segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O arrebatamento do apóstolo Paulo e os arrebatamentos contemporâneos (Parte Final)

Leia a primeira parte desse artigo aqui.

Analisando o texto de II Co 12.1-10, é possível analisar o contexto de uma grande experiência espiritual vivida pelo apóstolo Paulo.

Qual a grande diferença entre os “arrebatamentos” contemporâneos e o arrebatamento de Paulo?

A resposta está no primeiro versículo desse texto: “Em verdade que não convém gloriar-me; mas passarei às visões e revelações do Senhor” (v.1). Fica claro que Paulo reconhecia a inutilidade de se gloriar com essa experiência. Ao relatar o “arrebatamento de sentidos”, o apóstolo está escrevendo um prefácio daquilo que ele considera mais importante, que é a alegria na fraqueza (v. 10). Paulo não era um megalomaníaco!

O que é um megalomaníaco? É simplesmente um orgulhoso com gosto excessivo pela grandeza. Muitos pregadores evangélicos, que falam constantemente em experiências de arrebatamento, demonstram essas tendências arrogantes. Até na escolha dos ternos, os pregadores megalomaníacos mostram a mania de ser grande. E o que dizer da oratória do espetáculo? Do emocionalismo em formato de show? O orgulho é o pecado chave para definir esses homens.

Para Paulo, a fraqueza é uma rica oportunidade da manifestação da Graça de Deus (v. 9). Já para os pregadores megalomaníacos, a fraqueza é um sinal de maldição que deve ser expurgada. Paulo não tinha medo de ser ou parecer fraco. Já os pregadores da grandeza morrem de medo da fragilidade, pois são ufanistas, triunfalistas e loucos pela constante demonstração de força. Não é à toa que eles constroem grandes catedrais, compram ternos extravagantes e usam o púlpito como um pequeno palco de uma peça teatral declamada por um único ator.

Os pregadores triunfalistas, os “caras” que tudo podem, não são uma invenção dos tempos modernos. Paulo já os enfrentava no primeiro século na cidade de Corinto. Eles desprezavam o apóstolo, pois era um homem de fraquezas. - “Como pode um apóstolo de Cristo viver doente?” - Assim indagavam os falsos apóstolos a respeito de Paulo. Eles se achavam grande, por esse motivo desprezam o pequeno apóstolo. Não consideravam a autoridade apostólica de Paulo, pois esse não tinha essa mania de propagar suas supostas virtudes.

Como lembra o teólogo pentecostal Gordon Fee, para Paulo “as revelações são um assunto particular da espiritualidade pessoal, e não um teste de autenticidade apostólica” [1]. O apóstolo tinha consciência disso: As visões e revelações são vãs para confirmar um ministro cristão como autêntico, assim como para a edificação da congregação. A edificação é estreitamente pessoal. Revelações são valiosas e edificantes, mas somente no campo da espiritualidade individual.

Outra diferença entre o arrebatamento de Paulo e os “arrebatamentos” contemporâneos é o teor de “novas revelações”

No texto Paulo escreve:

Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos (se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe), foi arrebatado até ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar. (vv. 2-4)

Ou seja, o apóstolo chegou do céu calado. Enquanto isso, os pregadores megalomaníacos chegam supostamente do céu ensinando “novas revelações”. Paulo se identifica na terceira pessoa, demonstrando mais uma vez como ele não dava tanta importância para essa experiência como os “grandes apóstolos” de Corinto valorizavam. Já os “conferencistas” de hoje falam e se gabam na primeira pessoa ao descreverem esses arrebatamentos. O apóstolo sequer sabia se esteve ou não fisicamente no céu (v. 2) e nem fala daquilo que viu, mas somente diz que “ouviu palavras inefáveis” que não poderia revelar pelo caráter particular da revelação. Mas os pregadores megalomaníacos falam em detalhes o que viram ou deixaram de ver lá no céu. Realmente são pessoas excepcionais!

É difícil definir as “palavras inefáveis” ouvidas por Paulo. Alguns interpretam como louvores indescritíveis ou como palavras incompreensíveis, outros como uma mensagem muito pessoal, e ainda é possível interpretar como verdades canônicas reveladoras a posteriori pelo apóstolo em outras cartas. A verdade é que Paulo evitou ao máximo a exposição dessa revelação [3].

Conclusão

A grande lição dessa passagem é que Paulo não tinha um delírio de grandeza. Era um homem humilde: “De tal coisa me gloriarei; não, porém, de mim mesmo, salvo nas minhas fraquezas” (v. 5 ARA). Ele poderia muito bem se orgulhar da grande experiência que tivera no arrebatamento, mas não o fez, pois preferia se gloriar na fraqueza. Ele reconhecia que o poder de Cristo vinha por meio de adversidades, como um espinho em sua carne (v. 7, 9). O poder de Cristo não é grandeza de experiências espirituais, mas sim o reconhecimento da Graça de Deus nos momentos de fraqueza.

Ora, como tal pensamento contraria o triunfalismo contemporâneo. Como escreveu Matthew Henry, falando do arrebatamento de Paulo: “É uma ótima coisa ter um espírito humilde no meio de elevados progressos” [2]. Paulo relutou em falar sobre esse assunto, e só se manifestou catorze anos depois do acontecido (v. 2). Hoje, quantos testemunhos proclamados para engrandecimento de pregadores. O apóstolo até lembrou que o espinho na carne era uma forma de aplacar a tentação da arrogância (v. 7) e reconhecer que era fraco e dependente de Deus (v. 10).

O mundo evangélico seria bem melhor sem a mentalidade de grandeza dos seus líderes, pregadores e cantores divorciados do modelo bíblico. O poder de Deus se manifesta na fraqueza; não nos grandes templos, nos ternos coloridos, nos gritos ensurdecedores, nos testemunhos grandiosos. Tudo isso é vaidade.

Referências Bibliográficas:

[1] FEE, Gordon. The First Epistle to the Corinthians. 8. ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 1996. p 348.

[2] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Matthew Henry. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 540.

[3] Leia mais sobre o assunto na primeira parte do artigo, cujo link está no início do texto. Além disso, o Blog Teologia Pentecostal já publicou um texto sobre o assunto em outubro de 2007, leia aqui. É interessante também ler o argumento do pastor Ricardo Gondim: “‘Arrebatamento’ não é um dom a ser buscado. Assim como andar sobre as águas, ou transfigurar-se não deve ser o objeto de fé. Ser arrebatado não acontece porque se busca, se acontecer é resultado da fé em Deus. A Bíblia não ensina e nem incentiva ninguém a ter experiência, qualquer que seja ela. Nas Escrituras somos encorajados a desejar ardentemente a Deus. Se nessa busca haverá manifestações de maravilhas, não compete a ninguém determinar qual e com que frequência. In RODRIGUES, Ricardo Gondim. O Evangelho da Nova Era. 2 ed. São Paulo: Abba Press, 1993. p 129.

Nenhum comentário: