segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Orando pela propina

O fim do mundo está próximo. Talvez somente essa frase explique como evangélicos podem orar agradecendo por dinheiro de CORRUPÇÃO. Agradecendo e repreendendo o “inimigo” do “mensalão do Distrito Federal”. No vídeo abaixo você verá o deputado Rubens César Brunelli (PSC), de camisa roxa, o presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Leonardo Prudente (DEM), de camisa branca, e Durval Barbosa, ex-secretário do governador José Roberto Arruda (DEM).




O deputado Brunelli é pastor e filho do Doriel de Oliveira, fundador da igreja Casa da Benção. O deputado Leonardo Prudente é membro da Sara Nossa Terra. Além disso, como me lembrou o leitor Sérgio Cerqueira, o vice-governador do Distrito Federal, Paulo Otávio, é membro Sara Nossa Terra. Otávio também está envolvido nas acusações do mensalão do governo Arruda.


Mais informações aqui.


PS: Também li nesse domingo que o deputado assembleiano Hidekazu Takayama (PSC-PR) foi acusado de usar verba pública de maneira irregular, com uma festinha de Natal em 2008. AFolha de S. Paulo escreveu: “O deputado Takayama (PSC-PR) realizou no seu Estado uma festa de fim de ano que teve a organização da Porcheta Calda Buffet & Eventos. A conta, de R$ 1.400, também foi parar na Câmara. Procurado pela Folha, o deputado afirmou que desconhecia o fato de que a nota havia sido apresentada e que irá devolver o dinheiro.”


Assinante leia aqui.


Portanto, tudo isso mostra que a política evangélica alimenta os mesmos vícios da secular. É uma verdadeira vergonha. É claro que há honestos, mas parece que são pouquíssimos, quando deveria ser todos. Meu Deus, é o fim do mundo. Nunca vimos tamanho sacrilégio!

domingo, 29 de novembro de 2009

O discurso vazio do “evangelicalismo cult”

O discurso do “evangelicalismo cult” é atraente, mas creio não ser sincero. Aliás, ouso crer, um verbo tanto detestável para os “cults”. Pois bem, crendo ou não, preciso analisar alguns prólogos dos profetas de Satre. Vejamos:


“Temos que dialogar com vários autores”


Concordo plenamente. Um bom teólogo lê de tudo, de Friedrich Schleiermacher a R.C. Sproul, de Rudolf Bultmann a John Wesley, de Agostinho a Calvino, de Karl Barth a Wayne Gruden, de Jürgen Moltmann a Augustus Nicodemus. Sempre, é claro, com uma leitura crítica, mas nunca apaixonada. Mesmo a Bíblia, lida com amor e devoção, deve ser examinada segundo critérios hermenêuticos e exegéticos. A própria Bíblia, a Palavra de Deus, nos ensina a examiná-la.


Agora, esse papo dos “evangelicais cults” é balela. Eles dizem para dialogar com vários autores, mas eles mesmos não fazem isso. Eles sempre estão fechados nos mesmos autores. Ler um livro desses teólogos contemporâneos é já presumir a bibliografia dele. Aliás, é possível presumir os autores preferidos facilmente e até as preferências políticas. Não há novidades.


“Em nossa comunidade há liberdade de pensar”


Os “cults” costumam se orgulhar de “pensar fora da caixa”. Dizem que defendem a liberdade de pensamento. Será mesmo? Pelo que vejo realmente tem uma liberdade de pensar, desde que seja igual ao pensamento dos “cults”. Pense fora da caixa, mas venha para a nossa caixa. É mais ou menos assim.


Livres pensadores são realmente livres para a autocrítica, inclusive aceitando a opinião alheia. Mas não é assim que acontece. Esses “evangelicais cults” são tão dogmáticos, que é impossível travar uma conversa sobre os pontos de vista defendidos por eles. Nunca vi uma reflexão crítica sobre eles mesmos.


“Temos que lutar pela justiça social”


Ok, ok. Vamos lutar pela dita justiça social. Concordo que é o cerne do Evangelho, que restaura o humano espiritualmente e materialmente. Tal atitude é chamada muito felizmente de “missão integral”. Agora, nada desse papinho antiburguês, pois soa pura hipocrisia. Essas igrejas que mais enaltecem os pobres das favelas estão cheias de pessoas na classe média, ou média alta. Ou seja, se é tão bonito o trabalho na favela, por que não estão lá? As igrejas pobres que nem sabem o que é “terceiro setor” estão realmente trabalhando nas favelas e restaurando o humano integralmente.


Vejo que muitos “evangelicais cults” usam esse papo para aproximar seu pensamento do establishment esquerdista. Assim, muitos defendem a tal “teologia da libertação”, que nada mais é do que a substituição da cruz pela foice e o martelo. Isso é necessariamente ruim? Não diria ruim ou, mais radicalmente, pecaminoso. Mas é no mínimo ingenuidade. Não vivemos mais no final da era industrial do século XIX. O mundo mudou, mas muitas mentes continuam na “mais valia”. O pior é protestar contra a burguesia, quando a membresia da igreja é totalmente burguesa. Portanto, mais uma incoerência desses “cults”.


“O fundamentalismo é horrível”


Eu também não gosto do protestantismo fundamentalista, que é no seu cerne um conglomerado de questões secundárias colocadas na importância de questões centrais. Ou seja, para fundamentalistas é heresia discordar deles em questões como escatologia ou eclesiologia, por exemplo. Agora, isso não me impede de reconhecer os benefícios do fundamentalismo protestante, como o nascimento da apologética e a unidade doutrinária.


Quando eu ataco o fundamentalismo constantemente, acabo por minar até as suas virtudes. Por isso, não é saudável esse ódio que os “evangelicais cults” nutrem pelo fundamentalismo. Engraçado, que nunca os vejo falando mal, por exemplo, de outros grupos religiosos não-cristãos. Acabam com os fundamentalistas, mas são incapazes de reprovar os hindus.


É, chega por aqui...


Como nesse blog há realmente espaço para o contraponto, você, amigo “evangelical cult”, pode manifestar a sua opinião.

sábado, 28 de novembro de 2009

Lição 09 - A Restauração Espiritual de Davi

Subsídio preparado pela EQUIPE DE EDUCAÇÃO DA CPAD


Texto Bíblico: Salmos 51.1-4,7-12,17


O homem segundo o coração de Deus tem em sua ficha uma mancha que o marcou profundamente, mas que também nos serve de exemplo de restauração espiritual.


Onde estava Deus quando Davi pecou? Aparentemente Deus estava bem distante de toda essa situação. Ele não se manifestou quando Davi acordou de tarde e passeou pelo palácio, olhou uma mulher, chamou e se deitou com ela. Ele não apareceu quando Urias se mostrou íntegro, nem livrou Urias da morte na batalha. Ele só apareceu no fim do versículo 27: ”Porém essa coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor”.


O fato de coisas ruins acontecerem conosco, ou por meio de nós, não indica que Deus não esteja por perto nem que Ele desconheça o que estamos fazendo ou sofrendo. O Senhor estava observando cada passo de Davi, seu comportamento, sua estratégia para se livrar do problema e os efeitos dela. Deus não estava ausente. Davi é que se esqueceu da onipresença de Deus e nem buscou ao Senhor quando tentado pela visão de Bate-Seba. O rei podia se satisfazer, matar e tentar encobrir suas falhas, mas não as esconderia de Deus.


O capítulo 12 e 2 Samuel começa com Deus agindo:”E o Senhor enviou Natã a Davi”.


O Senhor sabe como tratar com cada um de nós, pois conhece nossa estrutura. Para Faraó, Ele enviou um Moisés. Para Acabe, um Elias. Para Nínive, um Jonas. Para Saulo, um Ananias. Para Herodes, um João Batista. Para João Marcos, um Barnabé. E para a humanidade, Jesus. Em alguns casos, mensageiros convictos; em outros, mensageiros relutantes. Deus não deixa de revelar sua vontade, mas a reação a Deus depende de nós.


Para o rei Davi o profeta Natã. O profeta aponta para o rei o seu pecado, aquilo que Davi acreditava que estava encoberto.


“Pequei contra o Senhor” aqui começa a recuperação de Davi: com o reconhecimento do seu erro. O que precisava ser dito fora.


Qual é a garantia de que a confissão é importante para Deus? A própria Palavra de Deus. Ela garante que a confissão é premiada com misericórdia. “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13).


Deus sabe que estamos sujeitos às leis deste mundo, mas exige que pautemos por manter uma vida dentro dos padrões estabelecidos por Ele. E quando nos afastamos desse padrão, Ele espera que admitamos nossa falha e retornemos para Ele por meio da confissão.


Não podemos ter por hábito apenas dizer para Deus o que fizemos como se lêssemos para Deus uma lista de nossas infelizes decisões e atos. Mais que enumerar pecados, Deus espera que concordemos com Ele que erramos e que precisamos do seu perdão.


E Davi reconheceu seu erro. Ele sabia que em Deus acharia a graça para a recuperação do seu pecado. Deus, por meio da confissão de Davi, não permitiria que ele permanecesse naquela situação: “Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e ele o Senhor sustém com a sua mão” (Sl 37.23,24).


Não estamos imunes ao pecado em um mundo decaído. Não podemos dizer que jamais pecaremos, ou que ficaremos o tempo todo em vigilância. Mas podemos ter certeza de que Deus, em sua grande misericórdia, aceitará o pecador arrependido e o restaurará a comunhão perdida.


Texto extraído do livro: COELHO, Alexandre Claudino. et. al. Davi, As vitórias e as Derrotas de um Homem de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2009.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Pós-modernismo?

No meio acadêmico, um dos assuntos que têm se tornado clichê é falar sobre pós-modernismo. Hoje são abundantes os trabalhos e literatura sobre a pós-modernidade, mas em décadas recentes poucos estavam refletindo sobre a transição do modernismo para o pós-modernismo. O assunto tem dado pano as mangas, inclusive há quem critique a popularização do termo “pós-modernismo”, como o filósofo pragmático R. Rorty, que em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, em 8 de maio de 1994, disse:

Acho que a noção de pós-moderno não tem qualquer utilidade. É mais uma tentativa artificial de sugerir que recentemente passamos por algo dramático e importante. Não acho que o século XX faça essa passagem entre o moderno e o pós-moderno. Muito tempo e energia estão sendo gastos na reflexão sobre o tópico do pós-modernismo.

As reflexões em torno da influência do pós-modernismo nas igrejas evangélicas são volumosas. Agora, a principal influência é sem dúvida o antropocentrismo, ou seja, o homem como o centro de todas as coisas. É inegável o fato que as músicas, pregações e até mesmo toda a liturgia giram em torno do homem e de suas necessidades. E talvez a grande vítima dessa tendência pós-moderna sejam as igrejas pentecostais, via misticismo disfarçado de espiritualidade. Já muitas igrejas tradicionais abraçam o pós-modernismo via “espiritualidade cult”, que abraçam ideias que negam até a pecaminosidade humana.


Portanto, ninguém escapa. É preciso refletir.

Lavagem de dinheiro

domingo, 22 de novembro de 2009

PLC 122/2006 e o “politicamente correto”

Atores de cabelos lisos não podem fazer comerciais na televisão, pois constrangem aqueles de cabelos crespos. Atores magros precisam engordar para aparecer na tela. Motivo? Para não humilhar aqueles acima do peso. Também, são proibidos os comerciais de doces, refrigerantes, bebidas alcoólicas e outras coisas que fazem mal, pois o governo acha que as pessoas não sabem se cuidar, e nem fazer as suas escolhas. Eis que estamos diante do “politicamente correto”.


A correção política é um fenômeno novo, que busca freneticamente uma linguagem “neutra” para não soar como discriminatório e preconceituoso. Nesse ambiente, aí daqueles que discordarem do homossexualismo (aliás, aí daquele que chamam “homossexualismo”, pois o politicamente correto é falar “homossexualidade”). Logo, esse é homofóbico, inimigo do Estado, um ser alienígena, religioso fanático e talvez um membro disfarçado do Taleban no Brasil. Quanta bobagem! Nunca vi um crente maltratando um homossexual pelo seu estilo de vida. Alguém já viu? Se você viu é uma exceção, e não regra. Logo, se os 30 milhões de evangélicos desse país estivessem em uma cruzada contra gays, logo logo os homossexuais acabariam.Cada uma!


Infelizmente, muitos cristãos defendem o “politicamente correto”. Nesse sentido, não sabem o que isso representa como perigo. Por exemplo, você achou boa a indicação classificativa em programas de televisão? É bem provável que muitos cristãos gostaram da medida. Mas isso é péssimo. É o governo dizendo: “Eu sei o que o seu filho pode ou não assistir”. Você vai confiar a educação do seu filho ao governo? Outro exemplo. Você gostou quando a propaganda de cigarro foi proibida na televisão? É bem provável que sim. Então, você é mais um daqueles que acreditam em uma força condutora da propaganda. Para que a propaganda não conduza o homem a fazer aquilo que não quer, então vem um governo salvador proibindo a campanha manipuladora da multinacional do cigarro. Que lindo, hein? Não há nada de lindo. É mais uma vez o governo insistindo em determinar o que você assisti ou não, como se você fosse uma criança acrítica.


Quando eu era criança, sempre assisti comerciais de cigarro na televisão. Achava o máximo. Lembro até hoje de um comercial do cigarro Hollywood que utilizava um carro da Formula Indy. Isso fez de mim um fumante? É claro que não. Apesar de gostar da propaganda, eu tinha senso crítico suficiente para saber que cigarro fazia muito mal para o meu corpo. E olha, eu tinha apenas sete anos, pois a educação já vinha dos pais. Aqueles que já tinham vontade de fumar usavam a propaganda como desculpa. Então, quando proibido os comerciais, isso sinalizou que são os governantes os entes da sabedoria que sabem discernir o que devo ou não ver.


Ora, educar é papel dos pais. Não é papel de leis. Leis e mais leis fazem os governos mais fortes e propensos para o autoritarismo. Passam a mandar nos detalhes de sua vida. Tome cuidado com isso! Aqueles que defendiam o fim da propaganda de cigarro (que é asqueroso e um vício terrível), agora falam em homofobia. Amanhã, vão querer ensinar para o seu filho os conceitos de certo e errado. Depois vão passar filmes obrigatórios para as crianças, onde casais “plurais se beijam em eterno amor”. Depois vão querer reescrever os “textos homofóbicos” da sua Bíblia... É o maldito “politicamente correto”.


Não caia na ladainha catequética dos governos que querem mandar até naquilo que vocês pensam. Não defendam o politicamente correto. Espero que tenha sido claro. Não estou defendendo o cigarro, nem palavras de baixo calão, muito menos que você seja mal educado com homossexuais. Só estou dizendo que não precisamos da tutela do estado para nos ensinar bons modos. Abaixo tudo isso!


A PLC 122/2006 é, em alguns de seus pontos, uma quebra do Estado Democrático de Direito, pois quer uniformizar uma forma de pensar. Nada mais asqueroso. Nada mais patético e autoritário. Só lembrando que o getulismo, o bolivarianismo, o facismo e outros ismos totalitários começaram assim! A PLC 122/2006 é mais uma noiva de Chucky do "politicamente correto".

sábado, 21 de novembro de 2009

Lição 08 - O Pecado de Davi e suas Consequências

Subsídio escrito pela EQUIPE DE EDUCAÇÃO DA CPAD

Texto Bíblico: 2 Samuel 11.2,4,5,14-17

O Tempo de os Reis Saírem à Guerra

Havia uma época específica em que os reis saíam à guerra? Mesmo que muito ligeiramente, é importante que tal ponto seja abordado, pois ele contém elementos que preenchem lacunas referentes ao contexto daquele período e fornece pistas para entender o que de fato ocorreu naquela tarde fatídica. Pelo que se infere, por razões extremamente locais e relacionadas ao clima, as guerras tinham datas para acontecer: “O profeta aproximou-se do rei de Israel e lhe disse: ‘Vai adiante corajosamente, mas pensa no que deves fazer, pois no ano que vem o rei de Arâm subirá para atacar-te’” (1 Rs 20.22 – TEB[i]). Assim, o texto bíblico é claro e óbvio a este respeito: “E aconteceu que, tendo decorrido um ano [após a última guerra], no tempo em que os reis saem para a guerra, enviou Davi a Joabe, e a seus servos com ele, e a todo o Israel, para que destruíssem os filhos de Amom e cercassem Rabá; porém Davi ficou em Jerusalém” (2 Sm 11.1), ou seja, é algo perfeitamente comum para quem lesse a narrativa à época. O que deve causar estranheza é exatamente o fato de Davi — um homem de guerra —, não ter ido ao combate, já que esse expediente era praxe e algo quase que protocolar para os reis. Autoconfiança? Cansaço? Desinteresse? O que fez com que o “homem segundo o coração de Deus” resolvesse ficar no palácio real? Evidentemente que, como já foi dito, não é o propósito de a narrativa enfatizar o pecado de Davi e sim o desenrolar do plano de Deus que culminará na Aliança Davídica,[ii] mas para o tema do capítulo, faz-se necessário discutir o assunto nesta ótica:

[...] É óbvio que a Bíblia não entra em detalhes para descrever como foi o processo que culminou no desastroso ato, restringindo-se apenas a registrar a sua concepção, com o ócio do rei no terraço do palácio, e as conseqüências de tamanho lapso moral para um homem segundo o coração de Deus. Como somos apressados na análise da passagem e de seu contexto, a nossa tendência, geralmente, é achar que tenha sido um deslize fugaz, alimentado pela involuntária visão da mulher desnuda banhando-se à vista da casa real. “Foi fruto de um momento psicológico”, afirmou alguém certa vez. Mas uma leitura acurada do texto bíblico leva-nos a concluir que se tratou de algo muito além de um simples e despretensioso olhar.[iii]

Tal conclusão não é fruto da criatividade do autor, mas o resultado de pesquisas acerca do contexto em que os fatos se desenrolaram, sendo, como disse na abertura do capítulo 4, um exercício imprescindível para todos que querem, de fato, ensinar a Palavra de Deus com seriedade e compromisso (Rm 12.7b; 2 Tm 2.15).

A Decadência de Davi

As mulheres dos súditos pertenciam aos reis? Se havia tal costume, é preciso lembrar que, enquanto para os outros povos o rei era um deus, para Israel a política era totalmente distinta e antagônica, pois o próprio Yhwh ditava as regras de como o líder da nação deveria se comportar (Dt 17.16-20). Nas prescrições incluía-se — como não poderia deixar de ser —, vetos em relação ao sexo oposto. Ademais, o rei de Israel deveria cumprir as ordens de Deus que, na realidade, era o real Soberano daquele povo (At 13.22). Assim, seguindo essa hipótese, só temos duas opções: ou houve consentimento de Bate-Seba e, nesse caso, muito provavelmente eles já flertavam, ou então o pecado de Davi foi ainda pior e também se configura como estupro. Geremias do Couto sustenta a primeira tese:

Como percebeu Grant R. Jeffrey, a primeira coisa que salta aos olhos é o grau de proximidade entre a família de Bate-Seba e a corte palaciana. Tanto Eliã, o pai daquela mulher formosa à vista, quanto Urias, o marido traído, pertenciam à nata da elite militar de Israel, composta de trinta e sete oficiais que, certamente, cuidavam da segurança do monarca. Como tais, viviam o dia-a-dia palaciano. Deduz-se, a partir disso, que Bate-Seba não era uma ilustre desconhecida, mas com certeza freqüentava a casa real, principalmente em ocasiões solenes e festivas, conhecendo a intimidade da corte. Não é nenhum exagero de interpretação admitir que o rei já a vira outras vezes e, quem sabe, aí tenha nascido a lascívia em seu coração.[iv]

À luz dessa perspectiva, fica mais claro o porquê de o casal adúltero ter tanta “facilidade” de consumar um ato em plena claridade do dia, dentro do palácio real, tendo Davi outras mulheres e filhos já grandes. Era muita tranquilidade para tamanho erro. O que será que levou Davi a quase perder a salvação, o reino e a família, em troca de alguns momentos de prazer carnal? Essas sim são questões que devem nos fazer pensar e refletir, pois muitas vezes caminhamos em direção a um abismo e perdemos totalmente a noção do perigo que nos cerca. A proximidade com o sexo oposto, seja no caso de líderes ou não, deve sempre ser marcada pela discrição, respeito e temor a Deus, pois, caso contrário, o desastre é certo. Geremias do Couto fundamenta ainda mais a sua posição defendida ao dissertar da seguinte forma:

Outro ponto que importa, ao tecermos a cronologia do pecado de Davi, era o fato de Bate-Seba residir nas cercanias do palácio a ponto de ele, do terraço, ter condições de invadir visualmente a privacidade da mulher. É possível pressupor, sem forçar a narrativa bíblica, que eram residências oficiais destinadas àqueles que desfrutam da intimidade do poder. Mas, por último, como aconteceu comigo, você se surpreenderá ao descobrir que Bate-Seba era neta de Aitofel, principal conselheiro do rei, uma espécie de chefe da casa civil do governo.[v] Que ela tinha acesso às antecâmaras reais, não resta nenhuma dúvida. Assim, o raciocínio fica completo quando você acrescenta a última peça do quebra-cabeças: contrariando o costume de o rei acompanhar o exército nas operações de guerra, Davi preferiu permanecer no palácio, enquanto os seus soldados combatiam os amonitas. Para quê? Deduza você mesmo.[vi]

É possível que, se o raciocínio acima estiver correto, o narrador não tenha nem se dado conta de que o banho da mulher e o fato de Davi não ir à guerra na verdade não são meros acidentes, mas uma trama para consumarem aquilo que eles já acalentavam. Assim, Geremias do Couto conclui sua argumentação:

Em outras palavras, tudo leva a crer que o adultério do rei foi algo laboriosamente premeditado nos escaninhos da mente. Levou tempo para ser consumado. Tudo indica que o ócio no terraço e o banho simultâneo da mulher foram alguns dos ardis do plano, racionalizados para que o desfecho parecesse algo repentino e involuntário, do qual Davi pudesse afirmar não ter tido culpa alguma. Isto se torna ainda mais claro pelas medidas que tomou ao saber que Bate-Seba ficara grávida. Na maior cara-de-pau, tentou tapar o sol com a peneira, chegando ao cúmulo de ser “generoso” com Urias, oferecendo-lhe a oportunidade de afastar-se do calor da guerra e passar uma noite em casa com a esposa, na tentativa de prover “outra” paternidade para o bebê. Por fim, como a iniciativa não funcionou, teve o desplante de dissimular o homicídio de Urias para não passar à história como covarde. Só que a última palavra sempre pertence a Deus, que, na hora certa, desmascarou a atitude pérfida de Davi.[vii]

É difícil confrontar tal posição, pois não são conjeturas. Incluso ainda nesse mesmo problema, está a verdade de que, do ponto de vista da Torá, nem sendo marido Davi poderia ter relações com Bate-Seba, pois o texto diz claramente que ela estava se purificando (2 Sm 11.2-4).[viii] Isso significa que, se Bate-Seba havia acabado de fechar o ciclo menstrual, por um preceito da Lei estava impedida até mesmo de entrar no palácio e de tocar em qualquer coisa (Lv 15.19-30). Mas o que causa perplexidade em toda a questão é exatamente o fato de Deus ter ordenado que o rei de Israel deveria transcrever num livro a Lei e estudá-la para que não viesse a cair em pecado ou infringir os mandamentos do Senhor (Dt 17.18-20). Isso mostra explicitamente que Davi era profundo conhecedor da Palavra de Deus, algo de que ninguém duvida, pois os seus próprios numerosos e belos Salmos sugerem isso.[ix]

As Consequências do Pecado de Davi

A lista daqueles que foram afetados diretamente pelo pecado de Davi é extensa: ele pecou contra Bate-Seba; Eliã; Urias; as suas sete esposas (Mical, Ainoã, Abigail, Maaca, Hagite, Abital e Eglá); seus filhos (Amnon, o mais velho; Quileabe, ou Daniel; Absalão; Adonias; Sefatias; Itreão; e Tamar — todos esses nasceram em Hebrom, mais ainda há outros que nasceram em Jerusalém — 1 Cr 3.1-9); as suas dez concubinas (com quem ele, inclusive teve filhos — 1 Cr 3.9); o profeta Natã; contra o seu próprio povo que o admirava (inclusive mulheres — 1 Sm 18.6,7); os 600 homens que se juntaram a ele quando da “peregrinação involuntária” no tempo de Saul — 2 Sm 22.2; 23.13; além de vários outros grupos (1 Cr 12.1-22; 1 Cr 12.38; 1 Cr 11.15-19); as nações (1 Cr 14.17 — neste caso particular, a repercussão foi tão negativa que o narrador registrou: “Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do Senhor” — 2 Sm 12.14, ARA); a Lei;[x] e o pior de todos ― Deus ―, algo que ele mesmo admitiu: “Pequei contra o Senhor” (2 Sm 12.13).

Diferentemente do que alguém pode presumir, a confissão não ocorreu tão rapidamente assim. Deu tempo de ele saber que a mulher estava grávida, o que, provavelmente ela só pôde perceber, no mínimo, um mês depois (possivelmente por não ter ocorrido o próximo ciclo menstrual). Nesse momento, as coisas começam a se complicar ainda mais, pois Davi agora precisa “esconder” o mal feito. Assim, como todos conhecem a história, primeiramente há uma tentativa de fazer com que pareça que o filho é de Urias (2 Sm 11.6-13), tentativa frustrada, vem então o “plano B”, e aí o que já estava terrível fica sombrio, macabro e extremamente calculista: assassinar o soldado e ficar com a mulher (2 Sm 11.14-25). Assim, acreditando que o caso estava resolvido Davi, aguarda o período de luto de Bate-Seba e depois a recolhe como mulher, entretanto, o texto bíblico registra categoricamente: “Porém essa coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor” (2 Sm 11.27b). Flávio Josefo comenta que

Deus olhou com cólera para esse ato de Davi e ordenou a Natã, num sonho, que o repreendesse severamente de sua parte. Como o profeta era muito sensato e sabia que os reis, na violência de suas paixões, consideram pouco a justiça, julgou que, para melhor conhecer as disposições do soberano, devia começar por falar-lhe docemente antes de chegar às ameaças que Deus havia ordenado.[xi]

Uma das questões que fica pendente é: Por que Davi não sofreu as sanções da Lei? É possível que a “pena” para Davi tenha sido alternativa, pois Natã, após tomar as precauções colocadas por Josefo, preveniu-o acerca dos infortúnios que se seguiriam: “[...] não se apartará a espada jamais da tua casa”; “[...] tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres perante este sol” e, finalmente “[...] o filho que te nasceu certamente morrerá” (2 Sm 12.10,11,14). Essa última sentença indica que a criança já havia nascido. Isso significa que, no mínimo, o pecado ficou “encoberto” por nove meses. Não considerando, claro, as hipóteses de que a criança possa ter nascido prematuramente, o que faria com que o tempo fosse menor, mas também dá margem à possibilidade de que a criança pudesse ter dez, onze meses, um ano ou até mais, não sabemos. Infelizmente, tal fato divide a vida de Davi em duas fases, assim como a unção também o fez. É provável que por cerca de vinte a vinte e cinco anos Davi tenha as sanções mais terríveis que se possa imaginar: filha violentada pelo meio-irmão; assassinato de meio-irmão para vingar a violência sexual de Tamar; usurpação do trono real por duas vezes e por dois filhos diferentes; filho que abusa das concubinas do pai enquanto este se evadiu (2 Sm 13―18; 1 Rs 1).

Conclusão

Todas as vezes que alguém quer justificar determinadas práticas improcedentes e ainda assim permanecer liderando ou aspirando liderança, apela-se para o exemplo de Davi. Entretanto, é preciso lembrar que os poucos momentos de prazer que o “homem segundo o coração de Deus” teve diluiram-se em muitos anos de dor, sofrimento e estigma. Mais do que isso, é imprescindível entender que Davi (mesmo tendo sido perdoado e, com certeza, um dos grandes homens de Deus) não se constitui em um referencial para os cristãos, antes, o referencial dos crentes é o Senhor Jesus Cristo (Ef 4.13). E é bom entender que Paulo se refere a Jesus quando Ele andou aqui na Terra, ou seja, plenamente humano, pois este é o propósito de Deus: que sejamos reposicionados originalmente ao estado em que Ele criou a humanidade ― algo que só é possível por intermédio de Jesus Cristo e seu Divino Espírito Santo (1 Co 3.18).



[i] A nota desse versículo diz o seguinte: “Lit. Ao voltar o ano, i. é, ao voltar a primavera, que é o momento mais favorável para uma expedição militar. Cf. 2Sm 11.1”. Tradução Ecumênica da Bíblia. 3.ed. São Paulo: Loyola, 1994, p. 536.

[ii] Uma das maiores provas disso é o pequeno livro de Rute. Seu propósito não é outro a não ser revelar a genealogia daquele que seria o maior rei de Israel.

[iii] COUTO, Geremias do. A transparência da vida cristã. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 103.

[iv] Ibid., p. 103.

[v] JEFFREY, Grant R. A assinatura de Deus. Bompastor, p. 259-261. Nota do autor: Ibid., p. 115.

[vi] Ibid., p. 103, 104.

[vii] Ibid., p. 104.

[viii] O texto sugere, porém, que já haviam passado os sete dias necessários.

[ix] Atribui-se a Davi a autoria de cerca de 73 Salmos.

[x] “Embora tenha escrito que a ‘lei do Senhor é perfeita e revigora a alma’ (Sl 19.7) e que ela estava ‘no fundo do seu coração’ (Sl 40.8), Davi quebrou 40% do Décalogo de uma vez só. Em ordem cronológica, ele quebrou o décimo mandamento (‘Não cobiçarás a mulher do teu próximo’), o sétimo (‘Não adulterarás’), o nono (‘Não dirás falso testemunho contra o teu próximo’) e o sexto (‘Não matarás’). É por isso que ele usa duas vezes a palavra ‘transgressões’ no Salmo 32. Ele quebrou o nono mandamento no demorado esforço de manter as aparências e fazer tudo em segredo, às escondidas (2 Sm 12.12)”, Ultimato. Matéria: Contra quem Davi pecou. Ano XXXIX, número 303, Viçosa: Ultimato, novembro e dezembro de 2006, p. 28.

[xi] JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. De Abraão à queda de Jerusalém. 9.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 344.

CARVALHO, César Moisés.
et al. Davi. As vitórias e as derrotas de um homem de Deus. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, pp.150-58.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Discernindo o bom entretenimento

Por que muitos evangélicos são fascinados por teorias da conspiração ou pelas ditas "mensagens subliminares"? Esse fascínio por descobrir o satanismo no entretenimento leva alguns evangélicos para afirmações absurdas e incoerentes.A visão maniqueísta, como se tudo que não fosse relacionado à igreja estaria sobre o domínio dos demônios, não é biblicamente sustentável. Os evangélicos devem tomar cuidado para não desprezar o entretenimento sem um discernimento saudável e baseado nos princípios da Palavra de Deus. Quem é cristão não repele e nem abomina o entretenimento sem uma avaliação criteriosa dos princípios ensinados em filmes, desenhos, livros, novelas etc., confrontando esses conceitos com as verdades da Santas Escrituras.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Contas da Universal movimentaram R$ 1,4 bi

LEIA MATÉRIA DO JORNAL “FOLHA DE S. PAULO”

Transações financeiras sob investigação foram geridas por empresas fora do país relacionadas a cinco doleiros brasileiros

Promotores determinaram devassa nas offshores para tentar encontrar a quantia exata ligada ao fundador da igreja, bispo Edir Macedo

RUBENS VALENTE
MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL


O pedido de cooperação internacional feito pelo Ministério Público de São Paulo ao governo dos EUA para investigar as contas relacionadas ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, tem como alvo a movimentação financeira de seis empresas "offshores" ligadas a cinco doleiros brasileiros. Elas movimentaram, somente nos EUA, pelo menos US$ 862 milhões, ou R$ 1,47 bilhão, ao câmbio de ontem.

O valor foi obtido pela Folha a partir dos arquivos da CPI do Banestado e de decisão tomada em 2005 pelo juiz federal do Paraná Sergio Moro, que acolheu denúncia contra operadores da casa de câmbio Diskline.

A agência, que tinha sede em São Paulo e filial carioca mas hoje está desativada, é investigada por suposto envio, fora do canal do Banco Central, de US$ 1,8 milhão para uma conta da Universal nos EUA, como a Folha revelou em setembro.

A devassa pedida pelos promotores atinge toda a movimentação das seis "offshores" (sediadas em paraísos fiscais), mas nem todo o dinheiro está relacionado à Universal. Há indícios de que se tratavam de "contas-ônibus", que abrigam recursos de diferentes empresas e pessoas brasileiras.

O pedido dos promotores foi encaminhado há duas semanas ao Departamento de Justiça americano pelo DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional), órgão do Ministério da Justiça. O departamento americano repassou o pedido para a Promotoria de Nova York, que analisa o caso.

O objetivo da cooperação é obter documentos que possam ser usados na ação penal que tramita desde agosto em São Paulo contra Edir Macedo e nove pessoas da igreja por supostas lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

Além disso, os promotores fizeram um relatório aos seus colegas americanos Adam Kaufmman e Jon Lenzner pelo qual avisam que "fatos narrados" no Brasil "revelam crimes e irregularidades ocorridos nos Estados Unidos".

Os promotores pediram bloqueio e apreensão de documentos relativos a 15 contas das "offshores" Milano Finance, Florida Financial Group, Pelican Holdings, Ourinvest, Dartley Holdings e a subconta chamada "Titia", na empresa Beacon Hill, fechada em 2003 pela Promotoria de Nova York por transmissão ilegal de fundos. Elas movimentaram -soma de entradas e saídas de dinheiro-, entre meados da década de 90 e 2003, respectivamente US$ 759 milhões, US$ 56 milhões, US$ 36 milhões, US$ 4,1 milhões, US$ 2,2 milhões e US$ 5 milhões.

De acordo com a investigação, essas contas se relacionavam a empresas ligadas à igreja, como a Cableinvest e a Investholding, sediadas em paraísos fiscais. A igreja trazia o dinheiro de volta ao Brasil por meio de empréstimos de fachada concedidos por essas duas empresas a membros da igreja.

Para promotores, o dinheiro foi usado para comprar veículos como a TV Record, negócio avaliado em US$ 22 milhões.