quinta-feira, 24 de março de 2011

Resenha: Nazismo e Religião


A relação de Hitler, o grande demônio, com o cristianismo é um assunto para muita análise. Hitler matou milhões de judeus e muitos cristãos, inclusive o teólogo Dietrich Bonhoeffer, que fez parte da resistência anti-nazista. Mas o nazismo namorou outros religiosos. Infelizmente, houve igrejas na Alemanha que trocaram a cruz pela suástica e alguns pastores nazistas queriam inclusive retirar o Antigo Testamento do canôn, pois era um “livro de judeus”.

Tudo isso e muito mais é trabalhado pelo teólogo e colega André Tadeu de Oliveira no seu primeiro livro Nazismo e Religião (Editora Reflexão), que trata sobre a relação conflituosa e amistosa da religião com o regime totalitário de Adolf Hitler. Oliveira, inclusive, vai mais além, pois descreve as influências de seitas pagãs no regime, sendo um assunto pouco comentado.

Abaixo segue o prefácio escrito pela doutora Suzana Bornholdt, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e a resenha escrita pela blogueira secularista Rayssa Gon. O autor, André Tadeu, é membro da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (SP).


Prefácio do livro pela professora Suzana Ramos Coutinho Bornholdt


Sinto-me feliz e honrada em apresentar ao público brasileiro o livro “Nazismo e Religião, Entre a aliança e o conflito”, de André Tadeu de Oliveira. Ex-aluno do curso de bacharelado em Teologia da Escola Superior de Teologia (EST) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, André surpreendeu os professores da banca ao apresentar seu trabalho com brilhantismo, humildade e desenvoltura.


Este livro é resultado desta dedicação e sucesso. André inaugura aqui um passo importante para acadêmicos e estudiosos da religião. A abordagem histórica utilizada para refletir a respeito do nacional-socialismo alemão e suas relações com diferentes grupos religiosos surge no cenário das publicações brasileiras como um tema inovador.


As perguntas norteadoras deste trabalho mostram que o autor investiu em uma pesquisa de precisão não apenas teórica mas também metodológica, visando não a incorrer na prática comum das generalizações. Reconhecendo as particularidades de cada religião, André ousou ir além. Buscou demonstrar uma relação diferenciada de grupos religiosos específicos com o regime hitlerista, apontando possíveis relações com o movimento. Do mesmo modo, realizou cuidadosa abordagem a respeito do papel do cristianismo. Ao se referir à presença da igreja cristã, André realizou a necessária separação entre o papel do protestantismo e do catolicismo e suas respectivas relações com o regime.


A meu ver, a inovação deste livro recai nos apontamentos feitos pelo autor ao sugerir relativo grau de interação do movimento hitlerista não somente com o cristianismo mas também com religiões as quais a sociedade ocidental enxerga com menos destaque, como o paganismo de origem nórdica, o esoterismo, o hinduísmo, o budismo e o islamismo.


Ao se perguntar até que ponto tais crenças contribuíram com a implantação e a consolidação do poderio fascista em solo alemão e se houve resistência por parte dessas crenças, André estabelece um debate rico e provocador. Não somente por mostrar que crenças tão distintas foram utilizadas como sustentadoras do regime hitlerista, mas também serviram como resposta para o povo alemão, então diante da crise moral que se abateu sobre o país.


Este livro nos relembra os horrores de um período da história que sonhamos nunca mais ver. E ao mesmo tempo nos desperta para a responsabilidade de, como igreja cristã e como cidadãos comprometidos com a justiça, não sermos coniventes e omissos com o abuso do poder político sobre os direitos civis.


*Suzana Ramos Coutinho Bornholdt: Doutora pela Lancaster University, possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina. É professora da EST-Mackenzie.


___________________

Resenha escrita por Rayssa Gon


A Religião do Terceiro Reich (Fonte: Bule Voador http://bulevoador.haaan.com/)


Enquanto eu lia o trabalho do André Tadeu – Influência das Religiões no Nascimento e Consolidação do Nazismo Alemão- vários adjetivos passaram pela minha cabeça para defini-lo. Acho que o que se encaixa melhor é ousadia. Sem duvida é um livro muito bem projetado e pesquisado, rigoroso e claro, mas a forma como André tratou um tema até hoje tão delicado sem perder o foco ou o espírito investigativo demonstra que ele possui a ousadia necessária a todos os bons pesquisadores.


Um dos pontos que acho mais importante de destacar da tese do André é a relação do Regime Nazista com as Igrejas Cristãs. Ao contrário do que se costuma pensar, o nazismo manteve relações muito mais estreitas com a Igreja Luterana (evangélica) do que com a Igreja Católica. A Reforma Protestante, por ter tido como um de seus pilares Martinho Lutero (nascido em Eisleben, região central da Alemanha), foi considerada fruto essencial de uma germanidade ideal. Muitos entusiastas do regime olharam a Reforma retrospectivamente como uma luta entre uma religião genuinamente ariana contra outra, estrangeira e invasora, no caso a Católica.


As reiteradas demonstrações de apoio dadas ao Nazismo por Roma (pelo Papa Pio XII especificamente) foram feitas a garantir que Igreja Católica não mediria forças com Estado Nazista. De forma geral, enquanto os papistas gradativamente se alinharam ao governo nacional-socialista, os luteranos alemães se aproximaram do chamado protestantismo liberal – movimento de grande influencia do seculo XIX. André Tadeu explica a natureza dessa aliança:


Para muitos protestantes liberais, a Alemanha havia sido predestinada por Deus para comandar a civilização do mundo moderno. [...] O conceito da realização do reino de Deus por meio da esfera exclusivamente política – aliado a uma clara identificação com a política nacional alemã – forneceu bases teóricas para consolidar a união entre protestantismo e nazismo.

Os cristãos, uma vez alinhados ao regime nacional socialista, revisaram muitos dos pressupostos e ensinamentos bíblicos com o objetivo de combinar a religião cristã com as bases ideológicas do nazismo. Nesse sentido, o congresso de cristãos alemães realizado em 13 de novembro de 1933 em Berlim é emblemático. Durante o evento Hermann Krauser, um dos expoentes do governo, defendeu que para ser vivido na realidade alemã o cristianismo deveria ser depurado: o Antigo Testamento excluído – “com sua ética de recompensa judaica, e de todas as historias de negociantes de gado e cafetões” – assim as contribuições do “rabino Paulo”. Nesse contexto, Jesus seria apropriado como um líder audacioso, beligerante e , principalmente, antissemita.


O grande mérito do livro do André é mostrar que o campo religioso é absolutamente necessário para entendermos o fenômeno do fascismo na Alemanha. A religião, então, nos ajuda a compreender não apenas o nazismo em si como também a organização da resistência organizada a esse movimento. É o caso da Igreja Confessante. Karl Barth é apenas um exemplo de grandes lideranças cristãs na luta contra o nazismo. Segundo ele, a comunhão entre os filhos de Deus deveria ser através do Espírito Santo e não de uma mesma e única raça. Medidas eugenistas como a esterilização em massa e eutanásia compulsória também formaram, juntamente com os argumentos teológicos, as bases da oposição cristã ao nazismo.


O nacional socialismo alemão também se fundamentou numa releitura de antigas crenças pagãs germânicas. Dietrich Eckart, um dos membros chaves do partido Nazi, defendia que as crenças pagãs eram, na verdade, um cristianismo velado. Muitos dos símbolos e mitos utilizados para estruturar o regime foram tomados de lendas e rituais nórdicos. As runas merecem destaque especial. O duplo raio usado como símbolo da SS (Schutzstaffel ) -organização paramilitar de grande poder e influência – é derivado do chamado alfabeto rúnico.


Um grupo dedicado ao culto e estudo dessas tradições se formou na Alemanha. Denominado “Comunidade de Fé Alemã”, contava com personalidades centrais do alto escalão nazista como integrantes e defendia o resgate completo dessas crenças. O trabalho de André nos mostra como alguns conflitos – pontuais, mas significativos – se deram entre os seguidores dessa dita religião germânica ancestral e o cristãos.


Por fim, o livro ainda conta com analises e explicações sobre os elementos do Hinduísmo, Budismo e até Astrológicos cooptados pelo regime nazista. Uma pesquisa completa, minuciosa e de fácil compreensão que tem tudo para se tornar uma obra referencial para todos aqueles interessados em História e Religião.


____________________

Livro: Nazismo e Religião

Autor: André Tadeu de Oliveira
Páginas: 174
Formato: 14,0 x 21,0
Editora Reflexão: http://www.editorareflexao.com.br/Site.aspx/Produto/220-NAZ


6 comentários:

Anônimo disse...

Putz, apoio do nazismo por Roma???? O Papa antes do nazismo explodir já estava condenando o movimento:

http://www.digitusdei.com.br/2010/07/igreja-e-nazismo.html

ainda fez o que pode para salvar os judeus...

Tinha q ser o bule voador... o Morgen que é ateu sabe que nazistas não foram crentes: http://www.interney.net/blogs/gravataimerengue/2010/02/19/ninguem_escolhe_ser_ateu/#c542831 é o mesmo que dizer que nazismo é ateu... bobagem! Hitler era tão cristão quanto Dilma é pro-life... pura propaganda política que infelizmente pegou muita gente protestante, ainda por causa que usaram como propaganda Lutero, que no fim de sua vida, decepcionado com a falta de conversão dos judeus, soltou os cachorros nos coitados.

Bonhoeffer interessantemente esta na moda, mas acho que assim como Tolstoy, quando descobrirem que o mesmo não é anti-institucionalista, vão abandoná-lo. Pode observar rs

- charles do
charlesgomes.wordpress.com

Gutierres Siqueira disse...

Charles,

A opinião na resenha é de responsabilidade da autora, não expressa necessariamente a minha opinião ou do livro.

O suposto envolvimento do papa é um assunto para longos debates.

Aliás, polêmica com "envolvimentos" com o nazismo é o que não falta. Veja o caso do filme "O Discurso do Rei". Como a popularização da história de George VI muitos lembraram que ele supostamente era simpático ao Hitler.

Agora, por que você discorda do consenso dos especialistas que Bonhoeffer era anti-intitucionalista? O Ratzinger concorda que ele tinha essa visão. Já li ele comentando alguma coisa do "cristianismo sem religião"

André Tadeu de Oliveira disse...

Caro anônimo.

Acredito que vc não compreendeu a resenha de autoria de minha colega Rayssa. Seguindo fielmente meu livro, Rayssa afirma que o apoio verdadeiramente ideológico ao nazismo veio do protestantismo, não do catolicismo romano !

Porém, é inegável o apoio tácido concedido pela ICAR ao regime hitlerista, principalmente no início, afinal, era melhor aturar Hitler, pois era um forte aliado contra o marxismo ateu ! Sou protestante, mas não escondi o apoio de parcela significativa da Igreja Evangélica Alemã ao regime nazi. No estudo sério de história, não cabe o uso de apologética barata. Negar o envolvimento de igrejas cristãs neste triste episódio é falsear a história.

Abraços

André

Moyses Alexandre de Godoi disse...

Parece que as TJs também mantinham um contato com Hitler, segundo esse link:

http://www.paulopes.com.br/2011/03/ex-fiel-comenta-carta-de-1933-da.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+blogspot%2FLHEA+%28Paulopes+Weblog%29

jurandir alves disse...

Espero em breve adquirir este livro que poe um ponto a mais nessa mancha na historia da humanidade chamada "Nazismo". Parabens pela publicacao

abracos

Aprendiz disse...

Não lí ainda o livro, mas me interesso pelo assunto. Lí alguns artigos. Pelo que entendi, haviam duas vertentes religiosas no nazismo, a "cristã", inicialmente mais influente, e a pagã, cujos partidários ganharam mais força dentro do partido nos últimos dias do nazismo.

Pelo que lí nesses artigos, a vertente "cristã" era uma coisa chamada "cristianismo positivo", englobava católicos e protestantes, era extremamente marcionita, negando mesmo que Jesus fosse judeu, difamava o "Deus do Velho Testamento", e fazia muito uso dos escritos dos teólogos liberais, para denegrir o máximo possível a autoridade da Bíblia.

Interessantemente, o nazismo (assim como o marxismo, e várias outras idéias anti-semitas europétias) teve bastante influência sobre as ideologias mulçumanas radicais da atualidade.