quarta-feira, 10 de março de 2010

Que a ideologia não distorça a nossa visão

Leia o artigo do bispo Robinson Cavalcanti. Comento no final e já destaco alguns trechos em negrito.

O Presidente Lula e as Duas Cubas

Sou de um tempo em que a expressão “Cuba Libre” se referia a uma dose de rum com coca-cola, e se ouvia a “Guatanamera”. Cuba era uma ex-colônia espanhola, ex-colônia norte-americana governada por um ditador corrupto chamado Fulgencio Batista, um quintal dos Estados Unidos, funcionando como bordel de fim de semana para os endinheirados do Tio Sam, e com a sua população vivendo na miséria típica e as elites nos privilégios típicos da América Latina. Veio a Revolução, e toda a minha geração vibrou. Vimos que a primeira visita de Fidel Castro foi aos Estados Unidos, falando no Clube de Imprensa em Nova Iorque, pedindo apoio para implantar uma social-democracia, reformista e nacionalista. Recebeu, como resposta, um coice, pois ali os interesses nacionais são os interesses das empresas nacionais, e uma transformação como a proposta por Castro seria um mau exemplo para o continente, que, pouco depois, viria sofrer, por décadas, o ciclo de ditaduras militares, com o apoio do norte.

Em dois anos Castro foi empurrado para os braços da União Soviética, houve a frustrada tentativa de invasão da Baía dos Porcos, a Cia tentou assassiná-lo várias vezes, decretou-se o embargo econômico, onde o mais prejudicado foi o povo. O regime universalizou a educação e a saúde, devolveu o orgulho nacional, mobilizou a população em ações cívicas, mas, por fatores externos e internos, adotou o modelo soviético, com severas restrições aos direitos civis e às liberdades públicas. Hoje, empobrecida e repressiva, incomoda pela altivez, e demonstra que o embargo foi apenas contraproducente, faltando estadistas de visão larga nos Estados Unidos. Por que não há embargo contra a China? Ela está longe, e é hoje um importante parceiro comercial.

Por um lado, em nossos dias, a democracia é tida como um valor universal, por outro lado, ela ainda é um artigo escasso, diante das muitas ditaduras republicanas (ideológicas ou não) e de umas tantas monarquias absolutas, "amigas" da (Des) Ordem Internacional. A maioria das democracias se encaixa no que os cientistas políticos chamam de “democracias governadas”, onde o povo apenas escolhe periodicamente quem vai mandar nele, e raras são as “democracias governantes”, onde há mecanismos que tornam o povo realmente um sujeito político.

Nesse contexto o Presidente Lula visita Cuba, quando clássicos princípios do Direito Internacional Público, como a autodeterminação dos povos e a não ingerência nos negócios internos de países soberanos, estão cada vez mais arranhados. Talvez em nome desses princípios (e do silêncio sobre o autoritarismo “amigo” por aí a fora), o dirigente brasileiro foi, digamos, diplomático. Creio que nenhum brasileiro gostaria que um presidente estrangeiro em visita ao nosso país denunciasse a tortura contra presos comuns (pobres e pardos) que marcam o cotidiano dos nossos porões, ou apontasse para os grupos de extermínio, financiados se sabe por quem... Mas, creio que o presidente Lula silenciou também porque teria consequências muito maiores se ele também denunciasse as mazelas da “outra Cuba”: Guantánamo.

Não é apenas o absurdo que um pedaço de Cuba seja território norte-americano com suas bases, mas o que ali acontecesse hoje como negação de tudo aquilo que os Estados Unidos sempre pregaram e que o mundo civilizado pretende adotar: o único território sem Lei em todo globo, o único arbítrio absoluto da terra. Quem ali está, em geral sequestrado em outro país, tem a presunção de culpa, não está sujeito nem às Leis norte-americanas, nem às leis cubanas, nem às leis dos seus países de origem, nem às leis internacionais. Classificados pela figura juridicamente inexistente de "inimigos combates" são confessadamente torturados, nem tem acesso a advogados nem julgamento por um tribunal regular, ficarão presos por tempo indeterminado (e bote tempo nisso!), e serão devolvidos quando as autoridades militares dali quiserem para algum lugar do globo.

Junto da Cuba-Guantánamo a Cuba de Fidel é uma amável Suíça. Não estamos aqui defendendo um campeonato, para ver quem viola mais os direitos humanos, mas apenas denunciando as contradições do império e da imprensa-empresa e a hipocrisia de ambos, que muita maria-vai-com-as-outras acaba, papagaiadamente, indo a reboque.

Lula não falou dos males da primeira Cuba porque era forçado a silenciar sobre os males da segunda.

Nós, como cristãos, defensores de princípios e não de interesses, denunciamos os males de ambas!

Paripueira (AL), 04 de março de 2010,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano (Leia aqui)

Meu comentário

Nutro um profundo respeito pelo bispo anglicano Robinson Cavalcanti. Conheci pessoalmente em uma palestra aqui em São Paulo e fiquei admirado com a sua simpatia. Sempre leio os seus artigos e também já o entrevistei para este blog (leia aqui). Agora, nada me impede de discordar veementemente de alguns de seus textos. E este é exemplo. O artigo é um exemplo de como uma ideologia política pode cegar uma análise realista.

Cavalcanti erra ao analisar as motivações do presidente Lula. Segundo ele, o presidente se calou diante das violações de direitos humanos em Cuba para não atacar a prisão de Guantánamo. Só mesmo não lendo e ouvindo os discursos do presidente para concluir isto. Lula, quando pode, não esconde o antiamericanismo típico da esquerda latino-americana. O presidente não tem pudor em criticar os Estados Unidos, mas evita ao máximo falar contra as ditaduras do Irã, Venezuela, Sudão, Líbia e Cuba.

Lula nada falou contra as violações dos direitos humanos em Cuba porque simplesmente é condescendente com ditaduras. O presidente em lugar de declarar algo contra o regime pôs a culpa no morto. E ontem, em entrevista para a Associated Press, Lula comparou presos de opinião de Cuba com assassinos, estupradores e assaltantes do Brasil. Hoje o chanceler Celso Amorim, falando dos presos políticos cubanos que fazem greve de fome, colocou a culpa nos Estados Unidos. Nada falou da real luta desses cidadãos: que é a liberdade na ilha caribenha contra a ditadura catrista.

Cavalcanti tenta justificar o injustificável. Fala inclusive que a democracia representativa é inferior do que as propostas de “governo do povo”. Se ele conhece na prática uma democracia plebiscitária que funcione, certamente será o único. Na verdade, governos autoritários usam tal justificativa para subjugar das liberdades individuais. Exemplo claro é a Venezuela de Hugo Chávez.

O bispo anglicano escreve no final que “nós, como cristãos, defensores de princípios e não de interesses, denunciamos os males de ambas”. Mas não se vê isto no artigo. Se critica com timidez o regime cubano e se fala com dura voz contra Guantánamo. Chega inclusive a falar que comparando os dois lados da ilha, Havara seria uma espécie de Suíça. Certamente foi uma frase muito infeliz. É a ideologia cegando a análise.

Um governo que apoia regimes horríveis como o do Irã e Sudão, simplesmente não tem nenhum apreço pela democracia. Não é à toa que recentemente a secretaria de direitos humanos tentou amordaçar a impressa por meio de um projeto. Hoje, a diplomacia do nosso país está contaminada pela ideologia Sul-Sul, que tenta justificar os piores governos deste planeta. Um líder cristão não pode defender essas barbaridades.

Quando li o texto do bispo Cavalcanti, lembrei de um artigo em que o pastor Ricardo Gondim, a quem também nutro um respeito, que escreveu duramente contra os pastores Max Lucado e John MacArthur Jr. (leia aqui). Os dois norte-americanos apoiaram publicamente a guerra no Iraque. Diante dessa apologia, Gondim os criticou duramente, mas não fez (ou faz) o mesmo com Frei Betto, que ajudou a escrever a constituição ditatorial de Cuba. Ou seja, são dois pesos e duas medidas. Longe de ser uma crítica movida por, digamos, um pacifismo cristão, é na verdade pura ideologia.

Seja o cristão esquerdista, centrista ou direitista; seja ele socialista, social-democrata ou liberal; nenhuma ideologia pode cegar a sua crítica pela violência ao próximo. O nosso compromisso é com a verdade, e a verdade costuma contradizer as ideologias humanas.

4 comentários:

Daladier Lima disse...

Concordo com sua análise. Somente alguém que não isento o suficiente discorda que Cuba nos olhos dos outros é remédio. Por que esses esquerdistas não vão morar lá? É uma dessas pedras de toque do nascionalismo bocó, que quer um incômodo aos EUA para chamar de seu. Com um detalhe: nós vamos financiar o desenvolvimento de Cuba, sendo que Fidel é um dos homens mais ricos do mundo. Lula certamente deveria cuidar do seu próprio quintal, ao invés de tentar resolver o problema dos outros.

Cleber disse...

Ótimo post!
Concordo plenamente.

Marcia Moreira disse...

Também concordo. Parabéns pelo post.

Autor disse...

Concordo com você, falar dos EUA deveria ser um esporte olímpico dado o interesse em sua prática.

Antes de tudo acredito que a inveja é o principal motivo de tal ódio, não vejo a inglaterra ser tão criticada pelos feitos na índia e no próprio estados unidos, nem a frança pela colonização dos países africanos.

Sim o brasil tem pessoas pobres assim como todos os outros do mundo, vejo uma comparação muito infeliz por parte do bispo.

Quem defende cuba defende a falta de liberdade e como pode um cristão defender qualquer coisa que lembre isso?

Qual o maior país evangélico do mundo?
Quantas igrejas existem em cuba?
O brasil no lugar dos EUA faria tudo diferente correto?