quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pentecostalismo Clássico e Metodismo

Leia abaixo um artigo escrito pelo teólogo metodista Luiz Wesley* sobre as relações do pentecostalismo com o metodismo na origem do Movimento Pentecostal. O artigo é muito útil para professores de Escola Dominical que tratarão sobre a história do pentecostalismo mundial na próxima Lições Bíblicas das Assembleias de Deus.
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Influências, Similaridades e Conexões Histórico-Doutrinárias


O movimento pentecostal não tem uma só origem, mas muitas. Sua herança rica e diversa, bem como sua marcante presença, experiência e importância na história do cristianismo dos últimos 100 anos, tem chamado atenção de historiadores, teólogos, antropólogos, sociólogos e pesquisadores, dentre eles Donald Dayton, Justo L. Gonzáles, Ruben César Fernandes, David Martin, Vinson Synan e David Stoll, para citar alguns apenas. Estes, na busca por explicação para as raízes do movimento, veem o pentecostalismo como um dos filhos ou desenvolvimentos do movimento metodista ou wesleyano, que fora fundado e liderado inicialmente pelos irmãos João Wesley e Carlos Wesley.
De fato, há fortes evidências de paralelos históricos e doutrinários entre o pentecostalismo clássico, notadamente as Assembleias de Deus, e o metodismo. Do ponto de vista histórico, observa-se que o movimento pentecostal bebeu de “poços” wesleyanos, além de ter encontrado seu nascedouro e fertilidade em meio ao avivamento Holiness (santidade), ocorrido durante a segunda metade do século 19, que também se estribou e se inspirou fortemente no metodismo. O movimento Holiness, que surgiu do coração do metodismo, é tido como o mais importante precursor imediato ao pentecostalismo (2001:2). O historiador e teólogo cubano Justo L. Gonzáles, por exemplo, não tem qualquer dúvida de que o pentecostalismo em geral e, mais especificamente, o movimento pentecostal clássico latino-americano, é um herdeiro de João Wesley (2003:16-18). Segundo Justo Gonzáles, quando o avivamento de Azusa Street começou, 


“muitas igrejas viram-se obrigadas a tomar uma decisão a respeito. Muitas delas rejeitaram o [despertamento] que estava ocorrendo como [se fosse] obra demoníaca… [mas] muitos outros grupos do movimento Holiness abraçaram o avivamento, que mais tarde deu origem às principais igrejas pentecostais, [incluindo] a Igreja de Deus em Cleveland, Tennessee, e as Assembleias de Deus.” (2003:18, tradução minha)


Gonzáles também assegura que o início da interpretação teológica das primeiras experiências do “batismo com fogo” relacionadas à glossolália (falar em línguas estranhas) foi dado por Charles Fox Parham, um ministro do evangelho que havia recebido forte formação metodista (2003:18). Parham teria encontrado no raciocínio, experiência e tradição wesleyana abundante informação para sustentar o “batismo com fogo” em sólidas bases bíblicas e teológicas. 
Para Vinson Synan,


“Foi de Wesley que o movimento Holiness desenvolveu a teologia da ‘segunda bênção.’ Foi o colega de Wesley, John Fletcher, entretanto, quem chamou esta segunda bênção de ‘batismo no Espírito Santo’, uma experiência que [traz] poder espiritual para aquele que o recebe, além de limpeza interior. (…) Durante o século 19, milhares de metodistas diziam receber esta experiência, muito embora ninguém naquele tempo tenha visto qualquer conexão com a espiritualidade de falar em línguas ou quaisquer outros carismas [ou dons]. No século seguinte, Edward Irving [pastor presbiteriano] e seus amigos em Londres sugeriram a possibilidade de uma restauração dos carismas na igreja moderna.” (2001:2, tradução minha)


Desta forma, quando a experiência pentecostal e o próprio pentecostalismo surgiu com força para tronar-se o maior e mais formidável movimento cristão do século 20, já existiam há mais de 100 anos outros movimentos que enfatizavam a “segunda bênção” ou o “batismo no Espírito Santo” (Synan 2001:3). Contudo, em particular os reflexos ou efeitos que o movimento metodista Holiness causou na espiritualidade cristã da época, serviram de sólo fértil para que a semente pentecostal germinasse, crescesse e florescesse para a glória de Deus.


Da chamada “experiência do coração aquecido” que João Wesley teve em 24 de maio de 1738, por ele chamada de “novo nascimento”, vieram as bases da experiência de plenitude de vida ou plenitude do Espírito. Muito frustrado com o trabalho missionário que fora fazer na Geórgia, Estados Unidos, de ver a morte de perto na viagem de navio de volta a Londres, e de descobrir (durante a mesma viagem na qual encontrou-se com cristãos Moravianos) que não possuía convicção de sua salvação pessoal, Wesley abateu-se profundamente. Dias após sua chegada a Londres, numa típica tarde londrina, Wesley foi sem muita vontade para uma reunião na Aldersgate Street. Ele descreve a experiência da seguinte forma:


“Quando cheguei alguém estava lendo o prefácio de Lutero à Epístola de Paulo aos Romanos. Cerca das vinte horas e quarenta e cinco minutos, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração mediante a fé em Cristo, senti o meu coração estranhamente aquecido. Eu senti que agora confiava realmente em Cristo, somente em Cristo, para salvação, e me foi dada a segurança de que Cristo havia perdoado os meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte.” (Diário de João Wesley referente ao ocorrido no dia 24 de maio de 1738, tradução minha, itálico adicionado)


É acurado dizer, então, que Aldersgate Street está para o movimento metodista da mesma forma como Azusa Street está para o movimento pentecostal. E esta é mais uma das várias razões pelas quais o pentecostalismo e o metodismo são tão similares nas suas ênfases e desenvolvimentos originais e experimentais, bem como na identificação com os seus respectivos contextos sócio-econômicos e culturais.


A Perfeição Cristã
Em particular a doutrina da perfeição cristã ou “santificação”, que desde o início ganhou forte ênfase na experiência e espiritualidade pentecostal, teve origem com João Wesley. A doutrina pentecostal da subsequência foi derivada dos ensinos de Wesley a respeito da “segunda bênção”, ou “inteira santificação”. Explorando as origens do movimento pentecostal, Vinson Synan afirma:


“Os pentecostais herdaram de João Wesley a ideia de uma subsequente experiência crítica, frequentemente chamada de ‘inteira santificação’, ‘perfeição em amor’, ‘perfeição cristã’, ou ‘pureza do coração’. Foi João Wesley que propôs tal possibilidade em um dos seus influentes escritos, A Plain Account of Christian Perfection (1766).” (2001:2, tradução minha)


Os escritos de Wesley mencionados por Synan são realmente extensos e compõem vários volumes, demonstrando o quanto Wesley tornou-se apaixonado pelo tema. Entretanto, capturar o exato entendimento de Wesley sobre a perfeição cristã não é tão fácil quanto parece, razão pela qual esta doutrina tem sido interpretada por vários ângulos diferentes e, por vezes, controversos. Contudo, Wesley esforçou-se por relacionar a experiência da perfeição cristã à “mente de Cristo”, isto é, total devoção a Deus, e, portanto, amor a Deus e ao próximo (Dayton 1987:47). O próprio Wesley, sabendo que poderia vir a ser mal interpretado, tentou sintetizar suas ideias da seguinte forma:


“De um ponto de vista, é pureza de intenção, dedicação da vida inteira a Deus. É o dom divino nos nossos corações; é um desejo e desenho comandando toda o nossa disposição [isto é, temperamento, atitude, estado de mente, moldura do pensamento, humor, espírito, constituição, natureza e caráter]. É devotar, não uma parte, mas tudo; nossa alma, corpo e substância para Deus. De outro ponto de vista, é [possuir] toda a mente que estava em Cristo, habilitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda impureza, toda poluição interna e externa. É uma renovação do coração na inteira imagem de Deus, a total semelhança d´Aquele que criou [o coração]. E ainda noutra perspectiva, é amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos. Agora, tome qualquer uma destas perspectivas que lhe agrade, (pois não há nelas nenhuma diferença material).” (Wesley´s Work, sect. 27, 11:444, tradução minha)


Para João Wesley, perfeição cristã não significa instantânea e absoluta ausência de pecado, mas, sim, o processo pelo qual nossa vida, pelo poder regenerador e purificador do sangue derramado na cruz e pela ação santificadora do Espírito Santo, se conforma (isto é, toma a forma) e se aperfeiçoa segundo a mente de Cristo. Em última análise, perfeição cristã em Wesley pode ser condensada nas expressões “santificação” e “perfeição em amor”, isto é, estar em Cristo e Cristo em nós, e amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. O pentecostalismo, melhor do que qualquer outro movimento surgido após o nascimento do metodismo, soube entender esta doutrina e traduzí-la na prática de vida e missão.


Outras Influências e Similaridades
Dentre outros paralelos históricos, há algumas similaridades básicas entre o pentecostalismo e metodismo. Primeiro, os dois movimentos se desenvolveram no meio da pobreza, na linha extrema da exclusão social. Richard P. Heitzenrater explica que “No estágio inicial do seu desenvolvimento, as sociedades [metodistas] começaram a demonstrar um interesse especial pelas [ansiedades] do pobre e desprovido, dando-lhes comida e dinheiro para suas necessidades, visitando os doentes e aprisionados, e ensinando as crianças dos desafortunados” (1995:23). Para Howard Snyder, este tipo de sensibilidade e preocupação pelo pobre e desvalido foi “especialmente notado no brilho do metodismo [amadurecido]” (Snyder 1996a:15). Esta é a razão pela qual “Os primeiros metodistas eram conhecidos por sua preocupação e cuidado pelo pobre, o estrato da sociedade de onde muitos deles vieram” (Snyder 1996b:142-143). De igual forma, representando o pentecostalismo clássico no Brasil, as Assembleias de Deus também se importaram, se sensibilizaram e cresceram entre os pobres e oprimidos. Além disso, deram respostas relevantes às necessidades daqueles que enfrentavam lutas sociais e econômicas, provendo não somente assistência imediata (comida, roupa, teto etc.), mas também comunidade, senso de pertencimento, rede de relacionamentos de ajuda, reconstrução da identidade pessoal e comunitária, restauração da dignidade humana, participação igualitária, e educação formal e informal.


Segundo, os dois movimentos se desenvolveram reconhecendo a importância fundamental do laicato. Laicato é o mesmo que “leigos”, isto é, cristãos não-profissionais ou que não pertencem a alguma ordem eclesiástica, denotando a distância e a distinção existente em relação aos que possuem treinamento especial e/ou ordenação para o exercício do ministério. Laicato é um termo controverso no seu uso e aplicação, frequentemente substituído ou propriamente expandido pela expressão “Povo de Deus”.


Pois bem, da mesma forma como pentecostais clássicos o fazem até hoje, os metodistas costumavam confiar inteiramente no papel explícito do Espírito Santo como fonte de conhecimento e frutos, bem como nos dons do Espírito para o ministério exercido pelo povo “leigo”, confiando e permitindo que trabalhassem livre e criativamente. Segundo Howard A. Snyder,


“Enquanto o ministério de Wesley se desenvolvia e ele [assim] começou a comissionar um enorme regimento de pregadores leigos, duas opções se apresentaram a ele para explicar biblicamente o que estava acontecendo. A primeira teria sido uma radical afirmação da doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, uma asserção de que, biblicamente e no plano de Deus, todo crente é chamado a ministrar e que as várias formas de ministério são fundamentadas na obra carismática do Espírito Santo, ao invés de estar baseada na credencial institucional da igreja. A outra opção, que Wesley tomou essencialmente, foi admitir a validade normal da ordenação eclesiástica, mas ver o Espírito Santo [pervadindo, enchendo e] traspassando este molde e criando um padrão ‘extraordinário’ de ministério que acontecesse não somente fora, mas também paralelo às estruturas eclesiásticas.” (1996a:155, itálico adicionado, tradução minha)


De fato, tal como aconteceu com as Assembleias de Deus no Brasil, o movimento wesleyano na Inglaterra e na América do Norte tinha uma preocupação especial em “prover liderança que fosse espiritualmente viva, doutrinariamente sonora, e missiologicamente ativa”, como nota Heitzenrater (1995:182). Mais do que qualquer outro movimento na história antes do surgimento do pentecostalismo, ao longo dos primeiros ciclos de sua história, o metodismo “[confiou e] dependeu mais e mais substancialmente nas pessoas leigas que não possuíam educação teológica ou treinamento em liderança religiosa” (1995:182). O líderes eram levantados do laicato. Da mesma dorma como o pentecostalismo clássico, foi através e por causa do laicato que os metodistas íam ao encontro do povo, não esperando que as pessoas, por si mesmas, viessem à igreja. Isto porque, tanto para o metodismo primitivo quanto para o pentecostalismo contemporâneo, a essência da Igreja — a comunidade de crentes cheios do Espírito Santo e enviados para a missão — não dá espaço para qualquer distinção entre clérigos e leigos, exceto quando e onde os papéis sacerdotais tornam-se contextuais e funcionais.


Ontem Ensinou, Hoje Aprende
Se por um lado o metodismo influenciou o movimento pentecostal no passado, por outro lado a experiência do pentecostalismo clássico, mais especificamente as Assembleias de Deus no Brasil, relembra o movimento metodista de suas origens rústicas, porém efetivas ao ter começado, servido e crescido no meio da pobreza na Inglaterra do século 18. O exemplo contemporâneo das Assembleias de Deus, então, é extremamente inspirador quanto a apontar o caminho para os metodistas de hoje no que tange a redescobrirem sua verdadeira identidade enquanto movimento missionário, serem revisitados pela singularidade do poder do Espírito Santo, e fazerem teologia e missão de forma relevante e integral. Da mesma maneira como ocorreu com o pentecostalismo primitivo no nordeste do Brasil e, por extensão, através do país inteiro, o metodismo primitivo em Bristol, Inglaterra, experimentou uma preocupação efetiva pelo pobre e uma humilde identificação com a cultura local, o que conduziu o movimento a ganhar força e estabilidade entre a classe trabalhadora, notadamente entre os pobres que trabalhavam das minas de carvão.


De igual forma, a maneira assembleiana de fazer teologia e missão também denuncia como os metodistas de hoje afastaram-se de suas próprias origens teológicas, eclesiológicas e missiológicas em relação aos pobres e ao laicato. Isto faz com que o metodismo de hoje tente recuperar aspectos que acabaram esquecidos ou negligenciados em sua prática de missão, coisas que o pentecostalismo trouxe à realidade ao aprender, absorver e desenvolver as mesmas premissas teológicas e missiológicas que os metodistas possuíam desde o começo do movimento wesleyano.


Luís Wesley, teólogo metodista. Fonte: blog L. Wesley's COMMUNITÀS

Um comentário:

theologo33 disse...

Irmãos; a doutrina pentecostal não teve origem as comemorações da "FESTA DE PENTECOSTES (Pentecostes, do grego, pentekosté, é o quinquagésimo dia após a Páscoa mencionado no Antigo Testamento. Comemora-se o envio do Espírito Santo à Igreja).

PERGUNTO.