domingo, 29 de novembro de 2009

O discurso vazio do “evangelicalismo cult”

O discurso do “evangelicalismo cult” é atraente, mas creio não ser sincero. Aliás, ouso crer, um verbo tanto detestável para os “cults”. Pois bem, crendo ou não, preciso analisar alguns prólogos dos profetas de Satre. Vejamos:


“Temos que dialogar com vários autores”


Concordo plenamente. Um bom teólogo lê de tudo, de Friedrich Schleiermacher a R.C. Sproul, de Rudolf Bultmann a John Wesley, de Agostinho a Calvino, de Karl Barth a Wayne Gruden, de Jürgen Moltmann a Augustus Nicodemus. Sempre, é claro, com uma leitura crítica, mas nunca apaixonada. Mesmo a Bíblia, lida com amor e devoção, deve ser examinada segundo critérios hermenêuticos e exegéticos. A própria Bíblia, a Palavra de Deus, nos ensina a examiná-la.


Agora, esse papo dos “evangelicais cults” é balela. Eles dizem para dialogar com vários autores, mas eles mesmos não fazem isso. Eles sempre estão fechados nos mesmos autores. Ler um livro desses teólogos contemporâneos é já presumir a bibliografia dele. Aliás, é possível presumir os autores preferidos facilmente e até as preferências políticas. Não há novidades.


“Em nossa comunidade há liberdade de pensar”


Os “cults” costumam se orgulhar de “pensar fora da caixa”. Dizem que defendem a liberdade de pensamento. Será mesmo? Pelo que vejo realmente tem uma liberdade de pensar, desde que seja igual ao pensamento dos “cults”. Pense fora da caixa, mas venha para a nossa caixa. É mais ou menos assim.


Livres pensadores são realmente livres para a autocrítica, inclusive aceitando a opinião alheia. Mas não é assim que acontece. Esses “evangelicais cults” são tão dogmáticos, que é impossível travar uma conversa sobre os pontos de vista defendidos por eles. Nunca vi uma reflexão crítica sobre eles mesmos.


“Temos que lutar pela justiça social”


Ok, ok. Vamos lutar pela dita justiça social. Concordo que é o cerne do Evangelho, que restaura o humano espiritualmente e materialmente. Tal atitude é chamada muito felizmente de “missão integral”. Agora, nada desse papinho antiburguês, pois soa pura hipocrisia. Essas igrejas que mais enaltecem os pobres das favelas estão cheias de pessoas na classe média, ou média alta. Ou seja, se é tão bonito o trabalho na favela, por que não estão lá? As igrejas pobres que nem sabem o que é “terceiro setor” estão realmente trabalhando nas favelas e restaurando o humano integralmente.


Vejo que muitos “evangelicais cults” usam esse papo para aproximar seu pensamento do establishment esquerdista. Assim, muitos defendem a tal “teologia da libertação”, que nada mais é do que a substituição da cruz pela foice e o martelo. Isso é necessariamente ruim? Não diria ruim ou, mais radicalmente, pecaminoso. Mas é no mínimo ingenuidade. Não vivemos mais no final da era industrial do século XIX. O mundo mudou, mas muitas mentes continuam na “mais valia”. O pior é protestar contra a burguesia, quando a membresia da igreja é totalmente burguesa. Portanto, mais uma incoerência desses “cults”.


“O fundamentalismo é horrível”


Eu também não gosto do protestantismo fundamentalista, que é no seu cerne um conglomerado de questões secundárias colocadas na importância de questões centrais. Ou seja, para fundamentalistas é heresia discordar deles em questões como escatologia ou eclesiologia, por exemplo. Agora, isso não me impede de reconhecer os benefícios do fundamentalismo protestante, como o nascimento da apologética e a unidade doutrinária.


Quando eu ataco o fundamentalismo constantemente, acabo por minar até as suas virtudes. Por isso, não é saudável esse ódio que os “evangelicais cults” nutrem pelo fundamentalismo. Engraçado, que nunca os vejo falando mal, por exemplo, de outros grupos religiosos não-cristãos. Acabam com os fundamentalistas, mas são incapazes de reprovar os hindus.


É, chega por aqui...


Como nesse blog há realmente espaço para o contraponto, você, amigo “evangelical cult”, pode manifestar a sua opinião.

4 comentários:

Cristiano Silva disse...

Não sou um dos que ligam o termo "fundamentalismo" à algo automaticamente negativo. Claro que existem os abusos, mas em todos os lugares estes existem. Quando me considero "fundamentalista", não o sou por querer impor minha visão escatológica, ou etc, mas sim porque confesso a raiz, os fundamentos do Cristianismo: a fé em Cristo; o Senhor Jesus como único caminha ao Pai; a autoridade da Bíblia como Palavra de Deus.

Coisas assim, infelizmente, nem todos confessam mais. Abraços.

Renato Gama disse...

Olá, editor,
Você é uma pessoa inteligente. Diria até que você não deixa de ser um "cult" que pensa diferente. Admiro sua firmeza de opinião. Concordo que o apego excessivo ao evangelho social seja minimizar a potencialidade espiritual do cristianismo. Mas discordo da sua posição de que se trate de trocar a cruz pelo martelo e foice (veja a luta social constante nos escritos dos profetas menores - nem existia socialismo na época).
O bom senso e o equilíbrio são fundamentais para aplicar o peso certo a cada face do cristianismo.
Parabéns pela relevância do blog!
Renato Gama
Médico e Estudante de Teologia "cult"

Alex Fajardo disse...

Esse mês de novembro fomos de novo e colocamos o pé no morro, 30 jovens lá em cima na favela, missão integral é isso, colocar o pé no morro, fora as diversas frentes de trabalho que acompanham em loco.

http://alexfajardo.wordpress.com/2009/08/01/solidariedade-no-morro-do-borel/

abçs

cleber.cabral disse...

Manão,
percebi uma tentativa de alguns evangélicos esquerdistas (principalmente do Kivitz) de se apropriar do termo "evangelical".

Mas precisamos cuidar pra não confundir as coisas. Evangelicalismo não é sinônimo de esquerdismo e muito menos de teologia da libertação.

Evangelicalismo é um movimento sério, um equilíbrio entre o fundamentalismo e o liberalismo.

Aliás, no meu BLOG tem um texto sobre isso.
http://confraria.diinoweb.com/files/07_Quadro_Comparativo_Movtos.pdf

Cleber.
http://confraria-pentecostal.blogspot.com/