quarta-feira, 24 de junho de 2009

Abusos da liderança

“Mesmo se o pastor estiver errado, nós devemos obedecê-lo, pois a Bíblia diz que devemos honrar nossos líderes”. Eu já tive o desprazer de ouvir essa asquerosa frase. Incrivelmente há aqueles que pregam uma obediência cega aos seus pastores. Pessoas que acreditam que os seus líderes são incriticáveis, infalíveis, uma espécie de “papa evangélico” ou no evangeliquês, um “ungido do Senhor”. Pastores que estão acima das Escrituras, pois suas palavras são “inspiradas” por Deus e soam como Palavra do Senhor.

Muitos pastores carismáticos (em ambos os sentidos) usam de um poder persuasivo, com toques de emocionalismo exacerbado, para “manipular” os fiéis. Utilizando supostos “dons” do Espírito (?) para humilhar pessoas, por meio de supostas revelações e profecias e até exigir quantias de dinheiro através de “atos proféticos”. A jornalista Marília de Camargo César escreveu uma reportagem em formato de livro sobre abuso de autoridade por parte de pastores evangélicos, ela conclui:

Uma das conclusões a que cheguei foi que esse tipo de culto fortemente movido pelas emoções confere enorme poder à liderança. E o poder é uma espada que poucos manejam com graça. É fácil errar a mão. É fácil cair na tentação de manipular. [1]

Outros acreditam piamente que maldição de pastor pega. Ou seja, crentes que são ameaçados “espiritualmente” ao trocarem de congregação ou por não acatarem uma decisão do líder, pois esses pastores alertam sobre a grave ameaça de sair de sua “cobertura espiritual”. Certamente se alguém ouvir essa espécie de maldição deve sair o mais rápido possível. Eles são verdadeiros terroristas “espirituais”, uma espécie de “pastor Bin Laden”. Existiria algo mais pagão do que isso? Difícil responder.

E a bajulação?Uma verdadeira praga. Quem disse que pastores devem viver em um modo de vida irreal, com dissonância em relação as suas ovelhas? Há congregações que, tendo pobres em seu meio, pagaram viagens para Israel aos seus pastores. Tudo bem, se o pastor tiver condições de fazer essa maravilhosa viagem, que faça, mas baseadas em uma oferta de uma congregação necessitada, aí não dá. Os espertalhões logo dizem que os críticos são hipócritas e tentam escapar de suas vaidades acusando outros. A mania de grandeza de alguns afeta inclusive seu ministério da pregação (bem rentável por sinal), pois jamais transmitem a Palavra em ambientes desagradáveis. Como escreveu o pastor José Gonçalves: “As ovelhas gemem quando o pastor conhece mais a arte de tosquiar do que a de apascentar” [2].

Em muitas igrejas pentecostais e neopentecostais, com suas estruturas caudilhistas, enxergam seus líderes não como servos, mas como empresários, administradores, CEOs e até minimonarcas. Nessa condição, os mesmos ganham uma cadeira de destaque nos palanques da igreja, sendo a mais bonita das cadeiras. Aliás, qual a funcionalidade daquele palanque cheio de homens engravatados sentados? Lembro que certa vez fui a um casamento, que inclusive estava sendo filmado, e os auxiliares daquela igreja estavam todos no “púlpito”, uma coisa nada haver, um verdadeiro vício dos lugares especiais. O pior é quando acontece alguma festa na igreja, onde visitantes ficam de pé, por causa da lotação, e os diáconos, auxiliares, presbitérios etc., todos sentados naquele palanque.

Ainda há a maldita idolatria. Crentes que não acreditam em santos e imagens de escultura como seus mediadores, mas agem como se seus pastores fosse esses mediadores, por serem pessoas com uma suposta aura especial. Outros líderes encarnam essa idolatria e logo mudam sua nomenclatura para apóstolos, e logo serão conhecidos como semideus. Pessoas que atribuem a si mesmo o poder e os milagres.

Como no texto que escrevi nessa quarta-feira (veja logo abaixo), o abuso das autoridades “espirituais” se dá também por meio de legalismos infantilizantes. Aplicam regras e mais regras além das Escrituras e acabam criando um estado de forte repreensão e medo. Tal ambiente é facilitador de toda sorte de abuso. Portanto, é muito pecado sob a capa de “santidade”, só que essa santidade não é bíblica.

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas também devemos dar graças a Deus pelos bons pastores, que estão longe desses modelos caudilhistas, que não valorizam o poder acima do humano. Pessoas que dedicam sua vida para o crescimento do Reino de Deus e entregam sua vida para uma linda obra pastoral. Portanto, honrai aos bons pastores, denunciai os falsos.

Referências Bibliográficas:

[1] CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em Nome de Deus. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2009. p 19.

[2] GONÇALVES, José. As Ovelhas também Gemem. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 67.

10 comentários:

Newton Carpintero, pr. disse...

Prezamado Gutierres Siqueira,

A Paz do Senhor!

Como alguém poderá ir contra este texto e verdade?

Infelizmente, estamos em um péssimo estágio da igreja, onde consagram, pastores apenas por interesse e interessados.

Ouvi há duas semanas, em uma igreja nos EUA, uma fala de orientação aos presentes, por um pastor brasileiro de renome, em uma igreja de brasileiros o que segue:

"O pastor é o DONO da igreja, e as decisões espirituais - todas - e as administrativas - todas, serão tomadas pelo pastor, e os que não concordam, deverão pedir para ir embora, se não concordarem com a administração ou cuidado com a desobediência."

Não acreditei! Foi um desrespeito aos do ministério, e este exemplo é o motivo que fortalece, cada vez mais, a consagração de interessados e desejosos de cargos.

Vale a pena denunciar, quem sabe o povo para para pensar.

O Senhor seja contigo!

pr. Newton Carpintero
www.pastornewton.com

Juber Donizete Gonçalves disse...

Gutierres,

Parabéns pela postagem. Muitas vezes, se confunde no meio evangélico, submissão a obediência cega, tapando-se os olhos aos abusos cometidos pelas lideranças.

Abraço.

Juber Donizete Gonçalves disse...

Gutierres,

Parabéns pela postagem. Muitas vezes se confunde submissão a obediência cega, tapando-se os olhos aos desmandos das liderenças.

Abraço.

Matias Heidmann disse...

Gutierres,

excelente artigo. O povo precisa crescer e começar a questionar as práticas eclesiásticas abusivas e anticristãs de seus "líderes".
Eu estou cansado deste papo de autoridade espiritual que vem de baixo e não de cima.
Mas parece que, como o povo aceita que sejam abusados e assaltados pelas autoridades públicas, aceita a mesma corrupção na igreja.
Agora seria interessante traçar um perfil psico-social tanto dos líderes e dos liderados.
Abraço,
Matias

Isaias Lobao disse...

Gutierres, sempre em minhas aulas de teologia ao me referir aos "ídolos" evangélicos, digo que a diferença que existe entre os nossos e os católicos; é que os nossos cantam e pregam, enquanto os deles são mudos...

Anônimo disse...

Parabéns pelo artigo , pois é importante alertar as Igrejas sobre o risco de uma liderança despreparada.

ichtusgate disse...

Estamos cheios aos montes de líderes assim. E esse modelo está sendo reproduzido continuamente, é um ciclo.
Parabéns pelo texto.

Pr. Carlos Roberto disse...

Caro Gutierrez!
Graça e Paz!

O assunto é delicado, porém real.
Que o Senhor nos ajude a compreender o real sentido de ser um "Ministro".

Quanto ao com entário do Pr. Newton Carpintero, sobre algo que presenciou, é no mínimo lamentável e vergonhoso.

Entendo que o limite da concordância, deve ser medido pelo crivo da Palavra de Deus.

Mesmo quando não temos forças para mudar a situação, devemos deixar claro nosso posicionamento à luz da Palavra.

Um grande abraço!
Pr. Carlos Roberto

Presbítero Marcelo Mitrach disse...

O que vamos falar a respeito desse tópico, não posso fazer um anexo pois não precisa, não posso fazer uma emenda pois não cabe, e não posso de maneira nenhuma criticar pois é a real VERDADE das igrejas evangélicas, triste, mas porém a VERDADE.

Anônimo disse...

eduado.boas palavras,vivemos nos dia de hoje um dos temas do livro que martinho lutero escreveu:o cativeiro babilonico da igreja