terça-feira, 16 de junho de 2009

A Bíblia é um tratado científico?

Nesse domingo, o jornal Folha de S. Paulo publicou no Caderno Mais uma longa entrevista com o padre norte-americano George Coyne. Coyne foi o primeiro líder religioso a receber um importante prêmio da sociedade científica ligada à astronomia. Ele, que possui doutorado na área, recebeu o prêmio Van Biesbroeck, da Associação Americana de Astronomia.

A entrevista trata sobre o velho dilema de fé versus ciência e a possível convergência entre esses dois tipos de conhecimento. Coyne faz uma observação interessante sobre a leitura bíblica e discorda do pensamento de que a Bíblia seja um livro científico. Vejamos um trecho das colocações de Coyne sobre o assunto:

Uma grande realização dentro da igreja foi a encíclica "Providentissimus Deus", de Leão 13, que começou a ensinar aquilo que a igreja defende hoje: você deve interpretar as escrituras de acordo com a técnica literária. Você não pode interpretá-las literalmente. E além disso: não há nenhuma ciência nas escrituras. As escrituras começaram a ser compostas por volta de 5.000 a.C., com o patriarca Abraão, até cerca de 200 d.C., mais ou menos. A ciência moderna começou a existir entre os séculos 16 e 17. Como poderia haver alguma ciência nas escrituras? Há uma separação de pelo menos 1.500 anos entre a redação final das escrituras e a ciência moderna. Então, não há nenhuma ciência nas escrituras. Zero. E qualquer um que quiser usar as escrituras de modo científico incorrerá em erros[1].

Agora, minhas observações. Penso que ele está certíssimo quando fala que a Bíblia precisa ser interpretada segundo as suas técnicas literárias, sendo que um salmo precisa ser interpretado como uma poesia e um livro como Provérbios precisa ser interpretado como um conjunto de provérbios; assim também, como um livro histórico precisa ser interpretado como um livro de história. Acreditamos que a Bíblia conta histórias literais, mas ao mesmo tempo trabalha com parábolas e figuras de linguagem, que é claro, não podem ser levadas ao pé da letra. Quem leva uma linguagem metafórica na literalidade pode ter problemas (cf. Jo 3.1-6). É preciso ficar claro na mente do cristão que a Bíblia possui vários estilos (histórias, poesias, provérbios, metáforas, tratados, cartas pessoais, cartas comunitárias e livros de cunho apocalíptico). Portanto, cada um desses estilos desse ser lido conforme a estrutura dos mesmos.

O respeitado exegeta assembleiano Gordon Fee nos chama à atenção quanto ao chamados “gêneros bíblicos”. Ele afirma:

Um dos aspectos mais importantes do lado humano da Bíblia é que Deus, para comunicar a Sua Palavra para todas as condições humanas, escolheu fazer uso de quase todo tipo de comunicações disponível: a história em narrativa, as genealogias, as crônicas, leis de todos os tipos, poesia de todos os tipos, provérbios, oráculos proféticos, enigmas, drama, esboços biográficos, parábolas, sermões e apocalipses... Para interpretar corretamente o “lá e então” dos textos bíblicos, não somente se deve saber algumas regras gerais que se aplicam a todas as palavras da Bíblia, como também se deve aprender as regras especiais que se aplicam a cada uma destas formas literárias (gêneros)[2].

Interpretação literal

A interpretação da Bíblia é literal onde a literalidade se aplica, como em histórias. Por exemplo, histórias como Jô, Jonas e a abertura do Mar Vermelho são literais, logo porque foram escritas em um gênero narrativo. Agora, a interpretação da Bíblia não é literal em meio a linguagem figura e/ou própria da cultura local. Quando Coyne diz: “Você não pode interpretá-las literalmente”, assim referindo-se a Palavra de Deus, ele está certo, mas a frase está mal colocada. Melhor ficaria assim: A Bíblia não pode ser interpretada literalmente quando não tenho certeza do gênero que estou lendo, e nem pode ser interpretada figuradamente, quando não tenho certeza sobre o gênero que estou lendo. Assim que o gênero foi definido, então analisamos se devemos ler literalmente, figuradamente ou de ambas as formas. Quando assim analisamos, fugimos de leituras bíblicas falaciosas promovidas pelos adeptos das “teologias” liberal, neo-ortodoxa e também ultrafundamentalista.

Livro científico?

Penso que Coyne está certo quando afirma que a Bíblia não é um livro de ciências. Esse não foi o propósito das Escrituras. A Bíblia é um conjunto de sessenta e seis livros que trazem a revelação suficiente para a nossa salvação, mas a mesma não traz receita médica ou aulas de matemática. O apóstolo Paulo deixa bem claro o propósito real das Sagradas Escrituras: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (II Tm 3. 16-17)

O mesmo acontece com a tentativa bem intencionada de alguns cristãos que escrevem livros do tipo “evidências científicas da existência de Deus”. Ora, como provar Deus por meio da matéria. Isso acaba por distorcer o conceito de crença cristã, “visto que andamos por fé e não pelo que vemos” (II Co 5.7).

Referências Bibliográficas:

[1]COYNE, George. E, no entanto, se move. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 jun. 2009. Entrevista. Caderno Mais. p. 4-5.

[2] FEE, Gordon e STUART, Douglas. Entendes o Que Lês. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 19.

11 comentários:

leo268 disse...

recomendo um podcast do mark driscoll sobre isso, chamado Creation: God Makes

Anônimo disse...

Gutierrez, paz e bem.

Muito bom artigo. No entanto, uma indagação ; por que se referir ao liberalismo teológico, neo-ortodoxia e fundamentalismo como sendo teologias entre aspas ? Mesmo que não se concorde com elas, são teologias! ( até mesmo o ultrafundamentalismo !)

Falando a respeito da neo-ortodoxia, me desculpe, mas o pensamento neo-ortodoxo está contido de forma clara nas idéias defendidas pelo sacerdote cientista. Se vc ler o que Barth, Bruner e outros escreveram sobre ciência, notará uma enorme convergência de idéias com o pensamento defendido por este ilustre padre.

Há muitas lendas a respeito da neo-ortodoxia. Para que tal escola seja realmente compreendida, recomendo a leitura nas fontes, e não a simples consulta nos " Temporas o Mores " da vida..

Um abração
André Tadeu de Oliveira.

Yohan disse...

É exatamente esta questão que não entendem os críticos da Bíblia como um livro sagrado. Muitas vezes esperam dela uma resposta que a mesma não se propõe a responder.

Bom post!

Gutierres Siqueira disse...

Leonardo, a paz!

Obrigado pela indicação.

Gutierres Siqueira disse...

André Tadeu, a paz!

Qual a causa para o uso de aspas na palavra teologia relacionadas as correntes liberais, neo-ortodoxas e fundamentalistas? Sim, realmente essas são teologias, mas muitas vezes comportam-se como antiteologias. Isso porque em lugar de levar ao conhecimento bíblico, levam a descrença das Sagradas Escrituras (no caso dos liberais), ou levam para o apego a tradição denominacional (no caso dos fundamentalistas). Agora, alguns neo-ortodoxos também compartilham de uma visão muito liberal das Escrituras (não todos, é claro). Alias, alguns tentam, por exemplo, basear suas "teologias" não mais na Bíblia, e sim em suas inquietações filosóficas diante da cada tragédia que abate no mundo. Ou então, fazem teologia segundo um viés de ideologias políticas e filosóficas (como "teologia" negra, feminina, ecológica e outras questões politicamente corretas). É isso!

Agora, também não estou igualando cada uma dessas correntes. Sei que uma coisa é ser neo-ortodoxo e outra um liberal, ainda mais um fundamentalista.

Abraços!

Gutierres Siqueira disse...

Yohan, a paz!

Realmente os críticos da Bíblia não entendem o seu real propósito. Infelizmente muitos cristãos acabam, também, esquecendo do propósito central das Escrituras.

Lukas disse...

Paz Gutierres.

Realmente muitos criticos tem essa visão da bíblia, acham que estão como o irmão disse escrito na biblia receitas " de bolo ", quando na realidade o objetivo da biblia como irmão disse é realmente de divulgar a salvação de cristo Jesus e preparar a todos para a mesma.

Paz.

Lukas
www.laborteologico.blogspot.com

ulisses disse...

"Quem leva uma linguagem metafórica na literalidade pode ter problemas".

Não é exatamente isso que fazem todos os que procuram associar Is 14 e Ez 28, profundamente metafóricos, com uma doutrina acerca do diabo?


fiquem na paz.

Daladier Lima disse...

Considero importantes sua colocações, prezado Gutierres, entretanto, não deixo de registrar informações científicas que existem na Bíblia, um livro não afeito ao tema. Salta aos nossos olhos informações que os escritores não teriam de forma humana, naquela época. É o caso de Gn 10:25, entre dezenas de outros.

Jones Faria Mendonça disse...

Gostei do artigo. Só não posso concordar que o livro de Jonas e Jó narrem episódios históricos.

Jonas parece uma sátira ao espírito sectarista judaico (e Caleb nem era israelita!).

Jó parece uma história com fim didático. A teologia deuteronomista (pecou, pagou, se arrependeu, o bem/a saúde foram restituídas)é posta em cheque. Há várias palavras persas mostrando que o livro sofreu acréscimos após o exílio.

A grande verdade é que entre um fundamentalista roxo um liberal haverá inúmeros matizes.

numinosumteologia.blogspot.com

zwinglio rodrigues disse...

Gutierres, paz!

De fato a Bíblia não é um tratado científico. Aqui estamos de acordo.

Porém, o que disse Daladier procede.

Outra coisa: não sei se entendi o que você quis dizer ao perguntar

"Ora, como provar Deus por meio da matéria"

Pra mim, você contraria Romanos 1:18 ss que apresentam a criação [matéria] como prova da existência de Deus.

Ou será que a palavra "prova" usada por voc~e não tem o sentido de oferecer demonstrações evidentes?

Por fim, não vejo problema algum em se oferecer provas da exist~encia de Deus mesmo sabendo que o elemento fé deve preceder a relação com Ele. Para algumas mentes mais sofisticadas e, portanto, mais resistentes ao sobrenatural, argumentos lógicos podem auxiliar no processo de evangelização e de abertura do coração do incrédulo e do cético.

Veja o caso da tentaiva de WL Craig, NT Wright e W Pannenberg, por exemplo, em argumentar que existem evidências apontando que a melhor explicação para o sumiço do corpo de Cristo é a ressurreição. Acho plausível a tentiva, antes de apelar para o salto de fé. Ou não?

Obs.: seu post é extremamente relevante e sua opinião é interessante, pois nos instigou à comentá-lo.

Abraços!