terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Terremotos e o Antigo Testamento

Por Gutierres Siqueira

Hoje a cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, foi atingida por um terremoto de forte impacto pela proximidade do epicentro do abalo sísmico. Infelizmente, até o momento, 65 pessoas morreram e centenas estão desaparecidas. A cidade da “Igreja Cristã” está destruída e o centro isolado pelas autoridades. A própria igreja central da cidade foi destruída.

Em 2010 o Chile foi atingido por um sismo que matou algumas centenas de pessoas. Já o terremoto no Haiti matou milhares. Hoje, praticamente nada foi reconstruído no Haiti. O Chile, o país mais próximo do mundo desenvolvido na América Latina, já está recuperado da tragédia. A diferença econômica entre esses países mostra que uma mesma tragédia mata mais pela incompetência do Estado de um pais do que pela intensidade.

Assim como no terremoto chileno, os “profetas da ira divina” não emitiram juízo sobre o terremoto na Nova Zelândia. No Haiti foram convictos: Era o juízo de Deus sobre aquele população pagã que praticava o vodu. Falaram com tanto convicção que pareciam ouvir uma voz audível do céu!

A interpretação do Antigo Testamento

É lamentável que muitos ainda leiam o Antigo Testamento com um judeu do Século I. A leitura hermenêutica do Antigo Testamento deve ser com os óculos do Novo Testamento. O Antigo Testamento é Palavra de Deus, mas a chave de interpretação dessa “Bíblia mais antiga” está no Novo Testamento. O Novo Testamento é como a igreja primitiva interpretava o Antigo Testamento sob os ensinamentos de Jesus. É também evidente que é impossível entender o Novo Testamento sem um bom conhecimento do Antigo Testamento. São complementares.

A maior prova que as Sagradas Escrituras do Antigo Testamento se complementam em o Novo Testamento é o fator Jesus Cristo. Os judeus e os cristãos reconhecem a autoridade de Isaías, mas a forma como cada grupo interpreta o capítulo 53 até parece que são dois livros completamente diferentes. É claro que alguém que conhecia esse capítulo e viu a morte de Jesus obteve outra leitura do texto.

Walter Kaiser, professor de Antigo Testamento do Seminário Teológico Gordon-Conwell, discorda:

Toda a abordagem é errônea, histórica, lógica e biblicamente. Como vimos, os primeiros crentes do Novo Testamento testaram o que tinham ouvido de Jesus, e dos seus discípulos, comparando com o que estava escrito no Antigo Testamento. Eles não tinham outro cânone nem outra fonte de ajuda. Como, então, seriam capazes de entender? Assim, a partir de um ponto de vista metodológico, ler a Bíblia na ordem inversa é algo incorreto, tanto historicamente como em termos do processo. E, além disso, a Igreja Primitiva sabia que o Antigo Testamento era verdadeiro; portanto, logicamente, eles não poderiam ter testado o que fora estabelecido (e era verdadeiro) por eles (possuindo somente o Antigo Testamento), de acordo com o que era recebido como algo novo (Novo Testamento). Isso seria uma inversão da ordem natural, histórica e lógica das coisas.[1]

A crítica de Kaiser é interessante, mas extremamente exagerada. Ninguém está invertendo as coisas. É evidente que para entender o Novo Testamento é necessário uma leitura do Antigo Testamento. A ideia do sacrifício de Cristo não faz sentido sem o Pentateuco. Como lembra F. F. Bruce: “Os autores do NT consideravam que o conteúdo da sua mensagem estava organicamente de acordo com a mensagem do AT, a ponto de o AT e o NT poderem ser considerados duas partes de uma mesma sentença, cada parte sendo essencial para a compreensão do todo” [2].

Então, é necessário ver a Bíblia como um todo complementar. Não é possível falar da Ira de Deus baseado somente nos textos veterotestamentários. Não porque o Antigo Testamento não seja Palavra de Deus, mas certamente a ideia sobre o assunto fica incompleta sem a leitura que o Novo Testamento faz dessa ira. Lembre sempre daquela regra hermenêutica: “É necessário consultar as passagens paralelas” [3] sobre o assunto em questão. A questão que nenhum dos Testamentos pode ser lido isoladamente.

E quando se depara com uma narrativa no Antigo Testamento, o interprete deve ter em mente: “Geralmente, uma narrativa do Antigo Testamento não ensina diretamente uma doutrina (…) Usualmente ilustra uma doutrina ou doutrinas ensinadas de modo proposicional noutros lugares” [4].

E concluindo com a sétima mensagem dos Trinta e Nove Artigos da Religião da Igreja Anglicana, que resume muito bem a autoridade das ambas as partes da Bíblia:

O Velho Testamento não é contrário ao Novo; porquanto em ambos, tanto Velho como Novo, se oferece a vida eterna ao gênero humano, por Cristo, que é o único mediador entre Deus e o homem sendo ele mesmo Deus e homem. Portanto não devem ser ouvidos os que pretendem que os antigos pais só esperaram promessas transitórias. Ainda que a Lei de Deus, dada por meio de Moisés, no que respeita a Cerimônia e Ritos, não obrigue os cristãos, nem devem ser recebidos necessariamente os seus preceitos civis em nenhuma comunidade; todavia, não há cristão algum que esteja isento, da obediência aos Mandamentos que se chamam Morais.

Referências Bibliográficas:
[1] KAISER, Walter C. Pregando e Ensinando a Partir do Antigo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. p 33- 34.
[2] BRUCE, F. F. (org.) Comentário Bíblico NVI. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 5.
[3] LUND, E. & NELSON, P. C. Hermenêutica: Princípios de Interpretação das Sagradas Escrituras. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 68.

[4] FEE, Gordon D. & STUART, Douglas. Entendes o Que Lês? 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 69.

2 comentários:

Anônimo disse...

Por que então não se guarda o Sábado do Senhor? O 4o. mandamento?

Josué disse...

E o 4o. Mandamento? Por que não seguem?