domingo, 30 de agosto de 2009

A paranóia antiamericana e a “teologia brasileira”

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A teologia é como o vinho: envasada na Alemanha, envelhecida na Inglaterra, deteriorada nos EUA e finalmente exportada para o Brasil (ditado de seminário teológico no Brasil)

Há alguns anos assisti uma reportagem que informava algo interessante e assustador ao mesmo tempo. Na época, o Brasil se apresentava como o segundo país mais antiamericano do mundo, perdendo somente para a Jordânia (um país mulçumano). Fiquei me perguntado por que os brasileiros odiavam tanto assim os norteamericanos. Os Estados Unidos não são exemplos de perfeição, longe disso, mas também não merecem tanto desprezo emotivo.

Na teologia aprendida no Brasil vemos também um viés antiamericano muito forte. A frase que abre esse post é um exemplo perfeito dessa paranóia. Até parece que a podemos dividir teologias segundos estados nacionais, como sendo uma superior a outra. Não, a teologia “produzida” no Brasil não é melhor do que a “produzida” nos Estados Unidos, e o contrário também é verdadeiro.

É claro que será importante para o Brasil a ascendência de teólogos nascidos nas terras tupiniquins, agora isso não fará necessariamente uma “teologia melhor”. Já li bons teólogos brasileiros, ingleses, irlandeses, norteamericanos, canadenses, cubanos etc. Assim também como já li bons escritores franceses, portugueses, alemães, indianos, peruanos, colombianos e venezuelanos. Cada país tem suas estrelas literárias. Cada país tem seus mestres na Palavra.

Exemplos da antipatia à brasileira

O teólogo carioca Alessandro Rocha escreveu o livro Espírito Santo: Aspectos de uma Pneumatologia Solidária à Condição Humana, então prefaciado por Ricardo Gondim. No seu texto Gondim comenta: “Finalmente um livro autenticamente brasileiro sobre o Espírito Santo”. Então me pergunto: O que seria um livro autenticamente brasileiro sobre pneumatologia? Seria o fato de citar Leonardo Boff e Frei Betto? Mas seria somente isso? O livro também cita vários teólogos alemães. Então, não teríamos aí um “autêntico livro de pneumatologia alemã”? Então concluo que tudo isso não passa de uma tremenda bobagem.

Na verdade, esse antiamericanismo é fruto de um estranho nacionalismo, presente no Brasil e outras nações latinoamericanas. O teólogo argentino Míguez Bonino certa vez escreveu: “Não podemos aceitar a interpretação teológica proveniente do mundo rico, sem sentirmos suspeitas dela e, portanto, perguntarmos que tipo de práxis ela apóia, reflete, ou legitima”. Portanto, Bonino expressa uma paranóia completa, pois para ele certamente os teólogos do “mundo rico” sempre estão trabalhando em prol do imperialismo dominante e opressor. Então, o melhor a fazer é despreza as interpretações desses teólogos. Na verdade, são pensadores como Bonino que acabam por defender um fundamentalismo cego pelas suas ideologias.

É triste ver como uma ideologia política pode afetar a visão teológica de muitos. Esses preconceitos segregacionistas são parte de nossa cultura acadêmica moldada por um esquerdismo marxista, que é atrasado e retrógrado, pois pensa ainda nas bases do século 19.

11 comentários:

Newton Carpintero, pr. disse...

Prezamado Gutierres Siqueira,

A Paz do Senhor!

A paranóia antiamericana, normalmente é evidenciada pelo desconhecimento do país ou pela inveja.

Desta forma, existe uma agressão que não poideria partir, principalmente de homens com algum esclarecimento sobre a humanidade, através da Bíblia.

Resido, nos EUA, e me envergonhei quando após o grande desastre das torres gêmeas, muito brasileiros colocaram o seu desconhecimento e a sua inveja de maneira deliberada, na internet, quase a favor desta agressão que me paralisou de tristeza.

Mais triste fiquei com o que vai na alma de muitos brasileiros que demonstraram seus verdadeiros sentimentos contra os que trabalham, produzem, e não jogam tantos papéis no chão, respeitarem os idosos(estou a caminho).

Tenho escutado de vários que os EUA, estão promovendo heresias no mundo, e estas desculpas esfarrapadas por quem não conhece ao menos o estado vizinho, tem sido objeto de crédito por muitos desavisados.

Vamos a verdade! Muitos pastores brasileiros em solo americano, estão envergonhando o evangelho, com falcatruas, adultérios, heresias, mentiras e documentos falsificados para conseguir o seu documento legal.

Sinto vergonha! Muita vergonha!

Sem falar na igreja "Revival Church" ex-Assembléia de Deus, que conquistou por interesses dos demais de várias igrejas brasileiras, muitos líderes interessados em dinheiro e desinteressados das verdades transformadas em heresias praticadas por esta igreja.

Informo que muitos dos crentes americanos se observassem na internet o que acontece no Brasil com muitas igrejas, com certeza, ficariam estupefatos e com medo ou apavorados.

O mundo jaz no malígno e precisamos estar atentos ao que vem por aí.

O Senhor seja contigo!

pr. Newton Carpintero
www.pastornewton.com
Contra a Falácia da Prosperidade!

André Amaral disse...

Para entender isso é simples:
"a cabeça pensa onde os pés pisam."

sandre disse...

Isto é uma realidade, também acho que seja a questão do idealismo marxista que permeia a cultura latino americana.
Mas esta questão de paranóia anti-americana, já mudou muito, se for feita uma pesquisa mais recente.

Juber Donizete Gonçalves disse...

Gutierres,

Muito disto se dá, devido a ideologia marxista, tão presente nas Faculdades, Universidades e depois transpostas como verdade única.

Abraço.

Pr Dinelcir de Souza Lima disse...

Sinceramente eu acho bobagem a mania de se estabelecer uma "Teologia Brasileira", como se a Teologia tivesse que subdividir regionalmente. Isso é uma tremenda bobagem mesmo. Mas não acho bobagem o estudo do que chamam de "desenvolvimento teológico" reformado a partir do século XVII até nossos dias. É bobagem dizer que a Teologia nasceu na Alemanha porque ela já existia, e é bobagem dizer que ela se deteriorou nos EUA porque já foi para lá deteriorada. Ela só foi "pragmatizada" para se adaptar ao mundanismo e se espalhou pelo mundo tão materializado quanto o americano, porém por situações opostas.
Ao se mundanizar a Teologia possibilitou-se que ela se regionalizasse conforme os anseios e necessidades mundanas (no sentido do que é do mundo material)

zwinglio rodrigues disse...

Gutierres, paz!

Estou de pleno acordo com você... até que enfim /rsrsrs/...

Também concordo com os comentários do Newton, André, Sandre e Juber...

Cá pra nós: citar a teologia de Boff não é citar um primor de teologia...

blogdokimos.com

S.O.S Gospel disse...

Gostei muito desse post, pois mostra que por trás dessa idéia que volta e meia aparece sobre os EUA serem o cento do poder diabólico, só esconde interesses politicos-religiosos. O que na vardede devemos observar é se os conceitos teológicos são de acordo com uma boa interpretação bíblica, não importando a origem. Pois acredito que esse mundo é grande, muito grande mesmo e existem bons teólogos em vários países. Abraços!

Matias Heidmann disse...

"Pneumatologia brasileira"... esta é boa...
Uma coisa são certas questões da ecelesiologia, que precisam de uma adaptação regionalista (por exemplo o modelo "Saddleback" ou "Willow Creek" aparentemente tão bem sucedidos nos EUA não precisam ter, e não tem, o mesmo sucesso no Brasil ou na Europa).
Como tambêm acho que culto com coral cantando Aleluia de Händel fora do contexto cultural popular. Melhor é a música sertaneja... Música clássica é curtida por uma pequeno grupo apenas...
Mas teologia, ensino sobre Deus, não é regionalista, muito menos nacionalista.
O Sr Gondim, por exemplo, diz-se sábio, entendido e brasileiro, mas não é ele que promove livros de Brian McLaren e Rob Bell que, pelo que sei, são cidadãos norteamericanos, gozando a riqueza e a prosperidade americana. Afinal das contas nenhum dos dois é Madre Teresa, apesar de a admirarem... até aí tambêm admiro S. Franciso, o cara mais impactante do seculo 13, mas assumo minha identidade "burguesa, capitalista", caso contrário, viro hipócrita...
Já estou cansado de intelectual metido a "socialista", porém o estilo de vida deles é o próprio "sonho americano encarnado". Eu acho que problema não é com os beneficios do capitalismo, mas com a teologia bíblica, que ainda, graças a Deus, é defendida por teologos anglo-saxões de renome (Wayne Grudem, JI Packer, Ryrie, Stott etc)

Paulo Silvano disse...

Caro Gutierres,

Sabido é (presumo que você, como bom moço, não ignora)que texto fora do contexto acaba virando pretexto para a completa demonização de coisas, pessoas e situações.
Não tenho procuração para defender o Gondim (tenho plena consciência que ele não precisa que eu o defenda), mas devo lembrar que, além de enaltecer a chegada do livro, "autenticamente brasileiro sobre o Espírito Santo", do pr. Alessandro Rocha, o Gondim também comenta no mesmo texto que "Não é só no Primeiro Mundo que se produz teologia com qualidade. Existe uma abundante pneumatologia latino americana que não merece ser esquecida e graças a Deus não foi."
Teologia como o vinho, envasada na Alemanha, envelhecida na Inglaterra, deteriorada nos EUA e exportada para o Brasil, é um clichê, que de tão utilizado e repetido, desgastou-se e perdeu o sentido. Afinal de contas, qual foi o caminho trilhado pela teologia medieval que hoje os seminários "sérios" nos ensinam. Não foi ela também, como o vinho, envasada na Alemanha, envelhecida na Inglaterra e finalmente exportada para o Brasil?
Penso que tanto a fobia como a idolatria pela teologia do velho continente, por nós nutridas, revela certo grau de complexo de inferioridade e, portanto, a necessidade produzirmos uma reflexão teologica cristã distada dos países centrais, não para alimentar soberba e ódio alienantes, mas para provocar inserção e diálogo com aqueles que no mundo buscam a realização do Reino de Deus que, conforme o próprio Jesus, já está entre nós.
Se a teologia por nós esposada refletisse mais a realidade latina, provavelmente a teologia de Genebra não grassando os arraiais evangélicos mais "lúcidos", inclusive pentecostais, daqui. Aliás, o movimento pentecostal brasileiro foi um raro momento na história da espiritualidade latino-americana em que se escolheu a possibilidade de fazer teologia sintonizada com os ensinos de Jesus e com a realidade do nosso povo. Diga-se de passagem, com forte ênfase pneumatológica. A propósito, os pioneiros do pentecostalismo nessa plagas devem estar revirando no túmulo ao perceberem a guinada do pentecostalismo "lúcido" em direção ao calvinismo. No caso assembleiano, os mesmos pioneiros que nos anos trinta "convidaram" os pastores calvinistas a se retirarem da Convenção Geral.

Um abraço
Paulo Silvano

Eliseu Antonio Gomes disse...

Gutierres

Não querendo ser do contra, mas não concordo com a pesquisa que mencionou.

Observando tudo em volta, vemos que o brasileiro gosta de quase tudo que vem de fora. E muita exportação vem do solo norteamericano.

Comecemos pelo linguajar: não dizemos "sítio", dizemos "site"; não pedimos pizza ao domício, queremos o "delivery". Na lanchonete MacDonalds saboreamos um "fastfood".

E, dá naúseas andar pela Oscar Freire! As lojas se orgulham em escrever quase tudo em inglês! Lá, não existe nenhuma venda em promoção, há o "sale".

E os sobrenomes? Abra os jornais ou pare para lembrar sobrenome de repórteres e apresentadores de telejonais. De cada 10, mais ou menos 7 são estrangeiros, e a maior parte é inglês (o que pode remeter ao norteamericano. E não pense que todos os nomes sejam o que consta na RG... Eles acham chique inventar sobrenome de fora.

Ainda tem o cinema... Os seriados de televisão... Quase tudo made USA!

E olha as prateleiras das livrarias cristãs. Os títulos são de fora. Vem aí a Bíblia Dake, já temos a Thompson, a de Charles C. Rye, Max Lucado... E incontáveis livros da terrinha do Tio Sam!

Acho a nossa situação, ter o senso coletivo apoiado no estrangerismo meio ridícula, até tenho mais a comentar, mas não convém continuar enumerando tudo. O fato é que o americanismo está entranhahado em nós. Que o diga os compatriotas de Governador Valadares! Tem mais "uai" sendo pronunciado em Miami e Flórida do que em Minas Gerais!

Abraço.

Eliseu Antonio Gomes
http://belverede.blogspot.com

Francisco disse...

Não há contradição. Quando se é "esmagado" por algo "aparentemente" maior e sub-repticiamente vendo-se a imitar os trejeitos e valores de outra cultura e sem poder escapar da força condicionante desta mesma, um misto de ressentimento se apossa do indivíduo, se misturando com a admiração. Sem forças próprias para sair deste círculo de giz "por si mesmo criado", o indivíduo acaba odiando muitas vezes o que admira.

É a situação do brasileiro urbano médio atual. Mas não se preocupem a muitos países no
Ocidente na mesma condição.