segunda-feira, 10 de maio de 2010

Por que não abraço a Teologia da Libertação?

O post de ontem gerou um rico debate sobre a Teologia da Libertação. Como sempre acontece nesses fóruns alguns nos acusam de não conhecer as obras que sustentam essa teologia. Neste momento, pela graça de Deus, estou em uma grande biblioteca de uma faculdade católica, e tenho acesso aos livros de todos os teólogos da libertação. Sendo assim, quero apontar alguns motivos que me afastam dessa teologia (com conhecimento de causa).

01) As teologias da libertação são adaptações do politicamente correto para a teologia

A teologia feminista, negra, terceiro-mundista, gay e outras são todas chamadas à libertação do “oprimido” contra o “opressor”. É a velha dicotomia falida de fortes contra fracos. A história da humanidade está cansada de mostrar que essas divisões simplistas são incapazes de explicar o mundo em que vivemos. Nem sempre os “oprimidos” que costumamos cultuar são realmente vítimas. Ou pelo menos são vítimas e algozes ao mesmo tempo.

Vamos pegar como exemplo a escravidão no Brasil. Nas aulas de histórias esqueceram de nos informar que escravos libertos por dotes normalmente comprovam outros escravos. Ora, é claro que o fazendeiro era um opressor maldito, mas por que não lembramos que alguns ex-escravos não tinham compaixão “pelos seus”? Por que esquecemos que o tráfego negreiro começou por comerciantes da própria África?

É claro que não podemos falar isso, pois é feio, quebra dogmas e é politicamente incorreto. Ah, podemos ainda sofrer várias acusações, como de sermos racistas e insensíveis com as necessidades humanas. Mas não podemos simplesmente ignorar a história e aplicar soluções superficiais para explicar o passado.

Esse esquema “opressores” versus “oprimidos” nem sempre é honesto. Sobre essa premissa “verdadeira” que a Teologia da Libertação se sustenta.

02) A Teologia da Libertação é antropologicamente baseada na filosofia rousseauniana

As ideias de Jean-Jacques Rousseau baseiam no “bom selvagem”. Ora, o homem é bom, mas a sociedade o corrompe. Só que essa ideia teima em não casar com a teologia paulina, especialmente em Romanos. Quem pode ler honestamente a epístola paulina para os romanos e ainda aceitar a doutrina da bondade exclusiva do homem? Como conciliar essa contradição?

É claro que o homem tem a graça comum e ainda reflete nele a imagem de Deus. Mas também a Bíblia é clara na pecaminosidade humana desde o seu nascimento. Sim, o homem é a Imago Dei e ainda assim possui uma natureza pecaminosa. Portanto, aqueles que tentam divinizar o homem e humanizar a Deus simplesmente estão por um caminho estanho.

03) A Teologia da Libertação era (e é) um mero projeto político

Os católicos latinos no Concílio Vaticano II, nos anos 1960, simplesmente estavam animados com salvação social. Afinados com intelectuais marxistas da América Latina, os religiosos tinham perdido a confiança no desenvolvimento à maneira da Europa e Estados Unidos. Não eram entusiastas da economia de mercado, da democracia liberal (esse valor burguês, como dizia os trotskistas) e alguns estavam preocupados com o avanço protestante. Em 1968, na cidade colombiana de Medellín, os bispos declararam em conferência a “opção pelos pobres”.

Não foi à toa que alguns teólogos da libertação estiveram envolvidos diretamente com as revoluções saguinárias na Nicarágua pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Ainda hoje os teólogos da libertação apoiam regimes autoritários que estão conforme a ideologia. Entre no site de Boff (http://leonardoboff.com/) e leia os seus textos, lá você verá menção honrosa a Evo Morales. Pior ainda é Frei Betto, sempre pronto para defender os irmãos Castros.

Conclusão

Tenho ainda outros inúmeros motivos. Expressarei em outra oportunidade. Mas ser contra a Teologia da Libertação não quer dizer que sou contra a assistência ao pobre. No ano de 2006 visitei uma comunidade no interior do Maranhão para fazer um documentário para a escola. Lá vi uma família com onze membros que viviam com 95 reais por mês. Tal pobreza é escandalosa em um país como o Brasil, a nona maior economia do mundo. A solução para essas pessoas são programas de renda como paliativo, mas atrelado a emprego formal e educação constante. Na igreja daquela cidade reclamei que não havia nenhum trabalho específico para aquela comunidade carente. Hoje, graça a Deus, há uma congregação construída com um programa de distribuição de cestas básicas promovida por pessoas que nunca leram Boff.

6 comentários:

Anônimo disse...

Caro Gutierres,
gosto muito de seu blog, suas opiniões são ponderadas, mas no caso da Teologia da Libertação, você simplesmente não entendeu o que leu. Há bons motivos para não se aceitar a TL, mas não os que você apresentou, que não representam uma crítica saudável.

Matias disse...

A Teologia da libertação é coisa do passado. O grande exponente brasileiro da TL, hoje é um escritor que escreve sobre assuntos espirituais e ecológicos. O livro de Boff "Igreja, Poder e Carisma" é ótimo e as edições novas contém um interessantíssimo apendice com o dialogo entre Boff e Ratzinger (o "inquisitor" moderno, hoje Papa Bento 16). Ratzinger estava mais preocupado em erradicar Boff e suas idéias do que o problema de pedofilia...
A TL é resposta a injustiça social que este Brasil sofreu e sofre, é uma tentativa de conciliar teologia e revolução. Mas na prática ficou na hipocrisia e na cegueria (por exemplo quando defendem eternamente o socialismo do ditador Fidel).
Teologicamente coloca Jesus como revolucionário, e apenas isto. Então Jesus está no mesmo nivel de Gandhi e Mandela. ótimos exemplos, mas a revolução destes não transformou a sociedade em algo melhor (India continua pobre, apesar do destaque economico e com o mesmo sistema de casta opressor, Africa do Sul é um dos páises mais corruptos e violentos do mundo).
Jesus está acima disto!
Tambêm disser que o protestantismo não age socialmente, é um desconhecimento da história. Qual foi o impacto da reforma protestante sobre a educação e o sistema social (é só ver como países de tradição protestante oferecem estruturas que permitem acesso a educação, saúde etc a toda a população, ex Dinamarca, Alemanah, Noruega)? Tambêm desconhece-se a luta de protestantes contra escravidão e trabalho infantil. A TL não conseguiu trazer estas mudanças.
Admiro a luta de padres, freiras e pastores no Pará. Como gostaria de ver este estado sendo transformado, mas não estamos vendo as mudanças e muitas vezes acaba-se lutando contra um sistema corrupto aliando-se a uma turma tão corrupta e falsa como aquela que está se combatendo. É como Fidel e sua turma: arrancaram Cuba dos opressores e tornaram-se os novos opressores. O povo agradece!
Abraço,
Matias

Vitor Hugo da Silva - Joinville, SC disse...

Respondendo a sua pergunta na postagem anterior: "Agora, falar que a missão de Jesus é libertação de uma sociedade patriarcal... Hein? Onde está escrito isso?"

Primeiramente, aconselho a leitura do livro, A Diaconia de Jesus: contribuição para a fundamentação da diaconia na América Latina; de Rodolfo Gaede Neto; da excelente editora Luterana Sinodal. Alí estará explicações exaustivas acerca do que escreverei.

As mulheres:

Quem eram as mulheres na sociedade patriarcal ao quel Jesus viveu: Ninguém! excluídas e destiuídas de pensarem por si próprias. As mulheres não podiam de forma alguma pedir sua separação matrimonial. Foi quando Jesus abriu uma nova visão acerca disto em Mt. 5 30 - 33. Libertando a mulher de uma obediência discriminadora, onde os homens poderiam pedir separação por simplesmente não gostarem de sua comida.

Jesus curou mulheres desprezadas pela sociedade; Jesus permitiu que as mulheres lhe adorassem; que aos seus pés aprendessem acerca do Reino, algo inexistente no mundo patriarcal.

Enfim...

De forma simplista esta ai um exemplo claro da inclusão da mulher na sociedade patriarcal mediante o ministério de Cristo. Poderíamos falar das crianças e dos doentes, que também eram oprimidos por esta sociedade.

Gutierres Siqueira disse...

Caro Vitor, a paz!

Sim, disso eu sei. É evidente que Jesus dignificou as mulheres. Quando estudamos a cultura judaica daquela época e o comportamento de Jesus, logo vemos as grandes diferenças. Mas a causa da encarnação de Cristo não foi essa, mas sim como uma consequência da salvação efetuada por Cristo.

Abraços

Gutierres Siqueira disse...

Caro anônimo,

Obrigado pelas visitas. Agora, por favor, aponte os equívocos de interpretação da Teologia da Libertação.

Obrigado

Victor Leonardo Barbosa disse...

Ainda por cima, caro Gutierres,não é somente a teologia da libertação em si, (algo ainda predominante, a meu ver, em círculos teológicos católicos) mas o aparente "ar" de superioridade intelectual que existe, não somente nesta teologia, mas também nas teologias liberais clássicas. Algo profundamente infundado e muitas vezes cegamente dogmático (não considera outros argumentos e como você mesmo citou, os omite).

Forte abraço e Paz do Senhor!