a uma visão limitada e rarefeita fica-se condenado à interpretação das informações, sobre as quais até a certeza é relativa.[4]

O Teísmo Aberto é o filho protestante dessa filosofia judaica do processo. Clarck Pinnock, expoente do Teísmo Aberto, escreveu que a sua proposta teológica neoteísta está entre o Teísmo Clássico e a Teologia do Processo[5]. A diferença essencial entre o Teísmo Aberto e a Teologia do Processo está em sua metodologia, pois os teístas abertos procuram uma linguagem bíblica e tentam resgatar o cristianismo da filosofia grega, mas os teólogos do processo usam uma filosofia exclusivamente liberal.
Segundo os teístas abertos, a teologia cristã clássica tem muito de filosofia grega e pouco de revelação bíblica, em especial a teologia agostiniana. Esse “resgate” do cristianismo da filosofia grega, não torna o Teísmo Aberto longe de pressupostos filosóficos, pois os teístas abertos criaram um deus moldado a pós-modernidade; onde a autoridade, liberdade e relacionamento divino se moldam à geração contemporânea. Como a obra organizada por Justin Taylor, John Piper e Paul Helseth, afirma:

Motivados pelo zelo de resgatar o Deus da Bíblia das distorções gregas, o que eles produziram foi um Deus de distorções norte-americanas. No lugar de um tirano estático, erigiram o derradeiro pai norte-americano. O Deus do teísmo aberto está tranqüilamente livre do mistério e alegremente zeloso em confirmar nossa autonomia.[6]

O teólogo assembleiano Claudionor Corrêa de Andrade leciona: “Buscando, agora, justificar o injustificável, esforçam-se por criar um deus teologicamente correto; um deus à sua própria imagem e semelhança”[7]. Verifica-se que o Teísmo Aberto é fortemente influenciado pela pós-modernidade e nunca estará livre de influências estranhas, aja vista a Teologia do Processo. Norman Geisler afirma com muita propriedade:

Não há nada de errado em ter uma influência filosófica no estudo teológico e bíblico. Filosofia é necessária para fazer tanto exegese quanto Teologia Sistemática. Devemos apensas analisar se a pessoa está usando boa filosofia. Então, a questão não é se esse é um pensamento grego, mas se ele é um pensamento bom e correto. A questão não é se é helênica, mas se é autêntica. [8]

O grande problema com a influência filosófica é quando essa contradiz as Escrituras judaico-cristã[9]. Certamente a teoria de um deus mutável e em evolução, influenciada por uma filosofia darwinista é contrária as Sagradas Escrituras.
Os teístas abertos são taxativos em rotular aqueles que não concordam com sua visão de “fundamentalistas-calvinistas-dogmáticos-retrógrado”, e ainda lamentam pelo “rótulos”que recebem. Usam títulos como “fundamentalistas” por soar de modo pejorativo na sociedade pós-moderna. É bom lembrar que não são só calvinistas que não concordam com o teísmo aberto, o arminianismo clássico condena essa “nova interpretação libertária de Deus”. É certo que os teístas abertos são sempre arminianos, mas o arminianismo não é teísta aberto; Norman Geisler, por exemplo, chama o teísmo aberto de “arminianismo exagerado”[10].


Obs: No próximo artigo será abordado as influências do Teísmo Aberto sobre a teologia pentecostal.


Notas e Referências Bibliográficas:

01. EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2004. p 133.

02. PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 263.

03. McGRATH, Alister E. Teologia- Sistemática, Histórica e Filosófica. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. p 342.

04. RAMOS, Ariovaldo. Teologia e lógica. Teologia Brasileira. São Paulo, 17/10/2004. Disponível em: . Acesso em: 08/03/2007.

05. PINNOCK, Clark. Process Theology. Grand Rapids, ML; Baker, 1987 in GEISLER, Norman L. A Sedução das Filosofias. Reposta Fiel, Rio de Janeiro, n. 10, p 26-31, Dez-Jan-Fev de 2003.

06. PIPER, John; TAYLOR, Justin; HELSETH, Paul K. Teísmo Aberto– Uma teologia além dos limites bíblicos. São Paulo: Editora Vida, 2001. p 166.

07. ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Os perigosos objetivos do Teísmo Aberto. Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, Outubro. 2007. Artigo, p 27.

08. GEISLER, Norman L. Teísmo Aberto, Ortodoxia ou Heterodoxia? Reposta Fiel, Rio de Janeiro, n. 24, p 07-09, Jun-Jul-Ago de 2007.

09. “A justificação teológica, que desde uma época muito própria se deu para unir o cristianismo e a cultura grego-romana, se encontra na antiga doutrina do Logos, mediante a qual se justificou aquela união da obra de teólogos como Justino o Mártir, Clemente de Alexandria e Orígenes, os quais sustentavam que o Logos que se encarnou em Jesus Cristo foi o mesmo ao antigos, e que por isso a igreja do Verbo encarnado tinha pleno direito de se apropriar de qualquer verdade que houvesse na tradição grego-romana.” In GONZÁLEZ, Justo L. Mapas Para A História Futura da Igreja. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 23.

10. GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 162.

domingo, 2 de março de 2008

Reflexões sobre o exercício da profecia no culto

Mas quem profetiza o faz para edificação, encorajamento e consolação dos homens. Quem fala em língua a si mesmo se edifica, mas quem profetiza edifica a igreja. (I Co 14. 3- 4 NVI)

A incompatibilidade da doutrina pentecostal com os princípios da Reforma são recordados mediante a polêmica do dom de profecia. Os constantes exageros de pentecostais desinformados e mal orientados tem levado esse dom muitas vezes para a banalização e é fácil identificar inúmeras “profecias” erradas. Em contrapartida, argumentam os apologistas do desviacionismo que o exercício da profecia minaria a autoridade bíblica, ou pelo menos colocaria o dom na mesma categoria da Revelação escrita, as Sagradas Escrituras. Seria a crença na atualidade do dom de profecia uma afronta ao principio reformado de “Sola Sprictura”?
O pentecostalismo sempre foi identificado como uma doutrina fundamentalista[1]. No cerne da doutrina pentecostal, os princípios fundamentalistas reinam absolutos nas confissões de fé das denominações do carisma. Entre os fundamentos, está a crença na infalibilidade, inspiração, inerrância, autoridade e suficiência das Santas Escrituras. Ora, os pentecostais tem um profundo respeito pela Palavra de Deus, mas esse respeito se mantém mediante a doutrina da continuidade dos dons de revelação (profecia, palavra do conhecimento e palavra da sabedoria)?
A resposta é sim! Pois o exercício bíblico da profecia, de maneira alguma diminuirá a autoridade bíblica. Então, como a atualidade da profecia se mantém diante do cânon bíblico?
1) As profecias no contexto neotestamentário e contemporâneo não são infalíveis. A missiva paulina aos coríntios deixa bem claro que o dom de profecia não produz palavras infalíveis, pois esse dom dever passar por um rigoroso julgamento. O apóstolo escreveu: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem”(I Co 14.29). A igreja não deve acatar nenhuma profecia antes de averiguar sua autenticidade (v. 29).
2) A profecia vem do impulso do Espírito Santo. Sendo impulsionada pelo Espírito Santo, a profecia é dado a homens que podem misturar a mensagem com seus erros e desejos (por isso do julgamento). A profecia é fruto de impulso e não de inspiração plenária ou/e verbal por parte do Espírito Santo; “é algo que o profeta pode controlar. Ele recebe os pensamentos do Espírito Santo e transmite racionalmente, com suas próprias palavras”[2].
Se entende que a profecia não é mecânica, mas sim dinâmica, como lembra o teólogo Myer Pearlman[3]. Sendo a profecia dinâmica, onde o homem é impulsionado e não robotizado, essas profecias de primeira pessoa (Eu o Senhor digo!) e onde a fonética se altera (mulheres que falam em voz masculina, por ex.) precisam se revistas biblicamente.
3) A profecia sempre será mediada pelas Sagradas Escrituras. Profecias que contradizem uma doutrina bíblica ou que tentam estabelecer doutrinas e costumes, devem ser imediatamente rejeitadas. Nenhuma direção deve ser tomada por meios de profecias, pois somente a Bíblia é o guia do cristão em seu modus vivendi. Revela-se como imaturidade as “reuniões de revelação”, onde a profecia é vista como uma meio de orientação.
4) As profecias devem ser julgadas. Quando Paulo no verso 29 diz que a profecia precisa ser julgada, subtende que essas palavras precisam se avaliadas pelo crivo das Escrituras. A verdadeira profecia nunca poderá acrescentar ou retirá qualquer parte da Bíblia. A doutrina precede a experiência (como orientadora) e não o contrário. A experiência sempre será importante para os pentecostais, mas os pentecostais não constroem doutrinas em experiências, suas teologias sistemáticas estão baseadas na Bíblia. O julgamento da profecia mostra que exercer esse dom não é sinal de espiritualidade, como muitos julgam ao contemplar a exterioridade do dom.
5) As profecias servem como palavras de encorajamento, edificação e consolação na coletividade. Esse principio é bem claro em I Co 14.3-4, pois as profecias podem até ser direcionadas a um indivíduo, mas sua aplicação servirá para toda a comunidade. A profecia tem um conteúdo de encorajamento(consolação) e edificação do Corpo de Cristo, mas não servem como guias de viagens ou negócios e muito menos para direcionar casamentos e administrar igrejas.
Lucas registrou em Atos 21.10-14 a profecia de Ágabo, onde ele falou que Paulo seria preso e encarcerado indo a Jerusalém, mas Paulo não desistiu da viagem e essa profecia certamente confortou o coração de Paulo e das igrejas que o acompanhavam, mostrando o controle e a soberania de Deus. Nessa passagem fica claro que a profecias serviram para encorajamento e não direcionamento na vida dos primeiros cristãos.
Algumas igrejas são administradas por “profetas e profecias”, mas como bem observou o teólogo pentecostal Claudionor Corrêa de Andrade: “Embora importantes, os dons espirituais não são governativos, nem administrativos. Para essas funções, o Senhor Jesus designou os dons ministeriais”[4].
6) A profecia não é uma experiência de êxtase. Paulo diz que profetize um após o outro, tendo um certo limite no número de profecias (v.29). Se alguém pode esperar o outro para transmitir uma mensagem profética, então essa pessoa tem o total controle de suas faculdades físicas e psicológicas. Ninguém, no momento da profecia, precisa fazer algum “mantra” ou perturbar a ordem do culto.
A profecia ou qualquer dom, não deve servir de entretenimento das massas ou motivos para shows. Os dons foram dados para edificação do Corpo e não para o espetáculo ao corpo. Constitui-se como exagero os inúmeros movimentos corporais que algumas pessoas fazem antes dalguma profecia.
7) A profecia é sobrenatural, não sendo fruto dos desejos humanos. Se instalou uma mania anti-bíblica no meio pentecostal de mandar as pessoas “profetizarem” sobre suas vidas ou sobre a vida do irmão sentado ao lado, no banco. Essa “profecia” é fruto do vontade humana e dos desejos de bênçãos, sendo que nada tem haver com a profecia bíblica. A profecia, com acima citado, serve para edificação da Igreja, do corpo, da coletividade e não para “determinar” bênçãos. Na pode-se confundir profecias com palavras “positivas”, pois essa prática além de anti-bíblica, reflete a banalização do dom.
8) A profecia não é o mesmo que sermão, mas se relacionam. O sermão é fruto de preparada antecipado e a profecia é um impulso espontâneo. Essa fato não significa que a profecia é melhor que o sermão, ambos devem passar pelo crivo bíblico.
As profecias, muitas vezes, se misturam com as palavras planejadas do sermão. Até mesmo no cântico de Maria houve uma profecia (leia e compare Lc 1.46- 48 e 11.27). O erudito pentecostal Gordon Chown comenta: “O dom de profecia é um recurso de que o crente dispõe para falar aos homens de modo sobrenatural. O ministro que o recebe deve ter sempre algo especial para oferecer ao seu rebanho, além da essencial exposição e divulgação das boas novas”[5].
Quando um cristão contemporâneo ler alguns sermões de Charles Spurgeon sobre igreja de seus dias, logo pensa que o texto é atual. Spurgeon é um exemplo de profeta dos sermões. Hoje, o pregador deve buscar a orientação de Deus, por meio da oração, para que as profecias edifiquem, encorajem e consolem a igreja, juntos aos sermões expositivos.
9) A profecia é um dom do coletivo e não somente para clérigos. Paulo incentiva a busca de toda a igreja pelo dom de profecia (I Co 14.1, 31) Esse dom pode ser exercido por todos os membros do corpo, não sendo restritos a liderança da Igreja. A coletividade do dom é “para que todos aprendam e todos sejam consolados”(v. 31). Os dons são para a unidade e não meio de divisões e formações de grupos “especialmente espirituais”.
10) A profecia não deve ser conteúdo para ensino bíblico. A igreja que ensina conteúdos de profecias não sabe nada em relação a suficiência da Maior Profecia: A Bíblia! Somente os hereges constroem seu compêndio doutrinário em cima das falsas bases proféticas de seus líderes. Esse tipo de “profecia” nada constrói, mas somente destrói. Hoje existem aqueles que fazem plantão de profecias em programas de rádio, mas duro será o juízo dos falsos profetas...

Conclusão:
A doutrina pentecostal, com sua crença na continuidade do dom de profecia, em nada contradiz o princípio reformado de “Somente as Escrituras”. As profecias ajudam o coletivo, com encorajamento e consolação, mas jamais servirá como um orientador de vidas e construtor de doutrinas. A Bíblia e somente a Bíblia é a fonte da doutrina e práxis cristã. Tradições, costumes, palavras de líderes e profecias nunca devem ultrapassar as Escrituras.

Notas e Referências Bibliográficas:

1- Hoje os pentecostais preferem a designação de evangelicais, ou seja, nem fundamentalistas nem liberais. O fundamentalismo nasceu como uma reação ao liberalismo teológico e a alta-crítica do Século 19. R.A. Torrey e A.C. Dixon publicaram panfletos denominados de The Fundamentals, entre os anos de 1910 e 1915. Esses panfletos defendiam a inerrância da Bíblia, a deidade e a concepção virginal de Cristo, a expiação vicária, a ressurreição de Cristo e a volta física de Jesus. Apesar de terem uma doutrina e costumes originários do fundamentalismo, os pentecostais foram rejeitados em 1928 pela Associação Mundial de Cristão Fundamentalistas. Então os proclamados fundamentalistas, até a presente data, apresentam resistência ao pentecostalismo. Stanley M. Horton comenta que “pregadores de rádio fundamentalistas, como o pastor Donald Grey Barnhouse, insistiam em criticar os pentecostais classificando-os como um povo do 'diabo'”(O Avivamento Pentecostal. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p. 56.)

2- CABRAL, Elienai. Espírito Santo: a chama pentecostal. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 40, 1. trimestre de 1994.

3- PERLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. 8 ed. São Paulo: Editora Vida, 1984, p. 203.

4- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.

5- CHOWN, Gordon. Os Dons do Espírito Santo. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 122-23.