domingo, 27 de dezembro de 2009

Cristianismo avança na China

Leia a matéria (em azul) da repórter Cláudia Trevisan, do jornal “O Estado de S. Paulo”, na edição desse domingo. Comento no final.

Cristianismo avança na China

Dados extraoficiais mostram que número de praticantes já ultrapassa o de filiados ao Partido Comunista


Cláudia Trevisan

Todas as quintas-feiras, às 9 horas, a chinesa Cao Guan Lan recebe em seu apartamento em Pequim cerca de 60 pessoas munidas de Bíblias. Nas duas horas seguintes, elas escutam a pregação de um pastor ou outro fiel, cantam juntas e rezam orações pontuadas com fervorosas exclamações de "amém!". O grupo integra uma das milhares de "igrejas familiares" que surgiram na China nas últimas duas décadas e transformaram o protestantismo na religião de mais rápido crescimento no país governado pelo ateu Partido Comunista.

Só no bairro no noroeste de Pequim, onde Cao vive, há cerca de 50 igrejas familiares que contam com a chancela do governo para funcionar. Há um incontável número de "não-oficiais", cujos fiéis estão sujeitos à perseguição do Estado, que se intensificou nos últimos meses.

O caráter clandestino de muitos grupos torna difícil estimar o número de cristãos na China, mas entidades independentes apontam para uma cifra bem superior aos 10 milhões de protestantes e 4 milhões de católicos reconhecidos pelo governo. Segundo números oficiais, apenas 100 milhões do 1,3 bilhão de chineses professam alguma fé.

Pesquisa realizada em 2007 pela East China Normal University indicou que 31,4% da população têm religião - o que representa 400 milhões de pessoas. O protestantismo é seguido por 40 milhões e o catolicismo, 14 milhões, afirma o levantamento - o que dá um total de 54 milhões de cristãos. A entidade World Christian Database sustenta que o número é de 111 milhões, o que colocaria a nação comunista entre os países de maiores populações cristãs do mundo. O Brasil ocupa o segundo lugar, após os Estados Unidos, com 140 milhões. Se a cifra for precisa, significa que há mais cristãos na China do que membros do Partido Comunista, que tem 76 milhões de filiados.

O protestantismo é a vertente do cristianismo que mais floresce na China por causa de seu caráter não-hierárquico e popular - qualquer um pode pregar o Evangelho e vários chineses abraçaram essa possibilidade com fervor. A grande maioria dos protestantes não é vinculada a nenhuma das denominações tradicionais, como Batista ou Presbiteriana, e se integra a pequenos grupos que surgem de modo independente.

Na reunião na casa de Cao presenciada pela reportagem do Estado, Ding You Zhen, de 69 anos, falou durante uma hora sobre o amor de Deus e o envio de seu único filho à Terra para salvar os homens. Na pregação em mandarim, as poucas palavras reconhecíveis para um estrangeiro eram Iesu (pronúncia local de Jesus), Maria e amém. Ding é filha de cristãos, mas se distanciou da fé após chegada dos comunistas ao poder, em 1949, e mais ainda durante a Revolução Cultural (1966-1976). "Era um período vago. Eu sabia que havia um Deus, mas não ia mais à igreja", disse. Como muitos chineses, ela se batizou no período em que trabalhou nos EUA, em 1987, quando foi levada a um culto por seu ex-patrão. De volta à China, continuou a seguir o protestantismo e, dede 2001, vai a igrejas familiares.

Outro símbolo do rápido crescimento do protestantismo na China é a Igreja cristã de Haidian, o bairro universitário de Pequim. Todos os domingos, de 6 mil a 7 mil pessoas comparecem aos seis cultos realizados no local. Há oito anos, o número de fiéis não passava de 800 e havia apenas dois serviços, lembra o pastor Wu Weiqing, responsável pela congregação.

INTELECTUAIS

Segundo ele, 70% dos que participam dos cultos têm menos de 35 anos e muitos são intelectuais e estudantes. Também há chineses que se converteram enquanto estudavam no exterior e mantiveram o hábito de ir à igreja ao voltar para casa.

O pastor Wu observa que um dos fatores que torna o cristianismo atraente para os chineses é o fato de estar associado a países tecnológica e economicamente desenvolvidos, como EUA e Alemanha. A afirmação ecoa o título do clássico do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, que associava os princípios dessa vertente do cristianismo ao desenvolvimento da economia de mercado, abraçada pela China há 30 anos.

Ex-integrante do Partido Comunista, o economista Zhao Xiao escreveu em 2002 um artigo defendendo a adoção do cristianismo pela China para o bom desenvolvimento da economia de mercado. Segundo ele, a grande diferença entre EUA e China não é a distância tecnológica ou a disparidade de renda, mas a existência de igrejas no país americano e a inexistência delas em sua terra natal.

Zhao sustentava que o crescimento econômico precisava de um fundamento moral que estimulasse o respeito a regras comuns e coibisse o comportamento predatório na busca do lucro.

Comentário:

É bom e esperançoso saber que o cristianismo avança pela China. Tal fato alimenta a esperança que a grande potência emergente do século XXI possa abrir-se para a democracia, e consequentemente respeite os direitos humanos. A ocidentalização da China somente ajudará os bilhões de chineses a uma vida melhor, e com a possibilidade de se abrirem para o Evangelho. O interessante que em Pequim, o protestantismo avança pela classe intelectual da cidade. Em um post do dia 11 de fevereiro desse ano, eu já discutia sobre o assunto. Leia aqui.

Leia reportagens complementares nos comentários.

2 comentários:

Gutierres Siqueira disse...

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Igrejas ''clandestinas'' estão na mira do governo de Pequim

No mês passado, 5 protestantes foram condenados por liderar templo ilegal com 60 mil seguidores; há também 8 padres e 3 bispos católicos presos

Cláudia Trevisan

"Clandestino" é um adjetivo utilizado na classificação de movimentos políticos, mas na China ele é associado a igrejas que existem sem a autorização do governo, o que coloca seus seguidores na mira das forças de segurança de Pequim.

No fim do mês passado, a China condenou cinco religiosos protestantes a penas de 3 a 7 anos de prisão, em uma das mais duras decisões em casos do tipo. O grupo liderava uma igreja que reunia 60 mil seguidores na Província de Shanxi, no norte da China.

Como várias que existem no país, a igreja não era registrada no Departamento de Assuntos Religiosos do governo, responsável pela supervisão de temas relacionados à fé. Sua função é garantir que as igrejas respeitem o Partido Comunista e não tentem desafiar sua autoridade. Não por acaso, os grupos registrados recebem o nome de "patrióticos", pela promessa de fidelidade ao Estado antes da religião.

"OPIO DO POVO"

Além da visão crítica que os comunistas têm da religião - o "ópio do povo" marxista -, a história chinesa reforça a desconfiança em relação a movimentos religiosos. Nos 2 mil anos de trajetória imperial, nunca existiu uma igreja independente que rivalizasse com o poder do Estado, à diferença do que ocorreu no Ocidente com o catolicismo. E uma das maiores ameaças à última dinastia chinesa, a Qing (1644-1911), foi a Rebelião Taiping (1850-1864), comandada por um líder messiânico que acreditava ser o irmão mais novo de Jesus Cristo .

Mais recentemente, o papa João Paulo II teve participação decisiva no fim dos regimes comunistas do Leste Europeu e na queda do Muro de Berlim, algo que Pequim não pretende que se repita em seu território.

China e Vaticano não têm relações diplomáticas e a Igreja Católica Patriótica não é subordinada ao papa. Seus padres e bispos são ordenados pela própria organização, sob a supervisão do Departamento de Assuntos Religiosos.

Os católicos ligados ao Vaticano mantêm na China uma rede clandestina de seminários e igrejas, dirigidos por padres e bispos nomeados pelo papa. A Cardinal Kung Foundation, com sede nos EUA, estima que oito padres e três bispos da Igreja Católica Romana estão presos na China. De acordo com a entidade, outros dois bispos morreram na prisão recentemente, um em 2007 e outro em 2005.

O advogado Li Fanping, que defendeu os cinco protestantes condenados no mês passado, acredita que o principal alvo do governo são as igrejas familiares, compostas por pequenos grupos que se reúnem em casas.

"As igrejas familiares estão entre as forças não-governamentais de maior crescimento do país. Esse grupo está fora do controle do governo e, na China, as autoridades são hostis aos movimentos que fogem ao controle oficial, porque são vistos como uma ameaça ao regime e à estabilidade social", disse ao Estado Li Fanping, cristão desde 1997.

O governo também vê com suspeita o trabalho de missionários estrangeiros, associados ao colonialismo de que a China foi vítima a partir de meados do século 19. Inúmeros pregadores católicos e protestantes entraram no país sob a proteção das forças invasoras para converter os chineses ao cristianismo. Hoje, a atuação de missionários estrangeiros é proibida pelo governo, mas muitos agem de forma clandestina.

O exemplo mais recente que Pequim quer evitar é a seita Falun Gong, que nos anos 90 reuniu 70 milhões de seguidores, número superior ao de filiados ao Partido Comunista na época. A Falun Gong foi banida em 1999, depois que 10 mil de seus seguidores cercaram a sede do PC para pressionar pela libertação de um integrante do grupo. As autoridades chinesas classificam a Falun Gong de "culto maligno" e não admitem nenhuma manifestação pública de simpatia pelo movimento.

Gutierres Siqueira disse...

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País imprime 12 milhões de Bíblias ao ano

Cláudia Trevisan

A China, país oficialmente ateu, é um dos principais impressores de Bíblias do mundo, responsável por cerca de 25% dos novos exemplares que circulam no "mercado". A cada ano, 12 milhões de unidades do livro sagrado dos cristãos saem do parque industrial da Amity Printing Company, na cidade de Nanquim, uma das antigas capitais imperiais chinesas.

Maior "fábrica" de Bíblias do mundo, a unidade é a única autorizada pelo governo chinês a atuar no país e trabalha a um ritmo de 23 exemplares por minuto. Da produção, 80% ficam na China e 20% são exportados para 70 países. A Amity imprime Bíblias em 75 línguas, incluindo 10 da própria China. Os que imprimem ou distribuem Bíblias na China sem autorização podem terminar na cadeia. Em junho de 2009, o líder de uma igreja familiar Shi Weihan foi condenado a 3 anos de prisão e multa de US$ 22 mil sob a acusação de ter "operações empresariais ilegais". Antes de ser preso, Shi imprimia e distribuía Bíblias gratuitamente.