segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A mania de exclusividade e o retrato das emoções de Deus

Sempre acho brega quando um telejornal coloca a faixa “exclusivo” na tela mediante uma reportagem inédita. Muitas vezes um programa passa documentários produzidos por emissoras estrangeiras e ainda coloca tal fato como exclusividade. É breguice pura! Pois bem, muitos cristãos têm a mania de pensar que são “exclusivos”.

É a velha síndrome de Elias (cf. I Rs 19.14), que pensava ser o único que servia a Deus em todo o Israel. Mas Deus lembra o velho profeta: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou” (I Rs 19.18 ARA). O Senhor mostrou para Elias que ele não deveria pensar que era o único, pois eles eram sete mil!

É necessário passar essa falsa ideia do “descobridor daquela verdade” que todos desprezavam por maldade e/ou ignorância. É soberba pura. Quando Lutero levantou suas teses é bom lembrar que antes dele havia um Jan Huss, que um século antes tentou reformar a corrompida igreja. Lutero não era um personagem isolado da história. E é bom lembrar que Huss também não surgiu do acaso. John Wycliffe, décadas antes, também tentou reformar a igreja.

Pois bem, hoje existe uma turma pós-evangelical que desdenha dos evangélicos de maneira geral, não somente dos erros e heresias já bem conhecidas e combatidas pelos próprios evangélicos, como a Confissão Positiva, por exemplo. Os pós-evangelicais sofrem da síndrome de Elias e pensam que estão salvando o Salvador e descobrindo aquilo que todos desprezavam.

O Deus de emoções

Exemplo? Os pós-evangelicais descobriram que Deus tem emoções. É uma verdadeira piada, mas eles acham que descobriram uma novidade que os outros não aceitavam. Ora, por acaso o cristianismo tradicional, de maneira geral, despreza o fato que Deus tem emoções? Só ser for na cabeça deles. É verdade que existem vários hipercalvinistas que desprezam essa verdade bíblica, mas de maneira geral os cristãos SEMPRE aceitaram essa verdade.

Alguém duvida que o teólogo canadense Donald A. Carson seja uma das principais vozes da teologia reformada? Pois bem, Carson condena fortemente a doutrina da impassibilidade de Deus. Os que acreditam na impassibilidade negam que Deus tenha emoções, mas Carson lembra o choque com as Escrituras: “Não serve como resposta adotar uma forma de impassibilidade que negue que Deus tenha uma vida emocional, insistindo que todas as evidências bíblicas ao contrário não sejam nada mais do que antropopatismo” [1].

Portanto, falar que todo calvinista é contra a ideia de um Deus com emoções é desonestidade intelectual.

Sustentação Bíblica

Um texto com Gênesis 6.6 mostra claramente Deus com sentimentos. Após o dilúvio e toda a sua destruição, Moisés registra: “pesou-lhe (de Deus) em seu coração”. Deus não agiu com frieza, com ausência de sentimentos em relação ao juízo das águas. Deus sofreu. O teólogo Derek Kidner comenta o texto: “A palavra pesou tem afinidade com as palavras aflição (‘dor’, RSV) e fadiga (AA: sofrimentos, dores, fadigas) de Gn 3.16-17. Agora Deus sofre por causa do homem”. [2] Ou seja, a mesma palavra que descreve o sofrimento do homem como resultado do seu pecado é o termo usado para descrever o sofrimento do Deus santo que sofre por suas criaturas. Mas como lembra o teólogo católico Raniero Cantalamessa: “Deus não se aflige por si mesmo, como se alguma coisa lhe viesse a faltar; aflige-se pelo homem que assim se perde” [3].

Evidentemente que Deus tem emoções, mas não é escravo delas. Não é um Deus com complexos psicológicos. As suas paixões estão casadas com sua infinita sabedoria. Como lembra Carson: “As ‘paixões’ de Deus, diferentemente das nossas, não se inflamam repentinamente nem ficam fora de controle” [4] e é possível completar com Cantalamessa: “Deus é ‘motor imóvel’, isto é, aquele que tudo move, mas permanece em si mesmo imóvel e impassível” [5].

Se Deus ama, e Ele já nos provou que ama, então ele sofre. (I Co 13.7). Não vejo o porquê que uma turma pós-evangelical ensine isso como novidade!

Referências Bibliográficas:

[1] CARSON, Donald A. A Difícil Doutrina do Amor de Deus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 61-62.

[2] KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1979. p 80.

[3] CANTALAMESSA, Raniero. A Vida em Cristo. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1997. p 107.

[4] CARSON, Donald A. Idem. p 64.

[5] CANTALAMESSA, Raniero. Idem. p 108.

Leia Mais:

LEWIS, G. R. Emocionalmente, Deus Detesta o Mal, é Longânimo e Compassivo. Em: ELWELL, Walter A. (Ed). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. pp 435-436.

3 comentários:

L. H. Dessart disse...

Vários nomes desta turma "pós-evangelical" me vieram à mente no tocante a esta descoberta...enfatizam tanto as "emoções divina" que já estão construindo pra si um deus bem diferente do revelado nas Escrituras.
Criaram um "deus tolinho e fraquinho", que ainda está se aprimorando em sua obra...

Abraço!!!

Gutierres Siqueira disse...

Dessart, a paz!

Deus não é um ser humano melhorado. As emoções de Deus estão em sintonia com seu poder e sua sabedoria. Deus é plenamente amor como é plenamente justo. Nenhum dos seus atributos é maior do que outro, senão não é Deus, se não os seus atributos estariam acima dele. Tanto o Teísmo Aberto que enfatiza demasiadamente o emocional de Deus como o hipercalvinismo que enfatiza demasiadamente o racional frio de Deus estão equivocados. Como disse em outro post: O nível herético dos teístas abertos e os hipercalvinistas fatalistas são equivalentes.

Abraços

L. H. Dessart disse...

É verdade! Deus livre a igreja destas aberrações teológicas!

Outro abraço!!!