terça-feira, 20 de julho de 2010

Do descrédito ao autoritarismo!

A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar… Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinquentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.

José Saramago, escritor português, ateu professo. Na Folha de S. Paulo, 30 novembro de 2008.

Há um cético muito mais terrível do que aquele que acredita que tudo começou na matéria. É possível identificar o cético que acredita que tudo começou nele mesmo. Ele não duvida da existência de anjos e demônios, mas da existência de homens e vacas. Para ele, seus próprios amigos são uma mitologia criada por ele mesmo. Ele criou seu próprio pai a sua própria mãe.

G. K; Chesterton, escritor inglês, cristão professo. Em: Ortodoxia. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008, p 45.

Estamos diante de dois modelos de mundo. O primeiro, representado em José Saramago, a humanidade é desacreditada. No segundo modelo, representado em G. K. Chersterton, a vida humana, apesar de todas as suas feiuras, é mais importante do que o ceticismo que duvida dos homens. Agora, leia esse poema de Carlos Drummond de Andrade, e veja qual modelo é o mais coerente com a vida:

Anedota Búlgura

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

Viram? Esse czar (imperador russo) achou um absurdo a matança de borboletas e andorinhas. Mas enquanto isso, ele caçava homens. A barbárie que o comovia era movida pelo descrédito que tinha pelos habitantes deste planeta.

Pois bem, pessoas que desacreditam da humanidade, também nada fazem quando essa humanidade está em perigo de vida. Essas pessoas que vivem a dizer: - Eu não acredito mais nos homens - simplesmente estão dizendo que esses não valem mais nada. É sempre assim, primeiro se duvida de Deus, depois se duvida da humanidade e logo após vem o totalitarismo. Ora, se o homem vale menos que o animal, o totalitarismo repressivo e violenta preservará o planeta desses seres perversos, como eles inconsciente pensam.

Não é à toa que regimes ateístas, como o stalinismo, mataram milhões de pessoas. Ora, eles estavam purificando esta terra desses homens maus, não é verdade? Quem “mata” Deus, mata o homem com facilidade. Que o diga Mao Tse Tung, Adolf Hitler, Benito Mussolini e outros ditadores que desacreditaram da humanidade. Hitler, enquanto matou milhões de homens, mulheres e crianças, protegeu os animais com rígidas leis de proteção. Hitler acariciava cães e gatos enquanto ouvia Wagner e os gemidos de judeus nos campos de concentração.

Mas como disse Chesterton, o mais perigoso é o ateu do homem, e não o ateu de Deus. O ateu contra Deus não pode prejudicar o Todo-Poderoso, mas o ateu contra o homem pode machucar bastante com sua ideologia. Como disse o filósofo e teólogo Étienne Gilson: “Deus é a única proteção do homem contra as tiranias do homem”.

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