quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Uma fascinação pelos demônios

É inegável a realidade dos demônios e sua influência sobre os humanos. É também inegável a grande ênfase que os evangélicos dão os anjos caídos. Na prática, muitos evangélicos atribuem ao demônio uma queda na calçada ou um arranhão no carro acontecido em algum estacionamento. É igualmente vergonhoso o espetáculo que é feito em muitos exorcismos praticados por aí. Assim como o uso do medo para atacar quem pensa diferente de um líder autoritário.

Certa vez ouvi uma pregação em que o pastor dizia: “Se o demônio não existisse muitas igrejas evangélicas já não existiriam”. Infelizmente é verdade. O medo de maldição demoníaca paira o imaginário das igrejas, principalmente pentecostais e neo-pentecostais. Exemplo máximo disso é o dízimo. Em lugar de ensinar o princípio da generosidade, muitos preferem falar de um demônio chamado “o devorador”. Sendo uma grande forçação de barra do texto bíblico.

É certo que os demônios nos tentam a pecar, mas não pecam por nós. Portanto, quem cair no erro não adianta colocar a culpa no coisa ruim. Com exceção dos possessos, ninguém está fora das suas faculdades mentais para atribuir uma escolha pessoal a uma outra pessoa, mesmo que essa outra pessoa seja um ser de natureza espiritual. Ou seja, alguns tentam escapar de sua responsabilidade mesmo que apelem aos demônios.

Alguns infortúnios na vida podem ser de natureza demoníaca. Mas é bom lembrar que são apenas alguns. Muitas das dificuldades que enfrentamos são frutos daquilo que plantamos (uma doença por falta de prevenção) ou por incontingência (como um acidente que você não provocou). Mas as dificuldades sempre acontecem. E temos muito a aprender com elas.

Na liturgia dos cultos é triste verificar o espetáculo com o nome dos demônios. São pregadores que fazem uma de super-homens e “pisam na cabeça do diabo”. Promovendo um verdadeiro circo que chamam de “autoridade espiritual”. Outros que querem inventar a roda buscam o nome de demônios e fazem listas com as características de cada um deles. De uma utilidade zero esses fazem seminários apontando a diferença entre o demônio da cachaça e do sexo, por exemplo. E esquecem eles que lascívia e embriaguez são obras da carne e não tipos de demônios.

Encerro este texto com um apelo ao equilíbrio escrito pelo inglês C. S. Lewis:

Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os próprios demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros, e saúdam o materialista e o mago com a mesma alegria. [1]

Pois bem, nem oito nem oitenta. Nem incredulidade nem credulidade. Sejamos bíblicos.

Referência Bibliográfica:


[1] LEWIS, Clive Staples. Cartas de um diabo a seu aprendiz. 2 ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. p IX.

7 comentários:

Anônimo disse...

Porque será que isso acontece nas igrejas Gutierres? Será porque o pastor não tem preparo teológico para pregar a Palavra de Deus e vive de assustar os membros da igreja com os demônios? Conheço um pastor que em todos os cultos, do início ao fim diz: "irmãos dêem uma rajada de glória na cara do diabo!" ou: "irmãos, dêem uma rajada de línguas estranhas na cara do diabo!". O que é isso??? Com que finalidade, o pastor tem essa preocupação excessiva, durante o culto todo, com o diabo??? Penso que a glorificação ao nome de Deus, bem como as línguas estranhas, não tem o objetivo de afrontar o diabo, ou tem? Mais uma vez, um bom assunto que você reflete Gutierres. Deus te abençoe sempre!

Philadelfia - Evangelismo e Louvor disse...

É... o texto reflete a realidade de muitas igrejas - pentecostais ou neopentencostais - a supervalorização do diabo. Talvez, num culto, mais se fale no diabo que no próprio Jesus.

Deus tenha misericórdia de nós!

Em Cristo,

Elian Soares
www.evangelismoelouvor.com

Gutierres Siqueira disse...

Caro anônimo,

Isso é pura falta de Bíblia. A geração antiga e a nova geração de obreiros, infelizmente, é analfabeta de Bíblia. Isso só muda quando a Palavra de Deus tiver real primazia.

Gutierres Siqueira disse...

Elias,

Certa vez ouvi de um descrente: - Eu estava ouvindo a pregação desse pastor da rádio, mas ele falou mais no diabo do que em Jesus.

As pedras clamam!

João Ribeiro disse...

Prezado Gutierres, a paz do Senhor:
Acredito que faz parte da natureza humana, mística, a sua inclinação pela descoberta e relação com o sobrenatural.
Daí a infinidade de filmes, séries, livros, que tratam do assunto para atender ao público consumidor ávido de tais experiências.
Alguns cristãos também buscam esta relação quando acontecem estes fatos que você relata, muitas vezes esquecendo de que vivem uma nova realidade de vida espiritual quando do relacionamento com Cristo. Um abraço. Em Cristo, João Ribeiro.
wwww.eclesianet.blogspot.com

Anônimo disse...

Pois é Gutierres, concordo com você. Mas quando é que a Palavra de Deus terá primazia na AD??? O exemplo que citei, acontece numa AD!!!!! É por essas e outras situações que agora estou frequentando a IECLB... fazer o quê!!! Fique com Deus!

Tradicionalista disse...

A psicologia do medo é extremamente eficiente. Diga que o crente pode ser amaldiçoado se pecar ao invés de convidá-lo a ser santo; diga que ele pode perder a salvação ao invés de estimulá-lo à obediência como forma de amor e adoração; diga que se ele não der o dízimo é ladrão ao invés de ensiná-lo na fidelidade ao que Deus concede a ele e tenha a sua igreja sempre cheia e rica...