terça-feira, 14 de junho de 2011

Orando e pecando!

É possível pecar com uma oração? Sim, é claro que sim. Nós pecamos todas as vezes que oramos pensando que aquela prece é em si a nossa salvação. Nós temos a tendência de pensar, lá no íntimo, que agora merecemos o céu porque somos pessoas "piedosas" (cf. Mateus 19. 16-26; Lucas 18 9-14). A salvação do homem não deve ser baseada nos méritos próprios, sempre imperfeitos, mas sim nos méritos de Cristo (cf. Efésios 2.8). Isso não significa ausência de oração, mas sim uma nova qualidade para a oração, que deixa de ser um sacrifício para um ídolo sedento e passa a ser uma conversa de pai e filho.  

Outra forma de pecado é a nossa constante negligência (cf. Tiago 4.17). Sabe aquelas orações que fazemos para escapar da ação? C. S. Lewis escreveu: 

Oro muitas vezes pelos outros quando devia estar fazendo algo por eles. É muito mais fácil orar por  um sujeito chato do que visitá-lo. O outro motivo é parecido com o primeiro. Imagine que eu ore para que você receba graça suficiente para suportar um pecado que tanto o importuna (uma pequena lista de candidatos a esse posto será enviada mediante solicitação). Bem, todo o trabalho precisa ser executado por Deus e você. Se oro para vencer um pecado que me importuna, haverá serviço pela frente. Às vezes, as pessoas se recusam a admitir que algo é pecado por esse mesma razão. [1] 

Uma prática abominável, mas ainda praticada, é a oração de vingança. É necessário rasgar o Sermão do Monte para orar pedindo que outra pessoa "quebre a cara", "veja meu sucesso", "esteja na plateia e eu no palco"... São orações que expressam um espírito pequeno e vulgar, típico de pessoas imaturas. Graças ao bom Deus que ele não atende todas as nossas orações. O desejo de vingança, muitas vezes escondida sob o manto da "justiça", é certamente um soco no rosco de Cristo, que nos deu um belo exemplo de tratamento dos inimigos.  

Outro pecado é a oração cujo desejo é mesquinho. Quantos dos nossos desejos não estão baseados em sentimentos ruins? O apóstolo Tiago escreveu: "Cobiçais e nada tendes; sois invejosos e cobiçosos e não podeis alcançar, combateis e guerreais e nada tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites" (4. 2-3). É aquela oração movida pela inveja e cobiça, é a oração que busca algo pelo status. É a oração que vê Deus como um gênio da lâmpada pronto para atender os nossos pedidos infantis.  É a oração que cria a imagem de Deus como mero serviçal dos nossos caprichos. É quando nos comportamos como filhos mimados. É a oração que diz: "Deus, me atenda ou senão saio da igreja ou eu rasgo minha Bíblia". Há quem pense que possa determinar algo do Senhor! (?).  

A oração deve ser vista como o lindo momento de conversa com Deus. Inclui pedidos? É claro que sim. Mas a essência está na intimidade.  

Referência Bibliográfica: 

LEWIS, C. S. Oração- Cartas a Malcolm: Reflexões sobre o diálogo íntimo entre homem e Deus. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2009. p 87.

5 comentários:

Luciano disse...

Li, entendi e concordei! Mas vai uma provocação quanto à oração de vingança:
E como se deve entender passagens bíblicas como as há aos montes no livro dos Salmos - na linha de "Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro." (Sl 2:9 - o Senhor falando ao salmista, passagem que se inicia com um "Pede-me..." no v.8) ou "Quebranta o braço do ímpio e malvado; busca a sua impiedade até nada mais achares dela." (Sl 10:15 - a súplica do salmista ao Senhor), ou ainda "A tua mão alcançará os teus inimigos; a tua mão direita alcançará aqueles que te aborrecem. (...)(Sl 21:8-12 - o desejo do coração do salmista), entre outras passagens?
A questão me parece pertinente porque quando se tenta alertar um líder que orienta sua igreja no sentido da oração de vingança, são esses textos que são usados para se justificarem.
É claro que há a "revisão" dessa mentalidade veterotestamentária pelo Senhor Jesus em Mt 5:38-42.43-46. Mas como ficam aqueles textos, sobretudo no livro dos Salmos, que tanto é usado pelos pregadores em seus púlpitos?
Como se conciliar essa pelo menos aparente visão dura e vingativa do Senhor no Velho Testamento com a conciliadora e compassiva visão do Senhor no Novo Testamento, mantendo-se a unidade de Deus, ou seja, que sempre foi e será, lá e cá, o mesmo Deus?

Gutierres Siqueira disse...

Luciano,

A sua pergunta já responde a questão: como cristãos interpretamos o Antigo Testamento a partir do Novo Testamento.

Luciano disse...

Vou ter que insistir. Então como se interpretam essas passagens do Antigo Testamento à luz do Novo Testamento?

Gutierres Siqueira disse...

Luciano,

Nesse texto discuto um pouco sobre a interpretação do Antigo Testamento:

http://teologiapentecostal.blogspot.com/2011/02/terremotos-e-o-antigo-testamento.html

Hélio disse...

A oração enquanto canal de comunicação que temos com o Pai por meio do TEU SANTO FILHO JESUS CRISTO não deve jamais ser centrada para a compensação ABSOLUTA de TODAS as nossas necessidades estando DEUS praticamente obrigado a não somente ouvir o que lhe pedimos como também realizar os desejos do nosso coração.

Concordo com o teor da postagem, infelizmente pela imaturidade presente no coração de muitos estes acabam pecando até mesmo quando conversam com DEUS.