terça-feira, 30 de junho de 2009

Debate Blogélico: Evangélicos e política

Pode um pastor se envolver com política partidária? E a compra de votos entre crentes? Denominações devem apoiar candidatos? Os evangélicos brasileiros sabem aproveitar bem a política? Pois é, essas e outras perguntas correram nesse novo debate blogélico, entre esse blogueiro, o Victor Leonardo (Geração que Lamba) e o João Paulo Mendes (Blog do JP). Ouça, baixe e comente.
Nesse link: DEBATE

Feridos em nome de Deus


Caros irmãos,

A jornalista Marília de Camargo César lançará hoje (30 de junho de 2009) o seu primeiro livro para o público cristão. Trata-se da obra Feridos em Nome de Deus (Editora Mundo Cristão), que traça muito bem o problema de abuso de poder por parte de alguns pastores evangélicos, com suas práticas dominadoras.

O lançamento do livro será na Livraria Cultura do Shopping Vila Lobos, a partir das 19h30.
O Shopping Villa Lobos está situado à Av. das Nações Unidas, 4.777 - Alto de Pinheiros, São Paulo - SP. A Livraria Cultura fica no segundo piso. O acesso é muito fácil, principalmente de trem.

Eu já li o livro e recomendo a todos, tanto aos membros e aos pastores.

domingo, 28 de junho de 2009

Isto é uma vergonha!

Lendo o blog do amigo evangelista Daladier Lima, me deparo com uma notícia desagradável noticiada pela Agência Estado. Leia a matéria (em itálico) e eu comento depois:

Assembleia de Deus já pede voto de fiéis para 2010

O bispo Manoel Ferreira, presidente vitalício da Assembleia de Deus e deputado federal (PTB-RJ), tem mandado cartas aos pastores importantes da igreja, a maior denominação evangélica do País - com cerca de 3,5 milhões de adeptos - para pedir votos ao também pastor Dilmo dos Santos para deputado estadual em São Paulo nas eleições do próximo ano.

Obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo, a correspondência tem tom ameaçador e deixa claro aos pastores presidentes de campo (responsáveis pela administração de uma média de 50 templos) que seus cargos são de confiança e eles estão obrigados a apoiar o candidato.

"Esta eleição me mostrará quem são meus amigos e homens de confiança através dos mapas eleitorais. (...) Oro a Deus que não tenha nenhuma surpresa negativa, o que evidenciaria em quebra de confiança", diz o texto.

Ferreira determina aos pastores em outro trecho que rompam qualquer acordo com outro político. "Mais vale a presidência de uma igreja e a confiança de um presidente nacional vitalício que qualquer acordo político contra a nossa vontade."

A seguir, o dirigente conclama os pastores a iniciar imediatamente o que chama de "conscientização" da pré-candidatura. "Não vamos iniciar o trabalho na época da eleição", defende. A legislação define a data de 6 de julho do ano de pleito, ou seja, daqui a pouco mais de um ano, para o início da propaganda política.

Presidente da Assembleia de Deus em Piracicaba, interior de São Paulo, Dilmo dos Santos não vê nenhuma irregularidade na propaganda antecipada.

"Esta é uma decisão interna corporis da igreja. Eu tive minha pré-candidatura aprovada em um congresso da denominação em novembro do ano passado, em Bauru. Além disso, não estou fazendo campanha, sou apenas pré-candidato indicado pela instituição e não temo que a carta seja interpretada como campanha antecipada", disse.

Procurado pela reportagem durante três dias, o bispo Manoel Ferreira não retornou às ligações com pedido de entrevista.

Comentário:

Pois é, o que posso comentar? Melhor lamentar, pois quem sabe ainda reste um pouquinho de esperança. Mais uma vez o terrível e pernicioso “coronelismo pentecostal” se manifesta. E o coronelismo não combina com ética, mas sim com um pragmatismo amoral. O amado pastor candidato (aliás, pré-candidato), não vê nada demais em fazer campanha eleitoral fora de tempo, quando isso é proibido pela lei do país. O que comentar? Se lamentamos pela falta de ética dos nossos governantes, como temos visto a crise no Senado, então só podemos lamentar por esse episódio. Se aquela carta não é uma campanha antecipada, ela é o quê? Sejamos coerentes com a inteligência das pessoas!

Não podemos nos calar diante dessas questões anti-éticas. Cadê os protestos do povo de Deus? Onde estão os “protestantes” que pararam de protestar? Ainda naquela linguagem “espiritual” o amado bispo-deputado diz: “Oro a Deus que não tenha nenhuma surpresa negativa, o que evidenciaria em quebra de confiança”. Ameaça velada usando o nome de Deus. Será que esquecemos que usar o nome de Deus em vão é pecado?

Hoje em dia o “poder pentecostal” se confundiu com poder sobre os homens, a política, as grandes empresas... Oxalá que pudéssemos viver com o princípio dos pioneiros do pentecostalismo, que nada viam na glória dos homens, mas sim no Reino de Deus! Ao dito pastor (pré) candidato já fizeram até uma música que passa todos os sábados em um daqueles programas “evangelísticos”.

Ah, sem mais, encerro minhas palavras. Mas lembre-se, aí daquele que não votar no irmão, pois...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Amor, a Virtude Suprema

Uma reflexão do equilíbrio entre verdade e amor

Subsídio para as Lições Bíblicas (CPAD)- I Coríntios: Os problemas da Igreja e suas soluções

Não se conhece um verdadeiro cristão pelo seu modo de vestir (usos), de falar (evangeliquês), de suas proibições (legalismo), de seus modos (costumes), de suas teologias (correntes de pensamento), mas sim e principalmente pelo amor (cf. Jo 13.35). Todos os aspectos primeiramente citados são secundários diante do amor, pois eles seguem quem pratica essa virtude suprema. Mas e a convergência do amor com a verdade?

Amor ou verdade? Ortopraxia ou ortodoxia?

Dentro dessa lição é importante destacar a relação entre a verdade e o amor. Isso por algumas razões. Em primeiro lugar, existe uma tendência atual de alguns pastores protestantes que abraçam uma “nova espiritualidade”, que destacam a piedade e o amor de modo. O propósito é fazer de todos os crentes “humanos melhores”. Até aí tudo bem. Isso é cristianismo, ou seja, novas criaturas em Cristo Jesus. Mas muitos desses parecem que veem na chamada “velha ortodoxia” um grande empecilho no desenvolvimento da “nova espiritualidade”.

Por que isso? O que a ortodoxia é nociva a uma verdadeira espiritualidade? Por que essa ideia? Nada disso, só somos cristãos completos se tivermos amor e verdade em nossos corações. Amor e verdade são irmãos siameses. Tire um e você distorce o outro. Verdade sem amor é horrível, é o pai da Inquisição. Amor sem verdade é horripilante, é a cegueira espiritual de pessoas com cara de boazinhas. Defender uma “verdade” sem amor é fácil, vejo por exemplos os comunistas, fascistas e nazistas. Defender uma vida de suposto amor sem a verdade é também fácil. Alias, para que eu me pareça bom e politicamente correto, não preciso sequer de religião.

A verdadeira espiritualidade não é divorciada da verdade. As colunas da espiritualidade e suas práticas estão na verdade bíblica. Mesmo as pessoas piedosas de outras religiões ou até mesmo ateais, quando praticam o bem ao próximo, estão na verdade obedecendo a princípios bíblicos, bem que de modo inconsciente. Alguns ateus são defensores de “valores humanos”, tais como a tolerância, respeito, amor, perdão etc. Ora, tudo isso está nas Escrituras. Os princípios são cognitivos a partir de verdades expostas. Parte da verdade de Deus também está exposta no coração dos homens.

Agora, praticar muitas boas obras faz de alguém filho de Deus? De maneira nenhuma. Ser pobre, miserável e desvalido faz necessariamente um homem como filho do Senhor? De maneira alguma. Ora, então isso é injustiça, não é verdade? Não, não é injustiça. Suje sua mão com barro e tente limpar um papel que está sujo que dois ciscos. O que acontecerá? Sua boa obra pôde limpá-lo? Sua boa obra pôde pelo menos melhorar o papel? Agora, experimente uma ducha da torneira, com água corrente e limpa. O que acontecerá? Maravilha! Mãos limpas, que tirando os ciscos dos papéis também melhorarão a qualidade dessa folha.

Pense bem. É lógica. Obras sociais que não alcançam a alma humana adiantam alguma coisa? Sim, adiantam. Adiantam nessa terra, cuja vida passa como um vento. Mas e a eternidade? A missão da igreja só é completa se for integral. Mude o homem nessa terra e apresente a possibilidade de uma eternidade com Cristo. Sim, sabemos que não precisamos chegar ao céu para desfrutar de uma vida digna. Podemos desfrutar dessa vida abundante ainda hoje, sem neuroses, sem desesperos existenciais, sem opressão. Tudo isso é possível dentro de uma comunidade cristã sadia. A comunidade de cristãos tem a missão de ajudar uns aos outros. Como pode alguém do meio da comunidade passar fome? Será que não existe assistência dos irmãos? Que irmão é esse que não ajuda outrem? Prometer o céu fechando as mãos é uma tarefa longe do Evangelho de Cristo. O apóstolo Tiago em sua epístola (2.14-17 BJ) já disse:

Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, o que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento.

Vocês observaram como a última expressão de Tiago: “morta em seu isolamento”? Sim, no isolamento da verdade (sem amor) há morte. O mesmo serve para o contrário. Isolamento do amor (sem verdade) gera morte. Portanto, sempre será uma tarefa diabólica a promoção do divórcio entre a verdade e o amor ou entre o amor e a verdade.

Os perigos da beleza e amor sem a verdade

O romancista inglês G. K. Cherterton criou uma história muito interessante de dois poetas que dialogam em um bairro excêntrico de Londres. Um poeta era anarquista e o outro ordeiro. O poeta anarquista diz:

Um anarquista é um artista. O homem que atira bombas é um artista, porque prefere um grande momento a tudo o mais. Esse homem percebe que valem muito mais detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. Um artista afronta todos os governos, omite todas as convenções. O poeta só está à vontade na desordem. Não fosse assim a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea... Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados, tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. É porque sabem que o trem está na rota certa. [1]

O poeta ordeiro responde:

É você que é antipoético... Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro, só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos com a sua poesia. O maravilhoso, o raro, está em chegar à meta. O vulgar, o insípido, está em não atingi-la. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. No caos o trem poderia ir a qualquer parte, a Bakar Street (Londres) ou a Bagdá... O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjoo no mar. É um estado de revolta. Ambas, a doença e a revolta, podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. Mas, enforquem-me, se posso ver em que são elas poéticas! A revolta, abstratamente, é... revoltante. É mero vômito! [2]

Quando li essa história fantástica da menta criativa de Chersterton, lembrei que muitos dos defensores da espiritualidade divorciada da verdade, parecem com o poeta anarquista, que em nome da beleza, da arte e do amor, defende até a experiência de trabalhar com bombas. Em nosso no amor propõem o terror. Não é isso que muito tem feito? Segundo eles, para uma nova espiritualidade, “mais humana”, é necessário inclusive revisar e descartar certas doutrinas bíblicas. Papo furado. Será que preciso descartar a doutrina da Queda para olhar os homens como a Imagem de Deus? Não, não preciso. O importante é que eu tenha a consciência que os humanos são ao mesmo tempo são pecadores e a Imago Dei.

Portanto, os verdadeiros convertidos são aqueles que equilibram amor e verdade, ortopraxia e ortodoxia. Quem ama ao próximo, primeiro ama a Deus. Quem ama a Deus, obedece a seus mandamentos. Os mandamentos só são conhecíveis pelos princípios da Palavra de Deus.

Referências Bibliográficas:

[1] CHESTERTON, Gilbert Keith. O Homem que foi quinta-feira. s/ed. São Paulo: Círculo do Livro, s/data. p 10.

[2] Idem. p 10-13.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vamos trocar o disco?!

Sim, nas Assembleias de Deus precisamos trocar o disco. Há anos que essa denominação contaminou-se com uma tendência triunfalista em suas músicas. Existem várias exceções, com os hinos da Harpa Cristã e cantores esporádicos, mas o que reina mesmo são as músicas com temática de vitória. Eu particularmente tenho várias críticas ao pessoal dos “grupos e ministérios de adoração”, mas pelo menos as letras produzidas por esses cantores refletem uma adoração. Veja por exemplo uma letra da cantora Heloísa Rosa:

Como um vento

Tua presença leva-me aos teus pés
Como vento sopra sobre mim
Não entendo o que fazes aqui Senhor
Grande Pai, fiel amigo és tu Senhor

O teu amor Senhor vai além do céu
O teu perdão Senhor me alcançou
O teu amor Senhor vai além do céu
O teu perdão Senhor me alcançou

Cura-me, restaura-me, enche-me de Ti
Teu amor Senhor vai além do céu

Além de ser uma letra muito bonita e uma melodia suave, tal hino é adequada para o momento de adoração. Outros exemplos poderiam ser dados, tais como boas músicas do grupo Diante do Trono, Ministério Intimidade, Santa Geração etc. Sim, não me esqueço dos equívocos apresentados por muitos desses grupos, tais como um misticismo, atos proféticos e até tendências judaizantes, mas as letras e músicas, em sua maioria, estão bem melhor do que esse triunfalismo das “letras pentecostais”.

Dentro de um quadro mais equilibrado de cantores, que apresentam boas letras, cuja temática é a adoração, estão Adhemar de Campos, Asaph Borba, Daniel Souza, Gerson Ortega, João Alexandre, Massao Suguihara, Nelson Bomilcar, Stênio Marcius, Vencedores por Cristo. Pelo menos nesses citados você não verá “atos proféticos”.

Agora, o que não dá é essa tendência antropocêntrica da “música pentecostal”, cantada especialmente pelos grupos de Círculo de Oração das Assembleias de Deus e cantores especialistas em play back. Nesse momento, tenho em mãos uma pasta com “hinos” de um vocal assembleiano, as músicas selecionadas são realmente de deixar qualquer um triste. Veja os títulos de algumas: “profeta de Deus”, “Eu profetizo”, “mãos sagradas”, “orei pra ter resposta”, “terremoto santo”, “até o fim”, “braço de ferro”, “Deus está no controle”, “recompensa”, “se creres veras”, “o Senhor já me respondeu” e aí vai com quase 100% das letras voltadas para o mesmo tema: vitória.

Vejo que isso é um sério problema das Assembleias de Deus. Na última AGO (Assembleia Geral Ordinária) da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), que aconteceu em Serra (ES), a maior parte dos cantores convidados só cantou essas letras pobres, como dito acima, que só falam em vitória e triunfo. Até mesmo os vocais locais. O problema não é enxergado, simplesmente ignorado sob frases como “o culto foi uma bênção, avivado etc”.

Portanto, quando vamos trocar o disco? Caro cantor e regente assembleiano, peço que vocês abracem a essa campanha, e tire todas essas músicas triunfalistas do seu grupo musical. Troque as músicas onde o homem é o centro, para aquelas em que Deus é o centro. Veja bem a letra que você está cantando. Cante Salmos, cante boas letras. Pense no que você está cantando!

Vai aí uma sugestão:

Louvemos ao Senhor
Louvemos ao Senhor
Adoremos do seu santo monte
Nosso amado Pai, Seu nome é Santo

Louvamos ao Senhor, pois Seu nome é Santo
Louvamos ao Senhor, pois Seu nome é Santo

Magnifiquemos ao Senhor
Ao Rei que é digno de louvor
Ele é Excelso, Supremo e mui digno de louvor
Excelso, Supremo e mui digno de louvor

Hosana, Hosana,
Hosana ao Nosso Rei

Cristo é a nossa vida
O motivo do louvor
Em nosso novo coração
Pois morreu a nossa morte, para vivermos a sua vida
Nos trouxe grande salvação


Louvamos ao Senhor por Adhemar de Campos

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Abusos da liderança

“Mesmo se o pastor estiver errado, nós devemos obedecê-lo, pois a Bíblia diz que devemos honrar nossos líderes”. Eu já tive o desprazer de ouvir essa asquerosa frase. Incrivelmente há aqueles que pregam uma obediência cega aos seus pastores. Pessoas que acreditam que os seus líderes são incriticáveis, infalíveis, uma espécie de “papa evangélico” ou no evangeliquês, um “ungido do Senhor”. Pastores que estão acima das Escrituras, pois suas palavras são “inspiradas” por Deus e soam como Palavra do Senhor.

Muitos pastores carismáticos (em ambos os sentidos) usam de um poder persuasivo, com toques de emocionalismo exacerbado, para “manipular” os fiéis. Utilizando supostos “dons” do Espírito (?) para humilhar pessoas, por meio de supostas revelações e profecias e até exigir quantias de dinheiro através de “atos proféticos”. A jornalista Marília de Camargo César escreveu uma reportagem em formato de livro sobre abuso de autoridade por parte de pastores evangélicos, ela conclui:

Uma das conclusões a que cheguei foi que esse tipo de culto fortemente movido pelas emoções confere enorme poder à liderança. E o poder é uma espada que poucos manejam com graça. É fácil errar a mão. É fácil cair na tentação de manipular. [1]

Outros acreditam piamente que maldição de pastor pega. Ou seja, crentes que são ameaçados “espiritualmente” ao trocarem de congregação ou por não acatarem uma decisão do líder, pois esses pastores alertam sobre a grave ameaça de sair de sua “cobertura espiritual”. Certamente se alguém ouvir essa espécie de maldição deve sair o mais rápido possível. Eles são verdadeiros terroristas “espirituais”, uma espécie de “pastor Bin Laden”. Existiria algo mais pagão do que isso? Difícil responder.

E a bajulação?Uma verdadeira praga. Quem disse que pastores devem viver em um modo de vida irreal, com dissonância em relação as suas ovelhas? Há congregações que, tendo pobres em seu meio, pagaram viagens para Israel aos seus pastores. Tudo bem, se o pastor tiver condições de fazer essa maravilhosa viagem, que faça, mas baseadas em uma oferta de uma congregação necessitada, aí não dá. Os espertalhões logo dizem que os críticos são hipócritas e tentam escapar de suas vaidades acusando outros. A mania de grandeza de alguns afeta inclusive seu ministério da pregação (bem rentável por sinal), pois jamais transmitem a Palavra em ambientes desagradáveis. Como escreveu o pastor José Gonçalves: “As ovelhas gemem quando o pastor conhece mais a arte de tosquiar do que a de apascentar” [2].

Em muitas igrejas pentecostais e neopentecostais, com suas estruturas caudilhistas, enxergam seus líderes não como servos, mas como empresários, administradores, CEOs e até minimonarcas. Nessa condição, os mesmos ganham uma cadeira de destaque nos palanques da igreja, sendo a mais bonita das cadeiras. Aliás, qual a funcionalidade daquele palanque cheio de homens engravatados sentados? Lembro que certa vez fui a um casamento, que inclusive estava sendo filmado, e os auxiliares daquela igreja estavam todos no “púlpito”, uma coisa nada haver, um verdadeiro vício dos lugares especiais. O pior é quando acontece alguma festa na igreja, onde visitantes ficam de pé, por causa da lotação, e os diáconos, auxiliares, presbitérios etc., todos sentados naquele palanque.

Ainda há a maldita idolatria. Crentes que não acreditam em santos e imagens de escultura como seus mediadores, mas agem como se seus pastores fosse esses mediadores, por serem pessoas com uma suposta aura especial. Outros líderes encarnam essa idolatria e logo mudam sua nomenclatura para apóstolos, e logo serão conhecidos como semideus. Pessoas que atribuem a si mesmo o poder e os milagres.

Como no texto que escrevi nessa quarta-feira (veja logo abaixo), o abuso das autoridades “espirituais” se dá também por meio de legalismos infantilizantes. Aplicam regras e mais regras além das Escrituras e acabam criando um estado de forte repreensão e medo. Tal ambiente é facilitador de toda sorte de abuso. Portanto, é muito pecado sob a capa de “santidade”, só que essa santidade não é bíblica.

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas também devemos dar graças a Deus pelos bons pastores, que estão longe desses modelos caudilhistas, que não valorizam o poder acima do humano. Pessoas que dedicam sua vida para o crescimento do Reino de Deus e entregam sua vida para uma linda obra pastoral. Portanto, honrai aos bons pastores, denunciai os falsos.

Referências Bibliográficas:

[1] CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em Nome de Deus. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2009. p 19.

[2] GONÇALVES, José. As Ovelhas também Gemem. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 67.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Infantilização do legalismo

Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne. (Cl 2. 20-23)

Você acredita que tem gente sendo disciplinada (lê-se: Retirada da comunhão da igreja, além de “privação” do céu) porque simplesmente resolveu pintar uma unha ou cortar as pontas do cabelo? Você acredita que alguns pregadores fanáticos pregam que é um grave pecado assistir qualquer programa jornalístico? Você acredita que alguns condenam o uso inclusive de uma gravata vermelha? Sim, essa é a realidade de milhares de evangélicos todos os dias nesse país.

Esses líderes pensam e agem como se suas ovelhas fossem crianças medievais, das quais não viviam senão debaixo de inúmeras regras. Os legalistas produzem a infantilização do seu rebanho. Quando uma regra não é acompanhada de pesada vigilância da liderança, logo acontece a transgressão dessas normas. Por que isso acontece? Porque os princípios bíblicos não estão enraizados no coração, mas sim no raso pires do legalismo, na superficialidade de exterioridade.

Quando uma liderança acredita que seus subordinados são crianças necessitadas de regras, não demora muito para que os abusos de autoritarismo surjam. Toda igreja legalista tem líderes autoritários. Isso é uma regra, com poucas exceções. A “piedade pervertida” manifesta suas garras e seus choques de uma liderança distante do modelo “líder-servo”, exposto por Jesus Cristo, pois “qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva” (Mc 10.43).

Portanto, os “tabus comunais” onde as denominações criam milhares de regras acima das Escrituras, baseadas em suas tradições e pensamentos humanos, surgem então uma igreja doente, legalista, hipócrita, mas bem distante da santidade bíblica, que brota do interior e manifesta no exterior. Mais do que essas “listinhas de regras” necessitamos mergulhar em nossos corações os princípios bíblicos, que nortearão nossas vidas sem cabresto. Não esqueçamos que a santidade vem de Deus e começa pelo espírito, para então chegar ao corpo (I Ts 5.23). O caminho contrário é uma deturpação.

Debate Blogélico: A pregação contemporânea

O que é uma genuína pregação bíblica? Qual o papel da pregação expositiva e temática? O que caracteriza uma pregação pentecostal? Quais exemplos positivos e negativos que ouvimos diariamente nos púlpitos? Qual tipo de material o pregador deve buscar para o seu aprimoramento?

Essas e outras perguntas são respondidas em mais um debate promovido por alguns blogueiros, que inclui a mim, Gutierres Fernandes Siqueira, o João Paulo Mendes (Blog do JP) e Victor Leonardo Barbosa (Blog Geração que Lamba).

Ouça no próprio blog ou faça o seu download para escutar no seu MP3. Não se esqueça de comentar e fazer o seu feed back.
Ouça aqui

domingo, 21 de junho de 2009

A distorção da oração

Sempre ouvimos o verdadeiro alerta que a geração evangélica hodierna ora pouco. Isso é verdade. Agora, mas preocupante do que a quantidade de horas oradas é a qualidade dessas orações. Ou seja, além de orar pouco, a igreja evangélica ora mal. Infelizmente hoje as orações são voltadas somente para a busca desenfreada de bênçãos e mais bênçãos, sem a oportunidade de ser um caminho para a adoração e comunhão com Deus. Ou seja, só se aproximam do Senhor por interesse. Nada mais pagão e menos cristão.

O pastor Ricardo Gondim, mui acertadamente escreveu:

Considero que a oração se apequenou em nossos dias. Hoje não passa de uma técnica religiosa que faz “Deus operar”. Jesus serve de moeda de troca ou tônico que fortalece a oração, e que “move o braço de Deus”. Temo que, caso os evangélicos não recobrem o significado da graça, todo o exercício da espiritualidade se condenará à função de conseguir bênçãos. Ou Deus ama a partir de uma decisão unilateral ou ele precisa ser tratado como um ídolo, que cobra sacrifício de seus adoradores. [1]

Portanto, nossos problemas vão além daqueles alertados nos púlpitos, pois a podridão está nas bases.

Referência Bibliográfica:

[1] GONDIM, Ricardo. Direto ao Ponto: Ensaios sobre Deus e a Vida. São Paulo: Doxa Produções, 2009. p 14.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ajuda aos Necessitados

Por Gutierres Fernandes Siqueira


Nesses tempos em que há abundância de pregadores envenenando suas congregações com o “evangelho da saúde e prosperidade”, transvertida sob a antibíblica “confissão positiva”, muitos cristãos estão desaprendendo o verdadeiro valor da oferta, que é a ajuda aos necessitados. Temos hoje uma igreja que não ensina o altruísmo, mas pelo contrário, incentiva os mais mesquinhos desejos egoístas.

O neopentecostalismo (ou pseudopentecostalismo) contemporâneo, que se move conforme o dinheiro, em muito distorceu a mensagem pentecostal. O pentecostalismo clássico baseava a oferta e doações na expansão da evangelização e ajuda aos necessitados. O pioneiro pregador da Rua Azusa, William J. Seymour certa vez escreveu:

Houve mestres que ordenaram às pessoas venderem o que tinham, e muitos tornaram-se fanáticos. Nós, todavia, deixamos o Espírito guiar os crentes e dizer-lhes o que ofertar. Quando alguém fica cheio do Espírito, a sua carteira se converte e Deus o torna mordomo. Se Deus lhe ordenar: Venda! Ele vende.

O teólogo Alessandro Rocha lembra que:

É preciso estabelecer uma diferenciação entre essa perspectiva da doação de dinheiro no pentecostalismo clássico e no neopentecostalismo. No primeiro caso, tratava-se de ofertas destinadas ao sustento da própria igreja e dos membros mais carentes; no segundo, essa prática se torna cada vez mais agressiva, e seu fim é o enriquecimento de alguns líderes e o fortalecimento de grandes corporações. [1]

Portanto, é uma verdadeira infelicidade ver pregadores ditos pentecostais aprendendo a arrecadar dinheiro com os “Edis Macedos” da vida. Estão vendendo a alma para um modelo antibíblico e desumano. É uma verdadeira distorção do pentecostalismo, do cristianismo e claro, das Sagradas Escrituras.

Dízimos e ofertas não são um meio de sustentação de grandes redes de televisão, que promovem novelas tão imundas como a concorrente global. É incrível e ridículo que alguns evangélicos achem que essas igrejas são modelos nos usos dos meios de comunicação social. Pelo contrário, hoje a evangelização nesse país é mais difícil graças ao “bom testemunho” dos bispos empresários.

Ajuda aos necessitados de Jerusalém

No último capítulo da primeira epístola de Paulo aos coríntios, ele, o apóstolo, exorta os cristãos para ajudarem seus irmãos necessitados. Os cristãos de Jerusalém viviam sob forte perseguição e então, impedidos de trabalho e cidadania, habitavam entre os miseráveis daquela cidade. A igreja-mãe sofredora precisava da urgente ajuda dos demais cristãos.

É bonito observar que Paulo pediu ajuda para os cristãos judeus a uma igreja composta em sua maioria por gentios. Barreiras étnicas caiam também com o princípio da generosidade na oferta. O Brasil, que se porta como uma nação emergente, fruto das mudanças positivas na macro-economia pelo Plano Real nesses últimos vintes anos, certamente promete um crescimento econômico mais sustentável nos próximos anos, levando essas terras tupiniquins ao quadro das nações mais desenvolvidas. Nessa condição, esse país receberá cada vez mais os imigrantes dos países vizinhos pobres e instáveis politicamente. Cabe a igreja evangélica atentar para as necessidades dos imigrantes, combatendo qualquer forma de xenofobia e sustentando aqueles que necessitam, além da apresentação do Evangelho.

Além disso, a condição deplorável de algumas regiões do país faz vergonha. Necessitados há ainda que vivem debaixo da miséria nas favelas das grandes cidades, no sertão nordestino, nas vilas da Amazônia, nas aldeias sem visibilidade da FUNAI. Entre eles, estão também milhares de cristãos, que sabem na pele a ilusão irrealista utópica do “evangelho da saúde e prosperidade”. Esse blogueiro já teve a oportunidade de visitar uma comunidade de agricultores no interior do Maranhão (o Estado com o pior Índice de Desenvolvimento Humano desse país), em que uma família de onze pessoas viviam com uma renda de R$ 95,00. Naquela época na havia nenhuma assistência de igrejas evangélicas naquele lugar, mas hoje, graças a Deus, existe uma congregação assembleiana que faz um trabalho social esporádico, principalmente com a distribuição de cestas básicas.

Não basta uma ação correta, é necessária uma motivação correta

Aparentar generosidade é fácil. Ofertar como forma de soberba é simples. Dizimar como barganha é descomplicado. Qual a real motivação no momento da oferta? Essa é uma pergunta crucial para o cristão, pois enquanto é possível ofertar o próprio corpo sem amor, é possível também ofertar sem amor a Deus e ao próximo. A pessoa que recebe a oferta é beneficiada, mas nunca o ofertante, que será sempre um mesquinho diante de Deus, Aquele que conhece todas as coisas.

Ofertar por obrigação é horrível. Ofertar para satisfação própria é uma distorção. Ofertar para ganhar pontos, honra e prestígio é asqueroso. O ofertante constrangido pela lei e obrigação não agradou a Deus. O ofertante que se gaba na sua auto-honra é um inútil diante do Senhor. Infelizmente são esses os tipos de relacionamento que se tem ensinado nas muitas igrejas evangélicas, que ofertam em forma de barganhar com Deus. Não ensinam um relacionamento de amigo e pai, mas sim de comerciante. Estão adorando ao deus comerciante, cuja forma de relacionamento está baseada na moeda, na troca. O Senhor livre a sua Igreja desse paganismo!

Referência Bibliográfica:

[1] ROCHA, Alessandro. Espírito Santo: Aspectos de uma Pneumatologia solidária à condição humana. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 150.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Debate Blogélico: Música evangélica contemporânea

Como está a qualidade da música evangélica contemporânea? E as letras de cunho triunfalista e vingativo? E a relação do cristão com a dita música "secular"? Todos os ritmos louvam ao Senhor? Deus criou ritmos? E o louvor congregacional, cadê?

Esses e outros assuntos são discutidos nesse debate blogélico. Dessa vez, contamos com a presença dos amigos Victor Leonardo (Blog Geração que Lamba) e João Paulo Mendes (Blog do JP).

Ouça logo abaixo, ou então faça um download e ouça no seu aparelho compatível com o formato MP3.



Faça o download nesse link:

o crente e a música.mp3

terça-feira, 16 de junho de 2009

A Bíblia é um tratado científico?

Nesse domingo, o jornal Folha de S. Paulo publicou no Caderno Mais uma longa entrevista com o padre norte-americano George Coyne. Coyne foi o primeiro líder religioso a receber um importante prêmio da sociedade científica ligada à astronomia. Ele, que possui doutorado na área, recebeu o prêmio Van Biesbroeck, da Associação Americana de Astronomia.

A entrevista trata sobre o velho dilema de fé versus ciência e a possível convergência entre esses dois tipos de conhecimento. Coyne faz uma observação interessante sobre a leitura bíblica e discorda do pensamento de que a Bíblia seja um livro científico. Vejamos um trecho das colocações de Coyne sobre o assunto:

Uma grande realização dentro da igreja foi a encíclica "Providentissimus Deus", de Leão 13, que começou a ensinar aquilo que a igreja defende hoje: você deve interpretar as escrituras de acordo com a técnica literária. Você não pode interpretá-las literalmente. E além disso: não há nenhuma ciência nas escrituras. As escrituras começaram a ser compostas por volta de 5.000 a.C., com o patriarca Abraão, até cerca de 200 d.C., mais ou menos. A ciência moderna começou a existir entre os séculos 16 e 17. Como poderia haver alguma ciência nas escrituras? Há uma separação de pelo menos 1.500 anos entre a redação final das escrituras e a ciência moderna. Então, não há nenhuma ciência nas escrituras. Zero. E qualquer um que quiser usar as escrituras de modo científico incorrerá em erros[1].

Agora, minhas observações. Penso que ele está certíssimo quando fala que a Bíblia precisa ser interpretada segundo as suas técnicas literárias, sendo que um salmo precisa ser interpretado como uma poesia e um livro como Provérbios precisa ser interpretado como um conjunto de provérbios; assim também, como um livro histórico precisa ser interpretado como um livro de história. Acreditamos que a Bíblia conta histórias literais, mas ao mesmo tempo trabalha com parábolas e figuras de linguagem, que é claro, não podem ser levadas ao pé da letra. Quem leva uma linguagem metafórica na literalidade pode ter problemas (cf. Jo 3.1-6). É preciso ficar claro na mente do cristão que a Bíblia possui vários estilos (histórias, poesias, provérbios, metáforas, tratados, cartas pessoais, cartas comunitárias e livros de cunho apocalíptico). Portanto, cada um desses estilos desse ser lido conforme a estrutura dos mesmos.

O respeitado exegeta assembleiano Gordon Fee nos chama à atenção quanto ao chamados “gêneros bíblicos”. Ele afirma:

Um dos aspectos mais importantes do lado humano da Bíblia é que Deus, para comunicar a Sua Palavra para todas as condições humanas, escolheu fazer uso de quase todo tipo de comunicações disponível: a história em narrativa, as genealogias, as crônicas, leis de todos os tipos, poesia de todos os tipos, provérbios, oráculos proféticos, enigmas, drama, esboços biográficos, parábolas, sermões e apocalipses... Para interpretar corretamente o “lá e então” dos textos bíblicos, não somente se deve saber algumas regras gerais que se aplicam a todas as palavras da Bíblia, como também se deve aprender as regras especiais que se aplicam a cada uma destas formas literárias (gêneros)[2].

Interpretação literal

A interpretação da Bíblia é literal onde a literalidade se aplica, como em histórias. Por exemplo, histórias como Jô, Jonas e a abertura do Mar Vermelho são literais, logo porque foram escritas em um gênero narrativo. Agora, a interpretação da Bíblia não é literal em meio a linguagem figura e/ou própria da cultura local. Quando Coyne diz: “Você não pode interpretá-las literalmente”, assim referindo-se a Palavra de Deus, ele está certo, mas a frase está mal colocada. Melhor ficaria assim: A Bíblia não pode ser interpretada literalmente quando não tenho certeza do gênero que estou lendo, e nem pode ser interpretada figuradamente, quando não tenho certeza sobre o gênero que estou lendo. Assim que o gênero foi definido, então analisamos se devemos ler literalmente, figuradamente ou de ambas as formas. Quando assim analisamos, fugimos de leituras bíblicas falaciosas promovidas pelos adeptos das “teologias” liberal, neo-ortodoxa e também ultrafundamentalista.

Livro científico?

Penso que Coyne está certo quando afirma que a Bíblia não é um livro de ciências. Esse não foi o propósito das Escrituras. A Bíblia é um conjunto de sessenta e seis livros que trazem a revelação suficiente para a nossa salvação, mas a mesma não traz receita médica ou aulas de matemática. O apóstolo Paulo deixa bem claro o propósito real das Sagradas Escrituras: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (II Tm 3. 16-17)

O mesmo acontece com a tentativa bem intencionada de alguns cristãos que escrevem livros do tipo “evidências científicas da existência de Deus”. Ora, como provar Deus por meio da matéria. Isso acaba por distorcer o conceito de crença cristã, “visto que andamos por fé e não pelo que vemos” (II Co 5.7).

Referências Bibliográficas:

[1]COYNE, George. E, no entanto, se move. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 jun. 2009. Entrevista. Caderno Mais. p. 4-5.

[2] FEE, Gordon e STUART, Douglas. Entendes o Que Lês. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 19.

Igreja Emergente. O que é isso?




Igreja Emergente. O que é isso?

Nessa sexta-feira, assista a uma palestra com o Dr. Luiz Sayão, que falará sobre “igreja emergente”. Não perca, espero você lá.

Endereço:

Igreja Cristã da Trindade (Pr. Paulo Romeiro)

Av. Jabaquara, 2461
Ao lado do metrô São Judas.

Data e horário:
19/06/2009 às 19h30min

domingo, 14 de junho de 2009

Plante uma semente na sustentação da politicagem!

Quem nunca ouviu o discurso de tele-evangelistas apelando aos crentes para contribuírem financeiramente com os programas televisivos? Lembra que sempre esses tele-evangelistas dizem que a causa nobre está na propagação do Evangelho? Eles também sempre lembram que precisamos plantar uma semente de fé para colhermos milagres... Não é mesmo?

O engraçado é que nada disso contemplamos nas redes de TV. Não vemos Evangelho sendo anunciado, mas somente a proclamação de uma pesada burocracia denominacional, personalismo de pastores astros, triunfalismo de um discurso irrealista e divorciado das Escrituras... Além de toda essa sopa podre, também estamos assistindo o lavar de roupa suja em plena rede de TV, sendo a mais pura (aliás, impura) politicagem eclesiástica.

Olha “tem cheque sem fundo”, olha “fraudaram as eleições”, olha “eu poderia ter sido eleito” e blá, blá, blá... Depois de todo esse desabafo politiqueiro e não original, vamos contribuir com esses programas pela bela forma como eles evangelizam os que ainda não receberam o Evangelho.

Aleluia, pois nunca na história desse país se usou tanto a televisão para transmitir as “boas novas”.

PS: os amáveis “anônimos” que querem expressar alguma opinião, por favor, se identifiquem com nome e sobrenome.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A Ressurreição de Cristo

Subsídios extras para a lição I Coríntios - Os problemas da Igreja e suas soluções 2º Trimestre/2009

O advento da modernidade trouxe consigo o iluminismo racionalista e incrédulo, que dentro do seu ceticismo contestou várias doutrinas, entre elas a ressurreição de Cristo. O movimento reformista modernista pretendia revisar as doutrinas cristãs sob a luz das correntes filosóficas predominantes no século XIX. A chamada “Teologia Liberal” apresentou uma das mais sutis argumentações contra a doutrina da ressurreição e ainda hoje influencia muito dos seus adeptos. Os estudos sociais contemporâneos buscam um distanciamento do racionalismo iluminista moderno, mas isso não significa o retorno das crenças ortodoxas, pois enquanto esse afastamento é buscado, esses mesmos teóricos aproximam-se do relativismo e agnosticismo pós-moderno. Ou seja, enquanto os modernos diziam que não existia a ressurreição, os pós-modernos afirmam que a ressurreição existe dentro de cada coração disposto a crer, relativizando assim um conceito concreto.

Principais argumentos contra a ressurreição de Cristo

Ateus, agnósticos, “teólogos” liberais, mulçumanos e outros anticristãos argumentam com pinta de inteligência sobre a ressurreição de Cristo, tentando negar e desmerecer o ponto central do kerigma e esperança cristã. Porém, os apologistas cristãos nunca foram ludibriados pelos frágeis argumentos desses céticos. Vejamos algumas dessas teorias.

Teoria do desmaio

Alguns céticos dizem que Cristo, na verdade, não tinha morrido naquele momento, mas simplesmente desmaiado. Isso é o que afirma os mulçumanos, por exemplo. Alguns até dizem que Jesus recebeu um “remédio” que o manteve vivo (Mc 15.36) e depois, no túmulo ele se despertou. Ora, toda a história mostra que Cristo realmente morreu.

Em primeiro lugar, Jesus sofreu uma hematidrose, fruto de um estresse psicológico excessivo que fez como que ele suasse gotas de sangue (Lc 22.44). Jesus também sofre o açoitamento romano, com uma pele sensível devido à hematidrose. Esses açoitamentos consistiam em 39 chicotadas. Os chicotes possuíam tiras de couros trançadas, como bolinhas de metal amassadas e pedaços de ossos. Recebeu também espinhos na cabeça. Depois de todo esse processo, Cristo ainda carregou uma pesada cruz e foi crucificado na hora mais quente do dia. Esse sofrimento de 24 horas o levou a completa exaustão e morte, comprovada por um dos soldados romanos (Jo 19. 32-34).

Algum desidratado e abatido sobreviveria a tamanho sofrimento físico? Mesmo que depois de tudo isso, ainda acontecesse um simples desmaio, o mesmo teria saído vivo de um lugar fechado e ainda conseguiria remover uma grande pedra? Improvável. Pela improbabilidade dessa teoria, ela só surgia em meados do século XVIII.

Teoria da fraude

Os defensores dessa ideia dizem que os discípulos roubaram o corpo de Cristo. Na verdade, esse argumento é o mais velho da história (Mt 28.11-15). Essa falácia não se sustenta por algumas razões óbvias. Primeiro, os discípulos se mostraram covardes diante da morte de Cristo, quanto Cristo foi preso, todos fugiram. Ora, então por que só agora esses apóstolos se revestiram de coragem? Segundo, a tumba de Cristo estava repleta de soldados romanos. Esses soldados deixariam tal assalto acontecer e ainda ficariam impunes? Isso não tem a menor lógica. Terceiro, como mais de uma dezena de homens morreriam da pior forma possível, vivendo intensamente sob perseguição, e ainda assim permaneceriam sustentando uma mentira?Alguns defendem que os inimigos de Cristo roubaram o seu corpo. Pra quê? Sem resposta. Outra, quando os discípulos pregavam diariamente a ressurreição, por que então esses inimigos não apresentaram o corpo do Jesus morto?

Teoria da alucinação

Esse é o pior e o mais ridículo dos argumentos. Para seus apologistas, todos os discípulos e seguidores de Cristo (que passavam de quinhentas pessoas) sofreram uma alucinação coletiva. Uma ou duas pessoas alucinadas é até compreensível, mas centenas delas é uma brincadeira com a razão.

Teoria do túmulo errado

Teoria desenvolvida por Kirsopp Lake, dizia que as mulheres foram para a sepultura errada. Em primeiro lugar, ali era a sepultura de José de Arimatéia, portanto, o mesmo poderia indicar a localização exata. Outra, os romanos e sacerdotes poderiam também mostrar o verdadeiro túmulo. Lake usou simplesmente de uma criatividade semelhantes aos seus netos na pré-escola.

Argumentos sutis da “teologia” liberal e de outras correntes modernas para negar a ressurreição

Alguns correntes defendem argumentos carregadores de linguagem piedosa e até cristã, mas não passa de uma completa distorção do Evangelho de Jesus Cristo. Enquanto as teses apresentadas acima são mais ouvidas no meio secular, as teses que agora serão apresentadas estão presentes no discurso de alguns líderes religiosos.

A ressurreição foi um evento simbólico, mas não histórico

As Escrituras claramente colocam a ressurreição como um evento histórico. O texto de Paulo aos coríntios é um exemplo claro disso (I Co 15). O bispo anglicano David Jenkins diz que a garantia da ressurreição de Cristo não é um sepulcro vazio, mas sim a presença do Senhor na vida dos discípulos. Engana-se Jenkis, pois o sepulcro vazio e a crença na ressurreição estão intimamente ligados. Como disse Charles K. Barrett: “A fé... seria destruída pela descoberta do corpo morto de Jesus, mas não é criada apenas pela descoberta de um sepulcro vazio”.

Sem historicidade, a ressurreição perde o seu sentido bíblico, que é a preeminência da ressurreição no final dos tempos de todos os salvos.

A ideia de ressurreição é simbólica, pois é uma exata cópia das crenças presentes na época

Igualmente falsa é essa ideia de que a ressurreição de Cristo seja uma doutrina copiada pelos apóstolos e aplicada na cristandade como simbologia de esperança. Muitas seitas da época acreditavam em ressurreição, até como o próprio judaísmo, mas nada era parecido com a radicalidade e heterodoxidade apresentada pelos cristãos. Primeiro, a crença dos cristãos era e é de uma ressurreição com o mesmo corpo, permanente e glorificada. Não tem lógica que os cristãos simplesmente compraram uma utopia de outras religiões e aplicaram para si. Lembrando que a ressurreição era o coração da pregação cristã, eles morrerem defendendo isso como uma verdade literal.

A ideia de ressurreição é a cópia de mitos pagãos (gnósticos)

Muitos apelam para os supostos mitos das religiões antigas que apresentam um herói morto e ressuscitado. O influente antropólogo inglês, James George Frazer, defendia que os autores do Novo Testamento simplesmente copiaram os mitos do herói morto e ressuscitado. O teólogo alemão Rudolf Bultmann dizia que os relatos da ressurreição é influência da mitologia mandeísta. Ambos usavam esse argumento para desqualificar a crença na ressurreição.

O engraçado é que na história da mitologia antiga, não há sequer um único personagem mitológico onde esse mito do “herói ressuscitado” seja aplicado. O Novo Testamento relata as datas, o lugar e as testemunhas da ressurreição, e esse tipo de dados não era aplicados em narrativas mitológicas. Sendo assim, não há paralelo na mitologia quanto ao que os cristãos fizeram no Novo Testamento.

O famoso escritor anglicano C. S. Lewis, um verdadeiro especialista em mitos, dizia que não existia relação alguma entre a mitologia pagã (gnóstica) com os Evangelhos. (Leia a fantástica crítica de C. S. Lewis nesse link: http://tempora-mores.blogspot.com/1997/10/cslewis-teologia-moderna-e-crtica-da.html).

Outro fato engraçado, é que os mitos do “herói ressuscitado”, que foram explorados por Frazer e Bultmann são oriundos de um período posterior aos escritos do Novo Testamento. Então, pela lógica do tempo, quem poderia ter influenciado eram os escritores neotestamentários, e não o contrário.

Conclusão

Encerro esse texto com as enfáticas palavras de Paulo:

E, se Cristo não foi ressuscitado, a fé que vocês têm é uma ilusão, e vocês continuam perdidos nos seus pecados. Se Cristo não ressuscitou, os que morreram crendo nele estão perdidos. Se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo. Mas a verdade é que Cristo foi ressuscitado, e isso é a garantia de que os que estão mortos também serão ressuscitados. (I Co 15.17-20 NTLH)

Bibliografia:

MCGRANT, Alister. Apologética Cristã no Século XXI. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008.

FERREIRA, Franklin e MYATT, Alan. Teologia Sistemática. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007.

STROBEL, Lee. Em Defesa de Cristo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2001.

PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F. e REA John. Dicionário Bíblico Wycliffe. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

HAWTHORNE, Gerald F., MARTIN, Ralph P. e REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e Suas Cartas. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, Paulus, Edições Loyola, 2008.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

E a bizarrice continua...


É vergonhoso esse espírito circense em um dito pentecostalismo espalhado nesse país.

É lamentável esse pseudopentecostalismo com forte ênfase empirista, produtor de dons “espirituais” extrabíblicos, fascinado por espetáculos pirotécnicos e desprezadores máximos da reflexão bíblica.

É triste também, a banalização do título “Assembleia de Deus”, que mediante centenas de divisões por disputas de poder, tornou-se uma anomalia.

É estranho ouvir expressões como “garagem de fogo”, “profetas de fogo”, “voz de trovão”, “filho do fogo”, “cantor da carruagem” etc., que nada tem haver com a linguagem bíblica, mas não passam de clichês pobres de criatividade.

Isso nada mais é do que uma total distorção do pentecostalismo e ainda mais do cristianismo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Perguntas On-line

Silene Marques, de Minas Gerais, pergunta:

De acordo com a Bíblia, é certo ou errado falar em línguas no culto sem que haja interpretação? Em 1 Co 14.27 diz que não devem falar mais de 3 pessoas e somente se houver interpretação. No versículo 28 diz para ficar calado na igreja mas falar consigo e com Deus. E nos versículos 6, 17 e 23 do mesmo capítulo fala que não edifica. Na escola dominical eles defendem que é correto pois a pessoa edifica a si mesmo (1Co 14.4), e que talvez alguém pode entender a mensagem

Resposta:

Você acabou respondendo a pergunta. Os versículos citados por você são uma demonstração clara e direta que as línguas devem sempre de interpretação. As línguas não precisam de interpretação se a oração for devocional, ou seja, solitária e silenciosa. Agora, se a mensagem em línguas for voltada para a congregação, obrigatoriamente essas palavras precisarão de interpretação. Isso está muito claro em I Co 14.
Portanto, é um erro evidente nas igrejas pentecostais a abundância de línguas em voz alta sem uma interpretação. Agora, no momento de oração individual o cristão tem liberdade de orar em línguas sem necessariamente uma interpretação.

Recomendo que todos leiam atentamente cada versículo de I Co 14.

Debate Blogélico: A relação dos evangélicos com a televisão

Continuando nos debates entre blogueiros, hoje temos um tema pertinente, que é a “relação dos evangélicos com a televisão”. Alguns temas como a “necessidade ou não de uma emissora evangélica” são tratados nesse programa, além da discussão sobre a qualidade da programação atual da TV evangélica.

Dessa vez, temos Victor Leonardo como mediador e entre os debatedores, eu e o João Paulo Mendes, do Blog do JP.

Ouça o debate no Blog Geração que Lamba. Nesse link.

domingo, 7 de junho de 2009

Sou arminiano ou calvinista? Eis a questão!

Quem gosta de teologia já ouviu a célebre pergunta: - Você é arminiano ou calvinista? Para mim, em especial, essa indagação é de difícil resposta. Algumas vezes, quando converso com arminianos, eles me apontam como calvinista. Outras vezes, quando converso com calvinistas, eles me apontam como arminiano. Então, eis que nasce em mim uma tremenda confusão. Afinal, eu sou o quê? Qual a minha identidade?

Descobri então que tenho dificuldades com ambas as “teorias” teológicas. Não consigo contemplar ou compreender uma salvação tão fácil de perder, como os arminianos pregam, e ainda resisto a ideia de graça irresistível, que é defendida pelos calvinistas. Ah, também tenho outras dúvidas. Será que o homem é totalmente livre, como defende os arminianos, quando esse mesmo se mostra escravizado e dependente do pecado? Será que a graça é limitada para “muitos”, como defende os calvinistas?

Não, caro amigo, não estou defendendo uma nova teoria. Penso somente que arminianismo e calvinismo são extremos de uma mesma verdade. Então, não seria melhor a tentativa de convergência entre ambas as teorias? É claro que essa tentativa de convergência não seria perfeita, longe disso. Mas alguns perguntam: Como convergir verdades contraditórias?

A Bíblia contém paradoxos?

Sim, é claro. Entenda bem, NÃO estou afirmando que a Palavra de Deus contenha erros, pois Ela é infalível e inerrante. A Bíblia contém paradoxos. Mas o que é isso? Paradoxo é “no sentido lógico, raciocínio aparentemente bem fundamentado e coerente, embora esconda contradições decorrentes de uma análise insatisfatória de sua estrutura interna” (Dicionário Housaiss). Ou ainda o paradoxo é a “afirmação, na mesma frase, de um conceito mediante aparentes contradições ou termos incompatíveis” (Dicionário Michaelis). Entenderam? Ou seja, nossa capacidade insatisfatória de conhecimento pleno das verdades divinas, acaba por nos levar a enxergar os paradoxos.

Qual o exemplo mais claro de paradoxo na Bíblia? Por exemplo, a união hipostática da natureza humana e divina na pessoa de Jesus Cristo. Ora, ou alguém é homem ou alguém é Deus. O homem não é deus porque é homem. Deus não é homem porque é Deus. Agora, cremos que na pessoa de Jesus existe a plenitude divina e humana. Isso é um clássico exemplo de paradoxo bíblico. Os paradoxos estão além da nossa razão!

Outros exemplos aplicam-se no debate calvinismo versus arminianismo. A mesma Bíblia que apresenta uma eleição e uma predestinação, também mostra ordens de proclamação plena do evangelho e a liberdade humana. A mesma Bíblia que fala em Soberania de Deus incita a ideia genérica de livre escolha humana. Ou seja, são paradoxos, verdades aparentemente contraditórias que estão além da nossa razão. Não confunda paradoxo com contradição, pois o primeiro apresenta somente aparências contraditórias. A Bíblia NÃO contém contradições!

A nossa compreensão humana logo quer tachar as verdades da liberdade humana e da Soberania Divina, como irreconciliáveis e contraditórias, se colocadas juntas. Não verdade, tudo não passa de uma aparente contradição, do qual definimos melhor como paradoxo. Precisamos ter em mente que é impossível conhecer todas as minúcias da verdade divina ainda nesse corpo pecador e nessa mente corrompida pela Queda.

Sobre esse assunto, escreve o respeitado e ortodoxo teólogo James Packer, que prefere chamar “paradoxo” de “antinômio”, que:

É preciso atribuir a aparência de contradição à deficiência da nossa própria capacidade de compreensão; encarar estes dois princípios não como duas alternativas rivais, mas como algo que, de alguma forma, você não consegue compreender no presente momento, mas que são mutuamente complementares [1].

Então, por que não seguir o conselho do Dr. Packer? Vemos então que as aparentes contradições entre essas duas “teorias” serem plenamente compreensíveis na eternidade. Portanto, a Bíblia é ao mesmo tempo calvinista e arminiana. O que não adiante é fazer marabalismos exegéticos para desqualificar ou uma ou outra teoria. John Piper, ícone calvinista, certa vez afirmou:

Não cavalgue sobre o que não está no texto. Pregue exegeticamente, explanando e aplicando o que está no texto. Se isto soar Arminianismo, que soe Arminianismo. Confie no texto e o povo confiará em você por ser fiel ao texto. [2]

Portanto, o mesmo serve para os arminianos. Quando pregar exegeticamente e expositivamente, se isso soar calvinismo, que soe calvinismo. A Palavra é que não pode ser contrariada.

Na convergência entre calvinismo e arminianismo: um gol do equilíbrio!

Portanto, o caminho mais seguro, menos conflituoso e certamente mais bíblico (pois não desprezará todo o contexto) é o equilíbrio e a aceitação dessas duas correntes, admitindo as reais dificuldades do pleno entendimento do assunto. Equilíbrio é a palavra chave.

O filósofo Edmund Burke, no seu livro Appeal from the New to the Old Whig diz sobre o equilíbrio: “Está na natureza das coisas que os que estão no centro de uma circunferência pareçam diretamente opostos a quem os vê de qualquer parte da circunferência”[3]. Portanto, não se trata de ser oportunista, mas sim evitar simplificações de conceitos complexos.

Encerro esse texto com a esperança que compartilho dos professores pertencentes ao Seminário de Dallas, que disseram: “Pode ser que no futuro ainda haja mais convergência entre as teologias Arminiana e Calvinista”[4].

Referências Bibliográficas:

[1] PACKER, James I. A Evangelização e a Soberania de Deus. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002. p 18.

[2] PIPER, John. Como Ensinar e Pregar "Calvinismo" in: Monergismo. Disponível em http://www.monergismo.com/textos/calvinismo/calvinismo_piper.htm Acesso em: 07 de jun. de 2009.

[3] COUTINHO, João Pereira. Em busca de Equilíbrio. Dicta e ContraDicta. São Paulo: IFE, Junho de 2009, num. 3. pp 32-42.

[4] PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F. e REA John. Dicionário Bíblico Wycliffe. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 191.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Os Dons Espirituais

Subsídios para a lição I Coríntios - Os problemas da Igreja e suas soluções 2º trimestre/2009

Por dificuldade de terminar um artigo sobre “dons espirituais” em um prazo curto, não publicarei o meu subsídio nessa semana. Então reproduzo nesse espaço o ótimo texto do missionário Gordon Chown. Em breve publicarei um artigo extenso, ou uma série de textos sobre os “dons espirituais”. Aguarde!

Enquanto isso leia o artigo abaixo:

Sobre o autor: Gordon Chown é inglês, mas vive em Jundiaí (SP). Nasceu no anglicanismo, mas hoje é um importante teólogo pentecostal. Dedicou toda a sua vida com traduções de livros, que vão de devocionais até obras eruditas, publicadas por editoras como: CPAD, Cultura Cristã, Vida e Vida Nova. É autor do livro Os dons do Espírito Santo, importante obra para a teologia pentecostal brasileira.

Dons Espirituais: Reflexões pastorais sobre a interpretação e uso dos dons

Por Gordon Chown

Introdução

Ao ser convidado a preparar um artigo, meus pensamentos foram passando pela literatura lida e escrita sobre os dons espirituais, durante anos passados, inclusive pela minha atuação como intérprete e ajudante de missionários estrangeiros em campanhas de cura divina. (Aliás, é bom lembrar que hoje, há grande aceitação mundial dos missionários avivalistas provenientes do Brasil – talvez o maior país exportador de reavivamento).

Essas lembranças porque, na data do convite, minha tese Os Dons do Espírito Santo, escrita em caneta e tinta em fins de 1963, e posteriormente publicada em várias tiragens por diferentes editoras, acabara de ter uma edição revista lançada na 17ª Bienal do Livro em São Paulo, em abril de 2002. A mesma editora me pediu, com urgência, para traduzir imediatamente em seguida, um livro chamado Os Dons Milagrosos são para Hoje?, fruto de um simpósio dirigido pelo Dr. Wayne Grudem, com mais quatro participantes de grande fama e capacidade. Nele, havia citações de quase uma dúzia de livros em inglês que já existiam em português, e aos quais fui consultando. Inclusive algumas dessas obras estive envolvido desde 1969, tais comoEles falam em outras línguas, de John Sherrill e Vai, Disse-me o Espírito, de Davi Duplessis. 

Pois bem, foram quarenta dias intensivos nessa tradução, com as leituras paralelas, e foram trazidas à mente muitas lembranças, tanto da prática, quanto de alguns debates religiosos em nível das igrejas. (Tomo a liberdade de adiantar para possíveis leitores da obra de Wayne Grudem, que a meu ver, todo o peso da argumentação teológica, enaltece o Espírito Santo, e que mesmo o “menos pentecostal” reconhece todos os milagres nos tempos de Jesus e dos apóstolos, e a operação do Espírito Santo hoje, inclusive na cura divina).

1. O Cessacionismo 

Um dos assuntos levantados, ao lidar com o volume traduzido agora, foi o “cessacionismo,” defendido por um dos participantes do debate. É a teoria de que muitos milagres, bem como dons espirituais, existiam em função da formação do cânon do Novo Testamento – quer dizer que houve um poderoso derramamento de milagres na vida de Jesus, e dos apóstolos, mas que cessou depois de encerrado o cânon do Novo Testamento. A idéia é que os milagres confirmaram a divindade de Cristo (fato este que está fora de dúvida) e, semelhantemente, confirmaram a origem divina da atuação e doutrina dos apóstolos (outro fato inabalável). 

Tudo isso concorreu para os registros em todos os livros do Novo Testamento serem reconhecidos como obra legítima e permanente de Deus, parte integrante das Escrituras Sagradas. E isso também é certo. Quando me converti a Cristo, a conversão envolveu a aceitação da inspiração plenária, inerrância e infalibilidade da Bíblia. Inclusive entendo que qualquer conceito da Bíblia que não a reconhece assim, está fora do arraial do cristianismo. 

a) Quando cessou a atuação do Espírito na Igreja? Só que é mais difícil entender como o cessacionismo vai explicar em qual momento, uma vez completadas as Escrituras, o Espírito Santo, de quem elas falam e que justamente foi prometido por Jesus à Igreja, antes da sua crucificação e ascensão, especificamente para continuar com os fiéis, para fazer as vezes de Jesus, de ser sua presença real entre nós hoje – quando teria cessado a atuação do Espírito Santo? O cessacionismo quer declarar que os dons milagrosos do Espírito Santo cessaram com a morte dos apóstolos e com a definição do conteúdo do Novo Testamento.  

b) Cânon Fechado. A intenção dos cessacionistas parece ser preservar o “cânon fechado” contra novas revelações que se colocariam de encontro com o Novo Testamento que possuímos. Contudo, nenhum crente pentecostal, que eu possa imaginar, está pensando que algum dom de profecia ou de línguas com interpretação vá diminuir, substituir, ou acrescentar à Bíblia que, por si só, é obra do Espírito Santo. Jesus disse, ao prometer a vinda do Espírito Santo aos fiéis, que seria para nosso bem que Ele iria embora. Foi para poder nos enviar o Espírito Santo (Jo 16.7), que estará conosco para sempre (Jo 14.16). E a atuação do Espírito Santo fica semelhante àquela narrada nos Evangelhos e em Atos. “O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome lhes ensinará todas as coisas  e lhes fará lembrar o que eu lhes disse”, Jo 14.26. Este texto refere-se ao conteúdo didático. A aplicação de ensinos existentes está em: “Aquele que crê em mim fará também as mesmas obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai”, Jo 14.12. Que é o conteúdo prático, já que o Espírito Santo confirmava com milagres a divindade de Jesus e a doutrina dos apóstolos. Ele continuará com a confirmação dos mesmos fatos, por onde quer que os cristãos levarem a fé.  

2. Línguas em Atos 2

Nos debates sobre a palavra “línguas” em Atos 2, vejo que é incomum reconhecer que se trata de duas palavras no original. Há chamas em forma de “línguas” (v3). Há  palavras faladas com a operação do Espírito Santo sobre a língua física humana – “línguas” (v4). O que o povo ouviu nessa ocasião, eram “idiomas” (grego dialektos) (v. 6 e 8). E o resumo é que o povo escutava as glórias a Deus sendo faladas nas suas próprias “línguas” – o dom de línguas em operação, com a interpretação milagrosa fornecida pelo Espírito Santo.

Notei na exegese teológica em Cambridge a desculpa, para não levar em conta a atuação sobrenatural do Espírito Santo, é que é “imponderável” e um fator difícil de medir. Daí me ocorreu que a diferença entre o orçamento para construir uma casa num terreno, e para fazer obra idêntica debaixo do mar, também seria bem complicada – mas isso não quer dizer que o mar não existe! 

Vejo que os escritos dos Profetas canônicos na Bíblia atacam abertamente o suborno, a corrupção e muitos males da sociedade moderna, mas parece que há pessoas que  procuram mais “futurologia” do que instruções para a ética na vida pessoal e coletiva. Entendo que “profecia” é mais “falar da parte de Deus” às pessoas. As pessoas que acham que os dons espirituais não devem existir hoje, estão mais preocupadas com o dom da profecia, por pensarem que possa surgir nova revelação além da Bíblia, e até mesmo contrária a ela.

Mas, em primeiro lugar, entendo que, mediante a inspiração do Espírito Santo é que a Bíblia é infalível, inerrante e de inspiração verbal plenária. Portanto, nenhuma mensagem proveniente do Espírito Santo estaria contraditória às eternas Palavras de Deus.  

Classifico como seita herética qualquer grupo que vai inventando “novas profecias” para tomar o lugar da Bíblia ou mesmo para existir em paralelo a ela. Nada de “Bíblia mais Papa”, “Bíblia mais Livro de Mórmon” , “Bíblia mais Helen White”, “Bíblia mais a interpretação dos russelitas”, nem sequer “Bíblia mais teólogos”, pois onde existir mais carne humana, a própria Bíblia acaba sendo desrespeitada, e seu Autor, o Espírito Santo, repudiado. Certamente deve haver uma caminhada lado a lado dos dons com os frutos do Espírito Santo. E o poder do Espírito Santo com a vida espiritual semelhante à de Jesus Cristo, que enviou o Espírito para nos tornar reais a pessoa e as palavras Dele mesmo. 

Pensando na responsabilidade de cada crente ler bastante a Bíblia, por conta própria, deixando o Espírito Santo falar ao seu coração, deparei no título de um livro:A  Libertação da Teologia, e consegui adquiri-lo, imaginando que se tratasse da fé íntima que não dependeria demais dos sistemas teológicos organizados. Tinha muitas páginas falando de “espiritualidade” intercaladas com outras sobre a teologia – mas a “teologia” atacada era o próprio estudo individual das Sagradas Escrituras! Classifico como espiritismo semelhantes conceitos. 

Vejo a obra do Espírito Santo brotando da fé bíblica, da conversão, da santificação – sendo todas estas, por si só, são milagres do Espírito Santo – mas acho que buscar visões, milagres, sinais sem instrução bíblica na igreja, sem leitura bíblica devocional prolongada e fervorosa pelos membros, fazem com que os alicerces fiquem fracos.

 

3. As Profecias 

3.1. No Antigo Testamento

Quanto à profecia, sem se tratar de mensagens inscrituradas de modo perpétuo através do Espírito Santo, vemos grande quantidade de profetas, profecias, e profetizar nos livros históricos da Bíblia. Esses livros eram chamados Os profetas anteriores pelos judeus antigos – desde Josué até Neemias – principalmente porque neles surgiam, de tempos em tempos, e sem aviso prévio, servos de Deus (muitos deles anônimos) que interviam com mensagens da parte de Deus, ou que inclusive dominavam a narrativa por algum tempo, tais como Samuel, Elias, Eliseu. E também havia grupos de profetas, escolas de profetas, dos quais se diz apenas que “profetizavam.” Até mesmo temos Saul “profetizando”, sem prever o futuro nem ditando Escrituras.

No contexto histórico, esse verbo dá mais a impressão de fervoroso louvor e glorificação. Nenhuma tentativa de concorrer com novas doutrinas. Por contraste com os “Profetas Posteriores” – de Isaías até Malaquias – cuja doutrina é registrada por toda a eternidade.

 

3.2. No Novo Testamento

Semelhantemente, no “dom da profecia” no Novo Testamento, temos profecias “ad hoc” – aplicadas à situação momentânea de uma ou mais pessoas, sem transmitirem nova doutrina – é somente “adiáfora” matéria que não faz diferença ao conteúdo da fé. O contexto é idealmente uma reunião da igreja, com leitura bíblica, pregação, louvor, orações espontâneas, com a presença do Espírito Santo em plena manifestação (e não uma presença “alegada” como no caso de um Concílio do Vaticano). Num culto assim, surge milagrosamente uma mensagem de profecia, ou em línguas, seguida de interpretação, que é exatamente o que alguém está precisando naquele exato momento – e é pelo Espírito que esse alguém reconhece que se trata de Deus falando ao seu coração. Acaba sendo um duplo milagre – assim como em Atos 2, os apóstolos falaram segundo o dom das línguas milagrosas, e os circunstantes entendiam segundo seus idiomas ou dialetos maternos. Repudiável seria fazer um registro de semelhantes mensagens, e guardar na igreja como uma preciosidade perpétua; já ouvi, também, de “profetisas” abrirem “consultórios” particulares, de profecias sob encomenda – até pagas! É melhor ter os dons no seu ambiente espiritual, como flores no seu próprio canteiro. 

Minha experiência mais notável de uma profecia, ou mensagem de Deus, através de línguas com interpretação, foi ao ser batizado na Assembléia de Deus em Cambridge. Cheguei aí porque me via cercado por teólogos modernistas – estudantes e professores – e eu, me dedicando ao estudo da própria Bíblia nos idiomas originais, sentia-me tão acossado como o profeta Elias, até meditar na unção que procede do Santo, “a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas como essa unção, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele tal como os ensinou”, 1 Jo 2.20-27. Vi que precisava da unção do Espírito Santo, e um universitário (não estudante de Teologia) falou em eu ser batizado (nas águas) para receber o dom do Espírito Santo. Com convicção no Espírito, fui assim batizado e, ao sair das águas, ouvi uma mensagem num idioma que não entendia, mas que parecia ser da África Central, de Zimbábue, e a interpretação me dizia para não me afligir com as pressões, porque a teologia dos modernistas não passava de paganismo bem organizado, debaixo de uma leve máscara de cristianismo. A partir de então, nunca me senti oprimido pelo modernismo, só que agora considero que estudá-lo, mesmo para refutá-lo ou para fazer parte dos deveres de teólogo, é entrar em diálogo com Satanás, conforme fez Eva. A partir de então, passei a considerar a ética ensinada nas epístolas, não mais como as “letras miúdas” da salvação, mas, sim, como um ambiente jubiloso de realidade no Espírito Santo.

O pentecostalismo confirma totalmente a fé na totalidade da Bíblia.

 

4. Dom de Línguas

No tocante ao dom de línguas, a experiência de líderes internacionais, tais como Donald Gee e Davi Du Plessis, baseada em conhecimentos mundiais de movimentos pentecostais, tem revelado que onde esse dom tem sido deixado de lado, a igreja tem sofrido em todos os aspectos. Referem-se aos movimentos pentecostais que surgiram a partir de 1906. Referindo-me à igreja de modo global, minha convicção é que se alguém lançar fora uma parte da fé bíblica, a parte dos dons milagrosos do Espírito Santo, acaba repudiando todos os milagres na Bíblia, inclusive o nascimento e ressurreição de Jesus Cristo, a própria inspiração da Bíblia, e até mesmo a existência de Deus. 

Nos países onde o cristianismo nominal oferece cargos altamente pagos por conta do governo, chegamos a ter “pastores” e “teólogos” que repudiam todos os essenciais da fé – é essa a situação que chamo de “modernismo.” Parece que muitas pessoas que não estão esperando um derramamento do Espírito Santo com avivamento, santificação, dons e milagres no fim dos tempos, estão colocando muitíssima ênfase no Anticristo.  

Na Conferência de Niágara em 1895, foi resolvido excluir os milagres dos Cinco Fundamentos da Fé, e colocar, no seu lugar, uma cláusula sobre pré-milenismo. Mas foi em 1906 que, em resposta a uma renovada busca do padrão bíblico, os estudantes na Rua Azusa receberam o derramamento do Espírito Santo. Foi aí que muitos receberam a mensagem como aquilo que mais desejavam na vida, e outros se puseram veementemente contra. E assim fica forçada, a partir de então, em todas as igrejas mundialmente, uma decisão pró ou contra a obra do Espírito Santo.  

Uma crítica contra o pentecostalismo hoje diz que há diversidade de opiniões e interpretações. Mas vejo que as interpretações humanas da própria Palavra de Deus são igualmente divergentes – sem isso ser uma crítica contra a Bíblia, sem se tratar de a Bíblia ser insuficiente.

Os seres humanos distorcem a Bíblia, e também podem distorcer a obra do Espírito Santo, sem haver falha nem defeito em uma ou outra. As igrejas oferecem, com razão, métodos de estudo da Bíblia, manuais, dicionários, e comentários da Bíblia,  recomendam grupos de oração, meditações, orientação pastoral, apóiam pregadores, conferencistas, preletores – tudo para haver entendimento apropriada da Bíblia! Tudo isso é precioso com a unção do Espírito Santo. Sem ela, tudo em vão. A democracia espiritual na igreja é cada um ter seu próprio acesso às Escrituras, e também à pessoa do Espírito Santo. É um direito, mas também um dever.  Se os membros não estiverem com a vida espiritual em dia, a igreja ficará oca, como árvore aparentemente viçosa que por dentro é escavada por cupins. 

Os judeus antigos nos tempos de Cristo desviavam-se do Antigo Testamento para suas tradições. No Talmude, existem fartas citações de um rabino que cita outro, que cita outro, e remonta a ainda outro. Quando Jesus Cristo surge como o cumprimento do Antigo Testamento, os fariseus o rejeitaram,  porque já tinham se montado na vida como líderes religiosos na carne, e Jesus já não se encaixaria no sistema deles. Como cumprimento do Novo Testamento, Jesus enviou o Espírito Santo, mas a cristandade, depois de chegar aos poderios e honrarias carnais, passou a menosprezá-lo e a considerá-lo assunto para “seitas” fora da igreja oficializada. 

Numa convicção pessoal minha sobre os dons, prefiro enfatizar o conceito de presente da parte de Deus para o necessitado que pede com fé. Num avivamento de cura divina, por exemplo, penso em termos de muitas pessoas comparecendo com esperança em Deus, e Deus querendo atender com compaixão. Nesse caso, um grupo da igreja, com um pastor ou outro obreiro, marca uma data e um ponto de encontro, anuncia a reunião, e as pessoas comparecem. Há hinos, pregação bíblica, orações, testemunhos. E a fila de curas. E saem bênçãos. Só que não deve haver exagero de glória para o obreiro, pois se ele se orgulhar, o Espírito Santo pode operar soberanamente sem depender de ninguém. 

Outra experiência notável foi em Ituverava, acompanhando como intérprete missionário Burnie Davies, das Assembléias de Deus dos Estados Unidos. Tinha havido bastante divulgação, e algumas reuniões preliminares, antes da chegada do missionário, e da minha. Eu pessoalmente nunca tinha orado pelos enfermos, e dava todo valor àqueles que tinham esse dom. Acontece que Burnie chegara com gripe, e o obreiro norte-americano não conseguia “levantá-lo,” conforme disse. O pior, é que fui posto para substituí-lo! Não sei fazer. Então, surge a fila para oração. Uns quinze, talvez. Por amor à causa de Deus, e aos enfermos, comecei a orar um por um. Fui orando em voz alta, mas sem capacidade minha. Lembro-me, por exemplo, no caso de alguém com ferida na perna. Fui orando para ele não mais chegar bêbado em casa e bater na esposa. Parece que Deus ia me ajudando naquilo que devia orar. Tudo estava além das minhas possibilidades. Depois do que me parecia um “tempão”, levantei os olhos para ver se a fila estava chegando ao fim. Era bem maior! Perdi, “então” a consciência do tempo. Foi depois que o porteiro me contou: as pessoas tinham saído curadas, e contando aos outros; e vinha mais gente de fora. Foram estimados em duzentos, e eu numa concentração fervorosa por mais de duas horas. O resultado final confirma que Deus me ensinava o que eu devia pedir, pois ele mesmo queria fazer a obra. Certamente não era caso de eu saber orar para obter da parte de Deus determinadas bênçãos que as pessoas queriam. 

Então pensei comigo mesmo: Deus me capacitou para a cura divina! E depois me ocorreu que havia outros para essa obra, mas que eu fora chamado a me formar em Cambridge no grego e hebraico, com as demais matérias teológicas, para estudar a Bíblia nas línguas originais, e para transmitir esses conhecimentos no Brasil, num período em que não havia ninguém para ocupar a vaga. E assim fiquei no ensino e literatura bíblicas! Ou seja, no pedacinho do Corpo de Cristo que me cabia: no texto original da Bíblia como obra do Espírito Santo. 

É claro que presenciei muitos milagres nos avivamentos, e isso de maneira bem especial como intérprete, pois freqüentemente estava com uma mão no ombro de algum missionário, e a outra segurando o enfermo, e traduzindo a troca de palavras entre os dois. A maior garantia contra possível sugestão ou fraude foi o que eu via no Parque da Iberapuera, ao lado do missionário Morris Cerullo. Fiquei segurando no colo um nenê cego de nascença e, quando Morris orou, foi maravilhoso ver o olhar da criancinha que enxergava pela primeira vez – olhar feliz de admiração!

Na mesma reunião, uma menina surda de nascença. Morris orava, e batia palmas atrás dela; quando voltou a audição,  ela deu um pulo com o barulho! Em seguida, olhava em derredor, procurando alguma coisa. Daí correu para a sanfona no palco. Descobrira o que era som, e que este provinha de certos objetos!

Voltando à inspiração do Novo Testamento: entendo que a fidelidade a Ele determina quem faz parte de igreja, e não a igreja que determina quais escritos devem pertencer ao NT. Li um livro anglicano, obrigatório no curso, de Introdução ao Novo Testamento; tudo muito bem, só que no fim deu a entender que a Mãe Igreja é que escolheu os Livros para fazer parte do NT – e que ela seria superior a ele. 

A diferença entre o NT e os escritos da igreja posterior é que a carne ia entrando, década após década. O Espírito Santo faz do NT aquilo que é, e ele mesmoimprime essa convicção da sua inspiração divina naqueles que se convertem a Cristo. É a autoridade do Espírito Santo, mais do que a autoridade da Igreja, que determina o que é Bíblia. Quaisquer discípulos, apóstolos, mestres, profetas neotestamentários, dependiam do Espírito Santo, e não ele, da confirmação deles. 

A denominação em favor da qual fui estudar em Cambridge, declarava ter a Bíblia como única norma de fé, doutrina, e prática. Então eu estava bem dentro, pois pautava minha vida exclusivamente pela Bíblia. Mas aí surgem as “normas para o culto,” como acréscimo à Bíblia, e então não tenho nada mais que ver. Num excelente instituto bíblico onde fui professor, foi lido um documento no qual foi esclarecido que, embora Paulo tenha declarado “Não proibais o falar em línguas” os dirigentes, por receberem sustento de igrejas não pentecostais, sentenciaram: “Nós, porém, doravante vamos proibir.” Toda denominação evangélica crê na Bíblia, mas na hora em que uma ou outra igreja coloca algumas regras, costumes ou decisões em posição antagonística à Bíblia, acabará perdendo pontos. Certamente existem muitos questões que biblicamente estão abertas à consciência individual, e devemos ter coração amplo de fraternidade espiritual para nos aceitarmos em mútuo amor. Minha experiência tem sido: ampla fraternidade entre os crentes em 1959, 1963 etc, mas hoje, minha impressão é que muitos grupos,  pelo rádio, querem “vender seu próprio peixe” e não ouço mais muita Bíblia nem tanto em conversão a Jesus Cristo. 

Os dons do Espírito Santo são debatidos como assunto distintivo e específico do pentecostalismo. Tempos atrás, achei excelente a definição do doutor Ness, da Igreja Pentecostal do Canadá: “A teologia pentecostal é idêntica à evangélica tradicional, só que também tem os dons do Espírito Santo.” 

Por outro lado, vejo que um modo sobrenaturalista de ver as coisas deve permear mais do que isto. Deve haver uma visão totalmente nova da interpretação bíblica.

Conheci de perto, por exemplo, Orlando Boyer, e percebo que nos escritos dele existe um modo de entender globalmente e espiritualmente a Bíblia, de modo que coloca seu dedo no âmago do sentido, enquanto volumes teológicos de tamanho muitas vezes maior não enxergam tanta coisa de valor.

Donald Stamps também vinha muitas vezes ao meu escritório no sítio, e vi nele um herói da fé – inclusive, quanto aos seus comentários de Jó, Eclesiastes, e dos Salmos de aflição. É o único teólogo que sabia entender essas partes da Bíblia do ponto de vista de quem estava morrendo de câncer. Myer Pearlman também tinha a unção pentecostal nos seus comentários bíblicos. Nas aulas em escolas bíblicas pentecostais, sempre falo que é imperdoável quando os alunos não lêem esses autores. A interpretação bíblica tem que ser no Espírito; ou seja, com a ajuda do próprio autor. 

Existem movimentos que criticam o “espiritualizar” – como se fosse o caso de “tornar espiritual” aquilo que não o é. Fico boquiaberto ao ver grupos pentecostais aceitarem uma interpretação “na carne,” mormente do Apocalipse. Da mesma forma, espero que o Espírito Santo nos dê gosto pela música especificamente “sacra” ou “espiritual.” Os hinários contêm música e letra que inspiram, e acho que o rebaixamento do gosto musical, adotando ritmos mundanos, não deve ser considerado sinal de  pentecostalismo. Quando dou um curso sobre Atos dos Apóstolos, além de explicar que é um manual de orientação para a igreja hoje, e falando nos milagres que confirma a pregação cristã, menciono que houve alguns milagres de castigo: Simão Mago, Elimas, Herodes, e Ananias e Safira. Nas igrejas “binitarianas”, faltas morais parecem passar como coisas corriqueiras. 

Numa reunião pentecostal, porém, a situação seria “mentir contra o Espírito Santo” – isto é, contra tudo aquilo que Deus está derramando. Procura-se o Espírito Santo para bênçãos e poder, mas recebendo essa obra sobrenatural,  o Espírito Santo também deve

ser procurado para a santidade, para o temor a Deus, para uma vida de resistência às tentações.  

Depois de Os Dons do Espírito Santo também escrevi O Espírito Santo na Vida de Paulo (CPAD), cujo intuito foi demonstrar que o Espírito Santo também impulsiona à obra, com dedicação e sacrifício. Não sei se esse aspecto também gozou de popularidade entre os irmãos. Nesse sentido, sendo que o Espírito Santo age conforme quer, não nos é possível faltar nos nossos deveres ministeriais, pensando que o Espírito Santo terá que “abençoar” a nossa preguiça. Depois de o Espírito Santo me ter dado, inesperadamente, durante as celebrações de Pentecostes em Zimbábue, a capacidade milagrosa de entender o Afrikaans de um momento para outro, vi-me diante do hebraico. Tenho ainda, em mãos, a Gramática Elementar da Língua Hebraica que usei – a página interna está cheia de orações tiradas dos hinos que decorei em Afrikaans. O hebraico envolveu cinco mil horas de estudo em silêncio por três anos (isto, só a gramática básica). Nenhum milagre estrondoso, mas a disposição para estudar, e a renúncia envolvida, não deixa também de ser uma bênção espiritual. 

Jesus, nas suas obras milagrosas, explicou que Deus continua operando no sábado, e Ele, também. Podemos dizer que o Espírito Santo não nos deixou órfãos, não nos deixou desamparados com a ascensão de Jesus, com o último suspiro do último dos Doze Apóstolos, nem com a última letra do Novo Testamento. 

A Igreja de Cristo não é um acidente da natureza, uma instituição contrária à vontade de Deus, e assim como o Novo Testamento nos apresenta Jesus Cristo e também a obra do Espírito Santo, assim também a fé cristã continua sendo em Deus Pai, Deus Filho, e em Deus, o Espírito Santo.

(Publicado originalmente no site da CPAD EDB)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mais educação. Por favor!

Seja o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza (I Tm 4.12)

Quem mora em São Paulo e gosta de livros, certamente já visitou algumas vezes a maior livraria da cidade, que fica em plena Avenida Paulista. Nessa loja encontramos praticamente todos os livros que o mercado recentemente lançou, seja em português ou até mesmo em inglês. A arquitetura da livraria é também fantástica, além dos eventos lá promovidos. Agora, o que eu mais gosto nesse estabelecimento é o ótimo atendimento dos seus funcionários, que são sempre educados, atenciosos, rápidos e com um indispensável sorriso no rosto.
Por que escrevo isso? Simples. Além de cliente dessa livraria, frequento a Rua Conde de Sarzedas, uma via no centro da capital paulista que concentra a maior parte das livrarias evangélicas. Quando faço minhas compras, fico impressionado com a diferença abissal no atendimento. Não é difícil ficar falando sozinho ao pedir auxílio para um vendedor, comprar sem receber o clássico “obrigado” ou “volte sempre”, falar com vendedores de cara fechada e zangados com a vida, além de muitas vezes, tenho a sensação que estou pedindo um favor e não fazendo compras.
É claro que na Conde de Sarzedas existe exceções. Não posso generalizar. Mas depois de conhecer as exceções, deixei de entrar em todas as lojas, como fazia no início. O duro é quando algum amigo pede um favor, e preciso então entrar nas lojas dos mal educados.
Penso que o cristão deveria ser exemplo de excelência em serviços, educação, gentileza e empatia. Infelizmente vejo que isso está bem distante. Até mesmo em uma grande livraria evangélica da capital, o atendimento é péssimo e até mesmo ríspido. Pergunto: Será que os crentes chupam um limão ou uma laranja azeda para trabalhar? Misericórdia!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Debate sobre “usos e costumes”

Caros amigos leitores,

Alguns blogueiros estão se reunindo para promover debates saudáveis, sobre temas de interesse para a comunidade evangélica. Dessa vez discutimos os “usos e costumes” no contexto evangélico. Nesse debate os participantes foram:

Gutierres Siqueira, editor do Blog Teologia Pentecostal.
João Paulo Mendes, editor do Blog do JP (o moderador do debate).
Victor Leonardo Barbosa, um dos editores do Blog Geração Que Lamba.

Também tivemos o privilégio de receber no debate o irmão Oséias de Lima Vieira, membro da Igreja Metodista do Brasil. Vieira é editor do Blog Geografia Bíblica e Geral

Ouça esse debate aqui: debate

PS: Há alguns dias eu fui entrevistado pelo Victor Leonardo. Se você ainda não ouviu esse podcast-entrevista, ouça nesse link: entrevista