quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O pentecostalismo, a privacidade e Jesus Cristo

O cronista português João Pereira Coutinho escreveu em artigo dizendo que “a privacidade é talvez a maior conquista da civilização judaico-cristã”. Mediante esta frase fiquei a meditar como as Escrituras nos incentiva para uma prática de espiritualidade recatada, privativa, mas que reflete em nosso caráter exercido no dia a dia. Na adoração, que é um ato de intimidade entre a criatura e o Criador, somos compelidos a trancar a porta. Infelizmente, como o caminho bíblico é desprezado em boa parte das igrejas pentecostais que fazem da adoração um verdadeiro circo, um espetáculo pessoal, com direito a todo tipo de apresentação.

Jesus disse: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6). Assim é adoração a Deus: um momento de intimidade privativa, redundância proposital para expressar a grandeza de elevar a Deus um louvor sincero, que não será alvo de apreciação de nenhum outro homem. Adoração não é espetáculo, não é palco. Adoração é quarto com a porta trancada. É por trás das cortinas como no templo veterotestamentário.

O privativo Jesus jamais falaria em línguas em um sermão quando não há quem interprete. Ora, como deixa bem claro o apóstolo Paulo no magistral texto de I Co 14 (um dos mais desprezados nas igrejas pentecostais) as línguas quando não interpretadas é intimidade entre o falante e Deus, que o ouve e o entende (14.3). Não é algo para compartilhar com dezenas de pessoas. Agora, quando interpretado deve ser compartilhado com os demais, pois já não é adoração, mas sim uma profecia (14.28)

Jesus era seguido por grande multidão e curava a todos, mas “advertindo-lhes, porém, que o não expusessem à publicidade” (Mt 12.16). Sim, Jesus não fazia espetáculo com seus milagres, não promovia shows de testemunhos e até proibia que os curados saíssem gritando pelas ruas que foram por Ele libertos. O recato de Cristo é impressionante, mas isto já tinha sido profetizado por Isaías:

Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios. Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o direito. Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina. (42. 1-4, cf. Mt 12. 16-21)

Como é diferente dos nossos dias, em que cartazes e carros de som anunciam a pregação “do grande homem de Deus” que visitará a cidade ou o bairro. A simplicidade de Cristo não é modelo para esse pregadores que arrotam vaidade, orgulho e ostentação de grandeza. A publicidade era abominada pelo Senhor, pois Ele não se portava como um agente de serviço ou vendedor de coisa supérflua, mas sim anunciava a salvação.

Então, quando mais discreta for a sua e a minha espiritualidade, melhor será.

6 comentários:

Daniel disse...

Muito bom o post. Só a exegese de 1 Co 14 que está fora de sintonia.

Rodrigo disse...

Ao amigo DANIEL

Eu concordei integralmente com o texto.

Você disse que a exegese de 1 Co 14 está fora de sintonia.

Peço, respeitosamente, que você manifeste o que considera ser a sintonia do texto, então.

Obrigado

Deus abençoe

Duda Serra disse...

Excelente a postagem e
interessante por vir de um pentecostal.
Sou batista e creio na contemporaneidade dos dons da forma que o apóstolo Paulo orientou e que você muito bem mostrou sua opinião sobre um desses dons que é o de línguas.
Que Deus use a cada dia mais você, tão jovem e com senso crítico.

Lorenna disse...

Concordo plenamente, e são esses "shows" que afastam muitas pessoas da igreja e de todo o seu círculo e formam um estereotipo do crente. E como sempre estereotipos só prejudicam.

Matias Heidmann disse...

Alguns argumentam que o "barulho" pentecostal afasta as pessoas da igreja, mas a solenidade de algumas igrejas históricas tambêm afasta as pessoas, pois está além da compreensão delas. Pelo que sei, as igrejas pentecostais são mais bem sucedidas do que as "guardiãs" da sã doutrina (assim pelo menos pensam).
Eu vejo a questão do "barulho" como cultural e na Bíblia, principalmente na celebração veotestamentária, cultos "barulhentos" eram normais.
Quanto ao uso dos dons, aí concordo plenamente: deve seguir-se o padrão bíblico e o que acontece em muitas igrejas pentecostais é um excesso de linguas, profecias etc sem ordem e respeito.
Cria-se artificialmente um ambiente místico opressivo, onde os dotados destes "dons" dominam o ambiente. É místico, porque acaba sendo irracional, é opressivo, pois no meio daquele barulho "santo" e "fora do comum", muitos cristãos sinceros sentem-se cristãos de segunda categoria, pois não compartilham desta experiencia ou até estão emocionalmente distantes.
Em tudo, como sempre, precisamos de equilibrio e humildade.
Culto deve ser festivo, alegre, contemporaneo. Mas o principal é a exposição da Palavra de Deus. O problema é que em certos cultos o que acontece é que quando chegamos finalmente ao sermão, o povo já está cansado de tanto programa anterior
-extensivo e de pouco conteúdo- composto de músicas, anuncios, "ministração de oferta" (esta é boa!), testemunhos, profecias.
Abraço,
Matias

A Palavra em minha vida! disse...

"O Pentecostalismo, a privacidade e Jesus Cristo".

Irmao...a Graça e a Paz!
muito bom!muito bom mesmo.Peço-lhe permissão em vincular seu texto, citado por voce claro.abraço!