terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As relações entre a verdade e o amor

O pensamento “politicamente correto” está sendo adotado por muitos cristãos. Sem querer criar alardes, é necessário lembrar que ao adotar essa visão político-ideológica, automaticamente haverá implicações na maneira de enxergar o mundo. Esse processo é natural: adotasse uma cosmovisão e vivesse nela. O “politicamente correto” sempre usará uma linguagem neutra, a fim de evitar discriminações e preconceitos. Nesse mundo pós-moderno, a linguagem que é denominada como exclusivista, sempre será mal acatada. Dentro desse aspecto, cristãos do mundo todo já não falam em verdades. Alguns, inclusive, abraçaram o relativismo teórico e prático.

Na literatura contemporânea, certamente será fácil achar livros cristãos que exaltam o amor acima da verdade, criando uma dicotomia inexistente nas Sagradas Escrituras. O amor não divorciasse da verdade, e a verdade verdadeira não se sustenta sem amor. Portanto, ao criar uma visão de rixa, os postulantes desses pressupostos afrontam diretamente os textos bíblicos. O mesmo Deus que é amor (I Jo 4.8) se apresenta com o Filho como a verdade (Jo 14.6). Ninguém pode dizer que abraçou a verdade se isso não produzir efeitos práticos no dia a dia.

Mas como existem pessoas corretíssimas em assuntos doutrinários e ainda assim são sem coração? Impossível. A verdade existe na condição de encarnada e praticada, logo automaticamente associando-se ao amor. Os aparentemente ortodoxos, sem amor, são mentirosos e hipócritas e não detentores de verdades. A própria natureza da verdade implica ação correta. Dentro da verdadeira genuína ortodoxia (pleonasmo proposital) já está a ortopraxia.

Mas como existem pessoas corretíssimas em ações, mas que nunca adotam as verdades cristãs? Impossível. O amor é baseado na verdade. Aqueles que confundem ação humanitária com amor acabam por acreditar que é possível existir caridade sem verdade. Mas o ato de esmolas não é o real sinal de amor (I Co 13. 1-3). O amor produz obras sociais, mas obras sociais não produzem necessariamente amor.

Os enganos da dicotomia

Os que tentam rivalizar a verdade e o amor acabam por criar uma grande confusão. Acham que é possível viver verdade sem amor ou amor sem verdade. Nessa relação, elegeram o amor como melhor virtude. Para eles, não importa se você acredita que Jesus é ou não Deus, mas o que importa mesmo é se você ajuda um orfanato. Ora, ajudar crianças ou idosos não é sinal necessariamente de amor. Vocês acham que aqueles empresários que doam milhares de reais em um programa beneficente fazem isso movidos por um amor real? Na verdade, eles fazem isso para aparecer na televisão sem pagar por propaganda ou para ter desconto do imposto de renda. Ajudam em troca de alguma coisa. Amor não é isso. Milhares de pessoas no mundo ajudam os desvalidos porque foram ensinados pelas suas religiões que só assim alcançariam a salvação. Amor não é isso. Ação humanitária não pode ser confundida com amor. Amor é entrega sem espera de algo em troca. Amor é querer o bem do outro como a si mesmo. Amor é só possível quando se conhece a verdade, quando se conhece Jesus.

“As minhas verdades são frágeis”

Certa vez em uma palestra teológica, um pastor exaltava a fragilidade de suas “convicções”. Com a certeza de que certezas produzem danos, ele prefere viver em constante dúvida. Ledo engano de um extremista. O engraçado é que a palavra hebraica para verdade, que é ´emet, significa “o que é sólido, aquilo sobre o que é possível apoiar-se com toda confiança” [1]. As certezas são importantes, o real problema são aqueles que não apresentam nenhuma dúvida, logo porque eles têm certeza sobre tudo. Isso sim é perigoso. Mas a reação a essa arrogância não é desprezar as certezas. É impossível, nessa vida, conhecer toda a verdade. Somente Deus conhece todas as verdades. Mas é possível conhecer verdades.

Portanto, não queira criar dicotomias. Amor e Verdade não são rivais, pois são virtudes do próprio Deus. Ninguém é dono da verdade, mas isso não significa relatividade ou a não existência da mesma. Os incontestáveis e os relativistas são distorções. O amor torna o homem semelhante a Deus, mas não necessariamente produz acesso a Ele. O escritor C. S. Lewis dizia: “Nenhum riqueza, de qualquer espécie, é passaporte para o Reino dos Céus” [2], nem mesmo a riqueza do amor advinda da Imago Dei, que está em todos os humanos. Um homem por ser a imagem e semelhança de Deus pode ser exemplo de altruísmo, mesmo não conhecendo o Altíssimo. Uma pessoa que ama pode até parecer com Deus, mas não estar próximo a Ele. Isso é possível. Assim como é possível defender a verdade, desprovido da própria Verdade, que é a pessoa de Jesus.

Referências Bibliográficas:

[1] LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Crítico de Teologia. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola e Paulinas, 2004. p 1830.

[2] LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p 8.

Um comentário:

AD Vila Magini disse...

Graça e Paz! Irmão Gutierres!

A verdade e o amor genuínos são realmente inseparáveis! Que possamos pregar e viver a verdade e o amor do evangelho de Cristo!

AD Vila Magini
http://advilamagine.blogspot.com/