quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Campanha da Fraternidade é ingênua

A Campanha da Fraternidade deve nos fazer ousados para rever os conceitos econômicos que imperam no mundo e no nosso país (Pr. Carlos Möller, presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil)

A Teologia da Prosperidade é herética. Os pregadores da Confissão Positiva associam a riqueza financeira como uma consequência da Redenção. Posto isto, quero falar do extremo oposto. A Teologia da Miséria associa pobreza com redenção. Acham que ofício de profeta contemporâneo é denunciar os juros altos dos bancos. Estes proclamadores da “vida simples” apresentam a pobreza como o ápice do cristianismo. O engraçado que ambas as teologias são pregadas por gente bem sucedida.

A Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010, promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), traz como tema Mateus 6. 24: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. Realmente seria um tema válido se não fosse a ingenuidade deste povo, tanto por parte dos católicos como dos protestantes reunidos na CONIC. Por que são ingênuos? Porque eles não estão condenando necessariamente a idolatria pelos bens materiais que afeta muitos cristãos, mas sim um sistema econômico. Não precisaria condenar os lucros de multinacionais, mas sim a ganância nas relações de trabalho. O Vaticano não tem banco? Ele não lucra? É filantrópico? A lojinha da igreja luterana ou presbiteriana vende livros ao preço de custo?

Crítica de uma academia ideológica

Como bem disse o jornalista Rui Nogueira: “Estabelecer laços ambíguos sobre essas realidades é moralmente reconfortante, mas tem pouca ou nenhuma serventia ética para a sociedade”[1]. Ora, as pessoas ao se tornarem cristãos deixam de desejar a ascensão social? É claro que não. É realmente obscuro o sentido de uma campanha que nunca se aplica na vida dos homens, senão sendo a manifestação de utopias de alguns ideólogos vestidos de religiosos. É uma mistura muito grande entre crença e política econômica. Deus e César na mesma face da moeda.

O grande problema é que essas campanhas são fruto de crítica acadêmica desprovida de prática. Como bem disse o acadêmico John R. Lott Jr., a “academia é praticamente a única profissão que consome a sua própria produção” [2]. É como se um fabricante de carros só vendesse os veículos para os seus funcionários. Ou seja, falam para si, sem nenhuma prática no mundo dos humanos, que precisam trabalhar para sobreviver em uma vida que nunca foi fácil para aqueles que pensam que o Estado ou a providência divina darão a comida do nada. “Se alguém não quer trabalhar, também não coma”, como disse o apóstolo Paulo (II Ts 3.10). Paulo aqui reza a cartilha da formiga, e não da cigarra. O mundo é assim: produção, consumo e mais produção, com a prudente poupança. Alguns sonham com outras realidades. Mas é só isto- sonho!

Convivência e equilíbrio

Aliás, é possível sim ser cristão e conviver bem com o dinheiro. Não se pode é idolatrá-lo, amá-lo acima de todas as coisas (cf. I Tm 6.10). Nem mesmo podemos amar os nossos pais acima de Deus. Tal campanha cria uma dicotomia horrível. Até parece que é impossível ser um empresário dentro do sistema capitalista e exercer o cristianismo. Obedecendo os princípios do repeito ao outro (cf. Tg 5.4) é moralmente aceitável o empreendedorismo. Repito: Os propagadores desses ideias são graduados e pós-graduados, moram em casas de classe média, estudaram em boas universidades, falam duas línguas, viajam para o exterior... Estão completamente dentro de um sistema burguês que eles condenam. Como são chamados aqueles que abominam aquilo que vivem?

Nem riqueza, nem pobreza são evidências de um bom cristianismo.

Referência Bibliográfica:

[1] NOGUEIRA, Rui. Deus, dinheiros e as utopias. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 18 de fev. 2010. Vida& A19.

[2] JR LOTT, John R. Freedomnomics. 1 ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p 24.

18 comentários:

leo disse...

Pastor, ontem dia 24/02 o Silas Malafaia participou de um debate sobre a lei da hemofobia juntamente com a criadora do projeto.
Silas venceu o debate, e isso está sendo divulgado pelo orkut até mesmo pelos que não gostam do Silas.

Mas não vi nem um blogueiro ou alguém da CGADB apoiar Silas confirmando como opinião da denominação tudo o que ele falu.
E oklha que o Sials nos representou brilhantemente!
Silas foi brilhante no debate e além de representar a Assembleia de Deus brilhantemnete representou toda a Sociedade Brasileira, mas não vi nenhum blogueiro falar sobre isso, agora se ele tivesse falado alguma besteira teria mil blogueiros falando contra eele.
2 pêses e 2 medidas isso está claro.

o fato está em muitas comunidades do orkut com até 400 posts, como na comu da Hilsong United ou do proprio Sials.
Aquim faço questão de psotar a comu da ADB onde o povo não gosta do Silas, mas eles foram justos em reconhecerem o brilhantismo de Silas na entrevista:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=371618&tid=5438774553597233793&na=3&nst=126&nid=371618-5438774553597233793-5442061152758549274


Será que os blogueiros não viram o debate, que foi record de audiencia e sobr eum tema tão importante para a asociedade e os evangelicos?

Pensador Cristão disse...

Caro Irmão Gutierres, gosto muito dos seus textos, e vejo em ti um excelente escritor / jornalista.
Agora eu fico um pouco confuso quando você defende o capitalismo de uma forma tão forte. Confesso que ainda estou em busca de uma posição cristã diante da sociedade em que vivo, mas aqui, 10% dos brasileiros detêm 75% da riqueza nacional, ficando assim uma parcela de 90% da população com os 25% das "riquezas" restantes Diante deste fato, o irmão acha que vivemos num sistema injusto?

Gutierres Siqueira disse...

Pensador Cristão, a paz!

O nosso sistema é justo? Evidente que não. A desigualdade social é muito alta, uma das maiores do mundo. Mas a culpa não é necessariamente do capitalismo, mas sim de deficiências como: falta de inovação, educação precária, burocracia, falta de investimentos etc. No Brasil o estado é forte onde deveria ser fraco (economia, por exemplo) e fraco onde deveria ser forte (segurança pública, por exemplo).

Agora, é ilusão achar que podemos viver em uma sociedade totalmente igualitária. Nenhuma sociedade no mundo é igualitária. Algumas estão mais próximas disso, como a Suécia ou Noruega, mas são países pequenos, com populações pequenas, de alta escolaridade etc. Mas até nesses países existem mendigos, por exemplo. Até em Vancouver, onde acontece neste momento as Olimpíadas de Inverno, há uma espécie de cracolândia.

O capitalismo não é o melhor sistema. O problema são as alternativas. Muitos, incomodados com esses problemas que são gerados a partir do capitalismo, propõem a social-democracia, que respeita a liberdade dos mercados enquanto aplica políticas sociais de compensação. Talvez seja uma alternativa. Sendo um exemplo positivo a Alemanha.

O que me incomoda muito são cristãos que confundem o ofício do profeta contra o pecado para ficar reclamando de spread bancário ou de investimentos estrangeiros. Eles são os mesmos que admiram o assassino Che Guerava quando falam de “amor cristão”; usam roupas caras enquanto citam o exemplo de são Francisco de Assis; falam contra a burguesia quando eles mesmos são burgueses. Quando ouço esse papo sinto o cheio da hipocrisia. Por isso que escrevi esse texto.

abraços

Cleber disse...

Ótimo texto mano.
Concordo contigo.

Pr Cleber.
http://confraria-pentecostal.blogspot.com/

TEO LITERA disse...

Gutierres gosto de pessoas que defendam suas idéias. é melhor ler ou ouvir alguém que acredita naquilo que fala e escreve do que num mero academico que expôe teorias e fica em cima do muro. Todavia sua frase "Até parece que é impossível ser um empresário dentro do sistema capitalista e exercer o cristianismo", me pareceu um tanto quanto infeliz. Todos nós sabemos que um empresario de uma multinacional paga o salario dos seus funcionarios em um dia de serviço, o restante eles trabalham de graça, ou seja, o enriquece enquanto servilmente , (mantido sob ideologia burguesa e muitas vezes apoiada por uma igreja comprometida com o capitalismo, e não com o Reino de Deus),alimentam sonhos de uma vida material melhor. esses sonhos são colocados em nós pelo capitalismo. ja dizia Paul Tillich que o sistema capitalista é demônico, e não reflete a glória de Deus.

TEO LITERA disse...

esqueci meu e-mail, caso queira conversar

teolitera@gmail.com

Gutierres Siqueira disse...

Caro Leo,

Amigavelmente aconselho você a fazer um blog corrigindo as injustiças dos blogueiros evangélicos. A internet nos permite essa liberdade de produção de conteúdo.

Abraços!

Gutierres Siqueira disse...

Caro Teo, a paz!

Esse conceito de “mais valia” se aplicava ao mundo industrial primitivo. Mas qual a proposta para acabar com o lucro em cima do trabalho contratado? Até hoje não ouvi uma resposta aplicável e igualmente rentável para ambas as partes. Não digo que o modelo atual é perfeito, longe disso, mas acontece é que as propostas substitutivas são piores.

Abraços

Gutierres Siqueira disse...

Cléber, a paz

Obrigado por apreciar o texto.

Abraços

carlos disse...

Gostei desse outro lado da moeda,em relação a propagada Campanha da Fraternidade.Tem blogueiro por aí que gostou da campanha por simplesmente ser contra a teologia da prosperidade.

Pensador Cristão disse...

Então você defende a visão liberal? Ora, se não tivéssemos um Estado forte, o Brasil entraria de cabeça na última crise mundial. Mesmo reduzindo os juros, os bancos privados se negaram a aumentar a oferta de crédito ao mercado, ao passo que os bancos estatais aumentaram em mais de 50%, e isso nos fez muito bem. Os Estados Unidos por exemplo, apesar de suas grandes multinacionais defenderem um Estado Liberal, teve que investir "bilhões" do dinheiro publico para proteger inclusive as empresas privadas (bolsa banqueiro!). Estado mínimo somente é interessante para os grandes empresários e demais homens de negócios (os quais não precisam da proteção do Estado), privilegia somente os 10% já citados acima, ao passo que deixa uma grande parcela da população a sua própria sorte e sem acesso ao que poderíamos chamar de "uma cidadania descente".Tanto o meu, quanto o seu discurso são antigos, mas creio que devemos buscar uma alternativa mais justa e humana para a sociedade em que vivemos, com uma distribuição de renda menos selvagem.
A própria lei de Moisés continha em seu bojo mecanismos que procuravam impedir que os homens ficassem ricos demais, e que outros ficassem miseráveis perpetualmente.
Abraços fraterno.

TEO LITERA disse...

Gutierres

O unico substituo legitimo para o sistema capitalista é o utopico Reino de Deus. A ética protestante ensina "converta-se o individuo e a sociedade se transformara", então pelo que vejo, de duas uma, ou a sociedade cristã (evangelica, pentecostal enfim) não acredita no evangelho ou o evangelho não tem poder nenhum para mudar o homem. Em qual situação você acha que estamos?
abraços irmão fica na fé.

Gutierres Siqueira disse...

Caro Pensador Cristão,

Mediante a crise de 2008 muito se falou que o estado forte era finalmente reconhecido com a solução para as crises. Agora, entrando em 2010 estamos presenciando um problema grave de altos défitis e grande dívda pública na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália, os chamados PIIGS, sigla em inglês. Ou seja, tanto mercados quanto governos totalmente soltos e desregulados causam tragédias.

É interessante observar que os EUA são o país mais liberal do mundo. O livre comércio é uma prática da cultura americana. A dinâmica economia daquele país não está livre de grandes crises (1929 e 2008), porém é impressionante sua capacidade de renovação e recuperação. Hoje mesmo saiu a notícia que no último trimestre de 2009, o PIB (Produto Interno Bruto) americano cresceu 5,9%. Este valor é bem mais do que o restante do mundo rico, em especial a Europa. Essa capacidade de inovação faz dos EUA uma economia que é capaz de superar as piores crises.

Agora, é sempre bom uma consciência crítica para que os desvalidos da sociedade possam ser protegidos de suas injustiças.

Abraços!

Gutierres Siqueira disse...

Caro Pensador Cristão,

Mediante a crise de 2008 muito se falou que o estado forte era finalmente reconhecido com a solução para as crises. Agora, entrando em 2010 estamos presenciando um problema grave de altos défitis e grande dívda pública na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália, os chamados PIIGS, sigla em inglês. Ou seja, tanto mercados quanto governos totalmente soltos e desregulados causam tragédias.

É interessante observar que os EUA são o país mais liberal do mundo. O livre comércio é uma prática da cultura americana. A dinâmica economia daquele país não está livre de grandes crises (1929 e 2008), porém é impressionante sua capacidade de renovação e recuperação. Hoje mesmo saiu a notícia que no último trimestre de 2009, o PIB (Produto Interno Bruto) americano cresceu 5,9%. Este valor é bem mais do que o restante do mundo rico, em especial a Europa. Essa capacidade de inovação faz dos EUA uma economia que é capaz de superar as piores crises.

Agora, é sempre bom uma consciência crítica para que os desvalidos da sociedade possam ser protegidos de suas injustiças.

Abraços!

Gutierres Siqueira disse...

Teo,

Boa lembrança. Realmente a sociedade é transformada com homens transformados. Se isso não está acontecendo é fruto desses tempos sem avivamento genuinamente bíblico.

Abraços

Eduardo Sales de Lima disse...

Oi, sua crítica é plausível e ponderada, mas não posso concordar, porque o evangelho não é nem plausível nem ponderado, mas uma mensagem de transformação radical e as ponderações pós-modernas são formas aveludadas do evangelho criadas para amenisar a dor da consciência de crentes omissos. Assim, ao dizer que acreditar em um mundo de igualdade e de defesa do pobre e oprimido é ingenuidade então Jesus Cristo foi o maior ingênuo de todos, e se não me engano, nós também somos chamados para ser como ovelhas entre lobos, ingênuos com a pomba e astutos como a serpente.
Jesus, como os profetas, fez tremenda crítica social, e só não encherga quem é cego e está iludido por um evangelho utópicamente espiritual. Jesus chamou os banqueiros do templo (cambistas - trocadores de moedas) de ladrões, criticou o governo, Herodes foi chamado de rapoza, e para os que não sabem, Israel era governado por sacerdotes, por isso a crítica dos profetas, embora esteja na bíblia, foi dirigida ao Estado e aos dirigentes do governo (é só ler Amós). Assim, o verdadeiro profeta é aquele que sai do templo e se impõe entre Deus e o Povo, entre o povo e seus opressores.(Veja meu artigo sobre profetismo).
Só para constar, a critica dessa tal academia teológica está mais por fora que cachorro com fome na frente da padaria.

Ielton Isorro disse...

Olá irmão Gutierres, é a primeira vez que comento nesse espaço.
Parabéns pelo blog, pela temática e por essa matéria.
Quando puder dê uma passadinha no http://clamandonodeserto.blogspot.com/ veja o meu perfil e comente alguma coisa por lá.

Quanto ao tema proposto, prefiro olhá-lo por um outro prisma. Como um contra-ponto ao que as comunidades evangélicas neopentecostais têm pregado, que enfatiza a necessidade do servo de Deus ser bem sucedido financeiramente, o que, segundo eles, se comprova com a conquista dos melhores carros, imóveis, roupas, cargos e etc. Argumentos que invariávelmente impulsionam as pessoas à compulsão pelo dinheiro, fora o que a sociedade secular já o faz.

Penso eu que o CONIC vendo o avanço bem sucedido desse discurso em redutos antes conservadores, visam nesse mote e na própria campanha uma forma de "vacinar" o povo, que sendo pressionado pelas questões econômicas podem ser seduzidos pela teologia dos milagres financeiros em troca de dízimos e ofertas.

Não faço parte do movimento ecumênico, más, a despeito do que vc escreveu (e que concordo), devo admitir a felicidade na escolha do tema e do momento para o mesmo, oportunamente fazendo frente à essas heresias.
Afinal, a verdade na boca de um católico é tão verdade quanto na boca de um protestante, como foi na boca da mula de Balaão, e dói tanto em quem a ouve quanto em quem a emite. A famosa faca de dois gumes.

Em tempo: irmão Leo, o Pulpito Cristão, que não apoia as últimas aventuras do Silas com o Cerulo e Murdok, publicou no mesmo dia a integra do debate e fez uma critica positica a participação dele. http://www.pulpitocristao.com/2010/02/silas-malafaia-no-ratinho-opiniao.html

No Amado
Ielton Isorro

Alliadoo disse...

Muito boa sua ponderação. Infelizmente alguns tem-se perdido numa pseudo-espiritualidade, ou achando que por serem cristãos vão se dar bem nesta vida de qualquer jeito ou achando que tudo virá dos céus e não precisam se preocupar com as demandas do cotidiano.

Passa lá no meu blog.

Pax.