quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Entrelinhas 06: Um novo ano com "pé no chão"

A mensagem “Você Irá Sofrer” pregada por John Piper (assista logo abaixo) expressa uma realidade do Evangelho que tem sido negligenciada nos púlpitos desse país. No Brasil, especialmente no meio pentecostal e neopentecostal tem sobrado mensagens de auto-ajuda, triunfalistas, ufanistas e irresponsáveis, onde se cria pessoas egoístas em lugar de discípulos.
Ontem ouvi de um pastor: “Creia irmão, a crise financeira mundial não irá chegar a sua casa, você está protegido”. Ora, como pode pregar algo tão irresponsável?! Como ficam os irmãos que trabalham em montadoras e outras empresas fortemente atingidas pela crise mundial? Será que não serão despedidos se a situação agravar-se! Ora, os crentes estão em uma redoma de vidro? Os cristãos são uma classe especial de pessoas que estão fora dos sofrimentos presentes no mundo?
As mensagens triunfalistas estão a cada domingo em nossas igrejas. Só se fala em bênçãos, vitórias, conquistas. Os pregadores triunfalistas usam e abusam de textos do Antigo Testamento pré-exílio, onde o SENHOR prometera muitas prosperidades para o povo de Israel. Será que esses pregadores não sabem que há promessas específicas para indivíduos, outras promessas para Israel, ainda há as promessas para a Igrejas e outras promessas que se estendem a todos, como a salvação?!
A auto-ajuda barata e recheada de besteiras não está presente somente em livros de sucesso que estão nas estantes de livrarias, mas atingem em cheio o jovens pregadores e enchem os templos de uma massa ávida por ouvir aquilo que sua vontade deseja.
Os ufanistas se orgulham com exagero da igreja brasileira e declamam “profeticamente” que o “Brasil é do Senhor Jesus”. Uma igreja sem relevância na sociedade, onde pastor é sinônimo de aproveitador e vários líderes apresentam um mau testemunho. Quem tem bom senso e enxerga a realidade, jamais cairá no ufanismo.
Entre hoje e amanhã milhares de igrejas evangélicas estarão “profetizando” um 2009 melhor e farão campanhas de todo tipo para que a prosperidade possa bater na porta dos crentes nesse novo ano. Semelhantes aos supersticiosos de Copacabana, muitos evangélicos estarão criando expectativas falsas e ilusórias para esse novo tempo que se aproxima.
Que possamos aproveitas as vigílias em nossas igrejas não para criar falsas esperanças, mas sim para agradecer a Deus pela realidade em que temos vivido e pedirmos que no novo ano possamos aprofundar a nossa comunhão com Deus e os membros de nossa comunidade. Ano novo não é vida nova; ano novo a vida continua, mas podemos mudar a cada dia diante da presença do SENHOR!

PS: Agradeço a todos os amigos que freqüentaram o blog Teologia Pentecostal nesse ano de 2008. Pude conhecer alguns desses amigos pessoalmente, o que foi um grande prazer! Espero que em 2009 possamos continuar essa maravilhosa parceria.
Que a Graça de Deus esteja sobre todos nós
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Assista agora a mensagem “pé no chão” de John Piper:



Minha mensagem sobre o Ano Novo

domingo, 28 de dezembro de 2008

Formalismo, mero formalismo!

Um pastor piauiense prega de terno e gravata, em um calor nada menos do que de quarenta graus. Um culto com crianças cujo dirigente é um velho diácono da igreja, em lugar da jovem responsável pelo departamento infantil. Vários homens sentados na plataforma do templo, enquanto alguns visitantes estão procurando lugares para se acomodarem. Um culto de casamento onde o grupo musical canta religiosamente três hinos do hinário oficial. Ofertas que são tiradas até em cultos exclusivamente evangelísticos. Uma congregação que se recusa a fazer a Escola Dominical no colégio vizinho da igreja, pois não podem sair do templo! Eis alguns exemplos corriqueiros em igrejas tradicionalistas do sufocante formalismo.
Formalismo pode ser definido como a valorização excessiva de forma em detrimento da essência. As cerimônias, liturgias e formas de culto destacam valores para a vida, mas o formalista não enxerga os valores e sim as formas. No ambiente formalista, os preceitos são mais valorizados do que os princípios, as leis mais aclamadas do que o espírito da lei, o culto mais apreciado do que a razão do culto. Formalismo é o legalismo litúrgico, é o legalismo institucionalizado!

Pentecostais de fervor mecânico!

As igrejas pentecostais exaltam o seu lado espontâneo, mas muitas vezes até a sua “espontaneidade” é corriqueira e repetida, ou seja, muito pentecostais vivem no paradoxo da “espontaneidade mecanizada”. Igrejas cujo “poder” sempre cai em determinado momento do culto e onde “manifestações” espirituais estão atreladas a visitas de pregadores “avivalistas”. Igrejas cujos cultos “dirigidos pelo Espírito Santo” são tão previsíveis como uma bula litúrgica. Há até aquelas igrejas que marcam o dia da “cura divina”, pois em suas placas estão inseridos dizeres como “sexta-feira da libertação”, “quinta-feira da vitória”, ou ainda, “sábado da cura”!
Por mais contraditório que seja, o reteté é uma espécie de formalismo! Sim, formalismo puro! Os cultos do reteté são tão previsíveis, que você verá as mesmas manifestações bizarras em Manaus ou Porto Alegre. Nesses “cultos” você ouvirá os mesmo clichês, as mesmas formas de pregação, os mesmos temas e até a mesma indumentária dos pregadores. É um imitando o outro, pessoas que negam sua personalidade.
É comum na literatura pentecostal apostilas e livros com o título Como receber o Batismo no Espírito Santo[1]. Ora, como ousam usar uma linguagem totalmente de tecnólogos (como fazer) para uma atividade do Espírito. É certo que nas Escrituras se encontraram princípios para uma vida plena no Espírito, mas não em processos semelhantes a montar uma geladeira. Você não encontrará dicas do que fazer ou deixar de fazer!


“Aqui você não prega SEM gravata. Aqui você não prega COM gravata”

Não é que a comunidade cristã deve ser um lugar sem ordem, sem liturgias, sem planejamento; longe disso, a igreja necessita de uma ordem bem estabelecida. O que nunca deve acontecer é que regras de ordem para culto tornem-se absolutas, intransponíveis e sacralizadas. É preciso lembrar que muitas igrejas que primam por uma liberdade são também formalistas. Há casos de igrejas onde é proibido pregar sem gravata, assim também como igrejas onde é proibido pregar com gravata. Uma diz que é questão de costumes denominacional, a outra insiste em dizer que tem liberdade no Espírito, mas ambas são formalistas.

Conclusão

Formalismo é sufocante e desnecessário. Cria problemas em lugar de soluções. Fere as Sagradas Escrituras quando pensa que a honra. Massacra o humano em lugar de construir a Eclésia. Combater o formalismo não deve ser lugar para anarquias espiritualizadas, mas sim jogar fora um legalismo enrustido.

Notas:

[1] No Brasil há uma obra do teólogo Donald Gee cujo título é Como Receber o Batismo no Espírito Santo, distribuída pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD). É bom observar que o título da obra original em inglês, lançada em 1932, era Pentecost. As primeiras edições do livro no Brasil, em 1987, eram intituladas Pentecoste, sendo uma tradução literal do inglês, mas por algum motivo a editora mudou o título inadequadamente no ano 2000. Outro título famoso no Brasil é o livro Como Receber o Batismo no Espírito Santo de Gordon Lindsay, lançado pela Graça Editorial.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A mania de perseguição dos evangélicos e a sua crise ética

Um dito “apóstolo” com uma “bispa” entram com milhares de dólares não declarados nos EUA e são presos. De quem é a culpa? Da Rede Globo, é claro! Uma igreja é acusada de esquentar dinheiro em paraísos fiscais. De quem é a culpa? Da Folha de São Paulo, é lógico! Deputados evangélicos são acusados de esquemas na máfia das sanguessugas. De quem é a culpa? Adivinha... Vai ganhar um doce quem disse “a grande impressa”. A síndrome de Adão ataca muitos “evangélicos” quando os mesmos são acusados de graves crimes. Logo, são prontos para atacar outros e se livrarem da culpa, ou pelo menos dizem que estão sendo perseguidos. Será pela causa da justiça?
Boa parte dos evangélicos apresentam essas duas síndromes, sendo a paranóia de perseguição e síndrome de Adão (buscando uma Eva como bode expiatório), que sempre acusa os outros pelos seus “pecadinhos”. O engraçado é que a suposta “perseguição” aos evangélicos estão atrelados aos escândalos, especialmente na área financeira. Por que ninguém foi preso por fazer evangelismo pessoal? Não seria um claro sinal de perseguição?
O que a sociedade brasileira cobra, inclusive a impressa, é que a comunidade evangélica não viva com hipocrisias, onde dizem proclamar a Palavra de Deus e ao mesmo tempo estão metidos em roubos e outros “jeitinhos” tipicamente brasileiros. Enquanto a igreja evangélica falar uma coisa e viver outra sempre será destaque negativo na grande e terrível imprensa.

Imprensa e Igrejas

Não é que a mídia seja santa. Nada disso! Os veículos de impressa costumam sempre destacar o lado negativo em detrimento das bonitas obras promovidas por outros cristãos. A Rede Globo, por exemplo, coloca todos os evangélicos em um único saco junto como o Sr. Edir Macedo e o mesmo se aproveita da situação para se alinhar com os evangélicos como um perseguido, por uma questão meramente de preconceito religioso. Será? Edir Macedo se alinha aos evangélicos quando convêm, como 1992 quando foi preso sob acusação de charlatanismo e curandeirismo. A Globo certamente não apresenta simpatia pelos evangélicos, pois seu principal concorrente é um suposto bispo evangélico. O pastor Vinícius Guimarães, em entrevista para a Revista Eclésia sintetiza muito bem essa luta:

A primeira (estratégia) parte da Globo, que tenta ridicularizar os evangélicos para desmoralizar Edir Macedo. O alvo aí não são os crentes, mas ele. A outra é da Record, que tenta orientar a opinião pública dos protestantes brasileiros usando argumentos nada confiáveis para disseminar uma inquisição e uma caça às bruxas contra a Globo.[1]

Perdeu tempo aqueles inúmeros pastores, entre eles alguns assembleianos como Silas Malafaia e Jabes de Alencar, que ficaram defendendo o Sr. Edir Macedo, não percebendo que a briga dele com a Globo é uma mera questão comercial. Edir Macedo e a sua IURD não têm preocupação com a comunidade evangélica, exemplo disso é a Record, que nunca apresenta programas de outras igrejas.

Perseguição do além

Quando a Globo não persegue, os evangélicos costumam acusar o diabo. Nessa paranóia é necessário “amarrar” o coisa-ruim, untar portas com “óleo ungido”, quebrar as maldições hereditárias, além descarregar toda a macumbaria. Esses “cristãos” esquecem que o “maligno não lhe toca” (I Jo 5.18). O diabo e os seus demônios são realmente perigosos, mas somente a comunhão com Deus mantém o cristão longe de seus ardis, e não surradas frases de efeito.

Crise Ética

O autor desse texto viu uma cena que deveria arrepiar qualquer cristão com bom senso. Quando o mesmo estava fazendo compras na Rua Conde de Sarzedas, famosa via do centro de São Paulo que reúne inúmeras lojas de artigos evangélicos (Bíblias, CDs, DVDs, livros, revistas, roupas e outros), viu vários vendedores ambulantes (e crentes) correndo da polícia por estarem vendendo produtos piratas, principalmente CDs e DVDs de músicas e pregações. Isso só é uma ponta de uma crise ética que assola a comunidade evangélica.
Pastores que fazem terrorismo psicológico para que o seu rebanho dê gordas ofertas; falsos milagres e testemunhos; compra de votos por parte de “representantes da igreja”; pirataria gospel; mercantilização da fé; nepotismo nas lideranças eclesiásticas e outros crimes (diante dos homens e de Deus) têm sido descaradamente praticados em muitos ambientes religiosos. Faz-se urgente que Jesus entre novamente no templo, expulsando os seus vendilhões.
Como muita propriedade o pastor Ricardo Gondim escreveu:

Acontece que a igreja evangélica vem tropeçando em várias questões éticas; repetindo entre o clero os mesmos erros dos líderes políticos; amando o dinheiro, igualzinho ao mundo. A pergunta inconveniente, mas necessária, é: para que o mundo precisaria persegui-la? Os evangélicos são inimigos de si mesmos. Réus e vítimas de suas próprias doenças não provocam a indignação de ninguém; pelo contrário, são, muitas vezes, dignos de pena. [2]

Uma igreja que não consegue ser sal e luz perde a sua razão de existir, pois a mesma não consegue transmitir as boas-novas de Cristo Jesus. Uma igreja que consegue ser campeã em escândalos e notícias jocosas, precisa urgentemente rever os seus conceitos. A crise ética e moral é uma dura realidade no meio evangélico, inclusive nos ambientes ultra-mega-conservadores, pois o legalismo não isenta ninguém de tropeço ético, pelo contrário, intensifica!
O teólogo Paulo Romeiro lembra que “quando alguém não leva a Bíblia a sério teologicamente, a ética cristã fica comprometida” [3]. Enquanto os púlpitos continuarem sendo ocupados por animadores de auditório, palhaços sem talento, gritarias sem fim e descompromissado com o ensino substancial da Palavra de Deus, a crise ética se alastrará.

Pequenas igrejas, grande negócios

Alguns observadores começam a perceber uma saturação de denominações e pequenas igrejas no Brasil. Funcionando como “supermercados da fé”, onde faixas apresentam os clichês motivadores, como “Pare de Sofrer”, “Aqui é o Lugar da Benção”, “Entre e Conquiste sua Vitória” etc.; essas igrejolas começam a tornar cada vez mais difícil o trabalho de evangelismo por parte dos evangélicos, pois a identidade protestante fica cada vez mais distante e a Bíblia menos proclamada. A confusão já está instalada na mente do brasileiro.
É claro que existem inúmeras igrejas sérias, seja entre antigas denominações, assim como as mais recentes, mas no decorrer do tempo ouve uma explosão numérica sem acompanhamento de qualidade na essência.

Conclusão:

Temas como caráter cristão e fruto do Espírito deveriam ser destacados em uma igreja que valoriza os carismas. As exortações paulinas precisam ser lidas com mais freqüências nos púlpitos do que as promessas de prosperidade pré-exílicas feitas a Israel. Os cristãos precisam voltar a ser exemplos de integridade. O Evangelho deve ser vivido...

Referências Bibliográficas:

[1] STEFANO, Marcos. O Evangelho Segundo Duas Caras. Revista Eclésia, São Paulo, Ano 11. Ed 123. p 24-31.

[2] GONDIM, Ricardo. Sem Perder a Alma. 1 ed. Rio de Janeiro: MK Editora, 2008. pp 64,65.

[3] ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. 4 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. p 18.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Cura divina [segunda parte]: Doenças e demônios!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Nos “cultos” de cura normalmente um evangelista chama os doentes e inicia sua oração: “Demônio da leucemia, saia agooooooora!”. Enquanto isso outros expulsam os “demônios” da gripe, da AIDS, do reumatismo, da hipertensão etc. Nessas reuniões há um conceito estranho: Doença é igual a demônio e esse demônio está presente no corpo do oprimido, mesmo sendo um cristão autêntico. Portanto, doenças precisam ser expulsas veementemente e inteiramente rejeitadas.


Quantas orações são feitas expulsando as doenças como se fosse um exorcismo? Os adeptos da “batalha espiritual” costumam declarar: “gripe, sai desse corpo”; “dor de cabeça, sai agora” etc. Por que não oram assim: “Senhor Deus, cure essa pessoa dessa terrível doença”?


Muitos cristãos têm uma imaginação e criatividade fantástica. Alguns como C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien usaram esse dom para criar enredos maravilhosos, mas enquanto isso outros usam sua imaginação fértil para "teologar" com especulações. De onde alguns tele-evangelistas tiraram essa ideia de que doença é um demônio específico com nome e certidão de nascimento? Esse fascínio por demônios encontra base escriturística?

01. O que são doenças?

Segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa a doença é uma: “alteração do organismo como um todo ou de qualquer de suas partes, marcada por rápida evolução dos sintomas que têm caráter mais ou menos violento, terminando (ger. em período curto) na recuperação ou morte”. As causas das doenças são as mais diversas, pois um câncer, por exemplo, pode nascer em fumantes compulsivos ou em uma pessoa exposta a radiação derivada de uma torre elétrica. Algumas doenças são hereditárias e outras são resultados da avançada idade (Exemplo: mal de Alzheimer).


O avanço da medicina já ajudou na cura ou erradicação de inúmeras doenças que antes matavam centenas de milhares. A cada dia nasce outras doenças novas ou renascem aqueles que haviam desaparecido. Portanto, a ciência tem desafios novos todos os dias. Há, inclusive, doenças que nascem e se espalham a partir da busca de uma cura ou antídoto como a famosa “gripe do frango”.

02. O que são demônios?

Segundo o Dicionário Bíblico Wycliffe os demônios: “são indubitavelmente reais, seres individuais tendo personalidade e conhecimento sobre Deus e os homens” [1]. Esses seres perversos procuram prejudicar e deturpar o estado natural das coisas. Os demônios podem possuir um indivíduo, maltratando e prejudicando o oprimido ou possesso, além de induzi-lo na iniquidade.


Como pessoas dotadas de inteligência, os demônios não são doenças, mas podem provocá-las; os demônios não são pecados, mas podem "tentar". Portanto, incorre a um equívoco aqueles que dizem: “Zé Pilintra é o demônio do alcoolismo” ou a “Pomba-Gíria é o demônio da imoralidade sexual”.

03. Os demônios podem causar doenças?

Sim, os demônios podem causar doenças físicas (Mt 9.32,33; 12.22; 17.14-18; Mc 9.17-27; Lc 13.11,16). Há muitas pessoas oprimidas por Satanás e os seus demônios que sofrem com doenças conhecidas ou não da ciência moderna. Essas pessoas oprimidas podem ser possessas ou não possessas. Esses oprimidos necessitam de libertação. Os textos acima citados não mostram convertidos na situação de possessos por demônios e doentes ao mesmo tempo e, também, os versículos não nomeiam os demônios opressores como determinados especialistas em enfermidades.


Lembrando que os demônios não são a causa de todas as doenças, pois a velhice, a má alimentação, a hereditariedade e outros fatores naturais levam para enfermidades. Quando se tem o discernimento que uma doença tem sido provocada diretamente por um espírito maligno, então há lógica na oração para expulsar os demônios.

04. Crentes endemoninhados?




As Escrituras declaram que “todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (I Jo 5.18 ARA). O crente autêntico está guardado (Rm 8.38,39), pertence ao Reino dos Céus e está alistado para a luta contra as trevas (Ef. 6.12). Portanto, crentes não terão doenças que são frutos de possessão maligna.

O neopentecostal Kenneth E. Hagin acreditava que os demônios não podem possuir o espírito do autêntico cristão, mas somente o seu corpo e alma [2]. Em um desastrado tratado exegético, Hagin cria uma tricotomia não coligada. Hagin consegui desenvolver em sua imaginação uma espécie de "semipossessão".

Conclusão

Doentes por causa de uma possessão existem muitos, mas não entre cristãos autênticos. Mas nem todas as doenças têm na operação maligna a sua causa primária. . É necessário discernir quando alguém está simplesmente enfermo ou oprimido. E, sempre lembrando que Deus cura e liberta!

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 534. O pastor Waldomiro Francisco declara que o “termo ‘demônio’ é aplicado na Bíblia Sagrada, tanto no Antigo como no Novo Testamento, qualificando as ações e os fenômenos psíquicos ou espirituais das manifestações diretas ou indiretas dos anjos caídos, pois os mesmos não são conhecidos por nomes pessoais; qualificam as suas funções e serviços”. In FRANCISCO, Waldomiro. A Doutrina dos Anjos e Demônios. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 71.

[2] Esse conceito é defendido no livro O Nome de Jesus (Graça Editorial), p. 95.

[3] “Hagin vê possibilidade de um demônio possuir a o corpo de um cristão. Nessa concepção, o corpo é inferior ao espírito, semelhante o pensamento platônico. Muitos dos conceitos expostos são semelhantes aos apresentados pelos gnósticos, seita muito combatida pelos apóstolos Paulo e João e os Pais da Igreja. O gnosticismo se relaciona com o neoplatonismo e tem várias características em comum, entre elas essa visão tricotômica distorcida”. In SIQUEIRA, Gutierres. A dicotomia sagrado/profano. Leia o texto completo: http://teologiapentecostal.blogspot.com/2007/09/dicotomia-sagradoprofano.html

domingo, 7 de dezembro de 2008

Cura Divina [parte 1]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A cura divina é um tema recorrente no meio pentecostal. Os cristãos, de maneira geral, acreditam que o Senhor pode curar os doentes. É comum reuniões onde pastores proclamam com triunfalismo contra as doenças e os seus males. Há reuniões de cura, pastores que dizem ter um ministério voltado para cura divina, campanhas e vários livros sobre esse tema. Cura divina também é um assunto controverso. Há muitos equívocos que serão tratados neste artigo.

F. F. Bosworth e sua influente teoria

Fred Francis Bosworth (1877-1958) foi um pioneiro pentecostal nos EUA. Contrariando a doutrina da “evidência inicial” se desligou das Assembleias de Deus em 1918. Nesse período se filiou a Christian and Missionary Alliance e desenvolveu um ativo ministério de cura. Teologicamente foi grandemente influenciado por E. W. Kenyon, a semelhança de Kenneth Hagin. Bosworth, no início dos anos 50 se uniu com o controvertido William Branham [1].

F. F. Bosworth escreveu o livro Cristo, Aquele que cura, publicado no Brasil pela Graça Editorial. Esse livro influenciou uma geração de pregadores carismáticos como Kenneth Hagin e Tommy Lee Osborn. O missionário T. L. Osborn, baseado no livro de Bosworth, escreveu sua famosa obra Curai Enfermos e Expulsai Demônios.


Bosworth defendia a tese que toda doença são “opressões demoníacas”. Seus seguidores, como o próprio heresiarca William Branham [2] sempre oravam da seguinte maneira: “Sai dele/sai agora/ demônio da doença tal, sai agora!”. Esse tipo de pensamento e oração é ainda possível de ser vista em muitas igrejas pentecostais e carismáticas. Colaborando com esse pensamento os adeptos da Confissão Positiva têm ensinado isso em suas
igrejas, além de livretos e CDs de mensagens [3].


Equívocos de Bosworth


É claro que os demônios podem oprimir pessoas por meio de doenças, sejam cristãs ou não (Jó 2.7; Lc 13.16; At 10.38 e II Co 12.7). Afirmar categoricamente que toda doença é fruto de opressão demoníaca cheira a mais absurda conclusão doutrinária. Há doenças cuja causa são a velhice, epidemias mundiais, maus cuidados com o corpo e a mente.

Outros equívocos relacionados podem ser vistos nos promotores da Confissão Positiva que afirmam:

A) A doença é fruto do pecado!

Ora, o pecado pode realmente causar enfermidades. A embriaguez, por exemplo, pode acarretar diversas doenças. São as conseqüências do pecado (II Cr 26.19-20; Jo 5.14). Deus sempre perdoa o pecado, mas nem sempre tira suas conseqüências. Pela sua graça Ele perdoa e pode apagar as consequências do pecado. O pecado pessoal é uma fonte para doenças, mas nem toda doença é fruto do pecado pessoal. Todas as doenças vêm da maldição do pecado original, mas é preciso separá-lo do pecado pessoal.

B) Os doentes são pessoas com falta de fé!

Esse é um dos maiores absurdos proclamados pelos triunfalistas. Ora, uma pessoa que se mantém fiel ao Senhor e ainda assim tem em si uma doença crônica é um exemplo de grande fé. A fé não é atributo somente de vitoriosos, mas muitas vezes daqueles que sofrem com paciência. Leia todo o capítulo 11 de Hebreus e você verá vitoriosos e perdedores na galeria dos heróis da fé. Muitos cristãos são doentes e depressivos por causa dessas e doutras mentiras proclamas em púlpitos irresponsáveis.

C) As doenças são demônios que precisam ser expulsos!


Como dito acima, um crente pode ser oprimido por uma doença, cuja causa é um demônio, mas ele nunca ficará possuído. Câncer, gripe, pneumonia, lepra, AIDS, catapora e outros não são demônios. Ora, são doenças e ponto final. Portanto, é ridícula essa oração em que as pessoas pedem “sai demônio da gripe, sai demônio da depressão”!. Com esse tipo de oração ficNegritoa implícito duas coisas: ou você acredita em uma heresia de "crente endemoninhados" ou você não sabe a diferença entre uma doença e um ser pessoal (no caso, o demônio!).


Notas e Referências Bibliográficas

1. Para mais informações sobre a vida e ministério de F. F. Bosworth leia em: ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p 135-136.

2. Sobre a vida e heresias de William Branham, leia no artigo do apologista Natanael Rinaldi: http://www.icp.com.br/36materia1.asp

3. No Brasil o maior divulgador das idéias de F. F. Bosworth é o missionário R. R. Soares.