segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O pentecostalismo e o racismo: A quebra de preconceitos


E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito. (Joel 2.28-29)

A linha de cor foi lavada pelo Sangue de Jesus (William J. Seymour)

O pentecostalismo moderno surgiu em janeiro de 1901. Nos Estados Unidos, o metodista Charles Fox Parham, pregador da Santidade do Meio-Oeste americano, convocou seus alunos para pesquisar sobre o Espírito Santo no livro de Atos dos Apóstolos. Parham havia montado uma escola teológica em uma antiga mansão de Topeka (Kansas, EUA). Nesse instituto, todos se dedicavam diariamente a estudos e orações. Mediante esses estudos, os alunos com o professor Parham concluíram que a glossolalia era uma evidência física do “batismo no Espírito Santo”, sendo uma experiência pós-conversão. Então, no dia primeiro de janeiro de 1901, uma jovem chamada Agnes Ozman começou a falar em línguas. O seminário de Parham tinha em média quarenta alunos.

O pentecostalismo se populariza em abril de 1906. O pregador leigo e negro William Joseph Seymour assistia as aulas de Charles Fox Parham pela porta da sala de aula. Devido às leis segregacionistas, Seymour não podia sentar entre os brancos. Seymour começou a reproduzir as ideias aprendidas no seminário de Parham. O grupo de Seymour se reunia na Bonnie Brae Street, em Los Angeles, como o espaço era pequeno, Seymour e o seu grupo começaram a se reunir em um velho prédio da Azuza Street, também em Los Angeles.

Os cultos da igreja em Azuza Street reuniam centenas de pessoas, brancos e negros, que bem antes do Rev. Martin Luther King, estavam juntos em uma união incomum numa sociedade altamente segregacionista. Não só os negros tinham espaço, como também as mulheres exerciam liderança e ainda pregavam. William Seymour era um homem de carisma, e ele na Azuza Street Mission popularizou o pentecostalismo para todo o mundo, quebrando barreiras de preconceitos.

Logo no início, Seymour e o seu grupo chamaram a atenção da imprensa. O jornal da cidade de Los Angeles, Daily Times, publicou uma reportagem de primeira página sobre a Azuza Street Mission, no dia 18 de abril de 1906. O jornal Los Angeles Times mandou um repórter no dia 17 de abril [1], ou seja, na primeira semana da missão. Um repórter de um jornal local escreveu em setembro de 1906:

Uma vergonhosa mistura de raças (...) eles clamavam e faziam grande barulho o dia inteiro e noite adentro. Essas pessoas parecem loucas, com problemas mentais ou enfeitiçadas. Elas têm um caolho, analfabeto e negro como seu pregador que fica de joelhos a maior parte do tempo com a sua cabeça escondida entre engradados de leite feitos de madeira. Não fala muito, mas às vezes pode ser ouvido gritando “Arrependei-vos” (...) Elas cantam repetidamente a mesma canção “O Consolador Chegou”. [2]

Os primeiros pentecostais não eram bem vistos pela sociedade americana, tanto por protestantes tradicionais, tais como por grupo seculares. A divergência não girava somente em questões doutrinárias, mas também em relação ao forte preconceito racial. As práticas místicas e a visão sobrenaturalista do grupo espantaram a sociedade. O líder William J. Seymour não enxergava as pessoas na base de raças, mas todos como filhos de Deus. Um conceito um tanto revolucionário, que lembra grandes homens, como o líder negro abolicionista do século XIX, Frederick Douglas, que já desprezava a separação dos homens por meio de raças e usava sempre as Escrituras nessa defesa. Douglas discursou no dia da independência americana de 1852, dizendo:

Os EUA são falsos com o passado, falsos com o presente e solenemente se consagram a serem falsos com o futuro. Nesta ocasião, ao lado de Deus e do oprimido e ensangüentado escravo, eu ousarei- em nome da humanidade que é ultrajada, em nome da liberdade que é acorrentada, em nome da Constituição e da Bíblia, que são desprezadas e iludidas- a desafiar e denunciar, como toda a ênfase que posso reunir, tudo o que serve para perpetuar a escravidão- o grande pecado e vergonha dos EUA.

Frederick Douglas recebeu votos de um delegado do Partido Republicano para ser candidato a presidência dos EUA, isso em 1888 [3]. Depois de Douglas, não é exagero falar que Seymour provocou tanta revolução quanto, porém um pouco mais restrito ao âmbito religioso de Los Angeles.

Retrocesso

No decorrer do tempo, o pentecostalismo americano deixou de lado o seu aspecto pós-racial e pluricultural, para se fechar em guetos negros versus guetos brancos. Os pentecostais negros e pobres, normalmente se associaram a Igreja de Deus em Cristo, enquanto os pentecostais brancos de classe média congregavam nas Assembleias de Deus. Isso nos EUA, pois no Brasil não existiu problemas de segregacionismo.

Charles Fox Parham foi constantemente acusado de racismo. Por esse motivo, ele caiu no esquecimento e se distanciou do Movimento que ajudou a criar. Quando Parham morreu em 1929, ele era um quase desconhecido das igrejas pentecostais. Muitos pastores se desligaram de Parham e depois estavam entre os fundadores das Assembleias de Deus em 1914.

O segregacionismo então só aumentou. De um lado os negros na Igreja Deus em Cristo, do outro os brancos nas Assembleias de Deus. Esse processo foi um grande retrocesso no pentecostalismo pós-racial de William Seymour, que sempre afirmava que a “linha da cor foi lavada pelo Sangue de Jesus”. Quando a Pentecostal Fellowship of North America foi fundada na década de 1960, a negra Igreja de Deus em Cristo não estava entra as convidadas.

“O milagre de Memphis”

Em 1994, na cidade de Memphis no Tennessee (EUA), a Pentecostal Fellowship of North America, uma instituição que igrejas brancas, foi substituída por uma nova instituição chamada Pentecostal/ Charismatic Churches of North America (PCCNA). Nesse novo grupo, o primeiro presidente eleito foi o bispo Ithiel Clemmons, da Igreja de Deus em Cristo. Os líderes da Assembleia de Deus rejeitaram o passado racista da denominação e um pastor branco assembleiano lavou os pés do bispo Clemmons. Então, retribuindo o gesto, o bispo negro Charles Blake da Igreja de Deus em Cristo lavou os pés de Thomas Trask, então superintendente- geral das Assembleias de Deus nos EUA. Toda a cerimônia aconteceu debaixo de muito choro e louvor. Certamente um capítulo triste da história pentecostal foi riscado no mês de outubro de 1994[4].

Raça não existe

A palavra “raça” está entre aspas, pois a ciência já provou que raça não existe. Todos são uma verdadeira mistura, por mais branco ou negro que sejam. Você tem DNA indígena, europeu e africano. O catarinense loiro dos olhos azuis tem também sangue africano, assim como o baiano negro dos olhos castanhos tem sangue europeu. Na verdade, todos são misturados.

Toda política governamental que se baseia no conceito de raças, é faltamente errada. Como acreditar em algo que não existe? Ora, o branco puro ou ariano (que Hitler tanto defendia) não existe, assim como o negro puro. Todos são produtos de uma mistura. Os “politicamente corretos”, defensores do multiculturalismo, insistem na ideia falsa da raça. Como lembra o sociólogo Demétrio Magnoli, para os multiculturalistas “a igualdade é uma falsificação, pois não existe no mundo real; no mundo verdadeiro as pessoas não são iguais, dizem. Por isso eles querem abolir a igualdade, preferem a diferença. É um pensamento do século 19 [...] Mas raça e igualdade são palavras de mundos distintos. Igualdade é democracia. Raça é diferença. Ou existe igualdade, ou existe raça” [5].

Infelizmente, muitos negros defendem a política de raças efetuada pelo governo. Isso na verdade é um retrocesso, pois reinventar a raça é um algo naturalmente racista. O verdadeiro antirracista não acredita na existência de raças, mas sim na igualdade entre os homens. Assim como defendia Nelson Mandela, Martin Luther King, Frederick Douglas e William Seymour. Bom saber que todos esses homens foram cristãos protestantes, que lutaram pela igualdade e reprovaram a segregação.

Realidade da igreja brasileira

Movimentos negros no Brasil tentam associar a “raça” ao candomblé. Não, o grupo religioso com maior proporção de negros no Brasil são os pentecostais [6]. Se há uma imagem que pode resumir o pentecostal é: mulher de meia-idade, negra e pertencente à classe C e D. É claro que não existe a religião dos negros, mas se existisse; certamente os pentecostais ganhariam por proporção.

Os acadêmicos multiculturalistas, presos as suas ideologias autoritárias, acham que um verdadeiro negro não pode associar-se a uma religião que não faça parte de suas raízes africanas. Portanto, para um multiculturalista, o negro precisa ser necessariamente membro de uma religião afrobrasileira. É claro que esse pensamento é um absurdo. Pois “os cidadãos são iguais perante a lei e têm o direito de inventar o seu próprio futuro, à revelia de origens familiares ou relações de sangue. A política de raças é uma negação da modernidade” [7].

Acadêmicos infectados por ideologias que minam a liberdade certamente defenderão a ideia de raça, mesmo que isso contradiga a ciência, a sociologia e a própria história. Como cristão, nenhum pensador que é moldado pela Palavra pode aceitar a mínima ideia de diferenças entre indivíduos, pois o Senhor que não faz acepção de pessoas e fez todos segundo a Sua imagem, não aceita segregação.

Os pentecostais negros podem, então, se sentir indignados pelo fato de alguns acadêmicos autoritários acharem que eles não podem nem escolher que religião querem seguir. Certamente, são os mesmos “pensadores” que dão aval para governos ditatoriais.

O problema do racismo, aliás, o pecado do racismo

É, portanto, inadmissível um cristão convertido viver como um racista. Mas infelizmente o racismo é um fato em muitas igrejas, até mesmo entre as pentecostais. Bem que o termo racismo traz a ideia de raça, sendo melhor usar a palavra preconceito. Ser preconceituoso em questão da cor da pele é pecado. Hoje, não pode acontecer o mesmo que aconteceu na África do Sul. Vergonhosamente a Igreja Reformada Holandesa dava apoio ao apartheid, sendo uma verdadeira mancha na história do protestantismo[8]. O racismo também pode renascer por meio de políticas afirmativas de raças, mesmo se promovidas por movimentos negros.

A Igreja deve rejeitar essas questões.

Referências Bibliográficas:

[1] ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 605.

[2] BENTHO, Esdras Costa. Ponto de Contato. Lições Bíblicas: As Doutrinas Bíblicas Pentecostais, Rio de Janeiro, p. 51, abril - jun. 2006.

[3] MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial. 1 ed. São Paulo: Editora Contexto, 2009. p 13.

[4] WOOD, George O. Este Río Pentecostal Azusa: La corriente afluente original. Mar-Maio 2006. Springfield: Revista de Enriquecimiento. Disponível em: < http://www.ag.org/enrichmentjournal_sp/200602/200602_128_PenteRiver.cfm> Acesso em: 07 de Set. de 2009.

[5] MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de discórdia. São Paulo: Caderno Aliás. O Estado de S. Paulo. Disponível em < http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,uma-gota-de-discordia,426651,0.htm> Acesso em: 07 de Set. de 2009.

[6] OLIVEIRA, Marco Davi. A Religião Mais Negra do Brasil. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p 102.

[7] MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue. Idem. p 15.

[8] CAVALCANTE, Ronaldo de Paula. Novas Perspectivas sobre o Protestantismo Brasileiro. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial e Paulinas, 2009. p 79.

10 comentários:

PC@maral disse...

Olá Gutierres! A Paz do Senhor!

Visitei seu blog e gostei muito do conteúdo e já estou seguindo.

Meu nome é Paulo Cesar Amaral

Meu blog http://blogdopcamaral.blogspot.com

Faça uma visita e se gostar acompanhe também.

Parabéns! Que Deus te abençoe!

Daladier Lima disse...

Excelente texto! Não esqueçam que foi uma mulher a primeira a receber no grupo o batismo no Espírito Santo. Então, quebraram-se dois paradigmas e não apenas um.

Abraços!

Ana Carolina Rocha disse...

A Paz do Senhor irmão,
concordo com vc em muitas coisas no seu artigo, porém defendo políticas de cárater afirmativa, pois é como uma dívida que o governo e as universidades tem que pagar ao povo negro brasileiro, verdadeiramente não existe raça isto é fato, porém existe etnia e cor, ainda que no fundo sejamos todos de uma mesma origem, na nossa sociedade moderna ainda existe o preconceito, perceba se na nossas igrejas pentencostais tem negros doutores e acadêmicos, seu discurso é a favor da democracia racial, porém esta é um mito. bjus

Ana Carolina Rocha disse...

A Paz do Senhor irmão,
concordo com vc em muitas coisas no seu artigo, porém defendo políticas de cárater afirmativa, pois é como uma dívida que o governo e as universidades tem que pagar ao povo negro brasileiro, verdadeiramente não existe raça isto é fato, porém existe etnia e cor, ainda que no fundo sejamos todos de uma mesma origem, na nossa sociedade moderna ainda existe o preconceito, perceba se na nossas igrejas pentencostais tem negros doutores e acadêmicos, seu discurso é a favor da democracia racial, porém esta é um mito. bjus

Mario Sérgio disse...

O texto realmente é muito oportuno. O pentecostalismo implantado no Brasil, apesar de se colocar como herdeiro do evento ocorrido em 1906 na rua Azuza, não conseguiu superar os preconceitos existentes na sociedade brasileira. O próprio livro do Rev. Marcos Davi de Oliveira citado pelo o autor do texto comenta que, apesar de os afrodescendentes serem grande maioria nas igrejas pentecostais, eles no entanto estão longe dos cargos de liderança. Isso mostra que além de assimilar os valores da sociedade de consumo através da teologia da prosperidade, a igreja pentecostal, assimilou os preconceitos existentes na sociedade. E isso não é de hoje, pois desde sua implantação, os negros e as mulheres foram os mais discriminados e distanciados das esferas de poder. Da rua Azuza só se resgatou o derramamento do Espírito. A forte presença de negros e mulheres na liderança foi varrida para debaixo do tapete da história.

Mario Sérgio disse...

O texto realmente é muito oportuno. O pentecostalismo implantado no Brasil, apesar de se colocar como herdeiro do evento ocorrido em 1906 na rua Azuza, não conseguiu superar os preconceitos existentes na sociedade brasileira. O próprio livro do Rev. Marcos Davi de Oliveira citado pelo o autor do texto comenta que, apesar de os afrodescendentes serem grande maioria nas igrejas pentecostais, eles no entanto estão longe dos cargos de liderança. Isso mostra que além de assimilar os valores da sociedade de consumo através da teologia da prosperidade, a igreja pentecostal, assimilou os preconceitos existentes na sociedade. E isso não é de hoje, pois desde sua implantação, os negros e as mulheres foram os mais discriminados e distanciados das esferas de poder. Da rua Azuza só se resgatou o derramamento do Espírito. A forte presença de negros e mulheres na liderança foi varrida para debaixo do tapete da história.

Jhosemberg disse...

Graça e Paz! Está de Parabéns pelo texto, está bem flexível; porém discordo que no Brasil,nas nossas Igrejas não há racismo. Sou um Negro mestiço (me classificam como pardo, mas não me considero Pardo). A maioria dos líderes Pentecostais são caucasianos ou pessoas com traços europeus. Somente em Igrejas dsconhecidas é que há forte presença da Negritude, mas a liderança oficial e famosa das Assembléias de Deus como Jabes de Alencar, Silas Malafaia, entre outros são Homens de Deus, Ungidos mas não apresentam traços tão Negros. Quero deixar bem claro que não tenho nada contra eles, apenas gostaria de que nossa Nação tivesse mais referenciais Afro-descendentes.

Anônimo disse...

ups sorry delete plz [url=http://duhum.com].[/url]

Um bom dia de vitória disse...

Por favor, eu gostaria q me explicassem qual a relação entre a língua falada no pentecostes, e a língua fada pela igreja Pentecostal, espero a resposta, obrigado!
(abimaelgusmao@ymail.com)

Thigo Santos disse...

todo sistema teólogo,teoria da salvação e crença num deus
único também vieram da África