quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O que me atrai no calvinismo (parte 2)...

No artigo anterior falei sobre a "antropologia negativa" dos calvinistas. Ao ler o texto é inevitável uma pergunta: "Não há beleza no ser humano?" Sim, há muita beleza no ser humana caído. Os calvinistas criaram o maravilhoso conceito da "graça comum", ou seja, é a graça estendida a todos os homens, sejam eles cristãos ou não. É a lembrança que qualquer ser humano é "imagem e semelhança de Deus". O professor C. Stephen Evans define assim a "graça comum":
Graça divina estendida não somente aos eleitos, que Deus salva, mas a todos os seres humanos e, até mesmo, à ordem natural como um todo. Os teólogos que enfatizam a graça comum dizem que ela é uma ação divina de bondade ("envia chuva sobre justos e injustos") e permite que seres humanos pecaminosos adquiram conhecimento e desenvolvam empreendimentos culturais como o governo e as artes. [1]
A ideia de "graça comum" é o desenvolvimento de um pensamento da era patrística. "Toda verdade é verdade de Deus", diziam os Pais da Igreja. Não importa quem fale a verdade, se é verdade é de Deus. Assim nascia o conceito de "graça comum" já nos primeiros séculos da Igreja Cristã. 

É bom lembrar que a "graça comum" é uma ênfase calvinista não abraçada por todos os reformados. A divisão dessa doutruna ficou bem exposta entre os dois teólogos holandeses no começo do século XX, sendo eles Herman Hoeksema e Abraham Kuyper, autor de De Gemene Gratie (Da Graça Comum). Para Hoeksema a "graça" é uma bênção somente para "os eleitos" e acusava ser a doutrina da "graça comum" um "arminianismo puro". Kuyper foi o principal nome defensor dessa ideia e que certamente saiu vencedor no debate, já que sua tese se popularizou.

Música e "graça comum"

A graça comum é um antídoto contra a divisão "sagrado" e "secular" tão comum no evangelicalismo popular. Exemplo clássico é a música. Na mentalidade evangélica há a "música de Deus" e a "música do mundo". O cristão evangélico canta, por exemplo, a música "Sabor de Mel" na igreja e acha sacralidade no ato. Ora, uma música deve ser julgada pelo compositor (evangélico ou não-evangélico) ou pelos valores ensinados (conteúdo verdadeiro versus conteúdo falso)? 

Leia abaixo trecho da música "Aquarela", composta por poetas como Toquinho e Vinicius de Moraes.

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar...

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá...
Ora, não lembra uma passagem de Eclesiastes? O trecho não é a lembrança da nulidade da vida depois de falar em tantos desenhos e cores? Quando ouço esse pedaço sempre lembro de Salomão. E é bem provável que eles não tenham pensado no livro bíblico ao escrever a composição.
Agora leia um trecho da música evangélica "Sabor de Mel":

Quem te viu passar na prova
E não te ajudou
Quando ver você na benção
Vão se arrepender
Vai estar entre a plateia
E você no palco
Vai olhar e ver
Jesus brilhando em você
Quem sabe no teu pensamento
Você vai dizer
Meu Deus como vale a pena
A gente ser fiel
Na verdade a minha prova
Tinha um gosto amargo
Mas minha vitória hoje
Tem sabor de mel. (SIC)
Não é uma poesia pobre? Quais são os valores ensinados? Evidente que é um baita desejo de vingança. É o sentimento de "passar na cara" daqueles que o desprezavam. É o exibicionismo do vencedor no "palco" diante dos inimigos. Nada mais anticristão. Nada mais contra o Sermão do Monte ou Romanos 12. Mas, infelizmente, essa "música sacra" é cantada em nossos púlpitos todos os dias.

A graça comum nos ensina que o julgamento de uma música é pelo seu conteúdo. Quais são os valores e verdades enfatizadas? A graça comum mostra que encontramos beleza na arte produzida por não-cristãos. Você pergunta para o professor de geografia se ele é cristão ao enunciar a geologia da terra? É claro que não. Toda verdade é verdade de Deus. O que preferimos? O melancólico Johnny Cash cantando a miséria do homem em "Hurt" ou o triunfalismo infantil do "Vai dar Tudo Certo" dos neopentecostais? Quem está falando a verdade sobre o estado do homem? 

A respeito disso, o teólogo reformado Francis Schaeffer escreveu:
Em outras palavras, da mesma maneira que é possível o não-cristão ser inconsistente e pintar o mundo de Deus apesar de sua filosofia pessoa, também é possível o cristãos ser inconsistente e incorporar em suas pinturas uma cosmovisão não-crista. Este último tipo talvez seja o mais triste de todos [...] Devemos enxergar tida a obra de arte à luz de sua técnica, validade, cosmovisão e adequação da forma ao conteúdo [2]
Ora, então é bíblico um cântico que não fale das grandezas de Deus diretamente? Na sua Bíblia tem um livro pouco estudado chamado "Cânticos dos Cânticos". Por mais que se tente espiritualizar o livro, ali é uma canção de um homem apaixonado por sua noiva. É Salomão cantando alegremente as virtudes, mesmo físicas, de sua amada sulamita. A característica central do livro é "certamente o amor entre os dois", como lembra Grant R. Osborne [3]. Falar o contrário é negar o óbvio. O próprio Schaeffer lembrava: "O que torna uma arte cristã não é necessariamente o fato de ela tratar de questões religiosas" [4][5]

O conceito de graça comum pode ser estendido para outras artes. Além disso, o conceito de trabalho também passa pela graça comum. Ser faxineiro é tão "sagrado" quanto ser pastor. O exemplo focado na música é o melhor, pois é justamente nessa área onde predomina a dicotomia maniqueísta do "sagrado versus secular", quando a discussão deveria ser em valores passados pelas mensagens contidas nas letras e ritmos. 

A graça comum lembra  que não podemos dividir a nossa lida no lado comum com um outro lado religioso. No cristão tudo deve ser sagrado.

Referências Bibliográficas:
[1] EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2004. p 63-64. 

[2] SCHAEFFER, Francis A. A Arte e a Bíblia. 1 ed. Viçosa: Editora Ultimato, 2010. p 58 e 60.

[3] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 297.

[4] SCHAEFFER, Francis A. Idem. p 28.

[5] Leia mais sobre música: a) COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. E Agora, Como Viveremos? 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. p 543- 553. b) GONDIM, Ricardo. É Proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. 1 ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1998. p 117- 134. c) PALMER, Michael D. (ed). Panorama do Pensamento Cristão. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p 325- 349. Leia também o artigo de Tony Reinke: Deus deleita-se com a arte não-cristã? em http://iprodigo.com/textos/deus-deleita-se-com-a-arte-nao-crista.html

6 comentários:

Alliadoo disse...

Palavras regadas de sobriedade!

Deixo a minha contribuição para corroborar com o post:

"Seja grato e louve ao Senhor
E eu sentirei tudo bem
Vamos seguir juntos para
Ficarmos bem.
Só mais uma coisa!

Temos que manter a união para enfrentarmos o
Armagedom Sagrado (um só amor)
Então quando o Homem vier, estaremos
Seguros (uma só canção)
Tenha dó daqueles cujas as
Chances são poucas
Pois não haverá como se esconder
Do pai da criação..."

[One Love, Bob Marley]

Clóvis Gonçalves disse...

Gutierres,

Continuo lendo e gostando. Mas veja só, apesar de ouvir "música secular" e "música sacra" e de não fazer distinção entre elas, mesmo assim mantenho-nas em pastas separadas, no pendrive do carro. Resquício dessa dicotomia e também para não escandalizar um caroneiro evangélico mais sensível.

Mas a verdade é que ouço mais música dita não religiosa do que os góspeis da hora. Porcaria tem em toda parte, mas entre as chamadas músicas seculares há mais alternativas de escolhas e é mais fácil de montar boas seleções. Entre os góspeis está cada vez mais difícil, pois seguem o que há de pior, salvo raras exceções.

Em Cristo,

Clóvis

Pastor Geremias Couto disse...

Outra vez: supimpa!

Abraços!

Felipe disse...

Tem uma musica que melembra o diluvio!

Eternas Ondas
Zé Ramalho

Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio tão furioso;

Derrubando homens entre outros animais,
Devastando a sede desses matagais;

Devorando árvores, pensamentos seguindo
A linha do que foi escrito pelo mesmo lábio tão furioso.

E se teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrastar.

Valter Borges disse...

Caro Gutierrez,
Comento sobre os dois posts:
Toda teologia pentecostal está fundado no armenianismo!
Os teólogos calvinistas, pelo desejo de reafirmar suas "teorias" a todo mundo protestante, evangélico e pentecostal, acabam por forçar um sistema que elitiza o próprio calvinismo.
A sua justificativa sobre o "negativismo antropológico" está em frontal contradição com a "graça comum".
O próprio Sartre em sua construção sobre "liberdade" na obra "O Ser e o Nada" define o homem como “... condenado a ser livre”. Ou seja, o homem é dialético, onde navega na síntese entre o novo e o desconhecido, presente na
tensão da existência. O homem é dialético: totalização em curso, projeto que se projeta sem cessar, é uma liberdade em ação. Que leva a construção de uma responsabilidade individual, isto é, somente com a possibilidade de escolhas é que se pode ter responsabilidades.
A liberdade de fazer escolhas e aceitar as responsabilidades decorrentes.
Portanto, embora, a história humana individual seja desfavorável socialmente, ninguém pode usar este argumento para justificar os erros presentes e futuros, para não incorrer no fatalismo, ou, predestinação.
Pois, todos temos escolhas a fazer. O problema é assumir as responsabilidades.
Portanto, aquele que teve dificuldades na infância pode alterar seu futuro, dependendo da escolha que determinará seu futuro: seja por Cristo, seja por uma vida digna, moral e ética.
Assim, o negativismo antropológico é fatalista. E o positivismo antropológico, com seu livre-arbítrio torna o futuro aberto às possibilidades humanas. E, assim, o homem pode construir com Deus um futuro melhor!!
Portanto, o calvinismo é lógico dentro de sua racionalidade, entretanto é facilmente contraditório quando colocado em prática.
Por isso, embora, insistam, o negativismo antropológico é contraditório à graça comum, que é próprio do armenianismo.
É hora de assumir nossa teologia pentecostal, e aprender a confrontar as contradições calvinistas que tornam o protestantismo nacional numa miscelânia que mais confunde que esclarece. Pois, por força das grandes instituições de ensino teológico serem predominantemente calvinistas, está se formando no Brasil, uma igreja estranha: uma igreja com cabeça (pastores e líderes) calvinistas, mas, com corpo (membros) armenianistas (realidade pentecostal e evangélica)
É hora de perder o medo dos calvinistas e confrontá-los!!!
Pense nisso!!

Clóvis Gonçalves disse...

Valter,

Perdoe-me a intromissão.

Você diz que "toda teologia pentecostal está fundada no arminianismo". Não deveria estar na Bíblia? Mesmo assim, qual é incompatibilidade entre pentecostalismo e calvinismo? Eu sou calvinista e pentecostal e não percebo conflito entre a soteriologia reformada e a pneumatologia pentecostal.

Tampouco vejo incompatibilidade entre incapacidade humana e graça comum. Talvez aqui esteja havendo alguma confusão conceitual. Pois da maneira como são definidas, a inabilidade humana não só é consistente com a graça comum como a torna necessária, para que o homem não chegue a ser tão mal quanto poderia ser.

Além disso, a nossa referência para uma antropologia que seja correta é a Bíblia e não Sartre. O palavreado quase que poético que procura definir o homem de maneira ambígua vira caco quando bate na declaração bíblica de que "não há quem faça o bem".

Em tempo: não acredito que o Gutierres tenha medo dos calvinistas, e nem precisaria ter. Como calvinistas não devem ter medo de pentecostais. Ambos podem aprender muito uns com os outros.

Em Cristo,

Clóvis