domingo, 12 de junho de 2011

Eu não sou fiscal de igreja!


Como blogueiro cujos textos giram em torno dos problemas da Igreja Evangélica brasileira devo evitar uma tentação constante: achar que sou fiscal de igreja. O exercício da apologética no cristianismo é a defesa da fé cristã. A defesa não é uma afronta, ou seja, a apologética não é o "ataque efetuado pela fé cristã". Quando a igreja achou que deveria partir para a "caça às bruxas" fez uma inquisição. A defesa da fé cristã é uma reação e não uma ação. A diferença entre esses tipos de apologética estão em um limite muito estreito, então todo o cuidado é pouco para não deixar de defender a igreja dos "lobos e falsos profetas" e também não virar uma espécie instituição policial. 

Por que não podemos ser uma instituição inquisidora? Vejamos as palavras de Jesus:  

Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: "O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. "Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio? ’ " ‘Um inimigo fez isso’, respondeu ele. "Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos tirá-lo? ’ "Ele respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro’ ". [Mateus 13. 24-30 NVI] 

A parábola do joio e do trigo não ensina que devamos separar o joio (representação do falso) do trigo (representação do verdadeiro). Jesus conta que o dono da plantação adverte que esse processo não deve ser feito, pois os plantadores corriam o risco de arrancar o trigo junto com o joio. A separação completa dos grãos seria somente na colheita, ou seja,  "assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim também acontecerá no fim desta era. O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o que faz tropeçar e todos os que praticam o mal. Eles os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça" (Mateus 13.40-43). 

O teólogo inglês Matthew Henry (1662- 1714) fez o seguinte comentário sobre a separação do joio e do trigo: 

Não é possível a nenhum homem distinguir infalivelmente entre joio e trigo, pois ele pode se confundir; e assim aqui está a sabedoria e graça de Cristo. Ele permitirá que o joio cresça, para que não coloque, de maneira alguma, o trigo em perigo. Certamente os ofensores escandalosos devem ser censurados, e devemos nos separar deles; aqueles que são, abertamente, filhos do maligno, não devem ter o acesso permitido às ordenanças especiais. Mas ainda assim é possível haver uma disciplina que seja tão equivocada em suas regras, ou tão condescendente em sua aplicação, a ponto de ser perturbadora para muitos que são, verdadeiramente, servos de Deus e conscienciosos. Grande cautela e moderação devem ser usadas pela igreja ao infligir e manter censuras, para que o trigo não seja pisado, nem arrancado. A sabedoria do alto é tão pura quanto pacífica, e aqueles que se opõe não devem ser desligados, mas instruídos, e isto deve ser feito com mansidão (2 Tm 2.25) Alguns entendem que se o joio continuar sob os meios da graça, ele pode se tornar um bom grão; portanto, tenha paciência com ele. [1] 

Com Henry destaca, nós devemos tomar cuidado com o rigor da disciplina ao ponto de não matar. A igreja é lugar de resgata e vida. O remédio foi desenvolvido para curar doenças, mas quando a dose é muita alta, o remédio vira um verdadeiro e poderoso veneno. A nossa apologética deve ser o resgate da doutrina e do enganado, mas não uma violenta caça aos hereges. A igreja cristã não deve ser agente perseguidor. Nunca, jamais podemos agir como zelo ausente de misericórdia. Logo porque a igreja nunca será perfeita e sem a mistura de algum joio, como lembra R. T. France comentando a parábola: "Essa parábola (joio e trigo) nos adverte de que o teste supremo não será nas atuais aparências, mas no juízo final. Até lá, os discípulos devem ser pacientes e não esperar ser capazes de colocar todos em seus devidos lugares. A igreja na terra sempre será uma comunidade mista". [2] 

Portanto, que não venhamos a pecar pelo excesso!  

Referências Bibliográficas: 

[1] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Mattew Henry: Novo Testamento de Mateus a João. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 169-170 

[2] CARSON, Donald (ed). Comentário Bíblico Vida Nova. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 1385.

9 comentários:

Cícero Leandro Júnior disse...

A paz, irmão.

Comentário deveras pertinente.

Há também o caso em que aquele que faz apologia torna-se tão inquiridor que acaba tornando-se um frustrado.

É o caso de um irmão, que começou a estudar os fundamentos da fé, mas que, aos poucos, começou a policiar cada erro teológico que um irmão fazia, chegando até o ponto de se indignar com a postura de certos irmãos na igreja. No fim ele abandonou a AD, foi para a Batista, dizendo não concordar com as práticas assembleianas e com o batismo com o Espírito Santo. Mas mesmo lá, ele continuou com esse comportamento inquisitivo, descontente, esperando achar uma perfeição eclesiástica impossível.

Hoje em dia, ele está frustrado. Mal vai nos cultos na igreja batista, e cada vez mais parecido com uma pessoa do mundo. Temo por ele. Foi liberto das drogas, batizado com o Espírito Santo, mas hoje está muito diferente, como se não tivesse mais alegria em servir ao Senhor.

Desculpe o desabafo, mas achei cabível mostrar como isso afeta a própria pessoa também. Peço oração por esse irmão.

Que Deus o abençõe.

Cícero Leandro Júnior
AD Teotônio Vilela/AL

Discípulo de Cristo disse...

Prezado irmão.

Li com atenção a sua postagem, na qual diz que não devemos ser fiscais da igreja, concordo em parte. Entretanto, não podemos ser coniventes ou omissos diante de eventuais desvios comportamentais de membros do Corpo de Cristo e até de alguns líderes.

Com relação a entrada do joio no seio da Igreja, segundo o Senhor Jesus, só ocorre porque os homens dormem (se distraem com religiosidade ou interesses financeiros). Fazendo com que o joio seja batizado (antes de ser liberto), e com o decorrer do tempo se estabilizem, alcançando cargos eclesiásticos em diversos departamentos da Igreja.

Todavia, o Apóstolo dos gentios e discipulador nosso, nos adverte a disciplinar a Igreja quando necessário(I Coríntios 5. 5); porém não o joio enraizado, pois se isso ocorresse levaria consigo também o trigo para perdição eterna.

Concluímos que devemos zelar pelo Corpo, denunciando com discernimento quando necessário e disciplinando quando possível.

http://discipulodecristo7.blogspot.com/

Um abraço do Discípulo de Cristo.

Paz Seja Contigo!

Blog Safira Santos disse...

muito bem colocado a questão do joio e do trigo. se fossemos tirar o joio de dentro das igrejas teríamos de tirar todos os que estão dentro, pois quem é que irá separar o joio do trigo? somos nós? impossível não conhecemos o cora~ção de ninguem para saber quem é e quem não é joio ou trigo, só o nosso PAI que está no céu é quem pode julgar e decidir quem é quem. sem falar que a igreja é lugar para quem está doente espiritualmente. Disse Hesus: "Eu vim para os doentes, os sadios não necessitam de médicos". O homem mais enfermo é aquele que se acha juiz com direito de julgar as pessoas, sendo ele o réu que com todos será julgado. parabéns pela sua postagem e continue firme e constante, ´pois o seu trabalho não é vão no Senhor e que Deus t abençoe poderosamente.

Gutierres Siqueira disse...

Prezando Discípulo, a paz!

A preocupação expressa na sua resalva bate com o trecho que citei do comentário de Henry.

Gutierres Siqueira disse...

Prezado Cícero, a paz!

O seu depoimento ilustra muito bem o alerta deste texto.

Prezada Safira, a paz!

Cabe à igreja julgar, analisar, tomar cuidado com falsas doutrinas etc. Mas todo julgamento deve ser moderado pela misericórdia e a lembrança que também podemos cair.

Leandro Teixeira disse...

Olá, Gutierres!

Um ótimo texto, muito pertinente. Eu também tenho um blog, e já tive a impressão de ficar falando mais sobre os problemas da igreja e os desvios doutrinários das pessoas do que sobre a beleza do amor e da graça de Deus. Há, inclusive, blogs que se dedicam somente a isto. Não os censuro. A verdade deve ser dita e defendida.

Mas quando a crítica é em cima de alguém, entramos num terreno perigoso. Por mais que tentemos, não vamos fazer uma apuração perfeita de uma conduta. Dependemos do Senhor para isto. Às vezes, acertamos; outras vezes, é melhor deixar que o próprio Deus faça o julgamento. Afinal, julgamos segundo vemos. Mas eu creio que isto não deve ser desculpa para sermos condescendentes com o joio: acredito na disciplina.

Graça e paz!
Leandro Teixeira
http://liberdadeepensar.blogspot.com

Isabel Araújo disse...

"Prezada Safira, a paz!

Cabe à igreja julgar, analisar, tomar cuidado com falsas doutrinas etc. Mas todo julgamento deve ser moderado pela misericórdia e a lembrança que também podemos cair."

Engraçado que você não teve misericórdia alguma ao falar mal abertamente do Ap. Renê Terra Nova.

"Vocês viram? Aí daquele que questionar a identidade do “paipóstolo” Renê Terra Nova, o apóstolo do Amazonas. Quem sabe os espíritos da floresta perturbarão! A linguagem de ameaça é séria, pois a morte é a consequência daqueles que contestam essas lideranças."

http://teologiapentecostal.blogspot.com/2010/01/o-apostolo-rene-terra-nova-diz-nao.html

Meu irmão, eu não consigo entender você. Nesse mesmo post que você age como inquisidor da lei, fiz um comentário, espero que você leia. E se não quiser aceitar este comentário que acabo de fazer, não tem problema. Minha intenção não é expor você ao ridículo, só quero que você leia e pare pra pensar se o que você fez é certo.

Blog Safira Santos disse...

Cara amada irmã em cristo não foi minha intensão falar mal do Ap. e creio que não faltei com misericórdia pelo contrário continuo crendo que a igreja é lugar de curar e libertar enfermos, e não um tribunal pois quem julgará a cada um de nós é o senhor Justo Juiz. porém, creio que a disciplina é fundamental em qualquer lugar. É claro que não devemos ser fiscais da igreja, pois cada um prestará contas de si mesmo. Porém não devemos ser coniventes ou omissos diante do mal comportamento de alguns membros do corpo de Cristo. Em relação ao joio na igreja ele entra porque lhes é permitido. por falta de sabedoria e vigilância de certos líderes de igrejas. batizam antes da hora sem nenhum preparo, dão cargos eclesiásticos sem antes avaliar a conduta do indivíduo para que este seja tratado e liberto. se ofendi peço perdão.

Márcio Cruz disse...

Muuuita sabedoria nesta hora, mas sem baixar a guarda, senão é lona na certa!!!

Caráter ilibado e conhecimento bíblico sadio, dão autoridade ao defensor!!!

Karis kai Eirene!