domingo, 8 de fevereiro de 2009

(Neo) Liberalismo Econômico e os Cristãos

Vejo muitos líderes cristãos criticando o regime econômico neoliberal. É claro que nenhum regime está livre de erros e eventuais críticas, mas a minha principal preocupação é que muitos desses estão simplesmente repetindo como papagaios aquilo que os esquerdistas políticos dizem e escrevem. Não, o neoliberalismo não é um regime descrito nas Escrituras, não é isso que eu estou dizendo, mas somente alertando que devemos estudar melhor até questões econômicas antes de sairmos emitindo opiniões.

Quais foram e ainda são as conseqüências da implantação do neoliberalismo no mundo? Vejamos:

01.   1. A única coisa sensata aplicada pela ditadura comunista chinesa foi o neoliberalismo, que só na China já tirou 400 milhões de pessoas da miséria nos últimos quinze anos.

02.  2.  De acordo com pesquisa do professor Arthur Brooks, da Universidade Syracuse, os grupo dos neoliberais são os que mais praticam e investem em obras sociais.

03.   3. Do início dos anos 90 para cá, a renda e a maior redução da pobreza pode ser vista nesse planeta, coincidindo com a implantação do neoliberalismo em vários países ocidentais e orientais.

04.   4. Os maiores exemplos de “milagres” econômicos nesses últimos anos foram vistos em economias de mercado, como Chile, China, Índia, Coréia de Sul, Vietnã e até no Brasil.

05.   5. O esquerdismo latino sofre da “síndrome da Adão”, ou seja, colocam sempre a culpa nos outros por sua incompetência. Eles dizem: - “Somos pobres e a culpa é dos EUA”; “Somos miseráveis, mas seríamos melhores de Reagan e Thatcher não tivessem existido” etc.

06.  6.  Joan Robinson já dizia: “Pior que viver num país explorado pelo capitalismo é viver num país não explorado pelo capitalismo”

07.   7. Os países economicamente neoliberais, se dantes ditaduras, tendem a abertura política e social.

Eis um assunto polêmico, mas não menos importante. Precisamos refletir melhor sobre tais fatos, principalmente nesse momento de crise econômica mundial.

5 comentários:

Charles Fernando disse...

Boa Gutierres! Apesar de quase nunca comentar aqui, estou sempre acompanhando e compartilhando seus ótimos posts!

Anônimo disse...

Caro Gutierres, salutar este debate. Abaixo, um post para apimentar o debate;


A guerra cultural do neoliberalismo

Ulrich DUCHROW


Desde os Documentos de Santa Fé II (1988) e os documentos secretos da Conferência dos Exércitos Americanos (1987) é bem sabido que os EUA e os seus aliados econômicos, políticos e militares na América Latina olham a ideologia e a religião como o principal campo de luta na guerra contra a mudança social (cfr. U. Duchrow/Eisenburger/J. Hippler, Total War Against the Poor, New York 1990). Chamam-no de “guerra cultural” por meios “psico-sociológicos”, e “conquista dos corações e das mentes do povo”. Esta guerra lhes é necessária, porque nenhum sistema de poder, seja econômico, político ou militar, pode sobreviver a longo prazo sem legitimidade.

Nem sempre se percebe que esta reflexão é mais antiga do que aqueles documentos. Alem da quebra do capitalismo liberal sob a hegemonia britânica na Grande Depressão (1929) e da primeira e segunda guerras mundiais, os ideólogos e economistas liberais se sentiram derrotados e dispersos (nos EUA se chamam a si mesmos de “conservadores”, a maior parte deles reunida politicamente no partido republicano). Sentiram-se isolados no tempo da política do “New Deal” nos EUA, diante da “economia social de mercado” européia e da política da ONU para a emancipação diante dos governos coloniais e do “desenvolvimento” do “Terceiro Mundo”, depois da segunda guerra mundial. Recentes estudos têm mostrado como estes intelectuais se organizaram para recuperar a hegemonia ideológica (cfr. R . Cockett, Thinking the Unthinkable. Think tanks and the Economic Counter-Revolution, 1931-1983, London 1994; B. Walpen, Die Offen Feinde und ihre Gesellschaft. Eine hegemonietheoretische Studie zur Mont Pèlerin Society, Hamburg 2004).

O principal instrumento para conquistar o poder foi a Sociedade do Mont Pèlerin (MPS), chamada assim pelo lugar em que foi citada pela primeira vez em 1947. Formou uma rede transnacional de intelectuais neoliberais que já haviam tentado anteriormente desenvolver meios para conseguir recuperar as idéias liberais. No começo foi o Colóquio Walter Lippmann de 1938. Em Genebra, o Instituto Universitário de altos Estudos Internacionais (IUHEI) tinha começado trabalhar contra as teorias “coletivistas” (desde o socialismo ao keinesianismo). No Reino Unido se fundou “Aims of Industry”, um grupo de pressão em favor dos empresários partidários da livre empresa, assim como a “Society for individualists”, o “Progress Trusst” e a “Liga Nacional pela Liberdade”. Nos Estados Unidos surgiu depois a American Enterprise Association, em 1943, chamada depois “Fundação para a Educação Econômica” (FEE), entre outras iniciativas. Foram fundados também jornais como “Hombre Libre” e “Fe y Liberdad”.

O principal a dar impulso ao MPS foi Friedrich August von Hayek. Escreveu o livro chave “O caminho e a escravidão” (1944), que foi uma espécie de catalisador para os argumentos dos neoliberais. Outro ator chave no MPS foi Milton Friedman da Chicago School of Economics, que foi chamado por Pinochet para implementar a primeira economia neoliberal no Chile, antes mesmo que Tatcher e Reagan a introduzissem no Reino Unido e nos EUA. Em uma entrevista ao jornal “El mercurio” (Santiago 19.04.1981) Hayeck mostrou o que significa o capitalismo neoliberal para os pobres, para aqueles que não têm propriedade privada ou não têm trabalho, a saber, serão sacrificados:

“Uma sociedade ‘livre’ (ou seja de mercado) precisa de uma moralidade que em definitivo se reduza à manutenção da vida, não à manutenção de toda a vida, já que poderia ser necessário sacrificar algumas vidas individuais com o fim de salvar um número maior de outras vidas. É por isto que as únicas regras de moralidade são aquelas que levam a um ‘cálculo de vida’: propriedade e contrato”.

Para resistir a esta guerra cultural e ideológica que se leva a cabo contra os pobres até o dia de hoje, é crucial desenvolver alternativas teóricas e práticas. O economista costarriquenho Franz Hinkelammert e eu mesmo temos tomado um dos temas centrais que tem um papel estratégico na crítica do capitalismo neolibe-ral, assim como no desenvolvimento de alternativas: o tema da propriedade (U. Duchrowl/ F.J. Hinkelammer, Property for People, Not for Profit, Londres 2004; A vida e o capital. Alternativas à ditadura global da propriedade. DEI San José 2002). Analisamos as raízes de uma economia baseada na propriedade privada e os mecanismos do dinheiro, do século oitavo da Grécia, sobre a propriedade privada; olhamos também as formas incipientes de resistência e de alternativas nas tradições bíblicas, a história do capitalismo moderno e as possibilidades de uma nova “ordem de propriedade” a partir de baixo, incluindo os aspectos legais, econômicos e sociais. O que faz falta é desenvolver uma estratégia de reaproximação do povo numa perspectiva pos-capitalista. No nosso livro nos inspiramos na Bíblia que, sobre a base da tese teológica de que a terra pertence a Deus (Sl. 24.1) e portanto não pode ser comercializada (Lv. 25,23), limita a propriedade como valor de câmbio para a criação de riqueza dos seus proprietários. A Bíblia prevê também mecanismos de restauração quando a situação se deteriora (regulamentações do sábado e do jubileu, por exemplo, em Dt. 14 e 15). Também anima a resistir (Dn. 3) e a desenvolver alternativas em comunidades de aliança no discipulado de Jesus Cristo (At. 4,32-35).

Assim, pois, temos sólidos recursos para resistir à batalha ideológica dos neoliberais. Eles recebem as suas bênçãos religiosas tanto dos ataques do cardeal Ratzinger à teologia da libertação como dos documentos secretos dos exércitos americanos, da “teologia da prosperidade” e de alguns setores dos neopentecostais sustentados por grupos norte americanos, ou de centros pensantes (think tanks) , como o “Instituto para a Religião e a Democracia” de Washington DC com ideólogos como Michael Novak. Mas nós temos a Torá da Bíblia Hebrea e o Evangelho de Jesus na perspectiva do Reino de Deus.

É verdadeiramente animador ver que a nível mundial as Igrejas começaram utilizar estes recursos e a clarear as suas posições. Tanto nas suas palavras como nos seus atos. Desde os fins dos anos 90 a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas (WARC), o Concílio Mundial das Igrejas e a Federação Luterana Mundial (LWF) entraram em um “comprometido processo de reconhecimento, educação e confissão diante da injustiça econômica e da destruição ideológica”.

Em 2003 a LWF( Luterana) declarou na sua 10ª Assembléia:

“Como comunhão que somos, devemos enfrentar a falsa ideologia da globalização econômica neoliberal, confrontando, convertendo e mudando esta realidade e os seus efeitos. Esta falsa ideologia é fundada sobre o suposto que o mercado, construído sobre a propriedade privada, a competência irrestrita e a liberdade de contra-to, é a lei absoluta que governa a vida e a sociedade humanas e o meio ambiente. Isto é idolatria e leva à exclusão sistemática daqueles que não têm propriedade, à destruição da diversidade cultural, à anulação das democracias frágeis e à destruição da terra”.

Em 2004, no seu 23 Concílio Geral, em Accra, Gana, o WARC( Presbiteriano, Reformado e Congregacional) fez uma confissão na tradição da Declaração Teológica de Barmen contra o nazismo (1934). É o documento mais claro do movimento ecumênico até o momento. Declara, entre outras coisas:

“Cremos que Deus é soberano sobre toda a criação. ‘Do Senhor é a terra e a sua plenitude’ (Sl. 24,1). Por isto repelimos a ordem econômica atual imposta pelo capitalismo neoliberal e qualquer outro sistema econômico... que vá contra a Aliança de Deus, por excluir da plenitude da vida os pobres, os fracos e a integridade da criação. Repelimos qualquer pretensão de império econômico, político ou militar, que subverte a soberania de Deus sobre a vida e vá contra o reinado de Deus”

O WCC em seu documento Ágape, para a sua Assembléia, em Porto Alegre (Brasil, 2006), escreve:

“Uma economia de vida nos lembra as principais características do cuidado de Deus com a vida:

-a generosidade da economia da Graça de Deus (oikonomia tou theou) possibilita e oferece abundância para todos;

-a economia gratuita de Deus requer que manejemos a abundância da vida de modo justo, participativo e sustentável;

-a economia de Deus é uma erconomia de vida, que promove a compartilha, a solidariedade globalizada, a dignidade das pessoas e o amor e o cuidado para com a integridade da criação;

-a economia de Deus é uma economia para toda a ‘ecumene’: toda a comunidade da terra.

A justiça de Deus e a opção preferencial pelos pobres são as marcas características da economia de Deus”.

“No contexto da globalização neoliberal, as igrejas são chamadas a expressar pública e explicitamente um compromisso de fé em palavras e obras... fazendo-se solidárias com o povo que sofre e com a terra, e resistindo aos poderes da injustiça e da destruição”.

Em todos estes documentos as igrejas se fazem conscientes de que este tipo de luta ideológica, que se dá tanto no campo das palavras como no dos fatos, só pode ser levado a cabo com êxito construindo alianças com os movimentos sociais, com os sindicatos, com todas as pessoas de boa vontade de qualquer comunidade de fé. Um sinal disto é o lugar escolhido para a 9ª Assembléia do WCC: Porto Alegre. Com esta escolha, o movimento ecumênico está dizendo: abandonamos o nosso casamento com o poder e com o capital. Estamos com o povo que luta pela construção de outro mundo na justiça e na paz.



Ulrich DUCHROW

Heidelberg, Alemanha


Em Cristo

André Tadeu

Anônimo disse...

Ainda sobre o tema. Recomendo a leitura das obras do pastor, teólogo e economista reformado suíço André Biéler. Sua obra prima, “O Pensamento Econômico e Social de Calvino", destrói a fraca tese de Weber a respeito da ligação entre capitalismo e Calvinismo.

Infelizmente, tal obra se encontra esgotada. No entanto, o jornal “O Estandarte”, órgão oficial da Igreja Presbiteriana Independente, comemorando os 500 anos do nascimento do reformador francês João Calvino, relançou, na forma de caderno, o clássico livrinho;” O Humanismo Social de Calvino”, de autoria do mesmo autor. Como um pequeno resumo da obra citada anteriormente, Biéler mostra a total incompatibilidade entre o pensamento original de Calvino e o atual liberalismo econômico. Obviamente, o reformador genebrino não poderia ser classificado como comunista, no entanto, seu pensamento social e econômico é bastante próximo da chamada social democracia européia clássica. Em um trecho, o autor se expressa da seguinte forma:” Nos parece justo falar, a propósito da concepção que Calvino tinha da vida econômica, de um SOCIALISMO PERSONISTA ou, preferindo-se, de um personismo social que busca o equilíbrio sempre renovado entre a proteção dos direitos e bens da pessoa, de um lado, e o respeito às necessidades do conjunto social, de outro".

Por fim, duas citações de Ronald Wallace, em seu livro “Calvino, Genebra e a Reforma (Cultura Cristã)”;

“O espírito de Calvino, em todos os seus ensinos sobre a posse e fluxo da riqueza, parece ser bem diferente do espírito do capitalismo, ao qual seu nome tornou-se tão intimamente associado”. ( pág 83).

“Portanto, o espírito de Calvino não tinha nada em comum com o espírito do capitalismo”. ( pág. 84)

Abraços

André Tadeu.

Gutierres Siqueira disse...

Charles e André Tadeu, a paz!

Obrigado pela contribuição no tema. Em breve escreverei outro texto abordando o assunto e espero os comentários para fomentar esse debate.

Anônimo disse...

Caro Gutierres, irmão em Cristo, paz e bem.

Abaixo, algumas citações retiradas do livro “O Humanismo Social de Calvino”, que, a meu entender, revelam uma posição centro-esquerdista, social democrata ou socialista democrática por parte de Calvino. Obviamente, devemos tomar cuidado com termos e nomenclaturas atuais que não faziam parte do contexto do século 16. No entanto, creio que revelam uma orientação social e econômica do reformador de Genebra que se choca tanto com liberalismo clássico e com sua versão moderna, o neoliberalismo :

“Lembremo-nos de que, com a adoção da Reforma, Genebra já criara a instituição do hospital geral bem como o seguro médico, de velhice e de invalidez. Esse sistema social foi aperfeiçoado por Calvino, que trabalhou para que essa assistência, ORGANIZADA E DIRIGIDA PELO ESTADO- mas exercida pelo ministério eclesiástico dos diáconos- não tivesse discriminações nacionais, provesse a assistência domiciliar e incluísse um serviço de medicina social.” Que haja um médico e um cirurgião, dizem as ordenanças de 1541, às expensas da cidade.....encarregados de cuidar do hospital e de visitar os outros pobres.”

“Para Calvino, a missão política do estado implica, pois, em intervenção na esfera econômica; não tanto como produtor de bens, mas como regulador das trocas econômicas e da distribuição de riquezas. Na ausência desse regulador, o bom funcionamento da vida econômica é corrompido pelo pecado. A ganância e os monopólios obstruem a circulação de bens entre todos, e o esbanjamento de alguns dizima as riquezas da sociedade.”

“A função do Estado com respeito ás riquezas é, pois, em suma a seguinte; ele deve, garantir a propriedade privada, a fim de que haja ordem na sociedade. Mas, de outro, deve velar para que a propriedade não se constitua em detrimento da propriedade de outrem e que ela sirva à coletividade como um todo. A propriedade não é, pois, absoluta. Antes, é LIMITADA E CONDICIONADA. Calvino chega a citar como exemplo a antiga lei judaica que previa a redistribuição periódica das terras e a liquidação de penhoras, de tal modo que a propriedade não se torne jamais uma fonte de opressão social mediante o endividamento progressivo e real.

“ Na perspectiva evangélica, é rico aquele que se encontra numa situação privilegiada em relação ao próximo, qualquer que seja o volume de sua riqueza. Somos sempre ricos em relação a alguém. O rico tem, portanto, uma missão econômica providencial: comunicar ao mais pobre parte de sua riqueza, de tal maneira que o pobre deixe de ser pobre e ele mesmo deixe de ser rico.”

FONTE : O Humanismo Social de Calvino- André Biéler- Caderno 11 de “O Estandarte”

Encerrando, um pensamento do próprio Calvino que caí como uma luva para a atual situação de desemprego que ronda nosso país como fruto da grave crise global. Com cinismo descabido, parte do empresariado brasileiro, representado pela FIESP, propôs a diminuição do salário dos trabalhadores, sem, no entanto, garantir a manutenção do emprego. Vejamos o pensamento do reformador:

“Assim fazem os ricos muitas vezes: espreitam as ocasiões de cortar pela metade o salário do pobre, quando este não tem em que se empregar. Ele nada tem, dirá o rico, posso usá-lo em troca de um pedaço de pão; apesar de seus dentes, ele se renderá a mim; pagar-lhe-ei meio salário e ele ainda ficará contente. Quando isso se der, ainda que não tenha retido o salário, comete-se a crueldade e fraude contra um pobre ser humano”.

João Calvino.

Palavras atuais para o contexto neoliberal, que busca flexibilização de direitos dos trabalhadores.

Abraços

André Tadeu.