segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Onde estão os nossos intelectuais?

Quando preciso ler algo sobre política, economia, sociologia e até filosofia, não acho um único protestante brasileiro de relevância. Não falo de teologia, pois temos bons teólogos brasileiros. Apesar de uma nova geração teológica optar pela mentalidade adolescente. Mas olhando as ciências humanas de maneira geral, nós podemos cair até no desespero pela falta de referenciais. Faltam pensadores evangélicos espalhados pela sociedade. Então me pergunto: onde estão os nossos intelectuais? Cadê os nossos pensadores cristãos que analisam os fatos sob uma ótica bíblica?

Hoje, observam-se duas tendências no mundo evangélico:

O anti-intelectualismo

Eis o grande pecado dos protestantes fundamentalistas e dos pentecostais. O anti-intelectualismo é massacrante, pois toda tentativa de aperfeiçoamento intelectual é mal vista por esses grupos. Houve melhoras, mas o caminho ainda é longo. O avanço é mais visível em membros isoladamente, do que na própria liderança já estabelecida.

A visão escatológica dispensacionalista faz com que muitos não trabalhem com um projeto de futuro, vivendo de maneira imediatista. Pensam que investir em crescimento intelectual é perda de tempo diante da iminente destruição do mundo. Tal visão de mundo é fatalista e irresponsável. A escatologia bíblica não ensina o caminho da acomodação.

Outro fator determinante na visão anti-intelectual é a tendência do “coitadismo”. Como Deus escolheu os fracos deste mundo para confundir os sábios, os coitadinhos usam a Bíblia para justificar a baita preguiça de se preparar nos estudos. É a realidade, pois a maioria não estuda por falta de esforço. Sim, repito, é mais falta de esforço. Mas claro que têm pessoas sem condições nenhuma de estudarem, mas essa é uma minoria.

Outros quatro fatores são apontados pelo teólogo inglês Alister McGrath [1] que colaboram para o anti-intelectualismo evangélico:

- A herança fundamentalista do evangelicalismo norte-americano o distanciou da teologia acadêmica por toda uma geração.

- Particularmente na América do Norte (e também no Brasil), o evangelicalismo chegou a enfatizar critérios pragmáticos de êxito (sucesso, triunfo, saúde plena, prosperidade, grandes ministérios etc.) o que conduz a uma retirada de engajamento teológico por causa de sua utilidade questionável para a prática pastoral e evangelística.

- A teologia acadêmica está sob a obrigação de mostrar-se sensível à agenda secularizante da academia profissional, o que a distancia da vida a das preocupações das igrejas cristãs.

- a teologia é potencialmente elitista e, assim, está em forte tensão com o caráter populista do evangelicalismo.

O marxismo cultural

Quanto os protestantes brasileiros resolvem viver intelectualmente, logo abraçam o “marxismo cultural”. Aliás, é o Brasil, pois aqui fazer parte da elite acadêmica é ser obrigatoriamente antiamericano, multiculturalista, nietzscheziano, foucaultiano, desconstrutivista, frankfurtiano, antiocidental e linguisticamente sob a vigilância constante do politicamente correto.

Passam a julgar o mundo não por uma cosmovisão cristã, mas sim pelos olhos do filósofo alemão Karl Marx. Certa feita um proeminente professor evangélico, que estudou em uma importante universidade protestante de São Paulo, disse para mim: “Olha, eu nunca vi tantos ataques ao cristianismo como naquela universidade. Lá, tudo no mundo é culpa do cristianismo- opressão às mulheres, aos negros, o aquecimento global, o maldito capitalismo”. Logo se vê uma universidade com o nome de cristã que está coabitada pela ideologia do "politicamente correto".

Diante do marxismo cultural, até a teologia sofre de insignificância. Como o filósofo judeu Luiz Felipe Pondé escreveu: “a teologia, a louca da casa, abandonada pelos próprios teólogos que a traem, transformando-a em mera antropologia moral inconsistente” [1] Hoje em dia, você lê alguns teólogos que mais parecem àqueles sociólogos que seguem a cartilha gramsciniana.

Exemplo disso é que não raro lemos teólogos brasileiros falando em sua “alma feminina”, embainhados pelo feminismo bocó. Ainda há aqueles que querem expressar uma espiritualidade mais humana, humanizando Deus, e arrancando os Seus atributos. Logo porque, como eles aprenderam com Michel Foucault, toda autoridade é opressiva. Então, eles tentam livrar Deus de sua deidade. Humanista que é humanista, humaniza o seu cachorro e o seu deus.

Pondé, em outro texto afirmou:

Infelizmente, há muita teologia que ajuda a matar Deus. Deus me livre da teologia de vanguarda. Se, na arte, a "vanguarda" serviu pra justificar quem não sabia pintar, escrever ou fazer filmes, na teologia, serviu para fazer de Jesus um personagem de novela das oito. Nada contra a teologia, ao contrário, julgo-a uma disciplina essencial para nos ensinar a ver o invisível. Mas, como disse Heine em relação aos teólogos de sua época, "só se é traído pelos seus"... A teologia feminista diz que "a Deusa" existe para punir o patriarcalismo. A teologia bicha (Queer Theology) se pergunta: por que Jesus viveu entre rapazes, hein? Alguns latino-americanos vêem Nele um primeiro Che, hippies viam um primeiro Lennon, outros, um consultor de sucesso financeiro. Ufólogos espíritas dizem ser Ele um extraterrestre carinhoso. Prefiro o cristianismo antigo (prefiro sempre as religiões velhas). Um Deus que sente dor e morre por amor a quem não merece é um maravilhoso escândalo ético. O Cristo antigo é um clássico. [2]

Mesmo não sendo um teólogo cristão, mas um filósofo judeu, é impressionante o discernimento de Pondé diante dessas “teologias de minorias”, que nada mais são do que “ateologias humanistas”, como ele mesmo define nos seus ensaios. Apresenta mais discernimento do que essa nova classe de teólogos mergulhados no relativismo suicida. Na verdade, eles querem ser uma versão gospel do Frei Betto. Em breve rezarão com ditadores, expressando o belo humanismo.

Pois bem, faltam intelectuais de verdade, que sejam sal e luz de Cristo, e não vozes prontas para destruir o cristianismo pela suas ideias suicidas. Que sejam como C. S. Lewis, que foi filósofo, ficcionista, crítico literário e teólogo apologista. Um intelectual de peso que usou toda a sua inteligência no fortalecimento de sua fé. Lewis via o cristianismo para enxergar o resto: "Eu acredito no cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor."

Referências Bibliográficas:

[1] MCGRATH, Alister. Paixão pela Verdade. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007. p 10-11.

[2] PONDÉ, Luiz Felipe. Do Pensamento no Deserto. 1 ed. São Paulo: Edusp, 2009. p 15-16.

[3] _______________. Deus. Folha de S. Paulo. São Paulo, 29 dez. 2008. Caderno Ilustrada. p E 8.

14 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Gutierres,

Muito válida tua constatação. Prova da escassez de intelectuais tupiniquins é a expressiva proporção de obras traduzidas em nossas editoras. E olha que lá se vão 500 e poucos anos. Espero que Deus levante jovens como vc para, com o perdão do chavão, fazer a diferença!

Marcos (RJ)

Anônimo disse...

Prezado Gutierres,

Muito válida tua constatação. Prova da escassez de intelectuais tupiniquins é a expressiva proporção de obras traduzidas em nossas editoras. E olha que lá se vão 500 e poucos anos. Espero que Deus levante jovens como vc para, com o perdão do chavão, fazer a diferença!

Marcos (RJ)

Cristiano Silva disse...

Este texto é um exemplo do motivo pelo qual eu acompanho o seu blog, mesmo não sendo pentecostal. Que Deus continue o abençoando, o fortalecendo, e fazendo com que você cresça em sabedoria e santidade.

Abraços.

Matias Heidmann disse...

O problema dos intelectuais tupiniquins é que eles afastaram-se da simplicidade do evangelho (não citarei nomes). Questionam, mas não dão alternativas teologicas e biblicas. O resultado é uma geração de pensadores que duvidam, questionam, apontam os erros evidentes, mas não é uma geração de intelectuais missionais, cristãos que com paixão e devoção adoram ao unico Senhor, o Deus verdadeiro e contribuem para a evangelização. Os nossos pensadores evangélicos tupiniquins estão no seu mundinho de quatro paredes. E o mundo não toma nota deles... (isto não acontecia com C.S. lewis, Bonhoeffer, Lutero, Wesley etc).

Pensador Cristão disse...

Parabéns, seus textos me empolgam, a leitura do seu blog é obrigatória, uma revista eletrônica de qualidade.

Daladier Lima disse...

Excelente post. Semana passada assisti a um filme no qual há uma condenação injusta para um crime. A atriz, que interpreta a vítima, vai conversar com os dois padres da prisão e após a conversa, ela olha para eles e diz: Teólogos esperam... Numa alusão á passividade intelectual da teologia. Bem poderia estar aplicando tal analogia aos seus conceitos...

Sinto que o problema é mais profundo. Não fomos acostumados a pensar criticamente. Por outro lado, a gritaria dos que pensam é apenas cômica, porque não há propostas. Como disse o Matias Heidmann.

Parabéns!

O Clérigo disse...

Ótimo texto e excelentes comentários. Venho corroborar a opinião de todos vocês.
Todavia, gostaria de acrescentar que a crise de intelectualidade teológica está relacionada ao excesso de teorização em detrimento das práticas. Exarceba-se a ortodoxia e ignora-se a ortopraxis. E, com isso, alguns supostos intelectuais formados pelas escolas teológicas nada sabem fazer a não ser criticar esta ou aquela prática herética.
Enquanto a teologia quiser igualar-se às outras ciências humanas, não apresentará frutos como as cabeças pensantes que tanto fazem falta. Ela deveria esvair-se de toda pedância desnecessária e voltar-se às suas origens, quando os primeiros teólogos da Igreja eram pescadores e nem por isso deixaram de ser intelectuais, no sentido mais puro da palavra.
Cristo não se preocupava em teorizar termos como "redenção", "justificação", "santificação". Ele ensinava tais termos na linguagem do povo, recorria à parábolas e analogias. E Ele pode ser considerado o maior intelectual que já passou por essa Terra. Portanto, que os teólogos nos tornemos intelectuais no sentido prático de orientar, guiar, refletir, pensar; e não no sentido teórico de análises e mais análises sem proveito, como bem disse o companheiro Matias Heidmann.

NilmaBostonRio disse...

O teu blog esta a cada dia com um conteudo cada vez melhor!
E eu mesma, tenho me beneficiado atraves dessas leituras.

by NilmaBostonRio

zwinglio rodrigues disse...

Gutierres, paz!

Relevante essa sua postagem...
.
Perdeu-se muito tempo e terreno... o "boom" evangélico nesse país é interessante quanto ao quantitativo; porém, deixa a desejar amargamente quanto ao qualitativo [isso no sentido abordado por você e no da espiritualidade]...
.
Mas ainda há tempo... quem se habilita?

@rn@ldo br@g@ disse...

Querido irmão...

Parabéns pela postagem. Muito adequadas as suas colocações acerca deste assunto. Vivemos isso em todas as áreas da vida. Entregamos todas as coisas ao Diabo e agora queremos tomá-las de volta, colocando nelas nova roupagem (gospel, santa, etc). Desprezamos a arte, a cultura, a música, a intelectualidade e nos fechamos em um mundo no qual conseguimos viver por algum tempo. Mas agora os crentes estão ávidos por fazer aquilo que condenavam. Estão embrulhando as coisas que o mundo corrompeu em um papel bonito, para que os evangélicos possam usar (comprar!) sem peso na consciência.
Difícil pensar que poderíamos ter influenciado a cultura, a televisão, o cinema, o teatro, as artes, a música e até a ciência. Mas preferimos nos isolar e ser o que somos hoje. Um povo não intelectual e anti-intelectual.
Creio que haverá mudanças e que o Senhor está levantando pessoas para influenciar a nação. Este quadro será mudado e nós iremos glorificar a Jesus e viver como ele mandou! Que deus o abençoe!!!

Gutierres Siqueira disse...

Amigos,

Obrigado a todos pela colaboração.

Eliseu Antonio Gomes disse...

Gutierres

Abraão de Almeida foi uma das primeiras pessoas que despertaram minha vontade de ler, na época da minhas primeiras leituras era um alguém na faixa dos dez aos doze anos. Meu pai comprava produtos da CPAD, e eu compartilhava com ele.

Hoje, Abraão de Almeida vive em Coconuth Creek – Flórida, pastoreia a Igreja Evangélica Brasileira. Ainda tenho o prazer de ler artigos dele. São publicados mensalmente na revista Show da Fé, editada pela Graça Editorial, de RR Soares.

Aos radicalistas, adianto: o que ele escreve nada tem a ver com o movimento neopentecostal. No bom e antigo estilo intelectual, Abraão de Almeida continua abordando temas da atualidade com perspetivas bíblicas aprofundadas, como poucos têm a capacidade de fazer.

Abraço.

Eguinaldo disse...

Muito me preocupa quando o assunto e TEOLOGIA,afinal cadê os intelectuais?Parece que todos os pastores resouveram de uma vez sò sumir do mapa rsrsrs.Porque eles sò falam em :Dinheiro,carro do ano etc..

Anônimo disse...

Realmente,parece que os Teologos sumiram,talvez estejam cansados ou viajaram rsrs..