domingo, 31 de agosto de 2008

Evangélicos e política Parte 02

Nepotismo, igrejas que impõem candidatos, política fraca e não influenciadora, eis alguns aspectos da política evangélica. Nesse artigo serão analisados mais alguns aspectos da política evangélica.

Política fraca e insuficiente

A política evangélica no Brasil não produziu diferenças significativas no país, isso é um fato incontestável, pois se resume a obter concessões de TV e rádio para mega-igrejas. Os poucos pontos positivos da política evangélica foi mudar alguns artigos do código civil e a política sobre o aborto mais abrangente, mas até isso é muito deficiente, pois o aborto já é praticamente liberado no país, pois qualquer mulher pode abortar dizendo que foi estuprada sem apresentar boletim de ocorrência nos hospitais do SUS.
Em grande parte, o aborto não é totalmente liberado no país por causa da atuação da Igreja Católica Romana. Os políticos evangélicos, sim, têm sua contribuição sobre o assunto, mas a Igreja Católica foi e continua sendo mais atuante. Muitos ditos políticos evangélicos, inclusive, são a favor do aborto, principalmente aqueles ligados a Igreja Universal do Reino de Deus [1].
Enquanto entre os parlamentares verdadeiramente católicos há unidade em torno do assunto, no meio evangélico existe uma grande divisão. Ora, isso mostra a fraqueza dessa política em assuntos básicos. A atuação de um político evangélico que tem se destacado é na política contra a pedofilia, sendo, ainda, uma exceção.

Mudança do sistema

Há pessoas bem intencionadas ao entrarem no sistema político-partidário, mas os mesmos continuam bem intencionados, porém conformados com a corrupção do sistema. É necessária a mudança no sistema e nunca se conformar com a podridão do mesmo. Onde a cosmovisão cristã entra para quebrar o caciquismo, populismo e outras mazelas?

Nepotismo e os políticos evangélicos

O nepotismo nasceu em meio à cristandade, pois os Papas colocavam em cargos importantes seus sobrinhos e até filhos secretos. O nepotismo, arraigado na cultura ibérico-católica contaminou o meio evangélico brasileiro. Os políticos, acostumados com o nepotismo eclesiástico, transferem os mesmos erros para os seus gabinetes. Nepotismo é antiético, vergonhoso para aqueles que dizem rezar a cartilha da práxis cristã.

Igrejas que impõem candidatos

Há muitas igrejas nesse dias que apresentam ou impõe seus candidatos, muitas vezes não diretamente a Igrejas, mas aos pastores pertencentes ao ministério ou denominação. Denominações, como agências do Reino de Deus, devem ensinar princípios a serem observados pelos crentes na hora de votar, mas nunca, de forma alguma, colocar um nome como a única opção do membro daquela igreja. Como disse o sociólogo evangélico Paul Freston: “Nossa preocupação tem que ser com a promoção do Evangelho e não com a promoção dos evangélicos” e o teólogo Paulo Romeiro completa: “Precisamos de candidato evangélico e não candidato dos evangélicos” [2].
Há denominações ou congregações locais que lançam candidatos oficiais segundo a conveniência política e vantagens financeiras, literalmente falando: compra de voto, com trocas ou ganho de terrenos, bens etc. Isso é o cúmulo do absurdo elevado ao quadrado!!!

Pode pastor ser candidato?

Não há uma proibição bíblica a respeito, mas pelo uso mínino do bom-senso, o pastor deve evitar envolvimento com política-partidária, pois o mesmo terá que defender os interesses do partido e se comprometer com as manobras naturais da campanha. Pastor já é uma ocupação muito sublime, mas muitos com sede de poder não se conformam e logo entram nessas disputas. Fica o ecoar de alerta proferido pelo pastor Claudionor de Andrade:

Se o atalaia menospreza as honras do ministério cristão, como poderá enaltecer a cidadania celeste? O Senhor o chamou, pastor, para o ministério da Palavra, mas você tem obsessão pelo ministério público. Quer uma cadeira no parlamento, e reputa por nada a cátedra doutrinal que, em sua igreja, está sempre vazia. Deixe a política aos políticos, zele pelo bem comum das ovelhas que o Senhor lhe entregou. [3]

Muitos estão falando se perguntando, se o pastor pode ser advogado, jornalista, médico, empresário, filósofo, porque o mesmo tem que evitar a política? A resposta é simples. Política é demasiadamente delicada, pois muitos membros da igreja ficaram ofendidos ao verem seus pastores aliados a um partido que nunca lhes agradou ou então fazendo o lobby daquele político que arruinou a cidade na última gestão. O pastor sábio evita confusão e deixa a política para os verdadeiramentes preparados!

Conclusão

A política evangélica tem muito que melhorar, pois os mesmos não têm feito diferenças significativas na sociedade. Alguns buscam seus próprios interesses ou interesses da denominação (como concessões de rádio e TV). O político cristão deve basear sua vida nos princípios da Palavra de Deus e agir eficazmente na função em que foi eleito.


Notas e referências bibliográficas:

01. Considerar a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) como evangélica é contestável, pois a mesma apresenta poucos princípios da Reforma Protestante, mas apresenta elementos do catolicismo medieval supersticioso, baixo espiritismo com seu maniqueísmo e características carismáticas dos pregadores da prosperidade.
02. ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. 4 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. p. 165.
03. ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Ainda reténs a tua integridade? Mensageiro da Paz. Maio de 1999 in Artigos Históricos, Vol. 03. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p. 194.

domingo, 24 de agosto de 2008

Evangélicos e política Parte 01

Mas se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar”? Jesus em Mateus 18.6.

O que os “anões do orçamento”, “mensalão” e os “sanguessugas” têm em comum? Em primeiro lugar, eram escândalos de corrupção envolvendo os nobres deputados desse país. Em segundo lugar, em todos esses casos havia políticos evangélicos envolvidos. Os evangélicos e a política construíram um casamento conturbado, que demorou sair e quando saiu... Corrupção, escândalos, denúncias até de assassinatos; muitas foram e ainda são as denúncias envolvendo o prefeito-pastor, o deputado-bispo, o vereador-apóstolo etc. Então, qual deve ser a relação dos cristãos com a política?

Os apolíticos e seus equívocos

Em um passado recente, os evangélicos, principalmente os pentecostais, apresentavam uma forte aversão pela política; eram apolíticos, pois segundo o equivocado maniqueísmo, política era coisa do diabo e seus demônios. Poucos evangélicos se atreviam a se envolver em política, sendo que esse quadro só veio a mudar em meados da década de 1980. O cientista político e bispo anglicano-evangelical Robinson Cavalcanti, assim define os apolíticos:

O termo “apolítico” pode ser traduzido como: apartidário, não engajado, alienado. Ser “apolítico” não é deixar de tomar posição. Ser “apolítico” já é uma posição em si. Uma posição para fora. A omissão é um voto, permanente e reiterado, em favor ou contrário a medidas, governantes, partidos ou regimes. O voto por omissão é tão responsável, tão culpado quanto o voto consciente. [1]

A posição apolítica, sendo indiferente quanto às medidas governamentais para o país não é uma posição saudável para os evangélicos. Poucas são as igrejas que mantém tal posição, sendo o problema superado pelo avanço na maioria das denominações. Os equívocos e escândalos pelos políticos ditos evangélicos não devem levar a comunidade cristã para o retrocesso dessa posição.

Políticos cristãos e o triunfalismo messiânico

Passada a fase apolítica dos evangélicos brasileiros, os mesmos entraram em outro extremo: o triunfalismo messiânico. Junto com chavões “O Brasil é do Senhor Jesus”, os evangélicos começaram a pregar que tendo crentes nos cargos políticos o Brasil seria transformado. Ledo engano! Essa posição talvez tenha trazido mais prejuízos do que os apolíticos.
Uma frase que saia dos púlpitos por pastores politiqueiros era “irmão vota em irmão”. Nesse período, muitas pessoas despreparadas entraram na política com apoio de igrejas e ganharam as eleições para não fazer nada.
Um grande problema nos políticos evangélicos é a falta da construção de uma cosmovisão cristã aplicada à política. Muitos são motivados para o engajamento político pela mesma motivação dos demais candidatos: dinheiro, poder e honra pessoal. Não fazem a diferença, envolvem-se nos mesmos processos sujos da bancada. Quais e quantos evangélicos tiveram na frente de denunciar corrupção e presidir alguma CPI? Pouquíssimos!

Ativismo político não é tudo

A cultura não é reflexo da política, mas o contrário. O nepotismo é uma prática antiética, mas está enraizada na cultura brasileira. Ora, os políticos são reflexos das imperfeições e virtudes culturais. Nesse estado, a primeira preocupação dos cristãos deve ser de restaurar a cultura e, nesse caso, o processo político é coadjuvante.
Se as igrejas estão realmente interessadas em transformar a sociedade, não devem apelar diretamente ou somente para a política, pois as demais áreas com educação, artes, música popular etc., necessitam de representação cristã. A moralidade do país não será transformada pela ocupação das cadeiras do congresso por líderes religiosos. Nancy Pearcey observa:

O trabalho mais eficaz... é feito por cristãos comuns, cumprindo o chamado de Deus para reformar a cultura em suas esferas locais de influência – famílias, igrejas, escolas, bairros, lugares de trabalho, organizações profissionais e instituições cívicas. Para efetuar mudanças duradouras... precisamos desenvolver uma cosmovisão cristã. [2]

Portanto, a política partidária não é tudo e nem o mais importante papel que os cristãos podem exercer na sociedade, principalmente no Brasil, onde os políticos não gozam de nenhuma credibilidade.

O caciquismo e as manobras políticas

O conglomerado de denominações pentecostais dominadas por líderes carismáticos incontestáveis e com grande concentração de poder criou verdadeiros “caciques”. O sociólogo, pertencente à Assembléia de Deus Betesda, Gedeon Alencar, assim escreve sobre o caciquismo na principal denominação pentecostal do país:

Na Assembléia de Deus, foi o “purismo” de Emílio Conde e o “nacionalismo” de Macalão que impediram-na de ter atuação política e estabelecer uma estrutura eclesiástica nacional, possibilitando o surgimento do “caciquismo”, ocasionando o seu esfacelamento nos chamados “Ministérios”[3].

Os caciques normalmente estabelecem aos seus pastores subordinados o apoio irrestrito a um candidato. Os caciques são intolerantes, pois se seus subordinados não apoiarem seus candidatos, logo são taxados com rebeldes e desobedientes. A prática política do caciquismo é tipicamente arbitrária, desastrada e prejudicial para a saúde local das igrejas. Em muitas congregações é possível ver fotos de candidatos ou até distribuição de santinhos durante o culto (pasmem, mas o autor desse texto viu tal cena há poucos dias).
O caciquismo é a típica influência maléfica da cultura brasileira sobre o pentecostalismo autóctone, sendo um mundanismo puro!

Continua...


Referências Bibliográficas:

01. CAVALCANTI, Robinson. Cristianismo e Política. Viçosa: Ultimato, 2002, p. 20.
02. PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 21.
03. ALENCAR, Gedeon. Protestantismo Tupiniquim. São Paulo: Arte Editorial, 2005, p. 95.

domingo, 17 de agosto de 2008

O Batismo no Espírito Santo, parte final


Essa é a última parte dos artigos sobre o “Batismo no Espírito Santo”. Leia antes a primeira, segunda e terceira parte do estudo.


A emergente erudição pentecostal tem produzido obras onde os assuntos controversos do pentecostalismo são analisados de forma profunda. Teólogos norte-americanos e canadenses produziram nos últimos anos, vários livros onde as doutrinas pentecostais são expostas. Entre os teólogos de destaque estão:
- Stanley M. Horton, bacharel em Ciências pela Universidade da Califórnia, mestre em Divindade pelo Gordon-Conwell Theological Seminary, mestre em Teologia Sacra pela Universidade de Harvard e doutor em Teologia pelo Central Baptist Theological Seminary.
- Anthony David Palma, mestre em Divindade do New York Theological Seminary, mestre em Teologia Sagrada e Doutor em Teologia pela Universidade de Concórdia.
- William W. Menzies, bacharel em teologia no Central Biblie College, mestre em teologia pela Wheaton College e Ph.D. em história da igreja pela University of Iowa.
- Roger Stronstad, M.C.N. decano acadêmico da Western Pentecostal Biblie.

Atos, desafios a hermenêutica tradicional?

Seria o livro de Atos dos Apóstolos meramente descritivo-histórico, sem valor teológico-doutrinário? O livro de Atos dos Apóstolos compõem uma unidade com o Evangelho segundo Lucas, sendo obras endereçadas para os gentios. Lucas era médico (Cl 4.14), historiador com esmero, homem culto e hábil conhecedor da língua grega e o único não-judeu a escrever uma obra nas Escrituras.
Uma questão freqüentemente levantada pelos teólogos pentecostais é se Lucas era meramente um historiador. Segundo os teólogos assembleianos a resposta é negativa, eles escrevem:

Os escritos de Lucas (Lucas e Atos) apresentam claramente mais do que uma história. Embora Lucas descreva seu Evangelho como uma "história" ou relato (grego diégesis - Lucas 1:1), escrito com "diligência" e "por ordem" (1:3), a maneira como ele seleciona os itens e os seus comentários editoriais e narrativos revela um autor com um desejo de promover a causa de Cristo. Lucas foi claramente um cristão. De fato, hoje há um esmagador consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que Lucas foi um teólogo, e não apenas um historiador [1].

Roger Stronstad diz que “o propósito de Lucas era didático, de catequese ou instrução, e não meramente informativo, ao contar a história da origem e expansão do Cristianismo” [2]. Anthony D. Palma descreve Lucas como um teólogo ao seu próprio modo, sendo aquele que usa narrativas históricas para fazer teologia [3]. Lucas por meio da narrativa e na apresentação dos preceitos primitivos passou teologicamente princípios que devem nortear todo o cristianismo posterior, pois o objetivo das Escrituras sempre foi trazer algo substancial para a prática cristã (cf II Tm 3.16).

Passagens descritivas versus narrativas?


William W. Menzies destaca que a insistência em separar passagens didáticas de passagens narrativas [4] cria basicamente um “cânon dentro de outro cânon”. Menzies pergunta:

Muita coisa da teologia do Antigo Testamento não nos vem em forma de narrativa? O próprio Jesus não ensinou freqüentemente contando histórias ou parábolas? Não tende essa teoria a reduzir os evangelhos e Atos (assim em outras porções narrativas das Escrituras) a um mero apêndice das porções didáticas da Bíblia, particularmente as cartas de Paulo? (Talvez isso explique o caráter preponderante das epístolas paulinas, que têm muito da teologia evangélica tradicional a tendência a ser uma teologia paulina?).
[5]

Os eruditos pentecostais destacam que a separação da Bíblia em passagens didáticas versus passagens narrativas não é uma boa hermenêutica para a prática exegética que o livro de Atos do Apóstolos exige.

Afinal, Atos é normativo para os dias de hoje?

Sendo Lucas um teólogo e não mero historiador, significa que todo o conteúdo do livro de Atos do Apóstolos é uma normativa para a igreja hodierna? A resposta é negativa. Conforme escreveu George Wood, líder do Concílio Geral das Assembléias de Deus no EUA e doutor em teologia pela Universidade de Yale, devemos “sempre perguntar se um determinado incidente indica algo único ou uma normativa para toda a Igreja”.[6] No decorrer do Novo Testamento verifica-se que algumas questões registradas por Lucas não se repetem, nem mesmo no livro de Atos, como episódios da sombra de Pedro, repartição de bens etc. Esse fato não significa que é impossível ver normatização nos escritos lucanos. A normatização é clara em livros narrativos, nem sempre diretamente, mas os princípios permeiam por meio de descrições históricas e dos próprios preceitos.

Os pentecostais se colocam como elite espiritual?

Nunca os pentecostais deixaram de pregar que todos os crentes são habitação do Espírito Santo e que todos são batizados pelo Espírito Santo no Corpo de Cristo; mas a doutrina do “Batismo no Espírito Santo” como revestimento de poder, não pretende criar classes especiais de crentes, ou seja, aqueles batizados e os não-batizados, pois sempre os pentecostais pregaram que o “Batismo no Espírito Santo” está disponível para todos os cristãos.

Os empiristas históricos...

Alguns argumentam que o “Batismo no Espírito Santo” não apresenta evidências históricas e que grandes cristãos do passado não passaram por essa experiência e seguiram em uma obra firme e constante.
Quanto às evidências históricas, há muito material de registro, entre eles os escritos de Philip Schaff em sua famosa obra História da Igreja de 1882, onde grupos como da patrística, waldenses, huguenotes, quacres e anabatistas experimentaram a plenitude do Espírito Santo e os dons espirituais.
Famosos e produtivos cristãos como João Calvino, certamente não experimentaram o Batismo no Espírito Santo com evidências em línguas, mas certamente Calvino foi capacitado com dons do Espírito, como o dom de ensino, descrito por Paulo aos Romanos (12. 7).

Conclusão

A melhor conclusão para esse assunto tão controverso é que não há uma conclusão exaustiva e satisfatória. Certamente o assunto continuará por meios dos comentários e futuros posts nesse blog.
Emitem suas opiniões no espaço para comentários.

Notas e Referências Bibliográficas:

1- Tomadas a partir da declaração oficial de crença do Concílio Geral das Assembléias de Deus sobre o batismo no Espírito Santo.
2- STRONSTAD, Roger. The Hermeneutics of Lucan Historiography, Paraclete 22 (outono de 1988), 10-11. In HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p 443.
3- PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p 26-27.
4- Não deixe de ler a terceira parte do artigo sobre “O Batismo no Espírito Santo” onde é destacada a posição de Stott e Fee, defensores dessa separação.
5- MENZIES, William W. & MENZIES Robert. P. No Poder do Espírito. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 45.
6- WOOD, George. A Waterline Of Another Kind. Pentecost: Empowerment for Life-changing Ministry. Enrichment Journal. Winter 2005

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O Batismo no Espírito Santo, parte 03

A doutrina do Batismo no Espírito Santo não nasceu em arraiais pentecostais, mas teve precedentes históricos importantes. Sendo uma doutrina polêmica, há contestações de várias vertentes teológicas, até mesmo entre os pentecostais.

Os pré-pentecostais

Grandes teólogos e pastores do Século 19 compartilhavam uma visão bem semelhante com os pentecostais em relação a uma experiência subseqüente a salvação, a chamada “segunda bênção”. Entre os pregadores da “segunda bênção” encontravam-se D. L. Moody, R. A. Torrey, Andrew Murray, F. B. Meyer e o presbiteriano A. B. Simpson. A diferença entre esses pré-pentecostais era o fato de não defenderem as línguas com sinal físico-inicial. No século 20, o teólogo reformado Dr. Martyn Lloyd-Jones, estava entre os que defendiam essa experiência pós-salvação. Mas lembrando que nenhum desses teólogos compartilhavam da visão pentecostal clássica, de que o Batismo no Espírito Santo deve ser acompanhado por uma evidência física.

Contestações clássicas da abordagem pentecostal

O Batismo no Espírito Santo é uma doutrina contestada pela abordagem hermenêutica do livro de Atos dos Apóstolos por dois importantes teólogos, um anglicano e outro assembleiano. O teólogo evangelical-anglicano John Stott defende a tese de que o livro lucano de Atos dos Apóstolos não deve ser interpretado como uma obra didática, mas descritiva. Stott escreve:
“Esta revelação deve ser buscada preferencialmente nas suas passagens didáticas, e não nas descritivas. Para ser mais preciso, devemos procurá-la nos ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos, e não nas seções puramente narrativa de Atos.” (grifo do autor) [1].
Gordon Donald Fee, teólogo exegeta mundialmente respeitado, foi ordenado pastor pelas Assembléias de Deus em 1959. Junto com Douglas Stuart, escreveu na sua famosa obra Entendes o Que Lês?[2] um capítulo intitulado Atos- O Problema do Precedente Histórico que se assemelha a visão de John Stott. A pergunta constante de Fee é “O livro de Atos do Apóstolos tem uma Palavra que não somente descreve a igreja primitiva como também fala como uma norma para a igreja em todo tempo?”(grifo do autor)[2].

Contestações empíricas

Alguns críticos do Batismo no Espírito Santo argumentam empiricamente com pretextos históricos. Muitos argumentam que não existe uma segunda experiência, pois os mesmos não vêem tais sinais no decorrer da história cristã. Outras argumentações parte do silêncio de grandes teólogos do passado sobre esse assunto.

Contestação de classe especial

Alguns teólogos tradicionais argumentam que o dito Batismo no Espírito Santo cria uma classe especial de cristãos. Essa argumentação é comum em obras de cessacionistas.
No próximo e último texto da série, haverá as respostas de teólogos pentecostais para essas contestações.

PS: Na perca a última parte da série de posts sobre o Batismo no Espírito Santo.


Referências Bibliográficas:

01. STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 17.
02. FEE, Gordon & STUART, Douglas. Entendes o que lês? 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 90.

domingo, 3 de agosto de 2008

O Batismo no Espírito Santo, Parte 02

O Batismo no Espírito Santo deve ser entendido como um revestimento de poder para testemunho evangelístico, portanto tem seu propósito bem definido nas Sagradas Escrituras. Longe de ser uma mera experiência subjetiva, beirando o esoterismo, o Batismo no Espírito Santo é uma graça para o desenvolvimento serviçal. Como no artigo anterior, esse texto tem por objetivo discutir mais algumas questões relacionadas a essa doutrina.

Batismo no Espírito Santo: Qual o seu propósito?

A experiência normativa do Batismo no Espírito Santo tem um propósito bem claro nas Escrituras, com qualificação para o serviço cristão (cf. At 1.8). Uma maior eficácia na evangelização dos povos se dá por meio da experiência pentecostal; portanto, o Batismo no Espírito Santo apresenta uma relação missionária com os seus objetivos.
Os que buscam o Batismo no Espírito Santo por mera curiosidade esotérica, onde querem experiências místicas e transcendentais, distorcem completamente o propósito do Batismo no Espírito Santo. Essa experiência deve ser buscada para aqueles que têm o coração no Reino de Deus e lutam por sua expansão. Lembrando que um não-batizado não está impossibilitado de fazer grandes trabalhos evangelísticos, pois nunca as Escrituras colocam que a evangelização está restrita aos que experimentam um poder carismático, mas é claro que o Batismo serve como um bom reforço!
A distorção principal nos dias atuais referente ao propósito do Batismo no Espírito Santo é denominado de “reteté de Jeová”. Esse movimento prega experiência por experiência, sem propósito, cheio de desordem no culto e ainda associa espiritualidade com barulho. O “reteté”, longe de ser um reforço ao pentecostalismo, é uma verdadeira aberração que atrapalha o desenvolvimento de uma doutrina pentecostal sadia e bíblica, onde os dons e o Batismo no Espírito é pregado dentro dos limites das Sagradas Escrituras.

Batismo no ou com Espírito?

A diferença entre os termos intercalados batismo no ou batismo com tem suscitado dúvidas e debates. Nas traduções bíblicas comuns no Brasil, como as de Almeida, a expressão comum é “batismo com o Espírito Santo”, mas em obras e textos de teólogos pentecostais há uma predominância do termo “batismo no Espírito Santo”. Não importa a terminologia, pois o conceito doutrinário é o mesmo.
Certamente a preferência pelo termo “batismo no Espírito Santo” é forçado pela comparação com o “batismo nas águas”. A maioria esmagadora dos pentecostais são adeptos do batismo por imersão, ou seja, onde o corpo do batizando é colocado inteiro nas águas batismais. Como a comparação com o batismo nas águas é inevitável (Jo 1.33; cf. Mt 3.11), os pentecostais preferem a preposição NO do que COM. Usando a preposição “com a água” dá espaço para uma interpretação mais aberta sobre fórmulas do batismo em águas, podendo abraçar até mesmo o batismo por aspersão ou efusão.
Longe de ser uma questão que mudará o significado do Batismo no/com o Espírito, essas preposições são usadas para reforçar ou trabalha conjuntamente com outra doutrina: O batismo nas águas por imersão.

Evidência física inicial?

Um dos pontos mais controvertidos na doutrina do Batismo no Espírito Santo refere-se à problemática de sua evidência. Esse assunto tem dividido até mesmo os pentecostais clássicos. O próprio William J. Seymour defendia que as línguas não eram a única evidência física do Batismo no Espírito Santo [1], mas outras manifestações poderiam ser encaradas como essa evidência. Acompanhando Seymour nesse raciocínio, denominações inteiras com a Igreja de Deus em Cristo [2] pregam que existem mais de uma evidência para o Batismo. Hoje, a maioria das igrejas neopentecostais não defende que as línguas são a única evidência.
Esse ponto é defendido principalmente pelo texto de Atos 10.46, onde Lucas relata a admiração dos judeus que viram os gentios receberem “o dom do Espírito Santo”, isso “porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus”. Baseados nesse texto, os pentecostais defendem a evidência física para o Batismo no Espírito Santo [3].
Para mais detalhes sobre o assunto, leia o artigo Falar em Línguas, a evidência física inicial [4].

PS: Acompanhe a terceira parte desse artigo e não deixe de ler a primeira parte.


Notas e Referências Bibliográficas:

01- ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 295.

02- Na declaração de fé da Igreja Deus em Cristo, a maior denominação pentecostal dos EUA, há uma clara demonstração da mudança em relação a evidência física inicial: “Cremos que o dom de falar em outras línguas um dos sinais de uma vida cheia do Espírito Santo”. Para o entendimento do corpo doutrinário dessa denominação, que vem desde Seymour, as línguas podem ser um sinal físico, mas não o único.

03- French L. Arrington, professor da Church of God School of Theology, escreve: “Os discípulos no Dia de Pentecostes e os crentes em Cesaréia respondem de modo semelhante: falando em línguas (At 2.4; 10.46) e louvando a Deus (At 2.11; 10.46). in ARRINGTON, French L. e STRONSTAD, Roger (Ed.) Comentário Bíblico Pentecostal. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 685.

04- http://teologiapentecostal.blogspot.com/2007/12/falar-em-lnguas-evidncia-fsica-inicial.html