sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Genuíno Culto Pentecostal

Na última semana foram escritos dois textos sobre liturgia no Blog Teologia Pentecostal. Neste post há uma análise exegética de I Coríntios 14.26, que é o “texto áureo” da Lição 8, com o titulo O Genuíno Culto Pentecostal.

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Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação (I Coríntios 14.26).

Que fareis, pois, irmãos?” O apóstolo Paulo traz para o bem senso quando pergunta sobre o que deve ser feito. Ele está perguntando: “Qual é, então, o resultado desta discussão?”[1]. O apóstolo apela para a conclusão dos leitores coríntios depois do seu discurso sobre os dons (I Co 12-14). É evidente que ele doutrina sobre o uso dos dons, mas não há uma “camisa de força”. Em todas as reuniões deve existir um apelo ao bom senso baseado nas diretrizes bíblicas. O ensino de Paulo não é para o formalismo engessado, mas sim para princípios que nortearão todos os cultos, em todas as épocas e em todos os lugares. Qual é esse norte? A edificação, como se verá mais a frente.

Quando vos ajuntais”. O advérbio da língua portuguesa “quando” vem de uma palavra grega pode ser traduzida por “sempre que” ou “tão frequentemente quanto”, logo trazendo a ideia de regularidade dos princípios ensinados para a prática litúrgica da igreja. A expressão traduzida como o verbo“ajuntar” na ARC é traduzida como “reunir” na ARA, NVI, Bíblia de Jerusalém, Edição Contemporânea, Almeida Século XXI e a NTLH. A palavra grega para reunião usada por Paulo era a mesma usada secularmente para referir-se a reuniões e assembleias públicas. Interessante a resistência nos púlpitos quando alguém chama culto de reunião. Quando a comunidade cristã se reúne para adorar a Deus não é errado chamar esse ajuntamento de reunião. O culto vai além de reunião dominical. O culto é um estilo de vida. O culto do cristão é a vida em 24 horas (cf. Sl 103.1). A reunião cúltica com a comunidade cristã é sempre temporária, mas o culto individual deve ser constante.

Cada um de vós”. Potencialmente, todos os cristãos podem contribuir com sua participação no culto, mas esse versículo não ensina que todos devem dar essa contribuição na mesma reunião. A edificação fica comprometida quando há excesso de “oportunidades”. Acontece em algumas igrejas pentecostais os chamados “cultos de oportunidade”, onde o objetivo é que todos os membros participem. Isso é claramente um exagero. É claro que as igrejas devem resistir a ideia divisória de clero e leigos. Na profissionalização do ministério, com a formação do clero versus leigo, o culto é trabalhado por um pequeno grupo privilegiado. Agora, o outro extremo “laico” é certamente prejudicial.

Stanley Horton lembra: “Não devemos ser como uma audiência de teatro, onde um ou vários atores atuam no palco, enquanto os outros somente ficam olhando” [2]. O culto mais participativo é um grande desafio para grandes igrejas, mas um desafio que deve ser encarado. Uma solução para grandes igrejas são reuniões semanais em pequenos grupos, por exemplo[3]. A edificação da comunidade cristã é um processo mútuo. Leon Morris lembra: “Não deve ser forçado a indicar que cada membro da igreja reunida sempre tinha algo com que contribuir. Mas significa, sim, que se podia esperar que qualquer deles tomasse parte no serviço divino” [4]. E Anthony D. Palma concorda: “A frase 'cada um de vós' não significa que todos devam manifestar ou manifestem um dom, mas potencialmente, pode fazê-lo”[5].

A frase paulina chancela a ideia de que todos podem contribuir com a reunião, mas de diversas formas. Não significa que todos possam assumir o louvor ou a pregação, por exemplo. Uma pessoa que prega e não sabe fazê-lo prejudica a comunidade. Cada um terá o seu papel, mesmo que seja o lindo trabalho anônimo de intercessão. Um dos males da sociedade moderna é o pensamento que todo mundo é talentoso para apresentações. É a mania de “celebridade”. É a síndrome do microfone. Culto também não é uma espécie de programa “Ídolos”, onde todos querem aparecer. Não é bem assim, há muito trabalho anônimo negligenciado, onde as pessoas pode exercer o seu dom (cf. Rm 12. 3-8).

Esses versículos sobre os dons espirituais reforçam que a estrutura eclesiástica na igreja não é aristocrática. Os rumos de um culto não estão nas mãos de uma casta privilegiada. Nada mais distante do cristianismo primitivo do que um culto que, em lugar de adorar a Deus, é centrado nos homens e principalmente na liderança denominacional. Não há espaço no culto cristão para o personalismo, o estrelismo e o comportamento megalomaníaco, infelizmente tão comum das comunidades pentecostais e neopentecostais.

Mas será que as igrejas atuais não fugiram muito do culto primitivo, onde a participação era mais presente? Mesmo as igrejas evangélicas e carismáticas não estariam extremamente presas do esquema “clero versus leigos”. William Barclay levanta essa questão importante:

Claramente, a Igreja primitiva não tinha ministério profissional. É verdade que os apóstolos se destacaram com uma autoridade especial, mas como nesta fase, não houve ministério profissional local. Foi aberta a qualquer pessoa que tinha um dom para usá-lo. A Igreja agiu certa ou errada em instituir um ministério profissional? Claramente, é essencial que, em nossa época movimentada, quando as pessoas estão tão preocupadas com as coisas materiais, alguns indivíduos devem ser separados para viver perto de Deus e levar aos outros a verdade, a orientação e conforto que Deus dá a eles. Mas há o perigo óbvio que, quando as pessoas se tornam pregadores profissionais, eles podem às vezes estar na posição de ter de dizer alguma coisa quando eles realmente não têm nada a dizer. No entanto, deve continuar a ser verdade que, se alguém tem uma mensagem a comunicar, não são as regras eclesiásticas e os regulamentos que devem impedir que isso aconteça. É um erro pensar que apenas o ministério profissional pode sempre trazer a verdade de Deus aos homens e mulheres. [6]

Se o culto ficou muito preso no ministério profissional, em parte, é culpa da própria membresia ávida por receber e pouca disposta a colaborar, como destaca Barclay:

Evidentemente que isso tinha os seus perigos, pois é claro que em Corinto havia aqueles que eram demasiadamente apreciadores do som de suas próprias vozes, mas mesmo assim a Igreja deve ter sido, na época, muito mais da posse real do cristão comum. É bem possível que a Igreja perdeu alguma coisa quando delegou tanto ao ministério profissional e deixou tão pouquinho ao membro comum da igreja. Pode muito bem ser que a culpa não cabe ao ministério por deixar de anexação esses direitos, mas sim aos leigos por abandoná-los. Certamente, é bem verdade que muitos membros da igreja pensam muito mais em que a Igreja pode fazer por eles do que daquilo que eles podem fazer para a Igreja, e estão muito dispostos a criticar o que está feito, mas não estão preparados para tomar qualquer ação em fazer o trabalho da Igreja. [7]

O apóstolo Paulo fala de alguns elementos de culto, como salmos, doutrina, revelação, língua e interpretação. Evidentemente que o culto não é constituído somente desses elementos. Paulo não está fazendo uma lista rígida e fechada, pois são somente exemplos para um culto mais equilibrando. Simon Kistemaker comenta: “Paulo não indica que essa lista seja exaustiva ou que ele esteja registrando uma ordem de culto típica” [8].

Tem salmo”. O louvor é uma parte essencial do culto cristão. A música, acompanhada ou não por instrumentos musicais, sempre foi usada como meio de adoração a Deus. A igreja primitiva cantava os salmos e hinos compostos naquela época e usava o Livro de Salmos como hinário. A palavra salmo, usada por Paulo, não é necessariamente o livro veterotestamentário dos Salmos, mas sim cânticos de maneira geral, inclusive os compostos por Davi e Asafe. Um exemplo de hino composto por Paulo está em Romanos 11. 33-36:

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os teus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? O quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!

Veja a mensagem da doxologia paulina. Não é necessário dizer que é muito diferente dos “hinos” compostos nas igrejas pentecostais clássicas. A soberania, o conhecimento, os juízos de Deus são destacados em detrimento de promessas de bênçãos e autoajuda. Deus é de fato exaltado. Interessante é a frase “o quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?”. No hino de Paulo não há espaço para o homem achar que merece algo de Deus. Deus é o senhor e não o serviçal. O homem é colocado no seu devido lugar. Enquanto isso a autoajuda coloca o homem como “o cara” no espaço da boçalidade [9].

Mais é óbvio que esse louvor deve sair do coração e não meramente é um demonstração exterior, como Agostinho escreveu: “O cristão canta a Deus menos pelas palavras do que pelo coração. E o canto só é verdade à medida que expressa emoção interior” [10]. Quem honra somente com os lábios é fariseu.

Tem doutrina”. Reunião cristã sem ensinamento é certamente um grande desperdício para a edificação da igreja. É importante também trabalhar a qualidade desse ensino. Todo ensino demanda planejamento e grande dedicação, como Paulo alertou: “Se é ensinar, haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7). Certamente, a principal função pastoral é o ensinamento da Palavra de Deus (Ef 4.11; cf. I Tm 3.2). Certo também é destacar que o ensinamento não está restrito ao ministério pastoral, apesar de bem caracterizá-lo. Infelizmente, em alguns arraias pentecostais, a palavra “doutrina” é sinônimo de “usos e costumes legalistas”. Isso já mostra a falta de doutrina. Mesmo que o ensino seja um dom do Espirito, o esforço humano na dedicação nos estudos é essencial para praticá-lo na igreja.

Tem revelação”. A palavra relevação pode muito bem significar os dons comunicativos, como a profecia, a palavra do conhecimento e a palavra da sabedoria. A Bíblia não menciona em nenhum lugar a expressão “dom de revelação”, tão comum no evangeliquês. Mas os dons de profecia, algumas vezes, trazem o elemento de “revelação” para o consolo, edificação e encorajamento da igreja.

Tem língua”. Claramente refere-se ao dom de variedades de línguas. Lembrando que esse dom, que deve ser exercido para a edificação da igreja, só deve ser pronunciado em público quando existe interpretação (cf. v. 27).

Tem interpretação”. Refere-se a interpretação das línguas. A palavra interpretação no grego pode também ser “tradução”, mas essa “tradução” é vinda do Espírito Santo.

Faça-se tudo para edificação”. Há, é claro, outros elementos de culto não mencionados nesse exemplo dado por Paulo. Mas o cerne da argumentação paulina é a edificação da igreja. O culto é um ato de adoração a Deus e edificação dos cristão. A reunião cristã tem esses dois objetivos. Em tudo deve existir equilíbrio e moderação para que todos saiam edificados. Paulo, como dito no início, apela ao bom senso dos crentes. Gondon Fee observa:

O que é surpreendente em toda essa discussão é a ausência de qualquer menção de liderança ou de quem seria responsável por fazer com que essas diretrizes fossem, em, geral, respeitadas. A comunidade parece ser deixada a si mesma e ao Espírito Santo. O que é obrigatório é que tudo corra ao objetivo da edificação.[11]

Infelizmente, a vaidade impulsiona muitos a participarem do culto para a sua própria glória. São pessoas claramente entregues a megalomania e não estão preocupadas com a edificação da igreja. Querem exercer o dom sem amor (I Co 13). O culto é realmente participativo, mas o participante precisa estar disposta a ouvir atentamente: “Cada um vem preparado para contribuir, mas também igualmente disposto a permanecer silencioso à medida que a necessidade se torna evidente”, como escreveu Paul W. Marsh [12]. Quem fala sabe que deve parar, também, de falar.

O exercício dos dons não é êxtase, não é um meio de “fugir do real” ou um meio de “se sentir bem”; mas sim um canal de edificação de toda a congregação. O culto é edificante ou eletrizante e vazio? O culto é uma adoração a Deus ou um louvor aos homens com potenciais de vitórias? É para levar a essa edificação que uma igreja prepara um culto ordeiro e fiel aos princípios bíblicos.


Notas e Referências Bibliográficas:

[1] RIENECKER, Fritz e ROGER, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985. p 323.

[2] HORTON, Stanley. I e II Coríntios: Os Problemas da Igreja e Suas Soluções. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 138.

[3] “Se levarmos a sério o ensinamento paulino sobre os dons espirituais, vamos encontrar em grupos menores, por algum tempo durante a semana, ambiente em que há oportunidade onde cada um possa ministrar e crescer”. RICHARDS, Lawrence. Guia do Leitor da Bíblia. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 770.

[4] MORRIS, Leon. I Coríntios: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1981. p 160.

[5] ARRINGTON, French L. & STRONSTAD, Roger. (ed.) Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 1030.

[6] BARCLAY, William. The Letters to The Corinthians. 2 ed. Louisville: Westminster John Knox Press, 1975. p 157-158

[7] BARCLAY, William. Idem. P 158.

[8] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. 1 ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004. p 702.

[9] Sobre a qualidade do louvor nas igrejas pentecostais leia esse artigo: http://teologiapentecostal.blogspot.com/2011/05/nao-e-de-hoje.html

[10] FERREIRA, Franklin. Agostinho de A a Z. 1 ed São Paulo: Editora Vida, 2007. p 71.

[11] FEE, Gordon Donald. The First Epistle to the Corinthians. 1 ed. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1987. p 691.

[12] BRUCE, F. F. (org.) Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2008. p 1915.

6 comentários:

brainstorming disse...

Comentário muito rico. Deus continue te abençoando.
Moab Santos - Prof. EBD em Natal/RN

daniel ferreira disse...

amei os comentarios, a particularidade de cada assunto exposto pelo escritor e o vasto conhecimento do mesmo nessa área..

zwinglio rodrigues disse...

Gutierres, paz!

Problematizando:

"só deve ser pronunciado em público quando existe interpretação"

Assim nunca poderá ser o intérprete um outro crente. É isso?

Gutierres Siqueira disse...

Caro Zwinglio,

Como diria os americanos: Good question!

Paulo diz:

"Se, porém, alguém falar em língua, devem falar dois, no máximo três, e alguém deve interpretar. Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus" (v. 27 e 28).

Fica subentendido que o portador do dons de línguas começa a sua mensagem falando alto, mas quando ele conclui que não há interprete, então ele fala mais baixo, para não atrapalhar a edificação do culto. É a questão do bom senso, já que ninguém entende, pois não há interprete, então falo baixo.

O texto não diz que o mensageiro das línguas será o mesmo intérprete, mas Paulo fala da possibilidade:

"Por isso, quem fala em língua, ore para que a possa interpretar". (v. 13).

É deve de quem fala em línguas orar pela interpretação.

Ruan disse...

Excelente texto. Parabéns!

Cesar Borges disse...

Paulo disse que se no culto todos estiverem falando em liguas, e se alguem que não tem discernimento espiritual entrar, pensará que estão ficando loucos. Ele tambem enfatizou que o falar em linguas sem interpretação é semelhante ao som de alguem que toca corneta para a guerra, e toca sons sem sentido, como saberão os comandos certos? Paulo diz que prefere falar umas poucas palavras na sua propria lingua do que falar milhares em linguas estranhas. O que vemos hoje é a exaltação as linguas e aos dons espirituais. A palavra de sabedoria, aquela que vem de Deus está cada vez mais esquecida nas igrejas.