sábado, 4 de julho de 2009

Os protestantes não mataram e nem salvaram o Brasil

Na década de 1980, surgiu no Brasil um livro polêmico do sociólogo Delcio Monteiro de Lima intitulado Os demônios descem do norte [1], nessa obra Lima defendeu a tese que os pastores são agentes da CIA (polícia secreta americana) para combate dos comunistas. O título do livro já mostrava a imagem “amigável” desse autor sobre os protestantes norte-americanos que evangelizavam o Brasil.

Não só Delcio Lima era um desconfiado. Outros estudiosos católicos disseram o mesmo. No México da década de 1920, Regis Planchet escreveu:

O protestantismo é uma forma do capitalismo norte-americano, elemento conquistador, amigo do capitalista e inimigo do trabalhador, que se tem proposto mediante suas escolas, seus templos e seus esportes a americanizar o povo.

Waldo Cesar, na década de 1960 escreveu:

O protestantismo latino-americano se estabeleceu aqui no “ventre” de uma intervenção estrangeira e leva as marcas do sectarismo e individualismo que a caracterizam. Resultou, pois, de uma aculturação que nada tem a ver com a nossa origem e formação histórica e num subproduto das conquistas políticas, econômicas e culturais dos séculos passados. [2]

Ainda, no passado colonial, já havia um temor diante do avanço protestante. O padre Antônio Vieira escreveu o famoso Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, em que, muito preocupado, faz a seguinte oração:

Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino, nascerá ervas nas igrejas como nos campos, não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: “As ruas de Sião choram, porque não há quem venha às solenidades”. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e, em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegrar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses, e chegaremos a estado, que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: menino, de que seitas sois? Um responderá: eu sou calvinista. Outro: eu sou luterano. [3]

É claro, a visão apocalíptica de Vieira não aconteceu. Temos Natal, e as igrejas não foram tomadas de ervas. Também não existe uma ligação ideológica com o capitalismo americano de víeis liberal nas igrejas brasileiras, conforme do mexicano Regis Planchet acusava. Pelo contrário, mesmos os adeptos da Confissão Positiva, não assumem posição político-econômica alguma, senão suas crendices supersticiosas e antibíblicas [4]. O pentecostalismo e o neopentecostalismo brasileiro são bem brasileiros, com poucos resquícios europeus e americanos. Pelo menos, em nossos dias, os vícios e mazelas das igrejas refletem a nossa cultura do jeitinho e da aética. Somente no Brasil é possível a proliferação de um movimento bizarro (para falar o mínimo) denominado como “reteté” e que ainda atribuem a uma ação do Espírito Santo.

Portanto, o Brasil não acabou porque os protestantes avançaram. Logo, o dito protestantismo que aqui avanço longe está de suas raízes. Mas enquanto os protestarem não mataram o país, também não salvaram.

Nada mudou

O Brasil continua sincrético, místico, idólatra, supersticioso, corrupto etc. Em lugar das igrejas evangélicas colaborarem com a erradicação desses vícios e pecados, pelo contrário, tem alimentado essas misérias. É uma igreja que não influencia a cultura, mas é influenciada por ela. As igrejas rodam e alimentam esses vícios e ainda os “santificam”, o que é pior!

Quantos pastores pregam em rádios piratas e contam um testemunho de como escapou da polícia por não ter a carteira de motorista regularizada. Os evangélicos avançam pelos morros cariocas, e os traficantes conseguem conviver numa boa, nem um pingo incomodados pelos pregadores, e continuam com o seu tráfico e assassinatos.

O mal não começou somente com os carismáticos. Grande parte das igrejas tradicionais apoiaram a ditadura militar sob alegação de que as alternativas eram piores ( e realmente eram, pelos menos equivalentes, pois se resumiam em outras ditaduras). Mas isso não justifica. Então, por que não propuseram uma nova alternativa democrática? Entre a ditadura dos militares e a ditadura dos stalinistas, a igreja poderia ser aquela voz profética democrática, defendendo o Estado de Direito e a liberdade.

Infelizmente ainda falta um genuíno avivamento nas terras tupiniquins, para que essa sociedade possa mudar os seus valores, e assim agir de maneira mais humana. Um protestantismo como nome de “evangélicos”, que anda distante das Escrituras jamais poderá mudar essa terra.

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] LIMA, Delcio M. Os demônios descem no norte. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1987. p 155. No seu mandado, o presidente venezuelano Hugo Chávez tem impedido o trabalho de missionários americanos nas tribos indígenas sob a mesma alegação ridícula. Leia um trecho da tese de Dércio: “Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal, surgidos nos EUA desde meados do século 19 até a atualidade, são sub-produtos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas, para retro alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital- os EUA... Entra em cena a CIA e a facilitação da implantação das seitas eletrônicas americanas em terras latino americanas como uma reação ao “perigo” que representava a Teologia da Libertação e a organização popular que os padres e bispos que seguiam esse movimento teológico promoviam, através das CEBs., do sindicalismo e da organização dos trabalhadores rurais.”

[2] FERREIRA, João Cesário Leonel Ferreira (org.). Novas Perspectivas Sobre o Protestantismo Brasileiro. São Paulo: Fonte Editorial e Edições Paulinas, 2009. p 44.

[3] VIEIRA, Antônio. Sermões do Padre Vieira. Porto Alegre: L&PM, 2007. p 86-87.

[4] A intitulada “Teologia da Prosperidade” (TP) não é nem de longe um víeis econômico liberal. Enquanto os economistas liberais pregam uma prosperidade pelo livre mercado e por esforço do indivíduo empreendedor, a TP prega uma prosperidade espontânea e mística por intermédio de uma intervenção divina, fruto de um processo de trocas (sacrifícios que resultam em bênçãos). É claro que a TP também não é socialista ou social-democrata. Portanto, são ridículas essas analogias em que a TP é o liberalismo econômico na religião e a Teologia da Libertação (TL) é o socialismo na religião, e por isso rivalizam. Isso não faz sentido. A TP é mera construção teológica deturpada e mística, já que tem raízes na seita Ciência Cristã. Não é à toa que o maior propagador da TP, o senhor Edir Macedo, é um aliado político do governo Lula, mediante o seu partido. Já a TL é realmente de viés socialista e os seus ideólogos não escondem isso, e também estão com o governo Lula.

4 comentários:

Daladier Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Moyses Liberdade em Cristo disse...

Shalom...

Amado irmão, minha opinião é que tudo se esclarece no título dessa postagem: Os protestantes não mataram e nem salvaram o Brasil, claro que espiritualmente são inúmeros os benefícios trazidos, porém há inúmeros malefícios também; justamente no fator, "aderir” influências, o resultado não podia ser outro:
(Lucas 5:37- 39) - E ninguém deita vinho novo em odres velhos; de outra sorte o vinho novo romperá os odres, e entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão; mas o vinho novo deve deitar-se em odres novos, e ambos juntamente se conservarão. E ninguém tendo bebido o velho quer logo o novo, porque diz: Melhor é o velho.
Quem imaginaria que o esforço de Lutero por uma reforma seria com o passar do tempo “deforma”, explica-se no fato de países que foram grandes centros de avivamentos, hoje são apenas centros turísticos evangélicos, com “museus-igrejas”, visitados por todos com “orgulho” do que já foi um dia, que Deus tenha misericórdia de nós, o Brasil só poderá se apossar da promessa de que “as portas do inferno não prevalecerão contra a minha igreja”, desde que esteja “Vivendo a Palavra”, porque de fato a igreja do Senhor triunfará, se uma nação abandonar sua Palavra outras serão por Ele levantadas, afinal gente é o que não falta no planeta, e se até de pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão, como, pois dizemos; somos filhos do Reino, nação santa e geração eleita, povo adquirido? A Bíblia realmente nos credita essas promessas, mas não será através do determinismo que as alcançaremos...

Juber Donizete Gonçalves disse...

Daladier,

Parabéns pela postagem. Você levantou um tema interessante. O que é invasão estrangeira? Qual a diferença entre a vinda de missionários britânicos e americanos no século XIX e XX e a dos jesuítas há 500 anos atrás? Acredito que isto também deve ser considerado.

Abraço.

Juber Donizete Gonçalves disse...

Gutierres,

Perdão pela falha técnica no meu comentário. Havia visto o comentário do Daladier e num lapso de memória me dirigi a ele, em vez de você.

Abraço.