quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Inferno segundo os clássicos da literatura cristã

Dante e Virgílio lendo a placa do portal do Inferno. Ilustração do artista inglês William Blake (século XVIII)

Imaginamos que o pior do Inferno seja o fogo e o enxofre. Não, esse não é o pior aspecto da habitação dos mortos. Na menta criativa de teólogos, literatos e poetas, podemos observar bem algumas características simplesmente assustadoras daquele lugar. Aliás, inclusive Jesus mais falou sobre o inferno do que do céu. Leia abaixo que alguns clássicos cristãos falam sobre esse assunto.

Lugar sem esperança, dialogando com Dante Alighieri

No clássico livro A Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri, a história fictícia e alegórica mostra o autor diante do portão do inferno, onde ele observa uma placa com a seguinte mensagem:


Por mim se vai para a cidade ardente,

por mim se vai à sua eterna dor,

por mim se vai entre a perdida gente.


Justiça deu impulso ao meu Autor:

cumpriram-se poderes divinais,

a suma sapiência, o primo amor.


Antes e mim não se criou jamais

o que não fosse eterno; - e eterna, eu duro.

Deixai toda esperança, vós que entrais. [1]


Dante quando ouve gritos desesperados pergunta sobre esse tormento para o seu companheiro de viagem chamado Virgílio. Então, Virgílio, a personificação da razão, dá uma interessante resposta para Dante:

E eu: “Mestre, que dor n'alma estão sentindo, que o seu lamento assim se faz tão forte?”. E ele: “Respondo ao que estás inquirindo: Esses não têm a esperança da morte e cega vida vivem na desgraça, tanto que invejam qualquer outra sorte”. [2]

Vemos nessas duas passagens da clássica alegoria de Dante que ele apresenta o inferno como um lugar sem esperança. Veja que a principal mensagem do portão é: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. A interpretação do poeta é simplesmente fantástica, na sua mente fértil ele cria uma história que mostra muito bem esse aspecto sombrio da desesperança eterna.

Lugar sem a presença de Deus, dialogando com Karl Barth

O teólogo suíço Karl Barth também apresentou uma descrição teológica importante sobre o inferno. No livro Esboço de uma Dogmática, Barth comenta o Credo apostólico e fala sobre a realidade eterna sem Deus:

O homem estar separado de Deus significa estar num lugar de tormento. “Choro e ranger de dentes”- nossa imaginação não está adequada para esta realidade, esta existência sem Deus. O ateu não está consciente do que é a não-existência de Deus. A não-existência de Deus é a existência no inferno. O que mais além disto é oferecido como resultado do pecado? O homem não se separou de Deus por seu próprio ato? “Desceu ao inferno” é simplesmente a confirmação disto. O julgamento de Deus é justo- isto é, ele oferece ao homem o que ele quer. [3]

Esse quadro apresentado pelo teólogo suíço mostra o pior do inferno: é o lugar sem Deus. O homem passa toda a sua vida rejeitando Deus, então logo só poderá ter uma eternidade sem Ele. É possível, também, viver o inferno na terra, pois todas as vezes que a presença de Deus é rejeitada, o ambiente vira um pequeno inferno.

O Inferno já se manifesta quando se valoriza demasiadamente esta Terra, dialogando com C. S. Lewis

Uma forma perfeita de caminhar eternamente no inferno é começa-lo aqui na Terra. Quando valorizamos excessivamente esta vida, acabamos por perdê-la. C. S. Lewis no livro O Grande Abismo trata sobre isso:

Se insistirmos em manter o Inferno (ou mesmo a Terra), não veremos o Céu; se aceitarmos o Céu, não conseguiremos reter nem mesmo a menor e mais íntima lembrança do Inferno... Também acredito que, se a Terra for escolhida em vez do Céu, acabará tendo sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno; mas, se ela estiver subordinada ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu. [4]

Certamente que o apego a esta Terra produzirá cristãos incapazes de desejar o Céu, como Paulo também escreveu: São pessoas “cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fp 3.19).

Conclusão

O Inferno é uma realidade, aliás, uma terrível realidade. Não sabemos detalhes desse submundo, pois a Bíblia não nos releva, mas o que sabemos pelas Sagradas Escrituras já nos mostra que o seu tormento é além de uma questão de fogo. A ausência de Deus, a falta de esperança, o pior da humanidade... Isso eternamente é o Inferno.

Referências Bibliográficas:

[1] ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia- Inferno. 1 ed. São Paulo: Abril, 2010. p 70.

[2] Idem. p 72.

[3] BARTH, Karl. Esboço de uma Dogmática. 1 ed. São Paulo: Fonte Editorial, 2006. p 167-168.

[4] LEWIS, Clive S. O Grande Abismo. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 16-17.


Um comentário:

Jovem Resoluto e Reformado disse...

Quem não quer amar a Deus, quer o inferno. Quem vive a vida e não lembra de agradecer todos os dons que o criador nos deu, entre eles, nos nos ter feito e nos manter. Não ama a Deus nem os dons que ele nos dispõe todo dia, então, haverá de ter uma eternidade sem Deus e sem nenhum dos dons.

Emerson Costantini