sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Superioridade da Mensagem da Cruz

Subsídio para as Lições Bíblicas (CPAD): I Coríntios- Os problemas da Igreja e suas soluções

OBS: Leiam antes I Coríntios 2.1-10, pois essa lição baseia-se nesses versículos

A genuína pregação cristã é bíblica, cristocêntrica e evangélica. Bíblica, pois deve estar pautada nas Sagradas Escrituras; cristocêntrica, pois deve apresentar sempre Cristo no centro e evangélica, pois nunca pode desprezar as riquezas dos ensinos contidos nos Evangelhos.  O evangelho é uma boa notícia, porém pouco atrativa, soa como loucura e ainda por cima é tratada com escárnio. Evangelho não combina com popularidade, não combina com a manutenção do status quo, não combina com a corrupção degenerada desse mundo. Diante do desprezo, a mensagem da cruz mostra sua superioridade.

01.   A Natureza da Pregação Bíblica (2.1-5)

Paulo ensina aos coríntios que a sua pregação era pautada na simplicidade, sem uma retórica exuberante e carregada de clichês filosóficos e acadêmicos. Paulo tinha consciência que o culto não era uma cátedra universitária, e muitos menos a ágora grega (v.1). Esse primeiro versículo do capítulo segundo não pode ser tomado para interpretações antiintelectuais, pois muitos erroneamente usam esse trecho bíblico para fazer apologia de sua preguiça acadêmica e desprezam o estudo sistemático da Bíblia e da teologia.

Paulo está ensinando que o pregador não pode usar a pregação para exibicionismos. Para se exibir no púlpito não é preciso aparentar sabedoria, como em Corinto; muitos fazem seus shows particulares, com exorcismos exuberantes, oratória grave (tipicamente pentecostal) e milagres (se verdadeiros ou não, não se sabe). Trazem toda a glória para si, e não para Deus.

Pela graça de Deus, o entendimento do Evangelho não necessita de uma poderosa oratória ou de um discurso filosófico refinado. Se assim fosse, boa parte da humanidade, ainda analfabeta, estaria privada de entender as boas novas. Agora, isso não significa que a liderança cristã deva desprezar o entendimento filosófico ou que deve desprezar a homilética, pois para a preguiça não existe desculpas bíblicas.

 Paulo tinha uma pregação simples, mas não superficial. A diferença entre simplicidade e superficialidade é abismal. Não se deve confundir uma coisa com a outra. A igreja necessita de alimento sólido, pois o leite deveria estar reservado para os neófitos. Infelizmente, hoje a igreja evangélica brasileira está cheia de analfabetos bíblicos, começando de grandes lideranças.

Hoje, muitos preferem determinados tipos de pregadores. Normalmente os que gritam mais, fazem mais espetáculo, costumam lotar os templos. A Casa do Pão torna-se casa do entretenimento. Esquecem que o mais importante não é o mensageiro, e sim o conteúdo da mensagem. Normalmente, esses gritadores deixam muito a desejar quanto ao conteúdo, pois são superficiais como um pires.

Esse primeiro versículo também ensina que o convencimento do pecador não está nas estratégias humanas, por mais bem intencionadas que elas sejam. O homem não pode convencer ninguém do pecado, da justiça e juízo; pois somente o Espírito Santo é capaz desse convencimento (cf. Jo 16.8).

Uma leitura atenda da obra de Paulo, permite ver um homem de grande eloqüência e sabedoria, mas que nunca usou isso para estrelismo. Portanto, fuja de pregadores que promovem o “culto a sua personalidade”. Você, pregador, tome sua predita pela modéstia e humildade, sempre preparando a mensagem com muito cuidado e esmero. A pregação deve ser natural, não parecendo um artista de circo, um locutor de futebol ou um vendedor de feira. Infelizmente, o meio pentecostal está cheio de pregadores personalistas, orgulhosos, exibidos e sem conteúdo nas pregações.

1.1   A genuína pregação bíblica deve ser centrada unicamente em Cristo e sua morte na cruz (v.2).

Paulo fala: “porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (v.2). Ora, se assim todos os evangélicos pensassem, não haveria abundância da superficialidade de auto-ajuda, triunfalismo e o fascínio exagerado por bênçãos. A consciência que o Cristo da cruz é o centro da mensagem cristã perde-se no evangelicalismo moderno, especialmente no seio do pentecostalismo hodierno. O Rev. Hernandes Dias Lopes lembra: “A Cruz não é um apêndice, ela é o núcleo, o centro, o eixo, e a essência do cristianismo” [1] e o Pr. Claudionor de Andrade escreveu: “O nosso púlpito é o Calvário” [2]. Portanto, nenhum pregador deveria esquecer-se dessas verdades.

O que é a teologia da cruz? A palavra cruz apresenta uma significação objetiva com o sacrifício redentor de Jesus Cristo, trazendo salvação aos homens indignos pelo pecado.  A teologia da cruz é a teologia do Cristo crucificado, o Messias redentor e misericordioso. Sendo também o Senhor que justifica, regenera e santifica uma criatura depravada pela mal. Pregar o Cristo crucificado não deve ser uma atitude isolada, em um sermão dominical uma vez por ano, ou nos cultos de Ceia, mas pregar o Cristo crucificado cabe em todos os sermões, independente do texto bíblico exposto.

O Cristo crucificado é o “coração do Evangelho” [3], portanto, constituem-se em uma tragédia as pregações atuais cuja ênfase está presente nas necessidades humanas, nos prazeres da carne e na soberba da vida. Um “evangelho” mundano, onde homens e mulheres enchem igrejas atrás de bênçãos e vitórias. É parte da culpa disso, está em pregadores mercenários, que esqueceram a essência evangélica, que é o Cristo na cruz. Um “cristianismo” pagão, semelhante a qualquer religião ou grupo de espiritualismo alternativo.

1.2 O verdadeiro sentido da Cruz aplicado à vida cristã

A cruz não é um conceito vago, especulativo e meramente simbólico. O Cristo crucificado tem fortes implicações na humanidade e na vida do cristão em particular. Textos como II Coríntios 4. 7-15; Gálatas 6.14 e Filipenses 3.8-12; mostram que a vida cristã vem com sofrimentos, renúncias e um forte desejo de identificação com o Salvador. Tomar a cruz (MT 16.24) é renunciar os egoísmos, suportar as provocações e é também vencer as tentações. Portanto, Jesus não concede graça somente para a salvação, mas também para a santificação, para o viver cristão no mundo pagão. O esforço da salvação está em Deus e o esforço da santificação também está em Deus. Jesus afirmou que sem Ele, nada o homem pode fazer (Jo 15.5).

1.3 A legítima pregação bíblica é poderosa em Deus (v.4).

O que é uma mensagem poderosa? Será aquela regada de muitos gritos, histeria e supostos milagres? Será aquela acompanhada por milhares de pessoas que formam um fã-clube em torno do pregador? Não, nada disso é uma mensagem de poder divino. O poder de Deus manifesta-se na conversão ou no convencimento do homem acerca das verdades espirituais, essa persuasão é divina, é um milagre, portanto aqui o poder de Deus se manifesta. O termo “poder” está normalmente associado a milagres e maravilhas, mas deve ser visto nessa passagem como referência a obra salvadora do Cristo crucificado, principalmente após ler todo o contexto desse capítulo.

É evidente que os milagres acompanham uma pregação bíblica, mas o primeiro poder manifesto sempre será o convencimento por parte do Espírito Santo, trazendo conversões e salvação à vida os ouvintes (At 2.29-33). Existe uma constante por parte dos pregadores de transformarem seus ministérios em “rezadores”, ou seja, pessoas especializadas em milagres. Alguns pastores afirmam que foram chamados para pregarem milagres, mas esquecem que a principal chamada de um ministro cristão é prega Jesus Cristo, e esse crucificado.

No meio pentecostal muitos querem “dar uma força” na pregação, e então começam a usar métodos próprios, com o incentivo a gritaria, pulos, microfones com sons mais altos e até imitação de pregadores mais famosos. Mas como lembra o pastor luterano Gottfried Brakemeier “Quem desconfia da força da palavra de Deus e acha que deve socorrer-lhe com os recursos de sua própria genialidade, seja carismática ou retórica, prega a si próprio, e não a Cristo”[4].

1.4 A autêntica pregação bíblica gera fé (v.5)

A fé vem pelo ouvir e o ouvir a palavra de Deus, como disse Paulo aos Romanos (10.17) Portanto, não adianta inventar. Somente por meio do Evangelho exposto nos púlpitos é que uma genuína fé pode nascer no meio da igreja. Fé não vem por meio de pensamento positivo, não vem por meio de uma crença cega e mística. A fé é produto da Palavra. A fé cristã não é um “poder auto-existe”, pois essa fé não é na fé, e sim em Cristo.  É também uma fé estável, pois não está baseada em homens, mas sim na Palavra de Cristo.

02.   Contrastes entre a Falsa e a Verdadeira Sabedoria (2.6-16)

Um Deus que morre?! Um Deus imortal que é morto por homens mortais?! Ainda teve uma morte terrível da crucificação romana?! Nada mais louco, ilógico e irracional. Todavia, essa é a mensagem da cruz, o Evangelho de Jesus Cristo.

2.1 A sabedoria deste mundo (v.6).

A sabedoria do mundo, no caso, do sistema ímpio e anticristão baseia-se em especulações sem fundamentos. Fazem conjecturas acerca da vida, da existência, da morte etc. Religiões espíritas costumam usar um discurso elitista e com aparência de inteligência, mas negam verdades centrais da fé cristã em conclusões vãs. A religiosidade esotérica muitas vezes quer usar um discurso científico, enganando a muitos incautos. Sendo uma falta ciência, é até ridicularizada por cientistas mais sérios.

É necessário o cuidado de não desprezar o conhecimento científico sério e comprovado. Todos deles se utilizam, sejam cristãos ou ateus. Como diziam os Pais da Igreja, “toda verdade é verdade de Deus”. Portanto, as descobertas científicas e a construção do pensamento advêm da sabedoria divina concedida aos homens, cristãos ou não, mediante a graça comum.  Apesar de todos os benefícios do conhecimento acumulado pelo homem no decorrer dos séculos, esse mesmo conhecimento será aniquilado (13.8) no fim da presente era, enquanto a verdade do Evangelho é eterna.

Portanto, a sabedoria do mundo tem o seu valor, mas não para a salvação. O cristianismo não é gnosticismo. A salvação não é por meio de uma sabedoria secreta, mas sim revelada.

2.2 A sabedoria de Deus (vv. 7-9)

Entender a sabedoria de Deus não se dá pela metodologia científica ou pela apurada investigação jornalística. Somente entendem a sabedoria do Altíssimo aqueles que Ele se revelou, por meio do Evangelho. Ninguém será salvo pesquisando no Google sobre a palavra “salvação” se o Espírito Santo não operar nesse coração.

A sabedoria de Deus era também um mistério (v. 7) até a Encarnação de Cristo. Cristo é o mistério de Deus revelado, a Sabedoria do Senhor exposta para o mundo inteiro. Uma sabedoria que não pode ser conhecida pelo homem natural, o ímpio, mas somente pela revelação do Evangelho (vv. 7-10).

2.3 A sabedoria de Deus revelada pelo Espírito (vv. 10-16).

Como dito acima, a sabedoria de Deus não é simplesmente achada em algum livro escondido na Biblioteca Nacional. A sabedoria de Deus está exposta na cruz, relevada por meio do Espírito Santo. Ninguém se salva, pois essa graça não está nas prateleiras, e sim no coração daqueles que Deus toca por meio do seu Espírito! Então, a partir da regeneração, o Espírito Santo opera na vida do homem, ensinando, guiando, levando a maturidade, batizando no corpo de Cristo, distribuindo dons e acima de tudo santificando.

Conclusão

O Evangelho é poder para salvação. A cruz de Cristo é o tema central dessas boas novas. Portanto, somente por meio de uma exposição cristocêntrica, a igreja estará realmente cumprindo a Grande Comissão.

Referências Bibliográficas:

[1] LOPES, Hernandes Dias. I Coríntios- Como resolver conflitos na Igreja. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2008. p 37.

[2] ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p 74.

[3] MORRIS, Leon. I Coríntios. Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1981. p 41.

[4] BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto- Um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p 37.

6 comentários:

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

1. PArabéns peloa ótima exposição sobre a cruz. Que o Eterno levante homens que não tenham outra mensagem a não ser a cruz. Que não tenham outra "paixão" a não ser a cruz. A cruz de Cristo.

2. Deixo-lhe uma pérola sobre a cruz:

"Só o homem crucificado pode pregar a cruz. Disse Tomé: “A menos que eu veja em suas mãos o sinal dos cravos .... não crerei. O Dr. Parker, de Londres, disse que o que Tomé disse acerca de Cristo, o mundo hoje está dizendo da igreja. E o mundo também está dizendo a cada pregador: A menos que eu veja em tuas mãos as marcas dos cravos, não crerei. É verdade. Só o homem que morreu com Cristo,... pode pregar a cruz de Cristo”.


abraços, Pr Marcello de Oliveira

P.s> visite:

http://davarelohim.blogspot.com/ e veja o texto:

A graça de ofertar - II Co 8

O PENSADOR disse...

Excelente exposição da palavra! Um abraço! Paz...

Pr. Carlos Roberto disse...

Prezado Gutierrez!
Graça e Paz!

Que bela exposição sôbre um tema em extinção em nossos púlpitos.

As palavras do Pr. Marcello de oliveira, talvez expliquem essa ausência.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

Um grande abraço!
Pr. Carlos Roberto

Almeida disse...

Paz do senhor, irmão.

Olá, Gutierrez. Parabéns por esse mais novo texto, muito rico em detalhes referente ao evangelho de cristo, em que verdadeiramente ele é o centro. Que bom seria se as pessoas tivessem essa visão, que você ao longo do decorrer do texto, nos mostrou que devemos observar e tentar ver, ler a bíblia e viver neste mundo seguindo e caminhado uma vida de renuncia e arrependimento, olhando para a palavra de deus apartir de Jesus Cristo, como um centro para todas as demais. Aqui em "off" ,Tenho três meses que confessei que Jesus cristo è senhor, o meu salvador.
E quando me pego pensando, ouvindo, observando o que deus faz e fez por min. E por nós todos. Confesso que meus olhos e o meu coração ficam transbordados de diferentes sentimentos que não sei aqui bem descrever, mas que em min as lágrimas, correm á solta. Resultando em um mover do espírito santo "dizendo" que devo estar em continuo processo de arrependimento.
Parabéns estava precisando ler mais e ouvir palavras como essas.

Saudosamente, em Cristo.

Gutierres Siqueira disse...

Marcello, Pr. Carlos, Pensador e Almeida.

Agradeço por cada comentário e o apoio dado a esse trabalho. Um abraço a todos!

Eduardo Sousa disse...

Parabéns pelo blog. Vou colocar nos meus favoritos. Visite: http://ensinadorcristao.blogspot.com/