sexta-feira, 26 de junho de 2009

Amor, a Virtude Suprema

Uma reflexão do equilíbrio entre verdade e amor

Subsídio para as Lições Bíblicas (CPAD)- I Coríntios: Os problemas da Igreja e suas soluções

Não se conhece um verdadeiro cristão pelo seu modo de vestir (usos), de falar (evangeliquês), de suas proibições (legalismo), de seus modos (costumes), de suas teologias (correntes de pensamento), mas sim e principalmente pelo amor (cf. Jo 13.35). Todos os aspectos primeiramente citados são secundários diante do amor, pois eles seguem quem pratica essa virtude suprema. Mas e a convergência do amor com a verdade?

Amor ou verdade? Ortopraxia ou ortodoxia?

Dentro dessa lição é importante destacar a relação entre a verdade e o amor. Isso por algumas razões. Em primeiro lugar, existe uma tendência atual de alguns pastores protestantes que abraçam uma “nova espiritualidade”, que destacam a piedade e o amor de modo. O propósito é fazer de todos os crentes “humanos melhores”. Até aí tudo bem. Isso é cristianismo, ou seja, novas criaturas em Cristo Jesus. Mas muitos desses parecem que veem na chamada “velha ortodoxia” um grande empecilho no desenvolvimento da “nova espiritualidade”.

Por que isso? O que a ortodoxia é nociva a uma verdadeira espiritualidade? Por que essa ideia? Nada disso, só somos cristãos completos se tivermos amor e verdade em nossos corações. Amor e verdade são irmãos siameses. Tire um e você distorce o outro. Verdade sem amor é horrível, é o pai da Inquisição. Amor sem verdade é horripilante, é a cegueira espiritual de pessoas com cara de boazinhas. Defender uma “verdade” sem amor é fácil, vejo por exemplos os comunistas, fascistas e nazistas. Defender uma vida de suposto amor sem a verdade é também fácil. Alias, para que eu me pareça bom e politicamente correto, não preciso sequer de religião.

A verdadeira espiritualidade não é divorciada da verdade. As colunas da espiritualidade e suas práticas estão na verdade bíblica. Mesmo as pessoas piedosas de outras religiões ou até mesmo ateais, quando praticam o bem ao próximo, estão na verdade obedecendo a princípios bíblicos, bem que de modo inconsciente. Alguns ateus são defensores de “valores humanos”, tais como a tolerância, respeito, amor, perdão etc. Ora, tudo isso está nas Escrituras. Os princípios são cognitivos a partir de verdades expostas. Parte da verdade de Deus também está exposta no coração dos homens.

Agora, praticar muitas boas obras faz de alguém filho de Deus? De maneira nenhuma. Ser pobre, miserável e desvalido faz necessariamente um homem como filho do Senhor? De maneira alguma. Ora, então isso é injustiça, não é verdade? Não, não é injustiça. Suje sua mão com barro e tente limpar um papel que está sujo que dois ciscos. O que acontecerá? Sua boa obra pôde limpá-lo? Sua boa obra pôde pelo menos melhorar o papel? Agora, experimente uma ducha da torneira, com água corrente e limpa. O que acontecerá? Maravilha! Mãos limpas, que tirando os ciscos dos papéis também melhorarão a qualidade dessa folha.

Pense bem. É lógica. Obras sociais que não alcançam a alma humana adiantam alguma coisa? Sim, adiantam. Adiantam nessa terra, cuja vida passa como um vento. Mas e a eternidade? A missão da igreja só é completa se for integral. Mude o homem nessa terra e apresente a possibilidade de uma eternidade com Cristo. Sim, sabemos que não precisamos chegar ao céu para desfrutar de uma vida digna. Podemos desfrutar dessa vida abundante ainda hoje, sem neuroses, sem desesperos existenciais, sem opressão. Tudo isso é possível dentro de uma comunidade cristã sadia. A comunidade de cristãos tem a missão de ajudar uns aos outros. Como pode alguém do meio da comunidade passar fome? Será que não existe assistência dos irmãos? Que irmão é esse que não ajuda outrem? Prometer o céu fechando as mãos é uma tarefa longe do Evangelho de Cristo. O apóstolo Tiago em sua epístola (2.14-17 BJ) já disse:

Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, o que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento.

Vocês observaram como a última expressão de Tiago: “morta em seu isolamento”? Sim, no isolamento da verdade (sem amor) há morte. O mesmo serve para o contrário. Isolamento do amor (sem verdade) gera morte. Portanto, sempre será uma tarefa diabólica a promoção do divórcio entre a verdade e o amor ou entre o amor e a verdade.

Os perigos da beleza e amor sem a verdade

O romancista inglês G. K. Cherterton criou uma história muito interessante de dois poetas que dialogam em um bairro excêntrico de Londres. Um poeta era anarquista e o outro ordeiro. O poeta anarquista diz:

Um anarquista é um artista. O homem que atira bombas é um artista, porque prefere um grande momento a tudo o mais. Esse homem percebe que valem muito mais detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. Um artista afronta todos os governos, omite todas as convenções. O poeta só está à vontade na desordem. Não fosse assim a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea... Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados, tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. É porque sabem que o trem está na rota certa. [1]

O poeta ordeiro responde:

É você que é antipoético... Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro, só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos com a sua poesia. O maravilhoso, o raro, está em chegar à meta. O vulgar, o insípido, está em não atingi-la. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. No caos o trem poderia ir a qualquer parte, a Bakar Street (Londres) ou a Bagdá... O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjoo no mar. É um estado de revolta. Ambas, a doença e a revolta, podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. Mas, enforquem-me, se posso ver em que são elas poéticas! A revolta, abstratamente, é... revoltante. É mero vômito! [2]

Quando li essa história fantástica da menta criativa de Chersterton, lembrei que muitos dos defensores da espiritualidade divorciada da verdade, parecem com o poeta anarquista, que em nome da beleza, da arte e do amor, defende até a experiência de trabalhar com bombas. Em nosso no amor propõem o terror. Não é isso que muito tem feito? Segundo eles, para uma nova espiritualidade, “mais humana”, é necessário inclusive revisar e descartar certas doutrinas bíblicas. Papo furado. Será que preciso descartar a doutrina da Queda para olhar os homens como a Imagem de Deus? Não, não preciso. O importante é que eu tenha a consciência que os humanos são ao mesmo tempo são pecadores e a Imago Dei.

Portanto, os verdadeiros convertidos são aqueles que equilibram amor e verdade, ortopraxia e ortodoxia. Quem ama ao próximo, primeiro ama a Deus. Quem ama a Deus, obedece a seus mandamentos. Os mandamentos só são conhecíveis pelos princípios da Palavra de Deus.

Referências Bibliográficas:

[1] CHESTERTON, Gilbert Keith. O Homem que foi quinta-feira. s/ed. São Paulo: Círculo do Livro, s/data. p 10.

[2] Idem. p 10-13.

2 comentários:

Paulo Silvano disse...

Caro Gutierres,

Há tempos, descobri um velho problema nosso: o das dicotomizações indevidas (talvez uma herança do nosso jeito platônico de ver a vida). Penso que insistir que amor e verdade são indissociáveis é fazer chover no molhado, pois, caso contário, o amor não é virtude suprema por não ser verdade.
Isso afirmo porque uma dessas dicotomizações indevidas parece propor que somos capazes de exercer amor alienados da verdade e, portanto, de Deus. Ledo engano, penso eu. Toda verdadeira expressão do amor só é possível a partir Daquele que é amor em essência; Deus o criador de todas as coisas. Logo não vejo, como você parece crer, a possibilidade de tirar um para distorcer o outro.

A verdade é intrínseca ao amor e não subsiste fora dele.

A desconfiança que nutrimos com relação a "alguns pastores protestantes que abraçam uma 'nova espiritualidade'" decorre dessa insistência (cuido que a sua seja sincera) em tratar amor e verdade como elementos distintos, cuja convergência é passível dos nossos esforços, o que diga-se de passagem fere o sentido da Graça.
Verdade sem amor é mentira, como foi o nazismo, o facismo e o comunismo, para citar alguns.
Parto do princípio que a pergunta é mais importante que a resposta e, assim sendo, perguntas dicotomizantes como "Amor ou verdade? Ortopraxia ou ortodoxia?" carecem revisão, pois, verdade, enquanto ortopraxia ou ortodoxia, desconectada do amor, não se viabiliza nunca.
Não é a toa que algumas expressões máximas das Escrituras afirmam que Deus é amor e o apostolo Paulo conclui dizendo, em 1 Corintios 13, que o amor nunca acaba - é eterno -, porque é divino e, portanto, verdade.

Concluindo, podemos até não concordar com algum pastor protestante que abraça uma "nova espiritualidade", mas não podemos provocar essa dicotomia indevida.

Um abraço,
Paulo Silvano

Gutierres Siqueira disse...

Pr. Paulo, a paz!

Eu concordo que um verdeiro amor não vive sem a verdade e uma verdade realmente cristã não vive sem o amor. Não há como separar. Agora, até mesmo os próprios críticos da chamada "ortodolatria" fazem isso... Eles também sustentam essa dicotomia. Quando, na verdade (e concordo), verdade e amor são integrados.

Abraços!