quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Viva a realidade alternativa

Leia o ótimo texto de Bráulia Ribeiro, publicado na última edição da revista Ultimato. Comento no final. Veja o artigo como um todo, mas preste atenção no destaque em negrito.

Viva a realidade alternativa

Bráulia Ribeiro

Os Dez Mandamentos são o código de ética mais perfeito que existe. Concordamos com isto porque cremos na Bíblia como a fonte máxima de revelação de Deus aos homens. Porém, podemos verificar a perfeição deste código também de maneira empírica na história humana. O respeito mútuo, a noção de propriedade, a constituição e proteção da família, a afirmação do valor da vida, assim como as sanções que punem aqueles que desrespeitam o código nuclear de valores -- tudo se encontra por aí nas sociedades humanas, desde as pequenas tribos às megassociedades com culturas multifacetadas.

Só encontramos a representação completa e explícita deste código moral nas sociedades cristãs ocidentais. O mundo ocidental se desenvolveu tendo como base a filosofia judaico-cristã e como núcleo de valores fundamentais desta cosmologia as dez leis de Moisés. No entanto, principalmente neste último século, fomos acostumados a pensar na moralidade cristã como uma espécie de prisão tacanha, geradora de deformações psicológicas e inibidora da verdadeira felicidade. A realização humana passou a ser definida por uma liberdade moral em que o único parâmetro é o meu desejo individual no momento.

Com Freud, por exemplo, aprendemos que sexo e moral são inimigos mortais; que uma vez reprimidos os instintos sexuais, afetamos nossa própria identidade psicológica, adoecendo a raiz de quem somos. Com Nietzsche, aprendemos que podemos inferir, a partir da realidade degradada em que vivemos, a morte de Deus. Acreditamos na falácia narcisista: sou intrinsecamente mau; portanto, o bem não existe.

Mais recentemente, para salvar o conceito de Deus, começou-se a desassociá-lo da moral. Versões pós-modernas do cristianismo apresentam um deus cuja proposta para a humanidade coaduna com a felicidade amoral desejada pelo inconsciente coletivo. Esse deus trabalha para nós e nada nos pede de nobre, de virtuoso. Não nos pede sacrifício, porque, afinal, ele já se sacrificou por nós. Conforma-se com uma obediência rasa a certo código de comportamento determinado pelo grupo religioso. Esse código enfatiza o que convém ao grupo, como práticas e comportamentos relacionados com a religião em si, mas releva princípios morais absolutos. Como as religiões animistas, esse cristianismo faz da felicidade transcendente do indivíduo seu alvo final; e das negociações mecânicas entre os servos e a deidade, o caminho para se chegar até ela.

Outra versão pós-moderna inventou o budista cristão. O cristianismo-filosofia também não me pede nada a não ser crer na graça. Tudo me é lícito desde que me convenha. Meu Cristo-Buda filosofa e faz sugestões sábias. Minha escolha pessoal não faz diferença no universo. No não ser está minha razão de ser e a antirreligião é minha religião.

Estamos muito perdidos. Precisamos recuperar de forma explícita e detalhada a cosmovisão proposta por Deus na Bíblia. O que seria a realidade segundo Deus? No códex de pedra encontramos a resposta. “Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.” Está aí a proposta divina de definição de realidade. Deus é o supremo, o perfeito, o Alfa e o Ômega. Ele define moral a partir de seu ser, o Bem perfeito. E nos proíbe a criação de uma ética alternativa. Ele tem a prerrogativa de definir quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Ele nos propõe o certo e o errado, a bênção e a maldição. Será que ainda dá pra encarar?


• Bráulia Ribeiro
, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical (Editora Ultimato).

Comento:

A missionária Bráulia Ribeiro identifica, com maestria, dois grupos aparentemente antagônicos, mas com uma semelhança marcante: o antropocentrismo, o homem como centro de todas as coisas.

- O “cristianismo” do deus-papai-noel. Essa cosmovisão apresenta um deus que atende os bons meninos da fé, presenteando com o bom e o melhor desta terra. Esses meninos nunca sofrem, pois são cabeça, e não cauda. Apegam-se a prosperidade e saúde perfeita, mas vivem na imperfeição de uma fé movida pela materialidade. Aqui o homem é o centro.

- O “cristianismo” do Buda paz e amor. Essa cosmovisão apresenta um deus humanizado, que nem atributo divino possui, pois os abandonou. Enquanto o deus-papai-noel vive intervindo na vida dos bons meninos da fé, infantilizando-os na mediocridade, esse deus budista nunca intervém. Aqui o deus cristão é um membro de ONG: impotente, mas com boas intenções.

O primeiro grupo enche as igrejas pentecostais e neopentecostais, enquanto o segundo grupo coabitou alguns tradicionais que namoram com as “ateologias secularizantes”. Em ambos o homem é o centro. Sim, tanto um neopentecostal como um relativista apresentam muitas semelhanças.

Um comentário:

Daladier Lima disse...

Prezado Gutierres,

Ás vezes, discordo de sua caoticidade, mas não há como discordar dos pontos chave do texto. É preciso ter consciência de que nossa trilha está se tornando um non sense total. Uma hora aparecem os profetas e um bando vai atrás deles. Outra os que se apegam à Bíblia ficam sós. Bráulia é equilibrada o bastante para nos mostrar que somente em Deus temos a opção perfeita.