domingo, 30 de novembro de 2008

Desafios ao Protestantismo

Encerrando a série de pequenas entrevistas sobre a Reforma Protestante, vamos ler a opinião do pastor Silas Daniel. Nessa série o Blog Teologia Pentecostal entrevistou o pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, o pastor assembleiano Ciro Zibordi, além do apologista Paulo Romeiro. Esses líderes protestantes que tem contribuído muito para a reflexão teológica no Brasil. Agradeço a todos!

Segue o último texto da série "Reforma Protestante".

Silas Daniel é pastor assembleiano no Rio de Janeiro, conferencista, jornalista e editor do jornal Mensageiro da Paz e da revista Manual do Obreiro. Com formação em Comunicação Social e Teologia, e cursando o último ano de Direito, ele é autor dos livros Como vencer a frustração espiritual, História da Convenção Geral das Assembléias de Deus, Reflexões sobre a alma e o tempo e Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos e A Sedução das Novas Teologias, todos lançados pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD).

BTP: Quais são os maiores desafios do protestantismo nesse início de século?

Silas Daniel: De forma geral, entendo que o protestantismo enfrenta quatro grandes desafios neste início de novo século. O primeiro é o de influenciar a sociedade sendo uma reserva e referência de valores em uma época em que estes estão sendo fluidificados.
Para entender melhor esse primeiro desafio, é preciso recapitular a importância da Reforma Protestante para a formação do Ocidente.
Com o objetivo de realçar essa importância do protestantismo na reflexão sobre a sociedade ocidental hodierna, o historiador Carter Lindberg, professor de Teologia da Universidade de Boston, afirma em sua obra As Reformas na Europa: "Estar conscientes das contribuições da Reforma para o desenvolvimento de nosso mundo [ocidental] nos ajuda a entender como chegamos onde estamos e proporciona um horizonte crítico para avaliar os resultados". Ou seja, a Reforma e seus princípios, enfatiza Lindberg, são importantes para refletir o Ocidente. Aliás, ele e o alemão Karlheinz Blaschke, entre outros historiadores, ressaltam inclusive que é errado pensarmos que a Reforma só foi possível por causa da "onda" chamada modernidade. Segundo eles, o inverso é que é verdade: a modernidade só foi possível porque a Reforma lhe abriu as portas. A Reforma não deve a ela seu surgimento; ela é que deve à Reforma a possibilidade de ter acontecido.
Segundo frisam esses historiadores, a maioria dos livros de História de hoje sugere que a Reforma só foi possível devido à conjuntura política e filosófica da modernidade que estava começando a se formar naquela época, porque os historiadores ocidentais modernos, a partir de sua perspectiva hodierna, associam naturalmente grandes acontecimentos da História a fatores políticos e econômicos. E eu acrescentaria ainda que, desde o advento do materialismo histórico e da dialética marxista, muitos não entendem que qualquer fator além de economia e política possa motivar grandes mudanças. Esquecem, por exemplo, como destacam Lindberg e Blaschke, que na época da Reforma as pessoas davam muito mais valor à religião do que a fatores políticos e econômicos. Os cidadãos comuns e nobres daquela época chegavam a aceitar naturalmente a morte com base em compromissos religiosos. O problema é que as pessoas tendem a ler o século 16 com as lentes do século 21.
Ressalta Blaschke que "Lutero não pretendia modernizar a sociedade, nem dar início ao período moderno, nem sequer desencadear uma revolução social", entretanto, "embora seja verdade que o período moderno já estava a caminho quando ele [Lutero] estava envolvido em sua luta religiosa para encontrar um Deus misericordioso, foi a descoberta religiosa de Lutero de que a justiça diante de Deus é recebida, e não conquistada, que removeu os obstáculos que até então haviam impedido a irrupção completa do mundo moderno".
Isto é, o Ocidente deve muito do que é hoje, mas muito mesmo, à Reforma. Contudo, apesar disso, vemos o liberalismo social secularizante travar uma guerra cultural todos os dias, com apoio da maioria esmagadora da mídia secular, para tentar "varrer" do Ocidente todos aqueles princípios sobre os quais a sociedade ocidental foi erigida. É verdade que essa é uma luta que envolve todos os ramos do cristianismo, mas sobretudo o protestantismo, cujo surgimento influenciou tremendamente a formação do Ocidente como hoje o conhecemos.
Em segundo lugar, o protestantismo enfrenta também o desafio de não ceder à tentação do "emsimesmamento", olvidando sua missão evangelística. Refiro-me ao fato de que, em muitos lugares, infelizmente, o protestantismo tem se tornado mais um segmento voltado para si mesmo do que voltado para o mundo.
Em terceiro lugar, a necessidade premente de voltar-se às Sagradas Escrituras. Há vários casos em nossos dias que demonstram essa necessidade. Por exemplo, há muitos pregadores evangélicos, tanto no Brasil como lá fora, que infelizmente têm substituído a pregação e o ensino bíblicos integrais por meras mensagens de auto-ajuda. Não se preocupam mais em pregar "todo o conselho de Deus", mas apenas aqueles aspectos do Evangelho que se encaixam à proposta motivacional da atraente e popular filosofia de auto-ajuda.
Pregadores têm se preocupado mais em se portarem como gurus motivacionais do que em levar seus ouvintes a crescerem espiritualmente em todas as áreas de suas vidas. Nesse contexto, não se prega mais, por exemplo, sobre cruz, renúncia, céu, inferno, pecado e santificação, mas apenas sobre superação de problemas materiais do cotidiano.
Outro caso em que vemos essa necessidade de retorno à Bíblia está na substituição que alguns fazem da mensagem inteiramente bíblica pela mensagem saturada de mero conteúdo filosófico. Às vezes, ao ouvir certas mensagens, constatamos serem mais uma reprodução sintética do conteúdo de livros de filosofia e de aforismos colhidos aqui e ali do que uma transmissão dedicada do conteúdo bíblico. Muitos se preocupam mais em inserir sua biblioteca em seus sermões do que em pregar a Bíblia em seus sermões. Não estou dizendo que nossa bagagem de leituras não deva enriquecer nossos sermões, mas que nossos sermões devem ser mais bíblicos do que "bibliotecocêntricos".
Finalmente, um terceiro caso de distanciamento das Escrituras em nossos dias é o do zelo sem entendimento, que, indubitavelmente, está causando muito estrago. Aliás, esse talvez seja o mais freqüente de todos os casos, especialmente no que concerne ao evangelicalismo brasileiro, extremamente suscetível a modismos.
Sou pentecostal e enfatizo a necessidade de sermos, como disse o apóstolo Paulo, "fervorosos no Espírito servindo ao Senhor", porém não devemos confundir isso com algo que a Bíblia reprova imensamente, que é tomar o fervor como um fim em si mesmo. Fervor sem o diapasão da Palavra de Deus causa estragos terríveis na vida espiritual das pessoas e de uma igreja como um todo.
Há muitos cristãos sinceros e fervorosos que, infelizmente, baseiam sua vida espiritual tão somente ou principalmente em experiências, e não na Palavra de Deus. São mais empíricos do que bíblicos em sua fé, e o resultado disso são bizarrias de toda sorte e, o que é bastante freqüente, frustração espiritual. São muitos os cristãos sinceros e genuínos em seu fervor que se encontram hoje neurotizados, frustrados espiritualmente, confusos, imersos em crise espiritual e com sua vida cristã em frangalhos. Isso me motivou a escrever, há dois anos, um livro sobre o assunto: Como vencer a frustração espiritual. Essa obra surgiu depois de inúmeros casos de crentes frustrados espiritualmente que encontrei em minhas viagens pelo Brasil para pregar a Palavra de Deus em igrejas de diversas denominações. Ainda hoje, recebo dezenas de emails de pessoas que me pedem orientação para saírem de alguma crise espiritual que estão vivenciando e, ao analisar o s casos, o diagnóstico tem sido invariavelmente o mesmo: as crises são geradas por conceitos equivocados sobre quem é Deus, o que é a vida cristã, o que é a vida espiritual, o que é o relacionamento com Deus e até mesmo sobre a natureza humana. Em suma: está faltando orientação bíblica.
E finalmente, o quarto desafio é um despertamento à ortopraxia. Se há protestantes que tropeçam porque lhes falta ortodoxia, há aqueles cujo problema é exatamente ausência de ortopraxia. São aqueles que perderam "o primeiro amor" em meio à sua trajetória e se cauterizaram ao ponto de, hoje, estarem "mornos", "frios" ou até mesmo "mortos" espiritualmente. Esse arrefecimento e morte às vezes se devem ao desenvolvimento de alguma espiritualidade tipo zelo sem entendimento, ou a alguma forma errada com que a pessoa lidou com eventual queda espiritual, ou à relativização paulatina dos princípios bíblicos na vida da pessoa, ou a uma perda progressiva de foco devido à influencia do secularismo sobre ela, ou à falta de cultivo da vida espiritual viabilizando a ressurreição do "velho homem", ou ainda ao trauma de um esgotamento físico e espiritual por ativismo religioso, dentre outros motivos. Tudo isso pode gerar a perda da harmonia entre o comportamento da pessoa e a Palavra de Deus. Tudo isso pode fazer com que um bom cristão, de repente, sofra uma ruptura em sua espiritualidade e se torne, aos poucos, um perfeito hipócrita.
E é importante ressaltar que os males que isso provoca não se vêem apenas na degeneração da vida dessas próprias pessoas ou no mau testemunho que dão à sociedade, mas também no efeito que causam na vida de cristãos que, sem maturidade, os tomam como referência de espiritualidade. Diante da queda desses referenciais, diante dos casos escandalosos de hipocrisia, esses cristãos deságuam em profunda desilusão e crise espiritual. E quando não se desviam, tornam-se presas fáceis ao neoliberalismo teológico ou a outras alternativas mais populares que se apresentam como salvadoras e se caracterizam, em casos mais extremos, pela demonização e diabolização da igreja organizada. Isso acontece hoje como aconteceu no passado, conquanto em formatos diferentes. Por exemplo, foi assim com o monaquismo e com o misticismo medieval, que se apresentaram - cada um a seu tempo e com suas respectivas peculiaridades - como alternativas à corrupção da igreja cristã medieva l. Esses movimentos eram mais uma fuga da igreja organizada e uma aposta em sua inexorável auto-desintegração do que uma tentativa de reformá-la. Lembremos que seus seguidores criam que, com a degeneração da igreja organizada como um todo, eles sobreviveriam como "igreja pura".
Talvez não seja à toa que haja atualmente uma procura, por parte de alguns evangélicos frustrados com o cristianismo organizado, pela literatura devocional católica dos místicos medievais. Essa literatura surgiu exatamente em meio a uma frustração com o cristianismo organizado daquela época; foi essa conjuntura que levou seus autores a enveredarem na busca por uma nova espiritualidade.
De qualquer forma, no final, como sabemos, esses movimentos se dissolveram na História, enquanto o movimento reformador vingou. Porém, hoje, devido ao retrocesso em vários setores do protestantismo em relação aos princípios fundamentais da Reforma, constata-se que precisamos de uma espécie de "nova Reforma". Basicamente, diria que precisamos retornar às Sagradas Escrituras, e refiro-me aqui tanto a um retorno em termos doutrinários como em termos de prática da vida cristã. Precisamos pregar e viver a Palavra. Precisamos ensiná-la e encarná-la.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Entrelinhas 05: Mark Driscoll

Você já ouviu falar do pastor Mark Driscoll? Talvez não! Mas esse jovem pastor tem desenvolvido um bonito ministério onde os princípios bíblicos e os valores da Reforma Protestante são valorizados. Driscoll já pertenceu a “Igreja Emergente” e hoje desperta a mesma simpatia dos jovens sem jogar no lixo a “ortodoxia” em nome de uma “interpretação superior do Evangelho”.
Driscoll não tem o estereotípico de pastor, mas suas palavras são pastorais. Driscoll é um exemplo de como a teologia protestante conservadora pode se compreensível nessa sociedade pós-moderna, sem os exageros dos fundamentalistas e sem mesclar com as falácias dos liberais.
Vale a pena conhecer...


Mark Driscoll falando sobre a cultura pós-moderna e função missional da igreja.





Obs: Para ativar a legenda, clique no botão no lado direito do player com a opção "ativar legendas".


Um dos sermões de Mark Driscoll






Fonte: Blog do Vinícius Pimentel







PS: Recomendo a obra A Supremacia de Cristo em um Mundo Pós-Moderno (CPAD), editado por John Piper & Justin Taylor. Nesse livro há um capítulo interessante sobre evangelização escrito por Mark Driscoll.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Os pseudopentecostais e a distorção da Reforma


Continuando a série de entrevistas sobre a Reforma Protestante hoje veremos a opinião do bispo anglicano Robinson Cavalcanti.

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Edward Robinson de Barros Cavalcanti é teólogo, cientista político e bispo da Igreja Anglicana do Cone Sul da América, dirigindo a diocese de Recife. Mais conhecido como Dom Robinson Cavalcanti, o bispo de Olinda escreveu mais de dez obras, sendo que o último livro Reforçando as Trincheiras (Editora Vida) trata sobre o problema da homossexualidade na Igreja Anglicana e a relata a luta travada por ele contra a intolerância dos liberais.

Nesta entrevista Cavalcanti tratará sobre pentecostalismo, sendo um assunto que ele tem escrito constantemente em sua coluna na revista Ultimato.

Blog Teologia Pentecostal- Qual a sua avaliação sobre o evangelicalismo no Brasil? Quais os pontos positivos e negativos que o senhor apontaria como mais significativos?

Robinson Cavalcanti- As Igrejas Históricas; Congregacional, Presbiteriana, Metodista, Batista e Anglicana chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX todas de linha teológica evangélica, e assim, em sua grande maioria tem se mantido. O Movimento Pentecostal e o Movimento de Renovação Espiritual também preservaram essa posição. Minorias liberais e o pseudo-pentecostalismo é que são vozes destoantes. A ênfase na autoridade da Palavra de Deus e na necessidade de conversão são os pontos mais positivos, a ausência de obras sociais e a débil presença política transformadora são pontos negativos. O anti-intelectualismo e o legalismo são aspectos preocupantes, que necessitam ser superados.

02. Em artigo para a revista Ultimato o senhor escreveu que uma associação maior entre tradicionais (ou reformados) e pentecostais clássicos ascende para a formação de um “bloco histórico”. Em que aspectos os pentecostais clássicos podem contribuir teologicamente para os reformados-tradicionais?

Um “Bloco Histórico” de diálogo e cooperação entre as igrejas históricas e as igrejas pentecostais clássicas fortaleceriam a presença evangélica no Brasil, nos diferenciariam das propostas falsas e promoveriam um enriquecimento mútuo. Nós temos uma longa história e uma teologia madura; vocês têm uma mobilização e um entusiasmo pela missão. Esses aspectos não são excludentes, mas complementares. Preconceitos e visões distorcidas mútuas do passado devem ser superadas, para o bem de todos, da Igreja e do País.

03. Autores anglicanos com C.S. Lewis, John Stott, J.I. Packer e mais recentemente Alister McGrath fazem sucesso entre seminaristas pentecostais. Na Comunhão Anglicana pelo mundo há uma relação teológica e comunal mais estreita com os pentecostais?

A Grande maioria dos líderes de peso na Comunhão Anglicana crêem na contemporaneidade dos dons espirituais, temos um Movimento Anglicano de Renovação (Carismática), e a Conferência de Lambeth (que reúne os bispos do mundo inteiro) já aprovou uma Resolução nos exortando a uma aproximação positiva com o mundo pentecostal. Em nossa Diocese do Recife quase todo mundo é “musarella e calabresa”, ou seja, meio histórico e meio renovado...

04. Quando a palavra “evangélico” é pronunciada logo boa parte das pessoas associam tal expressão às chamadas igrejas neopentecostais. Por que os protestantes históricos perderam representatividade diante do crescimento "neo" pentecostal?

Os pseudo-pentecostais investiram pesado na mídia, adquiriram imensa visibilidade, chamaram para si uma identidade evangélica que não têm. Os demais grupos foram mais tímidos, e isso foi um prejuízo para todos – históricos e pentecostais. No bom sentido, temos que ser mais agressivos, mais presentes, retomando a bandeira que nos pertence.

05. O senhor tem defendido que boa parte das igrejas neopentecostais deveriam receber a nomenclatura de pseudopentecostais. Por que essas novas igrejas não podem ser encaixadas no evangelicalismo?

O Protestantismo se pauta por uma ênfase na autoridade e no ensino da Bíblia e da salvação somente pela Graça mediante a fé em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O Evangelicalismo tem o seu eixo central na experiência de conversão, de novo nascimento. Valorizamos os ensinos da Reforma. Temos preocupação com a ética e com a sã doutrina. Essas não são marcas do pseudo-pentecostalismo, que, como seitas para-protestantes, se constituem em outro fenômeno religioso.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Entrevista para o Blog do Ciro

Amigos leitores,

Tive o privilégio de ser entrevistado pelo pastor Ciro Sanches Zibordi, no quadro Pastor Ciro Entrevista. Leia essa agradável entrevista no Blog do Ciro.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Entrelinhas 04: Reforma da reforma!




Continuando as rápidas entrevistas com alguns pastores sobre a Reforma Protestante, hoje é o dia de lermos a opinião do pastor Ciro Sanches Zibordi.
Ciro Sanches Zibordi é pastor na Assembléia de Deus de Cordovil, no Rio de Janeiro-RJ, comentador das Lições Bíblicas para juvenis e adolescentes, professor de teologia, pregador e autor dos livros Adolescentes S.A., Perguntas Intrigantes que os Jovens Costumam Fazer, Erros que os Pregadores Devem Evitar, Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria, Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar e editor-assistente da obra Teologia Sistemática Pentecostal, todos lançados pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD).

Blog Teologia Pentecostal: O protestantismo brasileiro precisa de uma nova reforma? Em quais aspectos?


Ciro Zibordi: A Reforma Protestante ocorreu dentro da Igreja Católica Romana, fazendo com que uma Igreja mais compromissada com a Bíblia surgisse, a Igreja Protestante. Aquele grande movimento só ocorreu porque os reformadores, principalmente Lutero, descobriram que as verdades bíblicas não estavam prevalecendo, e sim a tradição papal. Algumas reformas hoje, no seio da Igreja Evangélica, são necessárias e têm a mesma motivação da grande, única e histórica Reforma Protestante: o retorno às Escrituras.
Eu tenho insistido em dizer que tudo o que tem acontecido de negativo em nosso meio se deve ao fato de a Palavra de Deus ter deixado de ser, para muitos, a regra de fé, de prática e de viver, a fonte principal de autoridade. Repito tanto isso, que até parece um chavão. Mas não é. E posso dar exemplos de como estamos nos distanciando da Palavra de Deus, pouco a pouco. Precisamos de uma reforma litúrgica, pois os nossos cultos estão longe de ser biblicocêntricos. Os cânticos que deviam ser apenas uma parte do culto tomam 90% dele ou mais. E um agravante é a péssima qualidade desses cânticos.
Deus habita entre os louvores (Sl 22.3), mas muitos estão pensando que Ele habita entre os cantores. Certos cultos são verdadeiros shows de calouros. Domingo passado eu preguei em uma igreja em que o culto começou antes das 19h, houve um festival de cantoria (solos, duplas sertanejas, conjuntos), e eu comecei a pregar às 21h, sendo avisado de que o culto terminava às 21h30! Onde está o amor à Palavra de Deus por parte das lideranças? Antigamente, a Palavra tinha a primazia. Precisamos ou não de uma reforma? O que está escrito em 1 Coríntios 14.26?
Como eu falei da qualidade dos "louvores", é inegável que precisamos também de uma reforma nessa área. Por quê? Porque os cânticos entoados nas igrejas são, na verdade, canções gravadas com interesses comerciais das gravadoras, cantores, grupos, lojas, etc. Não há mais compromisso com as verdades bíblicas. É como ocorre no meio secular. A música erudita não atrai a atenção de muita gente, enquanto axé, funk, rap, pagode e gêneros afins são os preferidos da maioria, trazendo grande lucro ao mercado fonográfico. Não podemos seguir a essa "onda" comercial porque somos o povo de Deus. E não temos como referencial o lucro ou a quantidade de pessoas que apreciam determinados estilos, e sim o louvor a Deus, cristocêntrico.
Na área da pregação também precisamos de uma reforma... Hoje se prega os milagres, que são efeitos do evangelho, e não o evangelho propriamente dito (Mc 16.15-20). E também a maioria desses "milagres" são contestáveis, se a Bíblia de fato for considerada a nossa regra de fé, de prática e de vida. Como estão os nossos congressos? As igrejas convidam os pregadores (pregadores?) que conseguem atrair o maior número de pessoas; se bem que eu não sou contra quem é amado pela maioria. Em alguns lugares eu também sou recebido de maneira muito efusiva pelo povo. Mas o problema é o critério usado para escolher os pregadores. Muitos não convidam o pregador compromissado com a Palavra, e sim o que tem carisma, cativa o público, ainda que propague heresias e maus costumes. Precisamos ou não de reforma?
Os nossos cultos não têm sido oferecidos a Deus, em regra geral. São preparados para satisfazer os anseios das pessoas. Essas reuniões que chamam de culto a Deus são antropocêntricas, e não cristocêntricas. Precisamos de uma reforma, pois o nosso foco deve mudar e a nossa motivação de ir às igrejas, como servos de Deus, não pode ser o recebimento de bênçãos ou a participação de um momento de entretenimento. Jesus deixou de ser o centro. Hoje, as igrejas são mais importantes. Veja os slogans: "Uma igreja modelo, um modelo de igreja", "Igreja tal, onde o milagre acontece", etc. Carros não exibem mais em seus pára-brisas versículos bíblicos ou alusões a Jesus. O importante é mencionar o nome da denominação. Nos programas de televisão, o testemunho é mais ou menos assim: "Depois que eu cheguei à igreja tal, a minha vida mudou".
Para resumir, precisamos não de uma, mas de várias reformas, nos mais diversos âmbitos, principalmente o litúrgico. E, para que isso aconteça, é preciso que Deus levante no meio evangélico reformadores com a ousadia de Lutero.

sábado, 8 de novembro de 2008

Entrelinhas 03: Os pentecostais e a Reforma Protestante


Ainda falando sobre a Reforma Protestante, segue abaixo a resposta do pastor Paulo Romeiro sobre a importância dos pentecostais para esse seguimento do cristianismo. O pastor Paulo Romeiro é mestre em teologia pelo Gordon-Conwell Theological Seminary, em Boston nos EUA e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente o pastor integra o corpo docente da tradicional Universidade Presbiteriana Mackenzie. Romeiro é de tradição pentecostal e dirigente de uma igreja na zona sul de São Paulo, cuja teologia é assembleiana.

Blog Teologia Pentecostal: Qual o papel do pentecostalismo na construção de um protestantismo mais autêntico aos seus propósitos originais?

Paulo Romeiro: Creio que o pentecostalismo, mais do que as igrejas protestantes históricas, tem um poder muito grande de mobilizar as massas. Com isso, o pentecostalismo tem a oportunidade de colocar muita gente em contato com a Bíblia Sagrada, a principal ferramenta de trabalho do protestantismo. Muitos crentes do pentecostalismo estão descobrindo a teologia e estão buscando educação teológica em instituições de linha reformada. Um dos exemplos é a EST, a Faculdade de Teologia da Universidade Mackenzie, que recebe cada vez mais, alunos de segmentos pentecostais. Isso explica também a preocupação de vários pentecostais interessados na produção de obras confiáveis e na pesquisa acadêmica. É bom lembrar que a CPAD tem publicado, nos últimos anos, excelentes obras por excelentes autores, respeitados também pelos irmãos de linha reformada. Creio que com isso, o pentecostalismo passa a contribuir para o fortalecimento do protestantismo no Brasil.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Projeto Minha Esperança


Chegou o grande dia!
Hoje, sexta e sábado na BAND, às 21h.
Ligue sua TV e convide seus amigos para ouvirem uma mensagem de esperança na pessoa de Cristo.

sábado, 1 de novembro de 2008

Reforma Protestante!?

Nessa sexta-feira foi o aniversário da Reforma Protestante! Temos o que comemorar? A resposta é um sonoro sim e um estrondoso não! Uma dúbia resposta na mista de sentimentos diante dessa comemoração de 491 anos. Por que comemorar diante de protestantes que não mais protestam?
O protestantismo está sufocado no meio de três equívocos monstruosos! O neopentecostalismo está mais próximo do catolicismo popular e medieval, onde até indulgências são relembradas. Os neoliberais abraçam tendências filosóficas contemporâneas em nome do modo cult e politicamente correto. Os fundamentalistas são insuportáveis em sua leitura abitolada da Bíblia, onde as questões secundárias estão no patamar em que não deveriam.
A superstição mística de uns cheira o mais impuro paganismo O ecumenismo abraçado por muitos é espantoso, pois está baseado em “verdades plurais”. Outros se preocupam com a luta legítima contra o aborto, mas são a favor da guerra! A barganha é instrumento que usam para extrair bênçãos do Altíssimo. O papo furado de “amor” sem verdade é usado por outros para abraçarem qualquer besteira pós-moderna. O discurso do terror é manipulado por alguns líderes para os seus próprios interesses.
E os evangélicos com a política? No Brasil os pentecostais e neopentecostais confundiram a buscar do poder de Deus pela busca do poder na terra. Na América Latina e a sua “complexidade de colonizado” faz com que muitos cristãos “progressistas” defendam ditadores com Fidel Castro e Hugo Chávez. Nos Estados Unidos muitos acham que o governo precisa lutar contra aborto e “casamento” gay, mas nada cobram sobre a ineficiência dos políticos conversadores em assuntos igualmente importantes, como a quebra de um nacionalismo burro.
A frieza tem arrasado muitas igrejas na Europa, sendo que algumas já foram vendidas e transformadas em museus ou mesquitas mulçumanas! O entusiasmo da pentecostalidade latina casada com o pragmatismo norte-americano levou protestantes para um entretenimento vazio de conteúdo. Algumas Emergent Church pintam quadros no momento litúrgico!
O protestantismo contém uma liberdade denominacional, pois nenhuma instituição evangélica pode se declarar detentora da verdade absoluta ou a “única Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo”. Não estamos debaixo do papismo! Paul Tillich chamava esse fato de “princípio protestante”, onde segundo o teólogo prussiano o “princípio protestante”:

Contém o protesto divino e humano contra qualquer reivindicação absoluta feita por realidades relativas, incluindo mesmo qualquer igreja protestante. O princípio protestante é o juiz de qualquer realidade religiosa... Guarda-nos contra as tentativas do finito e do condicional de usurpar o lugar do incondicional no pensamento e na ação [1].

Infelizmente o “princípio protestante” deu vazão para tantos grupos que se denominam evangélicos que fica muito difícil definir um protestante. O denominacionalismo evita o papismo, mas como contra-indicação pode fragmentar muito a essência reformada. A solução não é acabar com o denominacionalismo, mas pelo menos unir aqueles que partilham verdadeiramente a Reforma.
Diante dessa confusão provocada pelas milhares de denominações que se dizem protestantes, mas que estão longe da Reforma, fica difícil um testemunho sem a mácula da corrupção. Muitos de nós, quando dizemos que somos evangélicos, logo nos associam aos Macedos e Hernandes da vida, sendo difícil e constrangedora essa dissociação. A partir do momento que os evangélicos perderam sua identidade com a Reforma, mas a urgência de um reavivamento!

Herndandes Dias Lopes[2] resonde o que é ser um protestante nos dias de hoje e sempre:

Ser protestante hoje é subscrever as doutrinas da graça, é crer na inerrância, infalibilidade e suficiência das Escrituras. É crer que o propósito da nossa vida é glorificar a Deus e desfrutar dele para sempre. É confessar que a salvação é pela fé independente das obras. É crer que aqueles que crêem devem demonstrar sua fé pelas obras. É crer que Deus nos fala pela sua Palavra e não à parte dela. É crer que o sentido da vida não é a busca de prosperidade e milagres, mas a busca do conhecimento que desemboca numa vida piedosa.

Referências Bibliográficas:

01. TILLICH, Paul. A Era Protestante. São Paulo/S. Bernardo do Campo, Ciências da Religião, 1992, p. 183. Op. Cit. KLEIN, Carlos Jeremias. Correlatio 10. Universidade Metodista de São Paulo.

02. Resultado de uma pergunta feita ao Reverendo Hernandes Dias Lopes exclusivamente para esse post.