domingo, 25 de maio de 2008

O que os pentecostais estão lendo?

Uma questão importante para qualquer segmento é o nível de leitura de seus membros. No pentecostalismo a prática da leitura é crescente e incentivada como nos demais ramos do protestantismo, mas com exceção de grupos e até denominações que são totalmente anti-intelectuais [1]. Muitos escritores pentecostais já conseguiram alcançar cifras de milhões de livros vendidos, sendo verdadeiros best-sellers para o mercado editorial. De maneira geral, o evangélico brasileiro lê mais do que o brasileiro não-evangélico [2].
O que os pentecostais têm lido? Qual é a qualidade da produção literária dos pentecostais? Quais são as tendências de literatura consumida pelo público das igrejas que pregam os carismas? Essas são algumas perguntas que serão respondidas nesse artigo.

01. Produção literária dos autores de confissão pentecostal.

Quem procurasse um livro de um pastor assembleiano na década de 70, 80 ou 90, certamente estaria levando para casa um testemunho ou devocional. Os livros mais sofisticados, produzidos pelos pastores pentecostais, seria uma obra de escatologia dispensacionalista. Livros de “estudos bíblicos” eram produzidos em grande escala, mas tinham pouca profundidade e estavam cheios de tópicos. Profundidade e linguagem acadêmica era o que mais faltava nas obras de pentecostais.
A produção acadêmica-teológica era pequena e de pouca expressão a participação dos escritores carismáticos. Nenhuma obra de peso foi produzida pelos pentecostais em décadas passadas, com exceção da Bíblia de Estudo Pentecostal, produzida pelo missionário norte-americano Donald Stamps e editada no Brasil pelo teólogo Antonio Gilberto, onde até hoje é a bíblia de estudo com o maior sucesso editorial no Brasil, com mais de um milhão de cópias vendidas. Donald Stamps teve auxílio valioso de teólogos expressivos do Movimento Pentecostal, como Stanley M. Horton e William W. Menzies. A BEP foi lançada em 1995, mas teve seu principal desenvolvimento na década de 80.
A Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD) e a Editora Vida são as editoras que tradicionalmente publicam as obras de escritores pentecostais no Brasil. Em ambas editoras, por muitos anos, as obras de testemunho ou de estudo bíblico básico eram predominantes no currículo das distribuidoras de obra para os pentecostais. Os pentecostais que quisessem aprofundamento teológico tinham que recorrer a outras editoras. Os teólogos pentecostais que começaram a despertar o intelecto carismático foram dois súditos da Rainha: o inglês Donald Gee e o escocês Myer Pearlman. Outro nome de influência na teologia pentecostal era do dinamarquês P.C. Nelson, co-autor do best-seller Hermenêutica [3].

02. Início da produção teológica aprofundada.

A produção teológica profunda e expressiva no pentecostalismo começa por meio dos norte-americanos e canadenses. Em 1984, Roger Stronstad lançou o livro The charismatic theology of St. Luke, onde ele faz uma leitura exegética do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, para provar sua tese de que Lucas registrou a história com teologia. Outras grandes obras são Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, cujo editor foi Stanley M. Horton, mas reuniu dezoito teólogos pentecostais da América do Norte[4]. Em 1999, como complemento da Bíblia de Estudo Pentecostal, os teólogos French L. Arrington e Roger Stronstad lançam o Comentário Bíblico Pentecostal, obra de profundidade exegética e um comentário excelente do Novo Testamento. [5]
Em breve, a Casa Publicadora das Assembléias de Deus lançará a obra Teologia Sistemática Pentecostal escrita por pastores da Assembléia de Deus no Brasil. Será, depois do Dicionário do Movimento Pentecostal, a primeira obra de grande extensão produzida por pentecostais brasileiros.
A produção exegética pelos pentecostais no Brasil é bem tímida, mas um destaque nesse campo vem do teólogo Esdras Costa Bentho, que produziu duas excelentes obras na área hermenêutica. Nos Estados Unidos, um dos mais famosos exegetas protestante é o pastor assembleiano Gordon Fee.
Em trabalho de filosofia e cosmovisão, o teólogo Geremias do Couto e o pedagogo César Moisés estão preparando uma obra no contexto brasileiro sobre as perspectivas do tempo pós-moderno sobre a cultura. Geremias do Couto, nas lições bíblicas do último trimestre de 2005, escreveu sobre a pós-modernidade e ainda foi editor da obra E Agora, Como Viveremos?, de Charles Colson e Nancy Pearcey.
No contexto apologético, alguns nomes se destacam no cenário evangélico brasileiro, de obras produzidas por pentecostais, como o livro Desmascarando as Seitas de Paulo Romeiro e Natanael Rinaldi, Manual de Apologética de Esequias Soares etc. Analisando o neopentecostalismo, os pentecostais produziram muitas obras, como: Super Crentes, Evangélicos em Crise e Decepcionados com a Graça de Paulo Romeiro; Heresias e Modismos de Esequias Soares; Evangelho da Nova Era de Ricardo Gondim; Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria de Ciro Zibordi. Refletindo sobre o liberalismo teológico os pentecostais escreveram Teologia Contemporânea de Abraão de Almeida; Sedução das Novas Teologias de Silas Daniel. É interessante observar que no campo apologético os pentecostais conseguiram sobressair, sendo uma área de importância grande para o evangelicalismo atual.
Outra área de destaque de produção pentecostal é na pedagogia cristã. A obra Manual da Escola Dominical, do pedagogo e teólogo Antonio Gilberto foi catalisador nessa tendência, vindo depois obras de pedagogos como Marcos Tuler, Débora Ferreira e César Moisés.

03. Deficiências na produção literária pentecostal

Os pentecostais, ainda, produzem pouca literatura de profundidade teológica. Ainda não se vê obras sobre introdução ao Antigo Testamento ou tratados sobre filosofia contemporânea. A maioria dos autores pentecostais escrevem para massas e não para academia. É importantíssimo um maior investimento nas áreas da academia, para que os pentecostais possam ocupar um espaço, muitas vezes dominados pelo liberalismo alemão.

04. Leitura dos pentecostais

Os que os pentecostais têm lido? Essa pergunta só pode ser entendida se for dividido os pentecostais em dois grupos: os de tendência ao academicismo e os que estão se neopentecostalizando.
Nos último semestre, a Casa Publicadora das Assembléias de Deus, cujo publico é pentecostal em sua maioria, publicou obras de alguns renomados teólogos reformados, como John Piper, Donald A. Carson, R.C. Sproul, Mark Dever, John McArthur Jr e a reedição da obra de Matthew Henry. Essas obras lançadas mostram que os pentecostais estão a cada dia mais interessados nos escritos de reformados. Não é de hoje que a CPAD lança obra de teólogos reformados, mas essa tendência tem sido fortalecida nos últimos anos. Como o publico dessa editora é pentecostal, em sua maioria, isso mostra uma tendência viva e constante no pentecostalismo brasileiro.
Os pentecostais que estão se neopentecostalizando, lançam mão das obras dos grandes líderes carismáticos da América do Norte. O maior sucesso para esse público é a obra Bom Dia, Espírito Santo, do pastor Benny Hinn. Outra obra de sucesso é O Nome de Jesus, de Kenneth Hagin. Os autores que fazem sucesso para os pentecostais que estão se neopentecostalizando e que moldam a teologia neopentecostal são, além de Hinn e Hagin (os principais): T.L. Osborn, Frank Peretti, Don Gosset, Peter Wagner, Rebecca Brow, Kenneth Copeland, Paul Crouch, Joyce Meyer; além dos brasileiros R.R. Soares, Edir Macedo, Valnice Milhomens, Neuza Itioka, Marco Feliciano, Robson Rodovalho, Jorge Linhares e o português-angolano Jorge Tadeu.
Quais das duas tendências estão prevalecendo? Pergunta difícil de ser respondida, pois é certo dizer que as duas tendências têm espaço no pentecostalismo contemporâneo. Quais das duas tendências ajudarão no amadurecimento dos pentecostais? Certamente é o consumo de obras dos reformado-ortodoxos, que primam pelas Escrituras e os valores da Reforma Protestante.
Além dessas duas tendências, é preciso destacar que há um universo de crentes pentecostais que nada lêem e outros que estão em busca de uma literatura recheada pelos novos conceitos do liberalismo teológico. O universo que não lê é manipulável para os influenciados da teologia neopentecostal, sendo esse grupo forte e crescente no meio das igrejas. O liberalismo teológico tem entrado por meio dos inconformados com o mercantilismo neopentecostal e com o “fundamentalismo” reformado, sendo passível da “linguagem piedosa” usada pelos liberais.

Conclusão:

A produção de livros teológicos profundos e prontos para atender as necessidades da academia, começam a nascer no meio pentecostal, ainda de forma tímida, mas crescente e constante. Os pentecostais, que lêem, consomem cada dia mais obras de teologia ortodoxa e qualificada, representando uma esperança para solidificação do Movimento Pentecostal. Em contrapartida, há muitos sendo influenciados pelos modismos neopentecostais, sendo um campo que precisa ser trabalhado.



Notas e Referências Bibliográficas:

1- Denominações como a Igreja Pentecostal Deus é Amor, fundada pelo missionário David Martins Miranda, não possui uma editora e proíbe seus membros de estudarem em escolas teológicas de outras denominações. A IPDA não possui nenhum seminário teológico de nível superior e publica pouquíssimos materiais escritos.
2- Segundo reportagem da Revista Veja, de 03 de julho de 2002, o evangélico brasileiro ler em média 06 livros por ano, enquanto a média nacional é de 03 livros por ano. A média da tiragem de um livro evangélico é de 5 mil cópias, enquanto as editoras seculares no Brasil tem como média 2,5 mil cópias por edição.
3- O livro Hermenêutica: Princípios de Interpretação das Sagradas Escrituras, lançado em 1966 e no Brasil pelo Editora Vida, foi um grande sucesso nos seminários teológicos do Brasil. Escrito por E. Lund e P.C. Nelson mostra uma das primeiras obras de pentecostais a fazer sucesso em torno o mercado teológico brasileiro. P.C. Nelson aprendeu aos pés de Augustus H. Strong e se tornou um dos mais célebres educadores pentecostais, sendo fundador da Southwestern Assemblies of God College.
4- A obra editada por Horton não foi a primeira que sistematizou a teologia pentecostal. Em 1926 S.A. Jamieson publicou o livro Coluna da Verdade; em 1934 P.C. Nelson escreveu a obra Doutrinas Bíblicas. O best-seller de Myer Pealman, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia foi lançado em 1937. A obra Systematic Theology, de Ernest S. Williams foi publicada em 1953. Na década de 90, Stanley M. Horton, além de editor de Teologia Sistemática, lança com o Dr. William W. Menzies o livro Doutrinas Bíblicas- Os fundamentos da nossa fé. Em 1991, os teólogos Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave, da Igreja do Evangelho Quadrangular, lançam em dois volumes a obra Fundamentos da Teologia Pentecostal.
5- Para diversas dados expressos nesse artigo: ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.; SOARES, Esequias. A teologia assembleiana in. Manual do Obreiro. Ano 29, n. 38, pp 15-19; MARIANO. Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

domingo, 18 de maio de 2008

A morte do púlpito

A igreja evangélica brasileira vive uma tragédia: a morte do púlpito. Nunca na história do protestantismo houve tanto desprezo pela pregação cristocêntrica, preparada com esmero e preocupada com a correta interpretação das Escrituras. O púlpito tem sido substituído pelo altar dos “levitas” ou para os ”sacrifícios” em dinheiro dos mercenários mercantilistas. A “pregação” da Palavra é, hoje, conceituada como qualquer um que sobe na plataforma e começa a falar ou gritar.
Talvez você, lendo esse texto, pense: - “Na minha igreja a pregação é sempre um espaço grande e recebemos visitas de diversos pregadores”. Esse artigo quer alertar que não basta um tempo grande para a pregação e nem que a plataforma esteja cheia de homens engravatados; antes é necessária a avaliação da qualidade dessa pregação. A pregação precisa ser avaliada, assim como fazia os cristãos bereanos, que por sua nobreza, comparam as homilias de Paulo com as Sagradas Escrituras.
Quais são as causas da “morte do púlpito” no evangelicalismo moderno?

A) Espiritualidade em baixa é igual à pregação sem qualidade.

A pobreza das pregações é evidente nesses últimos dias, pois isso é conseqüência direta da pobreza na vida cristã, pois como dizia Arthur Skevington Wood: “Leva-se uma vida inteira para preparar um sermão, porque é necessária uma vida inteira
para preparar um homem de Deus”. Enquanto a espiritualidade da Igreja estiver em baixa, a pregação, por mais espiritual que ela pareça ser, não passará de palavras jogada ao vento. Não basta uma pregação erudita, mas a erudição deve ser acompanhada de contrição, humildade e oração, pois bem escreveu E. M. Bounds: “Dedique-se ao estudo da santidade de vida universal. Sua utilidade depende disso. Seus sermões duram não mais do que uma ou duas horas; sua vida prega a semana inteira.”
Hoje existem muitas igrejas que oram “bastante”, são campanhas atrás de campanhas, mas essas orações não passam de busca “dos próprios deleites” ou de “determinações” de bênçãos. Ora, a oração sem a busca da face de Deus é uma característica do evangelicalismo contemporâneo. Uma igreja que ora errado, logo terá pregadores pobres.

B) A falta de preparo para pregar.

Erudição, esmero e homilética não são inimigos da espiritualidade. Um mito vigente na igreja brasileira é que quem se prepara muito para pregar, terá uma pregação “não ungida”. Isso é mera desculpa de pregador preguiçoso. Você, leitor, já deve ter visto alguém dizer: - “Quando cheguei aqui não sabia o que ia pregar, mas assim que subi nesse altar o Espírito Santo me revelou outra Palavra” ou “Eu não preparo pregação, o Espírito de Deus me revela”... São frases irresponsáveis e brincam com o Espírito Santo, atribuindo a Ele sua preguiça de passar várias horas em estudo e oração para pregar a Palavra.
Hoje, pregar com esboço em papel é quase um pecado em muitas igrejas; alguns olham com “cara feia” para os que levam algo escrito em sua homilia. Será que não sabem que um dos sermões mais impactantes da história, foi literalmente lido pelo pregador. Esse sermão era “Pecadores na mão de um Deus irado”, que Jonathan Edwards pregou em 08 de Julho de 1741 na capela de Enfield. O biógrafo de Edwards, J. Wilbur Chapman , relatou:

Edwards segurava o manuscrito tão perto dos olhos, que os ouvintes não podiam ver-lhe o rosto. Porém, com a continuação da leitura, o grande audi­tório ficou abalado. Um homem correu para a frente, cla­mando: Sr. Edwards, tenha compaixão! Outros se agarra­ram aos bancos, pensando que iam cair no Inferno. Vi as colunas que eles abraçaram para se firmarem, pensando que o Juízo Final havia chegado.[
1]

C) Ter uma visão pragmática sobre a pregação.

Para muitos, uma pregação só é válida se houver resultados. As pessoas não querem saber se o conteúdo da pregação é biblico ou herético, mas preferem esperar pelos resultados propagados pelo pregador. A primeira motivação dos pragmáticos é buscar a praticidade, portanto o pragmatismo é casado com o imediatismo, onde tudo tem quer ser aqui e agora.
O conceito de pregação “ungida” é bem pragmática, pois para boa parte da comunidade evangélica, a boa pregação tem que envolver o emocional, nesse contexto nasce frases do tipo “crente que não faz barulho está com defeito de fabricação”. Se não houver choro, gritos, pulos ou outras manifestações “espirituais”, a pregação perde o seu valor para aos cristãos atuais.
Pregadores pragmáticos gostam de ver seus ouvintes interagindo exageradamente no culto. É constante dos pregadores mandarem as pessoas glorificarem e até falar em línguas. Nesses cultos a justificativa para essas ordens é que “quando a glória da Igreja sobe, a glória do céu desce”. Não há respaldo bíblico para esse tipo de pensamento que é passado como algo bíblico. A emoção e as experiências fazem parte da vida cristã, mas não devem normatizar a liturgia ou direcionar os crentes, pois os verdadeiros cristãos tem a Palavra de Deus, e somente Ela, como regra de fé e prática.

D) Pastor-professor X pregador-ator

Eis o dilema existente no evangelicalismo moderno. O pastor-mestre foi substituído pelo pregador-carismático-ator. O mestre que orientava a sua congregação nas Sagradas Letras, sendo um homem de estudos e contemplativo, era característico de piedosos servos de Deus, como Charles Spurgeon, Jonathan Edwards, D. L. Moody etc.
O púlpito tem sido morto pelo estrelismo de pastores-atores, que confundem a plataforma da igreja com um palco para entretenimento, são pessoas que pregam o que a congregação quer ouvir e fazem de seus carismas uma imposição de sua pessoa. Quem estuda a história da igreja, verá que os piedosos servos de Deus, da Reforma as Grande Despertamento do século 18, eram homens de grande interesse pela pregação expositiva, onde o texto fala por si só. A partir do século 19, os sermões são cada vez mais temáticos e os pregadores mais articulados no estrelismo.
O Movimento Pentecostal peca, e gravemente, em não valorizar os sermões bem preparados e articulados, ungidos pelo Espírito Santo, para edificação da congregação. Em uma piedade aparente, muito exaltam a ignorância como virtude, justificando os sermões artificiais, sem profundidade e recheados de chicles, modismos e até heresias.

Referência Bibliográfica:


1. BOYER, Orlando. Heróis da Fé. 15 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 03.

Leia mais:

Pregue a Palavra
http://teologiapentecostal.blogspot.com/2007/10/pregue-palavra.html

Cuidado com os animadores de auditório!http://teologiapentecostal.blogspot.com/2008/01/cuidado-com-os-animadores-de-auditrio.html

domingo, 11 de maio de 2008

Os "pecados" na pregação exagerada sobre usos e costumes

A pregação exagerada nos “usos e costumes” criou uma geração, ou gerações, de crentes legalistas e presos as tradições. Esse discurso, muito comum em igrejas pentecostais, é conhecido por destacar aspectos exteriores da santificação e atribuir a salvação aos méritos pessoais. O legalismo pode ser definido como o apego excessivo as leis, cuja motivação é agradar a Divindade por meio da justiça própria. O Movimento Pentecostal no Brasil ficou conhecidos por diversos costumes, que não são maus em si mesmo, mas sim pelo apego e dedicação das igrejas nesse assunto.
O propósito do artigo não é defender o antinomismo e nem pregar uma graça barata, que abraça o pecador com seu pecado. O propósito do artigo é mostrar que os pentecostais, ou a maior parte dos pentecostais brasileiros, pecam em uma pregação legalista, preso em detalhes de roupas ou cortes de cabelo. O legalismo no meio pentecostal, inclusive nesse dias, é um fato incontestável. O zelo pela santidade não deve ser confundida com um estilo de vida xiita ou medieval.
Alguns dos “pecados” na pregação legalistas são:

1- A pregação exagerada em usos e costumes produz crentes doentes.
Muitas pessoas só pensam em como não quebrar as regras e tradições apresentadas em sua igreja. Lembrando que essas regras não são bíblicas e inventadas por homens. Hoje existe muitos doentes, principalmente neófitos que são mal discipulados e acham que Cristo os abandonou por quebras as regras impostas(ex. O assistir televisão ou usar calça para as mulheres). Normalmente as pessoas que pregam muito “usos e costumes” apresentam uma imagem muito negativa de Deus, como um grande déspota e tirano pronto a condenar.

2- A pregação legalista se baseia em uma exegese falaciosa e tendenciosa.
Os defensores de determinados “costumes”, no qual chamam erradamente de doutrina, são exegetas da pior espécie. Muitos que tentam impor determinadas regras usam texto fora do contexto e versículo que nada diz sobre sua apologia. O exemplo clássico dos pseudo-exegetas é pregar como pecado o corte de cabelo para as mulheres baseados em I Co 11, pois como lembra o pastor assembleiano Anthony D. Palma: “Ao longo desta extensa discussão (de I Co 11), Paulo nunca diz que a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta está pecando”[1].

3- Um líder que pregar exageradamente sobre costumes é falta de assuntos relevantes para a sua pregação.
Pergunte a esses pregadores ,usuários de um discurso legalista, se eles pregam sobre Trindade, divindade de Cristo, depravação humana, mortificação da carne, fruto do Espírito etc. O discurso repetido nessa tecla mostra que muitos não tem pão para alimentar a igrejas, pois eles mesmos não se alimentam da Palavra.

4- O legalismo nos costumes é sectário.
A síndrome da pureza do grupo é muito comum no discursos legalistas. As pessoas que não se encaixam no perfil “santo” são logos taxados indevidamente de “mundanos”, “liberais” etc. Por muito tempo, membros de igrejas pentecostais não consideravam membros de denominações históricas como “crentes”.

5- Define erradamente mundanismo.
Mundanismo é um sistema. A Bíblia condena o amor ao mundanismo como sistema e não como habitação dos homens. O mundanismo manifesta-se no individualismo, na hipocrisia, no amor fingido, no orgulho “espiritual” e em outros exemplos que é possível encontra com abundância no meio de comunidades evangélicas ultra-conservadoras nos “usos e costumes”.
Em um próximo artigo será analisado mais sobre o assunto de usos e costumes. Essa lista de “pecados” dos legalistas não é exaustiva e há muitas questões relacionadas no assunto. Contribua com o seu comentário nessa discussão e aponte outros erros relacionados ao assunto ou descreva sua opinião.

Referência Bibliográfica

1- STRONSTAD, Roger & ARRINGTON, French L (ed). Comentário Bíblico Pentecostal. 4 ed. São Paulo: CPAD, 2006. p 1003.

Leia mais:
http://teologiapentecostal.blogspot.com/2007/08/doutrina-usos-e-costumes.html

sábado, 3 de maio de 2008

O evangelho da cruz

É pela cruz, só pela cruz, que Cristo chega à vida, à ressurreição, à vitória? Esse é justamente o tema maravilhoso da Bíblia que assusta a tantos: que o único sinal visível de Deus no mundo seja a cruz. Cristo não é arrebatado gloriosamente da terra para o céu, seu destino é a cruz. E precisamente lá onde está a cruz está próxima a ressurreição. Onde todos ficam desconcertados diante de Deus, onde todos se desesperam com Deus, é exatamente lá que Deus está bem perto e Cristo está vivamente presente. Onde a decisão entre a fidelidade e deslealdade está por um fio, está Deus e está Cristo por inteiro. Onde o poder das trevas quer violentar a luz de Deus, é lá que Deus triunfa e julga as trevas. Assim será também com o dia que Cristo prevê para sua comunidade. Os discípulos perguntaram pelo sinal de seu retorno depois de sua morte. Não se trata de um retorno único, é um retorno eterno. O fim dos tempos da Bíblia é todo tempo, é todo dia entre a morte de Cristo e o juízo final. É com tanta seriedade, com tanta determinação, que o Novo Testamento encara a morte de Cristo.[1]
(Dietrich Bonhoeffer)

A centralidade da cruz no cristianismo é evidente. Jesus disse que “quem não toma a sua cruz e não segue após mim não é digno de mim”(Mt 10.38). O apóstolo Paulo escreveu: “Nós pregamos a Cristo crucificado” (I Co 1.23) e ainda o doutor do gentios pregava o evangelho para que “a cruz de Cristo se não faça vã” (I Co 1.17). Paulo relata que só poderia se gloriar “na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo” (Gl 6.14). O apóstolo descreve, com lamentações, que há muitos “inimigos da cruz de Cristo” ( Fl 3.18) e descreve a paz vinda do sangue de Cristo derramado na cruz (Cl 1.20), e ainda em suas epístolas escreve que a salvação, mediante o concerto veterotestamentário, foi cravada na cruz (Cl 2.14).O autor aos Hebreus relata que há uma grande vitória na cruz de Cristo, pois “pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus”(Hb 12.2). O evangelho é desfrutado com suas aflições (II Tm 1.8), sendo que o discípulo “sofre como bom saldado de Jesus Cristo”(II Tm 2.3).
Ser cristão é pregar a cruz, mas essa mensagem tem sido gradativamente abandonada nos púlpitos evangélicos. A temática da vez são pregações sobre vitória financeira, batalha espiritual para conquista de territórios, doutrina da prosperidade, confissão positiva, poder pelo poder chamado de reteté, adoração extravagante, avivamento extravagante etc.
O sociólogo Ricardo Mariano, escrevendo academicamente sobre os neopentecostais, diz com muita sobriedade:

Com o neopentecostalismo, portanto, a velha “mensagem da cruz”, discurso teológico que pregava o sofrimento terreno do cristão, caiu por terra e, sem qualquer compadecimento, foi sumariamente soterrada. Daí que, no cotidiano dos cultos e na vasta programação de rádio e TV dos neopentecostais, conhecer Jesus, ter um encontro com Ele e a Ele obedecer constituem, acima de tudo, meios infalíveis para o converso se dar bem nesta vida.[2]

As doutrinas centrais do cristianismo são sempre abandonadas em tempo de frieza espiritual. A teologia da cruz sumiu das homilias, pois sua mensagem não é de massagem para o ego. A depravação do homem é uma doutrina bíblica que a cada dia é esquecida, como se os únicos problemas do homem fossem dinheiro, crise sentimental ou “amarro” de entidades... Pecado foi substitutivo por “problemas”, onde todos podem ser resolvidos mediante “sacrifícios” de ofertas e dízimos. Mediante o que se ouve é necessário discernimento, como escreve o teólogo Erwin Lutzer:

Os cristãos discernentes testarão os mestres, profetas e evangelistas pela clareza com que pregam o evangelho da cruz. E se o evangelho estiver torcido ou for ignorado, podemos estar bastante seguros de que estamos diante de um mestre que não deve ser seguido. Pois só a cruz, corretamente compreendida, pode nos levar à casa do Pai.[3]

A mensagem da cruz não é palpável para o homem e o cristão pós-moderno, pois hoje todos andam sob uma pressão de ser os melhores, os invencíveis, os super-crentes. Pessoas que precisam de tudo e desfrutar de todas as novidades e no contexto eclesiástico precisam de saúde plena e prosperidade batendo nas portas, pois é assim que sua espiritualidade é medida. Mas Jesus convida cada um para tomar sua cruz e segui-ló, pois antes de Sua ressurreição Ele padeceu, foi rejeitado e morto (Lc 9.22-23).
A mensagem da cruz nunca foi uma mensagem agradável, pois para o judeu cruz era sinônimo de maldição, “porquanto o pendurado(no madeiro) é maldito de Deus” (cf. Dt 21.23) . Para os gregos adorar um Deus que foi morto como bandido, da pior espécie, só pode ser coisa de maluco (I Co 1. 18, 23). A cruz era motivo de zombaria dos primitivos perseguidores, mas como lembra o pastor inglês John Stott: “Entretanto, o que era odioso, até mesmo vergonhoso aos críticos de Cristo, aos olhos dos seus seguidores era muitíssimo glorioso”[4].
A igreja brasileira deve lembrar que Jesus Cristo não morreu na cruz para tornar crentes livres de infortúnios, mas sim, convida a cada uma carregar a sua cruz. Assim como os gregos que achavam loucura essa mensagem e os judeus que se escandalizavam, para muitos evangélicos de hoje, a mensagem da cruz é loucura, coisa de religioso. O problema para todos esses é que a mensagem da cruz é bíblica.


Referências Bibliográficas:

1- BONHOEFFER, Dietrich. Reflexões Sobre a Bíblia. São Paulo: Edições Loyola, 2008. p 28.

2- MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 9.

3- LUTZER, Erwin. Quem é Você Para Julgar? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 83.

4- STOTT, John. A Cruz de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 21.